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Alexandre Fontes da Fonseca – afonseca@rutchem.rutgers.edu
Tanto Allan Kardec quanto André Luiz
reconhecem o caráter complementar entre a Ciência e o Espiritismo. Porém eles
orientam quanto aos cuidados e precauções na pesquisa espírita ligada à
Ciência.
“O Espiritismo e a Ciência se
complementam reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo, se acha na
impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao
Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação”[1].
Por essas palavras de Kardec no ítem 16
do Cap. I, em A Gênese, muitas pessoas podem imaginar que o Espiritismo
necessita da Ciência para ser comprovada. Porém uma análise mais profunda[2-4]
mostra que o Espiritismo é uma Ciência legítima cujo valor não necessita do
aval das outras ciências. Além disso, uma
explicação para essa afirmativa de Kardec
aparece em seguida à frase acima, no mesmo ítem do Cap. I de A Gênese[1]:
“O estudo das leis da matéria tinha que preceder o da espiritualidade,
porque a matéria é que primeiro fere os sentidos. Se o Espiritismo tivesse
vindo antes das descobertas científicas, teria abortado, como tudo quanto surge
antes do tempo.” Kardec, assim, explica a dependência que o Espiritismo
teve com o desenvolvimento das ciências materiais. Elas deveriam vir antes de
modo que as idéias pudessem ser preparadas para o advento do Espiritismo.
No ítem 18 do Cap. I do mesmo livro[1],
Kardec afirma: “O Espiritismo, tendo por objeto o estudo de um dos elementos
constitutivos do Universo, toca forçosamente na maior parte das ciências; só
podia, portanto, vir depois da elaboração delas; nasceu pela força mesma das
coisas, pela impossibilidade de tudo se explicar com o auxílio apenas das leis
da matéria.”.
Desta forma fica claro que não são os
conceitos da Física, Química e Biologia que devem confirmar ou comprovar os
princípios básicos do Espiritismo. Isso está presente nas seguintes palavras de
Kardec no ítem VII da Introdução de O Livro dos Espíritos[5]: “A
Ciência, propriamente dita, é, pois, como ciência, incompetente para se pronunciar
na questão do Espiritismo: não tem que se ocupar com isso e qualquer que seja o
seu julgamento, favorável ou não, nenhum peso poderá ter.”
No entanto, mesmo conhecendo essas
afirmativas, ao nosso ver, muito claras de Kardec, vários irmãos nossos têm
conferido enorme valor a resultados de pesquisas científicas, mormente na área
de Física, como sendo resultados que comprovam os princípios espíritas
quando, uma análise mais séria e profissional nos mostra que isso não é
verdade. Existe, não só no meio espírita, uma excessiva valorização da Física
Quântica como sendo a teoria científica que vai confirmar a existência de Deus
e/ou do Espírito. Confrades valorosos, entusiasmados com as perplexidades que a
Física Moderna apresenta, agem, sem o saberem, de forma imprudente ao supervalorizarem
algumas teorias da Física como favoráveis ao Espiritismo. Um exemplo é a afirmativa
de que “A Física Quântica está em busca da partícula divina”. Cita-se mesmo
cientistas premiados com o Nobel, como o Dr. Leon Lederman que afirma que a
ciência está “procurando a partícula divina” a partir da qual todas as outras
seriam constituídas. O que não se percebe é que estes cientistas não estão
procurando Deus mas sim estão querendo encontrar a partícula que seja a “causa
primária” de todas as outras o que eliminaria, por sua vez, a idéia da necessidade
de um Criador Divino.
Recentemente, no IV Congresso Nacional da
Associação Médico Espírita do Brasil, ocorrido em São Paulo, entre os dias 19 e
20 de junho de 2003, um conferencista internacional, Prof. Dr. Amit Goswami,
foi convidado para proferir palestra sobre a Física Quântica. Apesar de ser muito
importante conhecer as pesquisas de cientistas internacionais, o movimento
espírita deve receber as propostas do Prof. Goswami com cautela, antes de considerar
suas idéias como sendo espíritas. Em seu recente livro intitulado O
Universo Autoconsciente[6], o Prof. Goswami propõe a existência de uma
consciência maior como solução para os paradoxos que os fenômenos quânticos
apresentam. Uma característica dessa consciência é ser de caráter coletivo. É
importante frisar que as propostas do Prof. Goswami ainda não foram aceitas
pela comunidade científica. Porém ele tem recebido apoio dos grupos
espiritualistas em geral. Mesmo sendo uma proposta embasada de forma mais séria
nos conhecimentos científicos, a interpretação do Prof. Goswami não considera a
existência da nossa consciência individual. A Doutrina Espírita é clara a esse
respeito: “Os Espíritos são a individualização do princípio inteligente...”(questão
79 de O Livro dos Espíritos[5]). É preciso estudar e analisar como o
espírito se caracterizaria perante essa consciência maior e se as propostas
dele estão em desacordo com outros princípios espíritas. Esse estudo necessita ser
feito antes de afirmarmos que a proposta dele “prova” alguma idéia
espírita.
O problema dessas propostas e das teorias
da Física Moderna como a Teoria das Supercordas e o Modelo Padrão é o alto
nível de teoricidade desses modelos. É muito difícil, para não dizer quase impossível,
verificar-se experimentalmente os resultados destas teorias. Existe uma
expectativa de se encontrar uma “Teoria Final” ou “Teoria de Tudo” que fosse
absoluta no sentido de ser a base da existência de tudo no universo. Num
recente artigo[7] publicado na Revista Brasileira de Ensino de Física, uma
pesquisa foi realizada com a comunidade de físicos brasileiros sobre o que eles
pensam a respeito dessas teorias “Final” e “de Tudo”. Os resultados mostraram que
a maioria dos físicos brasileiros não concorda com a existência de uma teoria
absoluta para tudo. Se os físicos, que são os profissionais no assunto, não aceitam
ainda essas teorias de forma absoluta, como é que nós espíritas podemos dar
crédito a elas? Se essas teorias ainda são de difícil comprovação experimental,
como nós espíritas podemos nos basear nelas para afirmar, por exemplo, que “o
espaço -tempo negativo corresponde ao mundo
espiritual”? Isso tudo, sem contar que
essas teorias modernas em Física estão constantemente sendo renovadas e alteradas
enquanto que não procuramos sequer saber sobre por que o Espiritismo permanece
intacto ao longo dos seus quase 150 anos[8].
Citamos, mais uma vez Kardec no ítem 14
do Cap. I de A Gênese[1]: “Como meio de elaboração, o Espiritismo
procede exatamente da mesma forma que as ciências positivas, aplicando o método
experimental.(...) É, pois, rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é
uma ciência de observação e não produto da imaginação. As ciências só
fizeram progressos importantes depois que seus estudos se basearam sobre o
método experimental; até então, acreditou-se que esse método também só era
aplicável à matéria, ao passo que o é também às coisas metafísicas.”(grifos
nossos).
E ainda no ítem VII da Introdução de O
Livro dos Espíritos[5]: “Desde que a Ciência sai da observação
material dos fatos, em se tratando de os apreciar e explicar, o campo
está aberto às conjeturas. Cada um arquiteta o seu sistemazinho, disposto a
sustentá-lo com fervor, para fazê-lo prevalecer. Não vemos todos os dias as
mais opostas opiniões serem alternativamente preconizadas e rejeitadas, ora
repelidas como erros absurdos, para logo depois aparecerem proclamadas como
verdades incontestáveis? Os fatos, eis o verdadeiro critério dos nossos
juízos, o argumento sem réplica. Na ausência dos fatos, a dúvida se
justifica no homem ponderado.” (grifos nossos)
Essas duas citações mostram claramente
que Kardec sempre priorizou o método experimental como reveladora da verdade.
Teorias, por mais bonitas e engenhosas, serão sempre teorias se não puderem
explicar e prever os fatos. Utilizar-se de teorias físicas ainda muito teóricas
para confirmar o Espiritismo é agir de forma
precipitada e contrária ao que ensinou
Allan Kardec.
Acredito que muitos irmãos nossos no
movimento espírita se motivaram a procurar relações entre o Espiritismo e essas
teorias devido, também, ao trabalho de André Luiz. O que não se percebeu, foi
que André Luiz foi muito cauteloso em apresentar suas idéias. Estamos falando a
respeito do livro Mecanismos da Mediunidade[10]. Neste livro, André Luiz
propõe a explicação para os mecanismos dos processos mediúnicos utilizando-se
os conceitos mais modernos de Física, à época da 1a. edição do livro. O que
acreditamos ter escapado à análise da maioria das pessoas, foram os cuidados
que André Luiz deixou claro no prefácio escrito por ele,
intitulado “Ante a Mediunidade”. No
oitavo parágrafo, André Luiz afirma: “(...) Aliás, quanto aos apontamentos
científicos humanos, é preciso reconhecer-lhes o caráter passageiro, no
que se refere à definição e nomenclatura, atentos à circunstância de que a experimentação
constante induz os cientistas de um século a considerar, muitas vezes, como
superado o trabalho dos cientistas que os
precederam.”(grifos nossos).
E acrescenta no parágrafo seguinte que: “Assim,
as notas dessa natureza, neste volume, tomadas naturalmente ao acervo de
informações e deduções dos estudiosos da atualidade terrestre, valem aqui por
vestimenta necessária, mas transitória, da explicação espírita da
mediunidade, que é, no presente livro, o corpo de idéias a ser apresentado.”(grifos
nossos).
Percebe-se claramente que André Luiz não
afirma que os conhecimentos científicos atuais sejam a solução definitiva para
os mecanismos da mediunidade. Muito menos, André Luiz os considera como prova
científica da mediunidade. Ele utiliza os conhecimentos científicos como forma
didática para melhor explicar os mecanismos dos processos mediúnicos. Nesse
aspecto, essa utilização foi necessária. Mas deixou claro que, no futuro,
com o desenvolvimento da Ciência, novas formas de entendimento da mediunidade
poderão surgir. Nesse aspecto, essa utilização é transitória.
Assim, percebemos que André Luiz foi
muito cauteloso nesse trabalho de utilizar-se dos conceitos científicos na
explicação de um fenômeno espírita. É importantíssimo que esse exemplo de
cuidado seja tomado por todos nós espíritas na divulgação dos estudos e
pesquisas que envolvam o conhecimento científico.
A humanidade realmente carece dos
conhecimentos espirituais e todo esforço é nobre no sentido de mostrar que
esses conhecimentos são verdadeiros. Por isso, não desejamos desestimular o estudo
e pesquisa em tópicos espíritas relacionados a tópicos científicos. Enfatisamos
que é preciso redobrar os cuidados no nosso trabalho de divulgação destas
pesquisas que levarão o adjetivo de espíritas. É necessário que exista
conhecimento profissional no tema que se deseja trabalhar. Isto pois,
justamente os profissionais de cada área é que saberão avaliar se a pesquisa
está sendo realizada com o mesmo rigor que um tema puramente material teria.
Por outro lado, se algo é uma opinião, ele deve ser divulgado como opinião e
não como verdade científica. Além disso, toda idéia deve ser divulgada com a
sua devida explicação para que os leitores apreciem o seu valor. O fato de uma
idéia se relacionar com um assunto
científico não significa que ela seja uma verdade científica. O fato de uma pessoa
ser cientista não significa que suas idéias serão verdades científicas. André
Luiz teve esse cuidado ao dizer que se utilizará dos conhecimentos científicos
como “vestimenta necessária, mas transitória” na explicação dos mecanismos da
mediunidade. Por fim, não se esqueça o leitor que os olhos da crítica são
altamente especializados.
O movimento espírita sofre quando idéias
prematuras, ingênuas, pseudo-científicas são divulgadas como verdades e que,
ainda, são ditas comprovar o Espiritismo. Portanto, vamos tomar mais cuidado
com relação aos tópicos ligados não só à Física mas à Ciência como um todo.
Aproveitamos para sugerir às editoras
espíritas a criação de mecanismos que permitam a análise de todo o conteúdo
daquilo que for submetido para publicação em livro ou revista. Que não seja só
o ponto de vista doutrinário a ser analisado, mas também o ponto de vista
técnico e científico de acordo com cada caso. Não se trata de censura e, sim,
de zelo por aquilo que receberá o adjetivo de espírita. Mais uma vez,
nas palavras de Kardec[11]: “(sobre comunicações mediúnicas): Em grande
número encontramo-las notoriamente más, no fundo e na forma, evidente produto
de Espíritos ignorantes, obsessores ou mistificadores(...). Publicá-las teria
sido dar armas à crítica. (...) O que dizemos não é para desencorajar de
fazer publicações. Longe disso. Mas para mostrar a necessidade de escolha sine
qua non do sucesso. (...) Todas as precauções são poucas para evitar as publicações
lamentáveis. Em tais casos, mais vale pecar por excesso de prudência, no
interesse da causa.”(Grifos nossos).
Uma sugestão seria fazer o que todas as
revistas científicas internacionais fazem: cada artigo submetido para
publicação é enviado a, pelo menos, um assessor anônimo, especialista no
assunto que o artigo trata, para fazer uma análise. Acreditamos ser esse um
passo extremamente necessário e útil para que a evolução e divulgação das idéias
espíritas possa ocorrer dentro de maiores padrões de qualidade. Chamo Kardec
para concluir esta matéria: “é preferível rejeitar 10 verdades do que
aceitar uma só mentira.”[12].
O autor é Doutor em Física pela UNICAMP e
“Post-Doc” no Intituto de Física da USP. Atualmente, o autor está trabalhando
como “Short -term Post-Doc” no Departamento de Química de Rutgers, The State University
of New Jersey, EUA.
Referências
[1] A. Kardec, A
Gênese, Editora FEB, 36a. Edição, (1995).
[2] S. S. Chibeni,
Reformador, Dezembro, p.373 (1988).
[3] S. S. Chibeni,
Revista Internacional de Espiritismo, Março, p.45 (1991).
[4] S. S. Chibeni,
Reformador, Junho, p.176 (1994).
[5] A. Kardec, O
Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76a. Edição, (1995).
[6] A. Goswami, O
Universo Autoconsciente, Editora Rosa dos Tempos, 4a. Edição (2001).
[7] A. Zylbersztajn, Revista
Brasileira de Ensino de Física, Vol. 25, p. 1 (2003). Essa revista é acessível
via internet através do site: http://www.sbf.if.usp.br/rbef
[8] Recentemente, no
artigo da referência [9], tivemos a oportunidade de comentar sobre a fragilidade
do Modelo Padrão diante da descoberta de que o “neutrino” tem massa, discutindo
as razões da solidez d a Doutrina Espírita.
[9] A. F. da Fonseca,
Revista Internacional de Espiritismo, março, p. 93 (2003).
[10] A. Luiz,
Psicografia de F. C. Xavier, Mecanismos da Mediunidade, Editora FEB,
11a. Edição (1990).
[11] A. Kardec, Revista
Espírita 5, p. 153, (1863).
[12] A. Kardec, Revista
Espírita 8, p. 257, (1861).
REVISTA INTERNACIONAL DE ESPIRITISMO, ANO LXXVIII, N. 9 (Outubro),
p. 476, (2003).
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