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Elaine Curti Ramazzini
Um dos mais sérios posicionamentos que
temos observado em trabalhos com carentes tem sido a postura de alguns no que
se refere à quantidade de famílias atendidas na obra social, em detrimento da
qualidade que deve caracterizar essa atividade.
O trabalho de atendimento ao carente
sócio-economicamente considerado tem-se caracterizado, nos meios espíritas, por
práticas decorrentes de inferências de ordem pessoal que nada têm a ver com os
postulados kardequianos.
Tais práticas, de caráter iminentemente
particular, estão calcadas em mitos e crenças, não encontram respaldo na
literatura espírita e representam uma interpretação enviesada do seu conteúdo.
Mito – todos sabemos – é uma história eivada
de crenças, muitas vezes não reais, que passa de geração a geração, carregando
dentro de si superstições, idéias, preconceitos e informações deturpadas em
torno de um fato, de uma pessoa ou de coisas materiais e imateriais. Tais
concepções ganham deformações maiores pois se apresentam conjugadas a uma série
de mecanismos de defesa que o ser desenvolve em si mesmo, fruto de um sofrível
contato consigo mesmo e com o mundo (pessoas e coisas ao seu redor).
Em trabalhos espíritas, o desenvolvimento de
mitos e crenças deve-se, principalmente, a uma visão distorcida que muitos
possuem de si mesmos e também quanto às reais necessidades do outro. Ora, a
falta de aprofundado estudo do Espiritismo dá origem a uma lamentável
desconfiguração do real significado dos ensinos que foram passados pelos
Espíritos superiores.
Um dos mais sérios posicionamentos que temos
observado em trabalhos com carentes tem sido a postura de alguns no que se
refere à quantidade de famílias atendidas na obra social, em detrimento
da qualidade que deve caracterizar essa atividade. Explico melhor:
muitos se envaidecem por atender o maior número possível de famílias
carenciadas, mas não se preocupam com a educação e promoção do ser humano. As
orientações acerca dos cuidados com o corpo e o meio ambiente, bem como a
transmissão dos valores morais e dos conhecimentos evangélico-doutrinários,
cujos conteúdos visam ao crescimento do ser psico-sócio-espiritual, ficam
relegados a plano secundário.
Uma outra percepção deformada do trabalho
assistencial refere-se à filiação das obras assistenciais aos órgãos públicos,
descaracterizando muitas os princípios exarados pela Doutrina Espírita. Não
poucos dirigentes de obras assistenciais espíritas têm procurado valer-se de
órgãos governamentais para deles receber subvenções, as mais das vezes
inexpressivas e insuficientes às suas reais demandas. No entanto, para isso
submetem-se a absurdas exigências: alterar, por exemplo, o seu estatuto social,
o que enseja as mais desmedidas ingerências nas instituições descaracterizando
a filosofia e o modus operandi que as norteiam.
Outro viés observado na área assistencial
diz respeito à distribuição de sopa aos pobres. As casas espíritas preocupam-se
em excesso com o chamado "dia da sopa", entendendo que este alimento
supre todas as necessidades do organismo. A sopa, como qualquer outro alimento,
mitiga a fome no momento, mas, às vezes, um lanche composto de pão com
margarina e um copo de leite possui um valor nutritivo maior. Além do mais,
para ser servida a sopa, há necessidade de mesas, cadeiras, além de pratos e
talheres. Já o lanche não requer tantos móveis ou utensílios e pode ser tomado
de maneira mais informal e prática: de pé, num canto de sala.
Jesus, certa feita, disse: "Seja o teu
falar sim, sim; não, não", querendo com isto significar que a coerência
interna é fundamental para um relacionamento saudável, responsável e
enobrecedor. Ora, muitas vezes, em serviços assistenciais, observamos uma
displicência quanto aos posicionamentos de ordem educacional, de autenticidade
e de firmeza, que se espera estejam presentes nas relações voluntário-assistido.
Alguns trabalhadores da obra assistencial perdem de vista o caráter educativo
da assistência e se deixam levar pelo olhar, pelas palavras e pelas atitudes
persuasivas do carente, cedendo às suas insistentes solicitações. E isto ocorre
porque o dar simplesmente é o que lhes preocupa. Este comportamento dos
voluntários fere, as mais das vezes, as normas da casa e desconfiguram o real
sentido da assistência em moldes espíritas, que se caracteriza sobretudo pelo
socorro ao ser integral: físico-psico-sócio-espiritual e não somente material.
Entendemos também que essa "manipulação" do voluntário por parte do
necessitado pode não ser consciente, nem da parte de um nem da parte de outro.
Como está acostumado a pedir, o carente condicionou essa característica ao seu
comportamento e a repete em qualquer lugar e com quem encontrar à sua frente.
Ensina-nos o Evangelho Segundo o Espiritismo
que a "a esmola humilha e degrada". Assim, o trabalho espírita visa
sobretudo a conscientização do ser para as mudanças que ele pode imprimir em
sua vida exterior e, especialmente, na interior.
Bibliografia:
Kardec,
Allan. O Livro dos Espíritos, 36ª ed., SP, LAKE – Livaaria Allan Kardec
Editora, 1977.
___________
O Evangelho Segundo o Espiritismo, 51ª edição, RJ, FEB – Federação Espírita
Brasileira.
Valente,
Maria Aparecida e Ramazzini, Elaine C., Serviço Assistencial Espírita, SP, SP,
USE editora, 1970
Fonte: Dirigente Espírita Nº 59 - Maio/Junho de 2000
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