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Adesão e Mudança

 

Vinícius Lousada

 

“(...)Reconhece-se o verdadeiro espírita por sua transformação moral, e pelos esforços que faz para domar as suas más inclinações;(...).”  – Allan Kardec[1]

 

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, ao meditar sobre os resultados que o Espiritismo opera no âmago da criatura humana ao tornar-se espírita, não deixou de alertar que: “Fora presumir demais da natureza humana supor que ela possa transformar-se de súbito, por efeito das idéias espíritas. A ação que elas exercem não é certamente idêntica, nem do mesmo grau, em todos os que as professam. (...)”[2]           

            Da mesma forma, o mestre lionês apresenta-nos que qualquer mudança, seja em que nível se apresente, já consiste por si mesma numa melhora. O que se pode traduzir como sendo de proveito ao nosso processo evolutivo a menor alteração comportamental que o estudo do Espiritismo, através de suas obras básicas, venha a realizar em nós.

            Porém, com base na Revelação do Mundo Maior e na convivência com o Movimento Espírita Nascente, o codificador estabeleceu que naqueles que compreendem o aspecto filosófico do Espiritismo, que lhe percebem sua finalidade transcendente à fenomenologia medianímica, podem ocorrer três efeitos de ordem geral: o desenvolvimento do sentimento religioso, a resignação diante dos desafios da vida e a indulgência em relação aos outros.

A religiosidade se desenvolve na medida em que começamos a assimilar o credo espírita[3], quer dizer, na medida em que aprendemos a respeito da imortalidade da alma e da insofismável possibilidade de comunicação, após a morte, com os que ainda se encontram encarnados, desenvolvemos um sentimento de desprezo pela morte.

O espírita não a teme, mas a entende como fenômeno natural, como continuidade da vida em outra dimensão, cobrando-lhe a aplicação de seu tempo na Terra, que não passa de experiência comum nesse movimento de renascer e “re-morrer” que a Lei Natural lhe impõe como mecanismo de evolução.

Desse modo, diante de um desencarne do qual não podemos desviar-nos, nossa aceitação – em tese – se daria de tal forma como sucede com quem tem que transferir-se para outra localidade para fins profissionais ou de qualificação pessoal, para que mais tarde retorne, mais experiente e com novos projetos, não obstante os sentimentos de saudades dos que ama e que dele momentaneamente estarão afastados. Sem olvidar que, com estes últimos, pode contatar pelas vias de comunicação existentes.

            A resignação diante das vicissitudes da vida configurar-se-ia como o segundo efeito moral naqueles que estudam os princípios da Religião Espírita. 

O ensino espírita, ao fazer-nos sair de nossa pequenez de conceitos e ampliar-nos o horizonte limitado à matéria grosseira que vestimos neste mundo, descortina-nos a Reencarnação, efetiva-nos o entendimento da ínfima relevância das dificuldades que se atravessa na experiência corporal perante a extensão da vida espiritual, instrumentalizando-nos para vencer seus desafios resignadamente, pois tal conhecimento enseja a apreensão do sentido do sofrimento e da dor para nosso progresso intelecto-moral, bem como o mecanismo das escolhas do gênero de provas[4] realizadas por nós, como espíritos na erraticidade, no período que antecede a reentrada na carne.

Ocorre ainda que, quando o Espiritismo demonstra a imortalidade da alma e seu estado na vida futura, compreende-se o quanto são passageiras as lutas e dores diante da imensidão das bem-aventuranças alcançadas no mundo dos Espíritos por aqueles que se resignaram – ativos no Bem – frente aos seus próprios resgates, chegando alguns, ao estágio de pós-morte na situação de Espíritos felizes em virtude da compreensão profunda da Lei Divina.

Outro aspecto apontado por Kardec, como resultante do entendimento do que seja o Espiritismo por parte do adepto, é a indulgência para com as imperfeições alheias. Quando a Doutrina dos Espíritos passa a embalar nossos pensamentos e envolver nossos sentimentos e a estudamos detidamente, passamos a colocar nosso juízo moral sob os auspícios da caridade.

Assim sendo, surge em nosso mundo moral a tolerância que aceita o outro ser como uma centelha divina, algumas vezes transitoriamente em erro, mas inserido numa jornada evolutiva, cuja fatalidade consiste na plenitude, quer dizer, a conquista do patamar de espírito puro, livre das imperfeições originadas no abuso dos instintos.

Mas a indulgência não é uma graça divina a poucos escolhidos ou tarefa para os anjos, como pensam alguns que se fazem juizes sistemáticos ou obsessores encarnados da conduta alheia, apesar da infelicidade que sofrem e fazem girar em torno de si. É tópico de conduta que só pode tornar a ser hábito pelo exercício de uma vontade ativa em prol da melhora moral que nos cabe, a fim de que venhamos cumprir nossas metas estabelecidas na erraticidade, antes da experiência corpórea presente.

Para tanto, uma consciência lúcida de nossas limitações ou possibilidades e a perseverança no bem, nos facultarão atingirmos esta meta que nos fará avançar no serviço redentor.

Mais uma vez, a titulo de conclusão, recordemos que o verdadeiro espírita é reconhecido não pela santidade aparente, pela freqüência a eventos ou por estatísticas que enumerem freneticamente a quantidade de seguidores, passes, romances lidos ou sacolas de alimentos distribuídas aos pobres, mas pelos esforços que emprega para educar suas más tendências e, assim sendo, trabalhemos para que a nossa adesão ao Espiritismo signifique mudança de atitude perante a vida, perante nós mesmos.

 


[1] O Evangelho Segundo do Espiritismo, Cap. XVII, item 4.

[2]  O Livro dos Espíritos, Conclusão VII.

[3] Obras Póstumas.

[4]   O Livro dos Espíritos, questão 285.

  

 

 

 

Pensamentos

 

 O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

 

 

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