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Elaine Curti Ramazzini
Em grande
parte das obras assistenciais espíritas não há a preocupação de trabalhar os
conteúdos interiores de cada um, buscando ajudá-lo no sentido de que ele seja
partícipe de sua própria evolução. O trabalho de reconstrução interior é de
vital importância, pois constitui apanágio do espírito imortal.
Uma das
características do trabalho do serviço assistencial em moldes espiritistas é a
promoção social do ser. Promoção é a ação de promover, de elevar, de
engrandecer, de fazer crescer. Nada poderia se enquadrar melhor na visão
espírita do trabalho de assistência ao próximo do que a promoção do indivíduo
num contexto sócio-econômico-cultural e sobretudo espiritual.
Temos enfatizado
muito esse aspecto nos nossos encontros com as casas e as obras assistenciais
espíritas que desenvolvem o atendimento à criatura num sentido integral, isto
é, nos aspectos bio-psico-sócio-espiritual. E não raras vezes temos nos
deparado com uma visão unilateral de espíritas quanto ao atendimento ao
carente.
Expliquemos. Tem
havido por parte dos trabalhadores dessa área de atuação uma obsessiva
preocupação com o dar, tão-somente, coisas materiais, sem compromissar a
criatura consigo mesma e com suas possibilidades de crescimento e de não dependência
de seus semelhantes.
Não negamos, em
absoluto, a necessidade de atendermos às carências de ordem física ou material,
porque sabemos que de nada adianta falarmos de Jesus para uma pessoa cujo
estômago arde de fome. Na escala de hierarquia das necessidades humanas,
Abraham Maslow, um conhecido psicólogo americano, colocava num primeiro nível
de atendimento aquelas carências que visam ao equilíbrio físico do ser vindo,
subseqüentemente, as outras de caráter social, de status e espiritual.
Satisfeitas as primeiras, abrem-se outras que também reclamam atendimento.
Assim, levando em
conta essa classificação no atendimento às necessidades do ser humano,
enfatizamos essa assistência, direcionando esforços no sentido de que a criatura
busque a sua homeostase, o seu equilíbrio, a partir dos níveis primeiros, tornando-se,
com o passar do tempo, auto-supridora e auto-nutridora.
Não é isto, contudo,
que temos notado em grande parte das obras assistenciais espíritas. Sem querermos
ser cáusticos e nem criticar por criticar, temos observado que dirigentes de
trabalhos de atendimento ao carente vêm se preocupando com o número de pratos
de sopa que oferecem semanal, quinzenal ou mensalmente à sua clientela. Além do
mais, são montados grupos de pessoas que visitam favelas e barracos levando
alimentos e roupas, que matam a fome temporária e agasalham por alguns dias o
corpo. Não há, porém, a preocupação de trabalhar os conteúdos interiores de
cada um, buscando ajudá-lo no sentido de que ele seja partícipe de sua própria
evolução. O trabalho de reconstrução interior é de vital importância, pois
constitui apanágio do espírito imortal. Se quisermos ser os cireneus da
passagem evangélica, poderemos auxiliar o outro a carregar o fardo de suas
limitações e impossibilidades, mas tenhamos em mente que a construção do eu
profundo é tarefa de cada um, pois só assim, haverá o mérito pelo esforço
empreendido.
Algumas casas
espíritas têm-se mostrado reticentes quanto à participação nos encontros do
serviço assistencial programados, pois alegam que já sabem como realizar seu
trabalho. Será que esses núcleos não conseguiriam se abrir para o estudo e a
reflexão acerca de outros enfoques? Não seria talvez oportuno deixar de lado o
comodismo nos quais se vêm atrelando há anos e anos e permitir-se o benefício
da dúvida? Embora saibamos que pisar o novo assusta, tenhamos em mente que o
crescimento exige coragem, determinação e vontade.
Finalmente,
perguntamo-nos se o nosso personalismo e a nossa vaidade não nos têm obliterado
a razão e o sentimento no atendimento às reais necessidades dos nossos irmãos.
Um repensar em torno dessa nossa posição valeria a pena neste momento, para que
não venhamos, mais tarde, nos arrepender do uso indevido do tempo que passa.
Fonte: Dirigente
Espírita Nº 53 – Junho e Julho/1999
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