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Marcus Alberto De Mario
A história das relações familiais sempre
esteve atrelada à história do conhecimento humano. Na Idade Primitiva, quando o
conhecimento do uso da força era vital para estabelecer a sobrevivência, as
relações familiares também mantinham essa base, onde o mais forte comandava o
grupo, levando o homem ao poder e a mulher à submissão. O contato com a
natureza e a realização dos mitos para explicar seus diversos fenômenos também
se refletem na família, como no caso da gestação, tornada um símbolo e
comemorada em rituais sagrados, mitificando o poder masculino na fecundação.
Com o avanço do conhecimento e o progresso social, complexificando o mundo das
relações humanas, o grupo social inicia a procura de uma estabilização,
aparecendo a figura do casal - um pertence ao outro - e os frutos desse
envolvimento, os filhos. A família pode então ser definida como sendo o grupo
formado por pai, mãe e filhos.
Os cultos religiosos, de uma maneira geral,
serviram para ajustar esse perfil, na procura de conceitos éticos para o viver
humano. Gregos e romanos, através das leis, procuraram manter a família,
determinando direitos e deveres. Mas as guerras, a predominância de um
conhecimento mitológico e a prevalência do uso da força continuariam a manter a
submissão feminina no trato doméstico, e mesmo a submissão dos filhos às ordens
paternas (internas) e oficiais (externas).
Com o advento do cristianismo há uma
retomada da discussão de ordem moral sobre a família, logo depois ofuscada de
falso moralismo e preconceitos diversos. Entretanto, a verdade é que Jesus,
para escândalo de muitos, protegeu a mulher e as crianças, exaltou suas
virtudes e conclamou a família para uma união legítima com base na
fraternidade. É o que hoje consagramos como "direitos iguais". O
grande erro cometido por seus seguidores, e entenda-se aqui os teólogos da Igreja
Católica, arrogando-se uma outorga divina absolutamente questionável, foi declarar
que a mulher não possuía alma. Cometeram, na entrada do período chamado Idade
Média, não apenas uma grave injustiça, mas uma aberração doutrinária
frontalmente contrária ao conhecimento já então estabelecido.
A família, enquadrada em numerosos conceitos
sem razão, perdeu a espiritualidade para fixar-se no imediato materialista.
Somente a partir do século XVII, com as
relações sociais mais estáveis e a crítica científica sobre a religião
estabelecida, a família retoma os conceitos éticos de sua formação,
estabelecendo o padrão mais conhecido: pai, mãe, filhos, avós, tios, sobrinhos,
o que prevalece até à metade do século XX, quando a corrida pelo conhecimento,
o domínio tecnológico, as filosofias libertárias e a ânsia do não compromisso
bilateral, esfacelam as relações familiares. Hoje, redefinimos a família numa visão
mais ampla e mais dinâmica, e concentramos as discussões sobre as questões do
relacionamento familiar. Isso porque a desestrutura moral caracterizada pelo
adultério, sexo livre, aborto, consumo de drogas, separações, violência
doméstica é de tal magnitude, que já não nos interessa simplesmente definir família,
mas entendê-la enquanto espaço de convivência de seres humanos. Quais as suas
finalidades? Quais são seus objetivos? E sua influência na estrutura social?
Qual seu papel na formação da personalidade de seus componentes? Como deve ser
compreendida do ponto de vista das relações ético-morais? Responder essas
perguntas pode tornar-se um exercício exaustivo, pois a profundidade do conhecimento
humano oferta-nos teorias e mais teorias, caminhos e mais caminhos.
Vamos estabelecer, como princípio básico do
nosso raciocínio, que as relações familiais são acima de tudo, de ordem moral.
Como prova dessa afirmação aí estão as pesquisas, estatísticas, noticiários,
tão fartas que páginas e mais páginas não dariam conta de seu conteúdo. E
podemos chamar a nosso testemunho o cotidiano das famílias que conhecemos,
inclusive a nossa, quando percebemos nelas um desgaste emocional acentuado e
uma intrincada rede de dissabores morais
Sendo as relações familiais de ordem moral,
fica claro que as questões empregatícias, salariais, orçamentárias, culturais,
de lazer, etc., ficam subordinadas aos padrões éticos estabelecidos para a
convivência.
Na família antiga encontramos um espaço de
convivência maior entre seus membros, embora aqui não estejamos discutindo sua
qualidade. Na família atual, pelo contrário, e apesar das facilidades
tecnológicas, encontramos um espaço de convivência menor. A própria tecnologia
é responsável indireta por isso, pois ocupamos espaços vitais para assistir
televisão, ouvir música, navegar na rede mundial de computadores - a Internet -
e assim por diante. Diante disso, somos forçados a declarar, em reconhecimento,
que a família atual necessita de suporte para encontrar seu equilíbrio moral.
A família deve participar de grupos
sócio-educativos que proporcionem a ela uma retomada do seu papel e permitam
uma discussão dela mesma enquanto espaço de convivência de seres humanos.
Deve o leitor estar se perguntando: e o
Espiritismo? Quando o autor deste artigo vai citar a Doutrina? Mas já a
citamos. Estamos com ela desde o princípio. Pois nosso pensamento está todo
assentado nos princípios espíritas.
Quem nos diz que a família é espaço de
convivência são os Espíritos ao responderem à questão 714 de "O Livro dos
Espíritos": "Os liames sociais são necessários ao progresso e os
laços de família resumem os liames sociais: eis porque eles constituem uma lei
natural. Deus quis que os homens, assim, aprendessem a amar-se como
irmãos."
Para aprender a amar seus irmãos, é preciso
conviver com eles, estar com eles, relacionar-se com eles, descobrir-se com
eles, nas alegrias e tristezas, construindo-se ao mesmo tempo em que ajuda o
outro a construir-se e recebe auxílio daquele que está com você. A família é
esse lugar, esse espaço de convivência, reunindo Espíritos através dos laços de
afinidade, dos débitos passados, das promessas futuras, sempre proporcionando
oportunidades de progresso no campo moral.
Cabe ao Centro Espírita dimensionar os
serviços de suporte à família atual, mas não de forma isolada. Deve o Centro
Espírita integrar suas ações com outras instituições, tanto de caráter
religioso como social, na busca da melhor qualidade do atendimento individual e
coletivo, naturalmente sem perder sua identidade doutrinária, mas objetivando o
resgate da ordem moral que deve alicerçar a família como espaço de convivência.
Entre os serviços de apoio à família,
destacamos os cursos de formação para os pais. Allan Kardec, em artigo
publicado na "Revista Espírita" de fevereiro de 1864, assim se
pronuncia, enaltecendo o Espiritismo como doutrina capacitada para fomentar a
educação moral:
"Os novos horizontes que abre o
Espiritismo fazem ver as coisas de outra maneira; sendo o seu objetivo o
progresso moral da humanidade, forçosamente deverá iluminar o grave problema da
educação moral, primeira fonte da moralização das massas. Um dia
compreender-se-á que esse ramo da educação tem seus princípios, suas regras,
como a educação intelectual, numa palavra, que é uma verdadeira ciência; talvez
um dia, também, será imposta a toda mãe de família a obrigação de possuir esses
conhecimentos, como se impõe ao advogado a de conhecer o Direito."
O conhecimento moral deve ser propiciado aos
pais pelo Centro Espírita, que é a instituição capacitada para trabalhar a
família do ponto de vista da reencarnação e de sua finalidade, como espaço de
convivência de Espíritos que trabalham seu progresso moral.
Fonte: Jornal Mundo Espírita – Maio/1998
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