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 O filme Matrix sob o enfoque orientalista da teosofia Projeto Outros Olhos Sociedade de Estudos Teosóficos
Os
iniciados sabem que existem sete arquétipos básicos, que se desdobram numa
variedade de subtipos. Quando um autor elabora uma obra de sucesso que se torna
um clássico atemporal, geralmente lança mão de pelo menos um dos vários subtipos
que compõem os arquétipos originais. Essa referência aos arquétipos que
ocorre em algumas obras é um recurso utilizado de forma consciente ou
inconsciente por alguns autores, e atinge o inconsciente coletivo do público,
tornando as obras em questão verdadeiros clássicos de sucesso, sejam elas
filmes, livros, músicas, etc. O trabalho de hoje visa familiarizar o buscador
com esta linguagem simbólica que lhe permitirá o acesso a uma das redes de
informações iniciáticas atualmente existente. O Projeto Outros Olhos, mais do
que um evento social, é uma tentativa de familiarizar os irmãos com essa
linguagem simbólica, um verdadeiro trabalho de introdução ao simbolismo através
da análise cinematográfica, para que "ouvindo possam ouvir e vendo possam
ver". Análise do filme Matrix Esse filme é o que se pode chamar de uma
revelação, no sentido de re-velar, ou seja, velar de novo, apresentando antigos
ensinamentos numa linguagem nova, utilizando para isso, com uma certa
mistificação, o elemento tecnológico do mundo moderno: a Internet. Dessa
forma, através de uma nova contextualização, o filme resgata para nossa
civilização, de uma forma alegorizada, verdades universais contidas, por
exemplo, no Tao Te King, no Bhagavad-Gita e em todos os Vedas; verdades, enfim,
que de outro modo se perderiam, se não encontrássemos uma linguagem que nos
permitisse comunicá-las às novas gerações. Nele, fica nítido que um dos
arquétipos, o do herói mitológico - muito utilizado na época do Jesus bíblico,
geralmente associado a determinados imperadores, heróis ou semideuses -, permeia
toda a trama. No caso em questão, o arquétipo utilizado é o do messias, ou
ungido, que podemos resumir da seguinte forma: Um redentor esperado, de
nascimento virginal; a traição por parte de um de seus companheiros; a luta
contra as forças do mal; a morte e a ressurreição; e, finalmente, a ascensão aos
céus. O filme analisado hoje começa com Trinity, a iniciadora, em conexão com
o mundo real através de uma linha telefônica, no Heart O'The City Hotel. Essa
linha, do ponto de vista simbólico, equivale à vibração do Anahata, ou chacra
cardíaco, que nos permite, uma vez ativado, sintonizar nossa consciência com
nosso átomo primordial. No atual estado evolutivo da humanidade, esse chacra só
pode ser dinamizado pelo elemento feminino. O número que vemos em exposição
na tela do computador manipulado pelo personagem Trinity é 506: equivale ao
Arcano 11 (5 + 0 + 6 = 11), ou seja, a lâmina da força. Nessa lâmina do tarô,
vemos uma mulher abrindo, com as mãos nuas, a boca de um leão. No filme, Trinity
representa a shakti, a força que penetrando no chacra cardíaco do iniciado,
promove a consciência. O ser que está na senda iniciática, representado pelo
personagem principal, utiliza um pseudônimo, o equivalente ao nome secreto
empregado em algumas escolas. Neo, lido anagramaticamente, equivale a Noé, One
(um), ou Eon (que em grego significa ciclo, era ou período), simbolizando a
ligação desse personagem com um novo começo, algo novo, uma nova era. Ele,
Neo, recebe a primeira instrução de sua iniciadora, Trinity, que lhe diz, como
se estalasse os dedos, "Acorde, Neo!", da mesma maneira que os iniciadores
repetem isso aos discípulos, durante toda a sua jornada na senda. O
personagem principal do filme, como todos os outros que se iluminaram antes
dele, procurava a resposta para nas palavras de Trinity, "A pergunta que nos
impulsiona". Quando finalmente trava contato com Morfeu, seu mestre, este diz
a Neo que "há duas formas de sair daí: uma é pelo andaime, outra é levado por
eles"; ou seja, uma vez que o indivíduo desperta para as leis ocultas que
determinam os acontecimentos nos planos da manifestação, elevando sua
consciência a um nível superior ao das pessoas comuns, só há duas maneiras dele
continuar seu desenvolvimento: uma é subindo, outra é capturado pelas forças que
representam os processos personalísticos que nos controlam. Neo hesita,
devido a seu medo e desconfiança, gerados pelo sentimento de autopreservação, e
acaba capturado pelos elementos personalísticos. Mais tarde vemos Neo de
volta a sua vida comum, supostamente liberto, sendo levado ao encontro de
Morfeu, para sua iniciação. Porém, antes dele entrar no vestíbulo onde o mestre
o espera, Trinity, a iniciada que o guia - como uma Ariadne que guiou Teseu no
labirinto de Creta -, lhe dá um conselho semelhante ao que é dado a todo
discípulo em prova: "Seja sincero. Ele sabe mais do que você imagina". Só então
ela lhe abre a porta da sala onde o mestre o espera. Durante o diálogo que se
segue, Morfeu observa que ele, Neo, é "um homem que aceita o que vê". Entendemos
melhor essa afirmação quando consideramos que o nome "real" do personagem Neo no
filme é Thomas A. Anderson: Thomas é equivalente a Tomás ou Tomé, demonstrando o
relacionamento do personagem a são Tomé, o apóstolo que precisava ver para
crer. Vale notar que o sistema iniciático adotado por Morfeu se relaciona, na
sua forma extremamente simples e objetiva, à iniciação mental praticada nas
escolas em sintonia com o atual estado de consciência da humanidade (focado
mental concreto); escolas que, portanto, não trabalham mais com o sistema de
iniciação astral, ou fenomênico, utilizada em escolas mais primitivas. Morfeu
ensina a Neo sobre a Matrix (Ma = m = maya, que significa ilusão em sânscrito e
Trix = Tri = Três). Matrix tem o mesmo significado das tradicionais Três Mayas,
Três Véus, ou Três Ilusões - a ilusão física, a ilusão psíquica e a ilusão
espiritual – que, segundo o hinduismo, ocultam a realidade. Ele, o mestre,
apresenta seus ensinamentos na forma de questões do tipo "Você deseja saber o
que ela é?". Ao receber resposta afirmativa de Neo, continua: "A Matrix está em
todo lugar. A nossa volta. Mesmo agora, nesta sala. Você pode vê-la quando olha
pela janela, ou quando liga sua televisão. Você a sente quando vai para o
trabalho, quando vai a igreja, quando paga seus impostos. É o mundo colocado
diante dos seus olhos para que não veja a verdade…" Ao questionamento
seguinte do discípulo (Neo), sobre o que é a verdade, ele continua
implacavelmente, dizendo que a verdade é "Que você é um escravo. Como todo
mundo, você nasceu num cativeiro, nasceu numa prisão que não consegue sentir ou
tocar. Uma prisão para sua mente. Infelizmente é impossível dizer o que é a
Matrix (ou a maya). Você tem de ver por si mesmo". Nesse momento, então, ele
oferece a Neo uma pílula azul, para conservar o sonho (a maya), e outra
vermelha, para mudar sua percepção da realidade. A cor da primeira pílula, o
azul, é associada ao conservadorismo, no mesmo sentido de sangue real, ou azul
das antigas monarquias européias. A cor da segunda é vermelha, relacionada às
transformações revolucionárias violentas, associada a mudanças radicais. Morfeu,
o mestre, tem a chave que abre as portas para o real; mas Neo, o discípulo, tem
que fazer a escolha. Durante a iniciação ele morrerá para o mundo de sonhos e
nascerá para o mundo real, despertando plenamente para a verdadeira natureza -
do mundo físico, do mundo psíquico e do mundo espiritual -, compreendendo dessa
forma a tríplice natureza unitária da realidade. Para entendermos melhor o que
ocorre com Neo a partir daí, é importante considerarmos o que é dito no
Bhagavad-Gita, por Sri Krishna, quando se dirige a seu discípulo Arjuna e lhe
diz: "Ó Arjuna, o Senhor Supremo está situado no coração de todo mundo, e dirige
as divagações (os sonhos) de todas as entidades vivas, que estão sentadas como
numa máquina, feita de energia material". (Bhagavad-Gita como ele é, texto 61,
capítulo 18, pág. 706. - A. C. B. Swami Prabhupada.) No filme, já no mundo
real, a bordo do Nabucodonosor, observamos a analogia com a lei que afirma que
são necessários sete discípulos para formar um mestre. Vemos os personagens
Trinity, Apoc, Switch, Dozer, Tank, Mouse e Cypher como os sete discípulos que
têm, como representante da consciência do mestre, a figura do líder Morfeu, ou
Morpheus (personagem mitológico, deus do sono grego). Na nave, ou arca,
chamada no filme de Nabucodonosor, percebemos a referência ao ano 2069,
correspondente ao Arcano 17 (2 + 0 + 6 + 9 = 17), a Estrela, símbolo relacionado
à egrégora da Obra, em que estão empenhados esses divinos rebeldes. Avançando
um pouco mais, vemos que na segunda parte da iniciação de Neo, Morfeu lhe
informa que no começo do século 21, número que no tarô iniciático de JHS,
corresponde à lâmina do Louco, os homens criaram a I. A. (Inteligência
Artificial), um tipo de consciência singular, que gerou uma raça inteira de
máquinas, ou de seres mecanizados. (Bem semelhante ao que acontece em nossos
dias, quando os seres humanos vão sendo "robotizados" - num processo de
massificação que antigamente era chamado “costume”, mas que na atualidade tem o
nome de “moda” – e vão se tornando cada vez mais inconscientes, num mundo
dominado por padrões de comportamento.) Segundo Morfeu, encantados com sua
própria grandeza, os homens celebravam sua realização. Porém, na guerra que
adveio após tal sucesso, eles queimaram o céu, ou seja, fecharam as portas para
as energias solares, positivas, transformando o mundo num deserto tecnológico de
trevas, sem Deus, onde os seres mecânicos se tornaram os senhores. Da era de
ouro, porém, só restou Sião, "a última cidade humana". Sião, ou Sinai, é, na
tradição judaica, o monte sagrado onde Moisés teria recebido as Tábuas da Lei do
próprio Deus. Segundo o personagem Tank, Sião fica localizada nas entranhas
da Terra, próximo ao seu núcleo incandescente, o sol central do planeta -
relacionando-se claramente, assim, aos mistérios dos mundos subterrâneos,
especificamente à cidade subterrânea de Shamballa (Sião = S = Shangrilla,
Shamballa, das tradições transhimalaianas). Shamballa é um núcleo de integração
de consciências espirituais elevadíssimas, que vibra no interior da Terra,
representado alegoricamente como uma cidade. Dessa forma, Sião representaria o
lugar onde realmente somos o que somos e do qual fomos enviados à face da terra
onde, ainda conforme o personagem Tank, será festejado o fim da guerra
maniqueísta entre os filhos da luz e os filhos das trevas, representados pelos
homens e pelas máquinas. Só o líder, ou o mestre, de cada nave, ou arca,
recebe as senhas, ou as chaves, para penetrar em Sião. Assim, Morfeu é também um
pontífice (pontifex = construtor de ponte), construindo a ponte entre o mundo
ilusório e o mundo real, entre Matrix e Sião. Já na terceira fase do processo
iniciático (treinamento) a que Morfeu submete seu discípulo, ele declara a Neo:
"Quero libertar sua mente, Neo. Mas só posso lhe mostrar a porta. Você tem de
atravessá-la". Apesar de Morfeu declarar, no filme, que os seres humanos não
estão prontos para "acordar", isso não faz das pessoas adormecidas inimigas.
Suas palavras contundentes expõem o que é dito nos Vedas, quando os sábios
afirmam que todos - pais, mães, irmãos, avôs, avós, amigos, namorados, cônjuges,
etc. - são "soldados ilusórios" que promovem nosso apego à maya. Enquanto
adormecidos, os seres humanos fazem parte do "sistema ilusório" - possuem,
portanto, em sua estrutura, processos personalísticos que eles mesmos
desconhecem, mas que tomam conta de sua consciência em algumas ocasiões, para
defender seus preconceitos e manter sua existência ilusória. Esses processos
personalísticos que nos prendem à ilusão são representados no filme pelos
agentes de Matrix, programas sencientes que entram e saem de qualquer software
conectado ao sistema deles. Fazendo eco às palavras dos sábios nos Vedas, Morfeu
diz que "Qualquer um ainda não libertado, é um agente em potencial de Matrix.
Eles são todos e não são ninguém". Os processos personalísticos relacionam-se
aos sete pecados capitais: "…eles são os porteiros, protegem todas as portas e
tem todas as chaves".

Às vezes os seres humanos são vencidos por esses agentes de
Matrix; alguns até pactuam com eles - como é o caso de Cypher. Ele é aquele que
viu a verdade, despertou para a realidade, mas prefere a ilusão e a mentira.
Ele, Cypher, diz ter percebido após nove anos (número equivalente aos degraus da
escada de Jacó, que simbolicamente leva o homem do mundo terreno ao mundo
espiritual), que "A ignorância é maravilhosa". Dessa forma pensam os magos
negros, aqueles que fazem a opção por avidya, pela ignorância, que voltam as
costas à luz e mergulham voluntariamente na escuridão. Os que assim procedem
sempre acusam, aos que lhes mostraram o caminho, de fraquezas e incapacidades
que eles mesmos possuem. Corroídos pelo ódio, pela luxúria e pela inveja,
afirmam terem sido enganados por seus mestres que, quando fazem realmente jus a
esse nome, tentaram sempre guiá-los na boa senda. Cypher representa o traidor,
que trai a sua própria natureza humana ao submeter-se ao domínio das máquinas.
Ele oferece a si mesmo como pasto para as forças negativas que passa a servir,
em troca de prazeres ilusórios. Age assim no intuito de satisfazer seus impulsos
baixos, suas nidhanas. O iniciado, seguidor dos mestres da Grande
Fraternidade Branca, até que se torne verdadeiramente um adepto, enquanto
estiver encarnado, sentirá os apelos de seus veículos inferiores. Isso ocorre
porque, nesse estado, possui ainda elementos básicos a equilibrar e que, por
isso mesmo, exigem satisfação. Apesar disso, ele não os nega, mas os transmuta,
canalizando-os para realizações reais que o libertem cada vez mais da ilusão de
maya, tornando-os elementos impulsionadores de sua evolução. Num determinado
ponto do filme, inclusive, um dos membros da tripulação, Mouse, fala com Neo
sobre isso, dizendo-lhe que "Negar os nossos impulsos é negar aquilo que faz de
nós humanos". Ciente disso, o verdadeiro iniciado é extremamente consciente de
seus impulsos, não os recalcando hipocritamente para as regiões do
subconsciente, aonde irão se acumulando, como esqueletos no armário, e de onde
continuarão a atuar sem nenhum controle, disciplina ou educação, até invadirem,
como uma enchente de um rio bravio, a consciência, dominando-a e arrastando-a as
maiores perversões. Por isso, o verdadeiro iniciado sabe que deve, como nos
ensinou nossa Grã-Mestrina Helena Jeferson de Souza, vigiar seus sentidos, para
através de um sistema iniciático sério, de uma disciplina superior, não
recalcar, mas trabalhar, transformar suas nidhanas, ou tendências negativas, em
skandhas, ou características positivas. Num determinado nível dessa etapa da
iniciação de Neo, Morfeu o conduz até o Oráculo. Vemos que a entrada do elevador
é guardada por um cego que vê. Ele, o cego, que responde ao sinal que Morfeu lhe
faz com a cabeça, representa os iniciados, guardiões da luz, cegos para o mundo
ilusório, mas iluminados para a realidade. Já dentro do elevador, o mestre diz
então a Neo, para tentar "não pensar em termos de certo e errado", pois para os
que chegam ao Oráculo, certo e errado, bem e mal, feio e bonito, todos os pares
de opostos se anulam. Às portas do Oráculo, Morfeu, o mestre, diz ao seu
discípulo: "Só posso lhe mostrar a porta. Você tem de atravessá-la", indicando
assim que cada passo do discípulo em prova é dado por sua própria conta, pois na
senda da iluminação ninguém caminhará ou tomará as decisões por ele. Porém,
quando Neo coloca a mão na maçaneta da porta, esta lhe é aberta, mais uma vez
por uma sacerdotisa. Essa atuação constante do elemento feminino demonstra a
necessidade da interação dinâmica de ambas as polaridades humanas, de acordo com
certas regras esotéricas. Assim, macho e fêmea interagem ciclicamente no
processo iniciático de crescimento espiritual, através do entrelaçamento das
forças de fohat e kundalini. Ao se integrarem dessa forma, ambas as energias dão
origem ao Andrógino Divino, um ser verdadeiramente equilibrado, mas que conserva
as características do corpo que ocupa: se masculino, vive e relaciona-se como
homem; se feminino, vive e relaciona-se como mulher, podendo em alguns casos
fazer opção pelo brahmacharya, ou voto de castidade. O resultado da integração
dinâmica das polaridades cósmicas, é totalmente diferente das expressões
caóticas homossexuais ou bissexuais, dois tipos que representam seres decaídos,
em oposição ao Andrógino Divino, que é a perfeição evolutiva humana. Já
dentro da sala do Oráculo, Neo encontra várias crianças, especialmente um
menino, uma espécie de pequeno monge, do qual aprende alguns mistérios sobre
esse mundo ilusório, num episódio que lembra bem aquela passagem bíblica em que
o Cristo bíblico ensina que “aquele que não se tornar como estas crianças, não
entrará no reino dos céus”. Dentro do Oráculo, uma cozinha, onde a pitonisa, ou
profetisa (novamente uma mulher), manipulando um forno moderno, quebra as
expectativas do discípulo. A cozinha nos faz lembrar o laboratório dos
alquimistas e o forno o athanor, ou forno utilizado pelos alquimistas, adeptos
da Arte Real. Num determinado ponto da conversa de Neo com a profetiza, esta
lhe cita o célebre axioma socrático, "Conhece-te a ti mesmo", inscrito no portal
de Delfos, que essa etapa do filme representa. Só que às portas do Oráculo de
Delfos, as palavras citadas no filme estavam escritas em grego e, de forma mais
integral, exortavam: "Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os
Deuses". A mulher que representa a pitonisa do Oráculo lhe afirma, de forma
metafórica, que "Ser o escolhido é como estar apaixonado. Ninguém pode lhe dizer
se você está. Você simplesmente sabe. Não tem dúvida, nenhuma". Assim, ao lhe
falar sobre o escolhido, ela descreve o processo de iluminação avatárica, pois
este não é uma coisa que se busca e que se consegue, ou que se fica esperando:
ele simplesmente é, como algo que simplesmente acontece. E, nesse ponto do
filme, Neo não é o escolhido. A pitonisa afirma que ele tem o dom. Isso,
diríamos, nós todos temos, mas ele parece que "está esperando por algo". Quando
Neo lhe indaga a respeito do que poderia estar esperando, ela lhe responde: "Sua
próxima vida, talvez". Dessa forma, Neo age como a maioria das pessoas, que se
iniciam na senda mas protelam para a próxima vida a iluminação, esperando e
pensando que “afinal, ela não é para agora; quem sabe, mais tarde…” Ao sair
do Oráculo, Neo encontra-se com Morfeu e este lhe adverte que "o que foi dito
era para você e apenas para você". Assim é com tudo que é comunicado nas
verdadeiras iniciações assúricas, com aquilo que é falado do iniciador para o
iniciando, de boca-para-ouvido, de maneira sutil e discreta, quase que
imperceptivelmente. Quando, porém, os agentes de Matrix capturam Morfeu, um
representante dos processos internos personalísticos intelectualiza a existência
humana e, de forma convincente, compara o desenvolvimento humano sobre a Terra -
que na maioria das vezes foi totalmente controlado pela personalidade caótica -
a um vírus. Dessa maneira, o agente se coloca como a cura para o mal, que
segundo ele é representado pela maior de todas as criações de Deus na Terra, o
ser humano - ignorando, entretanto, em seu discurso, o desenvolvimento do
espírito humano, capaz dos maiores gestos de sacrifício, altruísmo e
fraternidade, única esperança para o planeta. Esse espírito humano, quando
plenamente desenvolvido, subjuga a natureza animal e mecânica e converte o homem
em expressão de Deus na face da Terra. Esse espírito humano, quer o chamemos
Deus, Brahma, Alá, Jeová ou Tao, opõe-se aos processos mecânicos, instintivos e
animalescos que controlam os seres ainda inconscientes, atuando de forma a
libertar a centelha divina, promovendo o nascimento do Avatar ou, como é
expresso no filme, do Escolhido. Vemos isso quando Neo toma a decisão de
sacrificar-se, dando-se em holocausto pelo seu amigo e mestre Morfeu. Apesar
de conhecermos intelectualmente o exposto acima, as esclarecedoras palavras de
Morfeu, após ser resgatado, devem ser consideradas: "Cedo ou tarde você vai
perceber, como eu, que há uma diferença entre conhecer o caminho e percorrer o
caminho". Num determinado ponto do fim do filme, a personagem Trinity
reproduz um dos mais antigos mitos da humanidade ao trazer Neo de volta à vida,
fazendo com que ele obtenha sucesso na última e derradeira iniciação conhecida
por nós como morte. Quase no final do filme, vemos através das palavras do
personagem principal que o Avatar não significa um fim, mas o começo de algo
novo, ilimitado, sem fronteiras, um novo ciclo, livre de maya, sem ilusão, onde
tudo é possível ao ser desperto. Ele se dirige a Matrix, a estrutura geradora da
ilusão, declarando-se decidido a "mostrar a essas pessoas o que [Matrix] não
quer que elas vejam. Vou mostrar a elas um mundo sem você. Um mundo sem regras,
sem controles. Um mundo onde tudo é possível". Sua última frase, dirigida a
Matrix, a maya, a ilusão, ou, melhor dizendo, se dirigindo àquilo que torna
possível esse processo de auto-hipnose, nossa personalidade, pode ser
considerada como dirigida a cada um de nós. Ele fala calmamente sobre a decisão
que deixa a cada um dos espectadores: "Para onde vamos daqui, é uma escolha que
deixo para você". O filme termina com Neo saindo do chão e voando,
reproduzindo o arquétipo da ascensão, ou da subida aos céus, que simboliza a
realização plena do iniciado, já tornado um verdadeiro adepto, por fazer parte
agora de outro processo evolutivo, relativo ao desenvolvimento dos
deuses.
Vanessa Bragaglia
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