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YAMAS

Pedro Kupfer expõe seu pensamento acerca da milenar arte de auto domínio e auto-conheçimento.

Faz mais de vinte anos que dedico minha vida ao Yoga. O amigo leitor pode perguntar, “mas por que justamente o Yoga?” Por que uma disciplina tão exótica e distante em termos de tempo e espaço, de cultura e símbolos? Não teria sido mais lógico optar pela antropologia, a neurobiologia, a psiquiatria ou o misticismo cristão, já que o objetivo é compreeender o ser humano? Por que Yoga?

Ainda me lembro muito bem do meu primeiro contato com o Yoga, por volta de 1980: na adolescência, em plena busca pelo sentido da vida e deliberando com o meu amigo Leo sobre o rumo que nossas existências tomariam, ele falou-me com entusiasmo sobre um livro chamado Om, Creative Meditations , do filósofo e escritor americano Alan Watts (1915-1973). Para quem não lembra (ou não tinha nascido naquela época), Alan Watts foi um dos ícones da geração hippie, professor de teologia na Universidade Harvard e um dos primeiros pensadores a iniciar o diálogo Oriente-Ocidente.

No livro, meu amigo explicou, estava escrito que “é necessário chegar no Om”. Por algum motivo, essa breve frase me tocou profundamente e achei, sem saber ao certo o que era o tal do Om, que seria um motivo nobre ao qual dedicar a minha vida. Levou-me um certo tempo encontrar a conexão entre o Om e o Yoga, e ainda muitos anos de meditação e estudo compreender o significado profundo do Om. Nas escrituras, este mantra sagrado é chamado Shabda Brahman, “Corpo Sonoro de Brahman”. Brahman é a Pura Consciência, presente em tudo e em todos, que se manifesta por meio das leis naturais, e que sustenta a criação através do dharma, o princípio da ordem universal.

Alguns anos de prática mais tarde, verifiquei que Alan Watts estava de fato muito certo, e até hoje agradeço a dica ao meu amigo, com quem dei os primeiros passos nesta jornada de auto-conhecimento. A afirmação “é preciso chegar no Om”, é a espinha dorsal do Yoga. Para o yogi, Om é o início, o meio e o fim na jornada do crescimento interior. Om é a liberdade, a plenitude e a felicidade que todos estamos buscando distraidamente do lado de fora, sem percebermos que nós mesmos já somos isso. É necessário apenas descobrir essa liberdade em nós. A liberdade, chamada moksha em sânscrito, é o objetivo final de todas as formas de Yoga. O conhecimento é o veículo para acessarmos essa liberdade. Por isso, fala-se tanto sobre o auto-conhecimento nas escrituras do Yoga.

Encontrando a bússola
Sabemos que o Yoga está vivendo hoje uma popularidade sem precedentes. Como podemos explicar essa nova tendência, sendo que ele tem milênios de existência e nasceu na remota Índia? Considerando a crise de valores em que estamos mergulhados, esta pergunta se justifica plenamente. Por que auto-conhecimento logo agora que a humanidade parece ter mergulhado no elogio da auto-ignorância? Os problemas que enfrentamos na atualidade são sérios e múltiplos: guerras, violência, corrupção, desastres ecológicos e éticos de todo tipo. É fácil, perante a voragem de acontecimentos, tornar-se vítima do derrotismo, da frustração, da raiva ou da tristeza.

Essa situação conclui na perda do espaço para a reflexão interior e na percepção do mundo como um lugar hostil, onde nunca haverá o suficiente para satisfazer as necessidades de todos e onde cada um precisa sobrepujar os demais para garantir seu quinhão. Privilegia-se o ter em detrimento do ser, persegue-se o sucesso, sacrificando-se a felicidade e daquilo que o filósofo grego Aristóteles chamou a “boa vida”. Nessa situação, não temos tempo para dedicar a nós mesmos; muito menos ainda, para aliviar a penúria dos nossos irmãos. A busca por soluções válidas e eficientes é uma necessidade imperiosa. Que papel tem o

Yoga nesse cenário? Dar uma visão construtiva, mais significativa e profunda sobre a existência humana. Há cientistas que afirmam que aquilo que chamamos de Atman, ou Ser, seria apenas uma série de processos bioquímicos dentro do cérebro e que tudo o que sentimos e pensamos seria somente uma tormenta de neurônios no sistema nervoso. Esse tipo de explicação sobre as grandes interrogantes da vida não satisfaz todas as pessoas. Alguns, sabiamente, intuem que deve haver alguma outra visão, uma proposta de vida diferente, mais simples, significativa e feliz.

Essas pessoas podem ter se decepcionado com as explicações e soluções propostas pelas religiões, a ciência ou o humanismo laico. Elas pressentem que exista uma alternativa diferente para responder a seus anseios e se dispõem a experienciar maneiras não ortodoxas de se conhecer. São as pessoas que se interessam pelo Yoga. Essa gente sente atração pela liberdade e o crescimento interior, baseados em práticas como a compaixão, a atentividade, a vida de contemplação e a capacidade de viver no agora.

A proposta do Yoga
O Yoga postula um modelo de desenvolvimento físico, energético, psicológico, gnoseológico e espiritual, que está firmemente enraizado na ancestral tradição indiana. Desde tempos imemoriais, os sábios da Índia nos ensinam, através das escrituras do Yoga, que “é preciso conhecer o Ser”. Embora o Yoga tenha nascido na Índia, e crescido sob a égide da cultura vêdica, seu apelo é universal, tão válido e eficiente dentro da cultura onde nasceu como fora dela; tão atual nos tempos atuais como o foi milênios atrás.Embora o Yoga tenha nascido na Índia, e crescido sob a égide da cultura vêdica, seu apelo é universal, tão válido e eficiente dentro da cultura onde nasceu como fora dela, tão atual nos tempos atuais como o foi milênios atrás.

Como escola de vida, o Yoga propõe um caminho para a liberdade através do conhecimento, da compaixão e do amor. Seus métodos são variados e ricos, o que permite que cada pessoa possa encontrar a abordagem mais significativa para si própria.Não obstante, esse enorme leque de possibilidade tem dado lugar, com uma certa freqüência, ao surgimento de interpretações superficiais, equivocadas e caricatas das práticas yogikas, que ficam desconectadas do propósito original. É bom lembrarmos que, desde o início, essa disciplina nunca foi destinada ao consumo leviano, mas a pessoas que estavam dispostas a sacrificar tudo para viver em liberdade.

O Yoga é como a Mãe Natureza, sempre generosa e disposta a nutrir aqueles que precisarem dela. Todavia, ele a só nos dará seus frutos na medida em que nos entregarmos a ele. Se buscarmos no Yoga apenas uma prática física, certamente conseguiremos estar em boa forma praticando bastante. No entanto, estaremos perdendo a melhor parte do banquete: a auto-descoberta, a liberdade e a plenitude. O Yoga exige investigação e prática pessoal. Se estivermos dispostos a realizar esses passos, certamente chegaremos na meta. Portanto, lembre do conselho de Alan Watts: é preciso chegar no Om!


Namastê!

O yogi Pedro Kupfer mora na praia de Mariscal, SC.

 

 

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"Saber relaxar bem é saber viver bem".
        

                    Patanjali i

 

 

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