Saúde e sabedoria
através do Yoga
Entrevista com Professor Hermógenes

De que trata seu livro Saúde Plena: Yogaterapia?
Esse livro coroou os 30 anos de fundação da Academia Hermógenes de Yoga
e os 32 anos desde o lançamento do meu primeiro livro, Autoperfeição com
Hatha Yoga, na época em sua 32ª edição. Foram 30 anos de vitória. Em Saúde
Plena: Yogaterapia (Editora Nova Era), relatei dezenas de casos de cura das
doenças mais variadas, e até de doentes terminais. Eles testemunharam o poder
terapêutico admirável do método de Yoga que desenvolvi e apresentei ao público
nos mais de 20 livros que escrevi durante esses anos todos. O caso mais
fantástico é o da cura de um doente terminal, Severino Araújo, um cientista,
dirigente da FAO (Food and Agricultural Organization, da ONU) para a
América Latina. Na linguagem doce de meu livro Mergulho na Paz, de
poesia mística, ele encontrou uma explicação para a vida que fez seus sintomas
desaparecerem do dia para a noite. Isso veio confirmar minha suspeita de que a
prática de ásanas, as posturas, é muito eficiente, mas infinitamente
mais poderosa, em seu potencial terapêutico, é a cosmovisão da filosofia
vêdica. Esse homem entrou numa vivência profunda, que hoje é conhecida como
"estado quântico". O nível quântico, descoberto pela física moderna,
é aquele no qual o tempo, o espaço e a causalidade desaparecem. A gente vive na
plenitude da Unidade que todos nós somos. E, no caso, a cura pode ser
instantânea, um milagre.
Como se pode ter acesso a seu método?
O meu sistema está exposto em dois livros principais: Autoperfeição com
Hatha Yoga e Yoga para nervosos. Mas os meus livros que têm aspectos
místicos também têm poder terapêutico, como prova o caso de Severino Araújo.
Nesse livro, eu o organizei como uma sinergia, a cooperação de frentes
terapêuticas. São elas a somaterapia, a terapia do corpo através de
posturas, ou ásanas, e da dieta inteligente (dietoterapia); a esteticoterapia,
disciplina do plano emocional, sentimental; a pranoterapia, que é a
atuação no campo energia, do prána; e a eticoterapia, a correção
do comportamento moral. Na medida em que o ser humano aperfeiçoa a sua conduta,
ele vai obtendo maior eficiência nos sistemas imunológico e homeostático de seu
organismo.
Os sistemas defensivo e de estabilização automática são os que mantêm a saúde.
A eticoterapia ajuda o bom funcionamento, assim como a esteticoterapia.
Assistir a um filme de terror ou andar de montanha-russa, por exemplo, provocam
um estresse que realmente perturba a homeostase e o sistema imunológico da
pessoa. Há ainda a psicoterapia, que é o trabalho com a mente. E,
finalmente, a logoterapia, o trabalho com o Espírito, que é o Ser
Supremo em nós.
O trabalho com esses planos se dá
simultaneamente?
Sim, ao mesmo tempo em que o aluno ou leitor faz a postura física ele está
praticando uma respiração especial, que atua no campo do prána, e também
a vivência de um sentimento agradável. Depois, procura atingir com a mente
aquele estado de concentração que faz vivenciar, tomar consciência e penetrar
no mundo transcendente, o mundo quântico. Ao longo do dia, ele faz a opção pela
nutrição e pelo lazer. Diante de uma questão ética, é preciso que páre para ver
se aquilo vai contribuir com a sua felicidade ou, ao contrário, vai deixar uma
brasa em sua consciência e, por isso, alterar os subsistemas de seu corpo.
Finalmente, é preciso observar como o aluno se relaciona com Deus. Um dos
últimos capítulos do Saúde Plena: Yogaterapia é sobre a "colheita
da Graça". Aí, eu ensino várias técnicas de meditação, de repetição do
Nome de Deus, de oração.
Temos de administrar nossa vida para conquistar e manter a saúde plena. Se nos
descuidamos, forma-se a patogênese. Bhoga é virar-se para fora, procurar
o sentido da vida no imediatismo materialista, na sensualidade, no apego, no
descontrole. Bhoga termina em roga, que é a doença. Yoga é
interiorização, unificação, convergência, independência, desapego, amor. E Yoga
leva a arogya, que é a saúde plena.
Assim como o leito é o caminho que leva o rio para o mar, o Yoga canaliza nossa
vida para o grande mar que é Deus. Yoga significa união. Nossa miséria, nossa
tortura, insegurança, nosso medo, nossos ódios e inferioridades decorrem de
estarmos distantes e nos sentirmos distintos de Deus. Yoga é reaproximação, até
que a gota d'água se oceanifique.
Nesse livro o senhor fala em
"normose". O que é isso?
É a caracterização de uma doença que ainda não está nos tratados de medicina,
mas que a minha experiência de 30 anos me convenceu de que existia. Normose
é a doença de ser normal, de viver ajustado a uma sociedade desajustada. O
normótico é mesmificado, massificado, não se destaca e não se distingue, é uma
peça do rebanho humano. E, como esse rebanho humano está muito tresmalhado, ser
normótico é estar doente. Na parábola do filho pródigo existem dois momentos.
Primeiro, a viagem de alienação, quando ele sai da casa do pai e chega ao
extremo sofrimento. O segundo momento é quando ele passa por uma conversão ou metanóia.
Metanóia, para os gregos, é a mudança da mente. Se eu ia na direção
mundana, na metanóia o mundanismo já não me pega, pois estou comprometido com
alguma coisa que é interior e superior. Na primeira fase, que os hindus chamam
de pravritti marga, o normótico chega ao sofrimento e à doença. A partir
da conversão ele começa a percorrer o caminho do Yoga e a volta para casa. É o nivritti
marga.
Qual o seu conceito de saúde?
Saúde não é a simples ausência de doença. Para a Organização Mundial de Saúde,
saúde é o perfeito bem-estar físico, psíquico e social do indivíduo. Vou um
pouco mais além e digo que saúde é a capacidade de manter a estabilidade
interna, com a homeostase e o sistema imunológico, a fim de que eu possa reagir
de maneira eficiente aos estímulos do meio externo e também ao meio interno.
Perdida a estabilidade, saúde significa readquiri-la, fácil e rapidamente. Se
eu perder a capacidade de me reestabilizar, então está caracterizada a doença.
Saúde, portanto, é um conceito dinâmico. Comparo aquele que quer manter a saúde
com o jovem que está se equilibrando no dorso de uma prancha de Surf:
ele tem de administrar, durante todo o tempo, a direção e o movimento de seu
veículo. Essa administração da vida é fazer escolhas diárias a respeito de
alimentação, do lazer, dos pensamentos e dos sentimentos. Isso só a pessoa pode
fazer. Daí eu dizer que estamos diante de uma terapêutica em que não existe
paciente. O jovem não se equilibra na prancha porque alguém diz: "Vá para
a esquerda ou para a direita". Ele é que decide.
Como o senhor chegou a esse conceito?
Eu era capitão do Exército, no final dos anos 50, quando tive uma tuberculose.
Fiz um tratamento convencional que me obrigou a momentos de muita solidão.
Consegui uma cura verdadeiramente milagrosa, depois de muita provação. Mas o
médico me disse que eu não poderia mais pensar em tomar banho de mar nem banho
de Sol, não podia pegar chuva, não podia andar apressado, não podia isso, não
podia aquilo... Eu estava gordo, com uma barriga enorme de tanto repouso e
alimentação. Era uma vida muito pobre de esperança e de vigor. Foi aí que me
caiu nas mãos um livro de Yoga, em inglês, e depois outro, em francês. Fiz
então o meu treinamento, escondido do médico. Parecia que eu estava só, mas
Deus estava comigo e o resultado foi excelente. A cor foi voltando ao meu
rosto, junto com uma nova disposição para a vida.
Foi tão grande a diferença operada em mim que eu disse: isso é uma mina de
ouro. E decidi agradecer a Deus oferecendo minha vida a ensinar o mapa da mina.
Para isso, tive de fazer um estudo muito determinado, para que meu livro
pudesse ser lido inclusive por médicos. Usei e abusei do direito de estudar. E
assim nasceu, em 1960, Autoperfeição com Hatha Yoga, que se tornou um best
seller e estava em 1992 em sua 32ª edição.
Esse livro foi de um pioneirismo muito
grande, não é mesmo?
Não quero ter vaidade nem soberba, mas é preciso reconhecer que a medicina
holística, hoje tão falada, nasceu no Brasil com esse livro. O ser humano não é
formado apenas de um corpo, como pensam os materialistas. Mas de um corpo com
um campo de energia, que é suscetível às emoções, e as emoções são suscetíveis
a pensamentos, que ainda recebem impressões do intelecto ou da razão. E tudo
isso está dentro de uma vastidão, que é o Espírito. Esse é o modelo de homem
que apresentei já em meu primeiro livro, sem nunca ter ouvido falar na palavra
holismo, que foi aparecer muitos anos depois.
Como se deu seu encontro com Deus?
Minha busca de Deus vem desde criança. Nasci em uma família pobre, e desde cedo
fui amorosamente desafiado por Ele. Isso me deu uma experiência fantástica para
lidar com a vida. Fez de mim uma pessoa alerta, a pessoa que hoje tem
autoridade para dizer aos outros que não tenham autopiedade, não tenham
auto-severidade, que não sofram com as desilusões, aceitem o que vem. Isso já
foi Deus conduzindo meu aprendizado de Yoga desde a minha infância, dura, mas
feliz. Por outro lado, minha mãe foi um exemplo de bravura, de carinho, de
devoção. Mas eu tive outra mãe, que foi minha terra, a cidade de Natal, RN,
que, por sua beleza, tocou minha parte mística. Ainda adolescente, contemplando
a imensidão do mar em cima de um rochedo batido pelas ondas, com a água
salpicando meu rosto, eu sentia a presença do Transcendente.
Mas numa certa época me afastei de Deus porque não encontrava resposta às
minhas perguntas. Quando li a Bhagavad Gítá, porém, Krishna me
restituiu o Cristo, e hoje estudo também o Evangelho de Jesus. Mantenho, na Academia,
dois cursos permanentes, O Yoga do Cristo, com comentários sobre o texto
evangélico, e o estudo da Bhagavad Gítá, sempre fazendo referência aos
ensinamentos de Jesus. Porque todos esses ensinamentos estão relacionados.
O episódio em que Jesus expulsa os vendilhões do templo, por exemplo, pode ter
sido um fato histórico, mas significa também uma lição sobre o nosso corpo e a
nossa mente como templos do nosso Ser Total. O Ser Supremo que somos é aquele
que devia ser adorado no templo, mas nesta vida de relação temos dentro de nós
muitas coisas que devem ser expulsas. Da mesma forma, a Bhagavad Gítá
toda é uma guerra entre as forças do Mal e as forças do Bem, e isso significa
que realmente temos de travar uma batalha permanente dentro de nós. É também o
que nos ensinou Mahomah (Maomé): quando ele falou em Jihad, não
estava falando em matar o outro, mas em travar a batalha interna para se
limpar. Temos de proteger o que, em nós, é divino, contra a presença danosa,
perturbadora e escravizante daquilo que é perverso, egoísta e odioso.
Como o senhor vê o mundo de hoje?
Estamos no Kali Yuga. Kali significa sombras, trevas, e Yuga,
Era. Estamos na Era das trevas, quando predomina a dissenção, a luta, o
egoísmo. É uma hora em que as forças do vício e da perversidade estão
aparentemente dominando. E as forças da virtude, da santidade, da saúde, da paz
e do amor estão aparentemente dominadas. Aparentemente, porque a reação já
acontece. Na Bhagavad Gítá, Krishna, que era Avatar de Vishnu,
disse:
"Quando a irretidão predomina sobre a retidão, quando
o pecado domina a virtude, Eu desço à forma humana, eu me avatarizo para
restaurar a virtude, esmagar o vício, proteger os santos e castigar os
ímpios".
Ele disse também que vem pela convocação de seus santos e devotos. Como Cristo,
ao dizer: "Não penseis que vim ab-rogar a Lei. Eu vim plenificá-la".
Vejo o mundo de hoje com a vitória esmagadora do Mal sobre o Bem, mas isso é
transitório, porque no final a Retidão predominará.
Quando a Humanidade começa a dizer: "Agora, só Deus", é porque está
pedindo a Presença Divina. E Deus já está presente aqui na Terra, com todos os
poderes de Jesus Cristo, inclusive ressuscitando pessoas. Ele chama-se Sai
Baba e vive na Índia. Seus feitos estão contados no livro Sai Baba, o
Homem dos Milagres, também da Editora Nova Era, que eu traduzi. Então, o
mundo está cedendo a uma Luz que está se manifestando. A essa busca de
profecias do desastre que está por aí eu proponho a profecia da esperança, que
vou transformar em livro. O nascimento de uma Nova Era será a partir de dentro
de cada um de nós.
E o apocalipse?
O apocalipse é interno. Quando nossas bases egóicas e egoísticas começam a ruir
- porque só na ausência do egoísmo é possível ter paz -, é chegado o momento do
nosso apocalipse. É a hora crítica, o dia do Juízo, e ele é interno e
individual. É quando se começa a recolher as conseqüências calamitosas dos
erros praticados, uma hora de apuração e de depuração.
E como o senhor encara a morte?
Esse meu livro Saúde Plena: Yogaterapia trata da conquista da saúde, mas
o título do último capítulo é Eutanásia: a poesia do morrer. Eutanásia,
em grego, significa o bom morrer, morrer em paz. Descobrir poesia
em sua própria morte e na morte de um ser amado é a maior prova de sabedoria.
Agradeçimentos:Planeta, nº 242, de novembro de 1992.