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Vinícius
Lousada/RS[1]
“Os Espíritos, por ordem de Deus, trabalham para o
progresso de todos sem exceção; vós, espíritas, fazei o mesmo.” – São Luís[2]
O senso comum decanta o papel da casa espírita como sendo o de esclarecer e
consolar; ou seja, esclarecer as criaturas a respeito da vida, a partir da
ótica espiritista e aliviar os corações doridos diante das aflições do mundo.
Concordamos até certo ponto com esta visão, no entanto, diante dos desafios
de aproximar a Doutrina Espírita do povo – pois o Espiritismo não é tesouro a ser guardado a sete chaves –,
identificamos que nos encontramos reencarnados numa sociedade repleta de
contradições sociais, e que, para divulgarmos o Espiritismo a esta gente
sofrida que recebe diretamente o impacto da exclusão social, ou para ao menos
experimentarmos a vivência espírita junto desses irmãos, não basta falar-lhes à
inteligência sobre os princípios da Doutrina, é preciso cativar-lhes o coração
amando-os, fazendo-nos presentes em suas lutas.
Vale lembrar que nossa reflexão não se trata de qualquer pretensão de proselitismo,
e sim, de meditarmos a respeito da relevância das nossas atividades no centro
espírita para a comunidade em que estamos inseridos. Como não vivemos em
mosteiros isolados do mundo, carecemos contribuir de alguma forma, pois do
Espiritismo muito recebemos em felicidade e entendimento da vida, sobre Deus e
Suas Leis.
Ensinou-nos Jesus Cristo que “(..)
nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador,
para iluminar a todos que se encontram na casa.”
O que corrobora com a idéia de que uma casa espírita não é fomentada pelos
benfeitores espirituais, que nos convidaram a atuar na causa de libertação das consciências
promovida pelo Espiritismo, simplesmente para se dedicar a uma rotina
desidentificada com a realidade em que está fixada, mas para modificar esta,
renovando as criaturas ao falar-lhes ao Espírito imortal, como também
transformando seu meio social através de nobres realizações coletivas em que se
pode aprender a caridade em seus variados matizes.
Assim, acreditamos num projeto
possível para o centro espírita –
elaborado democraticamente e na prática pelos seus membros – que poderá começar
identificando as necessidades da sua comunidade local e, logo após,
desenvolver, mesmo que timidamente, através de uma práxis autenticamente cristã e educativa, projetos sociais de
ressignificação da cidadania, e até mesmo, de economia solidária através do
trabalho cooperativo, que levem em conta as peculiaridades do cotidiano das
pessoas moradoras das cercanias de nosso núcleo cristão. Mas para tanto, é
preciso educar, não simplesmente verbalizando
as máximas dos Espíritos, mas convivendo com os desfavorecidos, aproximando-nos
e procurando fazer algo ao seu favor, aliviando suas aflições, num primeiro
momento para, numa experiência com tentativas que serão acertos e erros,
construir um vínculo passível de ser a base de uma proposta educacional
comprometida com a semeadura de uma sociedade humana onde o forte se faça o
apoio do mais fraco e não seu algoz.
Um projeto para o centro espírita cumprir o seu papel de agente de transformação
do seu meio social, além de exigir que nos qualifiquemos nos estudos
doutrinários para tal mister, pede comprometimento com o Espiritismo, na sua
proposta ética, como também com nossos irmãos que sofrem os funestos resultados
da lógica bizarra de uma sociedade
materialista. Dessa forma, poderemos estabelecer dialogicamente uma ação
capaz, se não de resolver a problemática na sua totalidade, restabelecer um
sentido nas existências dos que atravessam a degradação moral provocada pela
miséria, para que possam seguir em frente, pautando-se em felizes valores
espirituais.
Por não ser uma religião alienante, formadora de uma massa de ausentes
da sociedade na busca egoísta do “reino dos céus”, a Religião dos Espíritos recorda a exortação de Cristo aos seus
discípulos: “Vós sois o sal da
terra;(...).”
E o Espírito Camilo, através da exemplar mediunidade do Prof. Raul Teixeira,
esclarece que esse chamado do Mestre era “(...)
para que fizéssemos destacar o “sabor” inconfundível do bem, onde estivéssemos,
a fim de preservar da putrefação tudo o que serve e faz a vida maior e mais
bela. Eis as funções do sal humano.”
Nós precisamos fazer a diferença! Só seremos homens de bem sendo irmãos dos que sofrem, valorizando
concretamente o Bem e cultivando realmente os belos ideais, para tanto, é
fundamental que nossas ações espiritistas se voltem à pobreza, produzindo o
nosso melhor na promoção do trabalho junto aos sem ocupação, da inclusão dos
excluídos mediante atividades de caráter educativo. Enfim, somos requisitados a
dar continuidade a lídima tradição cristã de convidarmos os pobres e os estropiados ao banquete da fraternidade, tarefa
vivenciada por Jesus ao anunciar o Seu Evangelho,
logo após pelos homens do Caminho,
por Francisco de Assis (o Pobrezinho de Deus), por Kardec, Irmã Dulce, pelo nosso
Chico Xavier e exemplificada, na estrada dos séculos, por tantos outros conhecidos
ou anônimos, ínsitos nas mais diversas expressões religiosas...
Esforcemo-nos para que a caridade
salvadora não vire mero slogan,
mas um projeto possível em nossas casas espíritas, pois, considerando o sábio conselho
do Espírito João: “(...) Trabalhar para
os pobres é trabalhar na vinha do Senhor.”
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