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Ademir L. Xavier Jr.
Resumo
Discute-se aqui brevemente a interação entre
o Espiritismo e as ciências. Essa relação pode ser entendida de diversos
aspectos, uma necessariamente que considera o aspecto científico do
Espiritismo. É importante porém frisar que não pode haver compreensão correta
dessa interação, se não se tem compreensão correta do sentido em que se fala de
aspecto científico do Espiritismo. Essa discussão apresenta implicações importantes
para os espíritas que acreditam na necessidade de atualização da Doutrina
Espírita.
1.Introdução
Todo adepto com razoável entendimento dos
princípios da Doutrina Espírita sabe que ela é um conjunto de princípios que se
apresentam como afirmações sobre o mundo. Não é menos certo que muitos desses
princípios, ainda que se apliquem ao objetivo maior do Espiritismo que é o
estudo do elemento espiritual, contém afirmações singulares e gerais sobre o
mundo material. Isso necessariamente nos leva à fronteira entre o Espiritismo e
as ciências bem estabelecidas que também afirmam coisas sobre o mundo. Para que
haja evolução na forma de aquisição de conhecimento – um dos objetivos das
ciências e também do Espiritismo, no caso, conhecimento sobre o mundo espiritual
– faz-se necessário conhecer exatamente como se dá essa relação.
A ciência, tal como a conhecemos hoje, é
produto da evolução lenta com que nossa sociedade passou nos últimos séculos.
Não existe um consenso geral (na forma de uma formula ou padrão estabelecido)
sobre qual seria a definição exata de ciência. Podemos, porém, descrevê-la de
acordo com alguns de seus atributos bem conhecidos. De todos eles, um que
parece conveniente para caracterizar as chamadas ciências bem estabelecidas
(física, biologia, química e outros) é a noção de paradigma1. Por paradigma entende-se um conjunto de princípios que
versam sobre determinado objeto, e que se encontram naturalmente relacionados a
um grupo ou conjunto de fenômenos naturais. Fazem parte do corpo que forma o
paradigma também leis complementares a completar o conhecimento, permitindo a
aplicação das leis do corpo principal aos fenômenos observados. Os paradigmas
são os campos de trabalho tradicional na pesquisa normal das grandes áreas do
conhecimento científico. Assim, Ciência não é a mera coleção de fatos e
hipóteses mas algo muito mais complexo, em constante mutação através das
gerações possuindo seus próprios sistemas de proteção a fim de evitar que seu
corpo principal de doutrina seja corrompido. Não se pode mudar a orientação
de determinado programa de pesquisa de uma noite para outra, ainda que se
tivesse uma boa razão para isso. As mudanças nos programas de pesquisa
que caracterizam o paradigma – conhecidas como revoluções científicas –
necessitam de um tempo de maturação e, muitas vezes, uma mudança no
posicionamento dos cientistas, na maneira como eles vêem o mundo. As revoluções
científicas são acontecimentos de curta duração seguidos muitas vezes de
estágios de desenvolvimento mais ou menos estáveis.
Semelhantes considerações, como pode se
compreender, não devem ser deixadas de lado na análise do assunto que serve de
título a este texto. Da mesma forma, de uma análise imparcial da própria
Doutrina Espírita deve nascer um modelo de idéias que consiga descrever
corretamente o que se entenda por “aspecto científico” do Espiritismo. De posse
desses dois ingredientes (compreensão correta do aspecto científico do
Espiritismo e do significado da Ciência) podemos então considerar seriamente um
debate sobre a relação entre esses dois ramos do conhecimento humano.
Apresentamos aqui brevemente alguns subsídios para se iniciar esse debate.
2. Noções
incorretas de ciência espírita e ciência normal. Discutindo um modelo mais
apropriado de ciência.
Um número razoável de espíritas e
simpatizantes procuram abordar o aspecto científico do Espiritismo de forma a
moldá-lo segundo a visão parcial do conhecimento considerado genuinamente
científico. Essa visão parcial vê a ciência como uma atividade extremamente
rigorosa em seus métodos de análise, e acredita que os sucessos obtidos com o
desenvolvimento científico – que permitiram compreender os fenômenos e
desenvolver novas aplicações tecnológicas – são produto direto desse rigor
metodológico. Nada poderia estar mais longe da realidade. O sucesso da ciência
atual, que se materializa na forma de produtos tecnológicos e sofisticados
métodos numéricos de reprodução da realidade em seus mínimos detalhes, não
decorre apenas de um rigor metodológico qualquer que seja ele, mas
principalmente das teorias que nascem em sua forma primitiva na cabeça dos
cientistas. Semelhante compreensão parcial da realidade é comum para muitos
espíritas que acreditam que os fenômenos espíritas devam satisfazer necessariamente
a critérios de adequação empírica conforme os moldes das ciências normais. Para
esses, a “ciência espírita” tem a haver unicamente com a parte fenomenológica
(na forma da mediunidade em seus múltiplos aspectos) com exclusão de qualquer
consideração de princípios. O Espiritismo é visto como um amontoado de
fenômenos a partir dos quais se pode inferir um conjunto de afirmações mais
gerais e deduzir conseqüências. Seguindo esse caminho, logicamente os
inimigos do Espiritismo se comprazem em negar os fenômenos ou inventar
explicações alternativas que parecem atingir os supostamente deduzidos
princípios espíritas. Coincidentemente, essa visão também é popularmente
atribuída à ciência. De uma maneira simplificada podemos esquematizar o
entendimento popular de ciência – que dá origem ao chamado “método científico”
– de acordo com a Fig. 1.

Nessa figura, um observador bem intencionado
(quer dizer, isento de pré-julgamentos ou explicações próprias consideradas
tendenciosas) observa os fenômenos da natureza. Essa observação deve ser igualmente
isenta e completa suficiente para não permitir perda de informação a respeito
dos fenômenos. Deve ser realizada de forma a cobrir o maior número de
“condições” possíveis, o que leva à necessidade de se repetir testes
experimentais um grande número de vezes. A partir dos fenômenos ele elabora
hipóteses consideradas razoáveis que, por um processo mal explicado, degenera
(ou se sintetiza) em “leis gerais”. Esse processo de criação de leis gerais é
denominado indução. A partir das leis induzidas outros fenômenos
semelhantes (ou os mesmos) podem ser explicados por um processo denominado dedução.
Um ponto importante a ser considerado diz respeito às conseqüências para o
desenvolvimento de uma ciência se o modelo mostrado na Fig. 1 for considerado
ideal. Compreensivelmente pode-se com ele destruir qualquer tipo de
explicação negando-se simplesmente os fenômenos. Desde que esses não existam,
não há sentido em se acreditar nos princípios deles supostamente induzidos. Isso
acontece com os que negam inúmeras vezes com os fatos psíquicos, e com ele a
idéia de comunicação entre vivos e mortos e a sobrevivência dos seres após a
morte.
Como dissemos, o sucesso da ciência
contemporânea bem estabelecida advém de sua estrutura intrínseca onde os fenômenos
não têm papel central. O papel principal no estabelecimento da ciência é
atribuído aos paradigmas ou teorias. Muitas vezes pode acontecer que uma
determinada teoria seja melhor que uma outra, ao mesmo tempo que ninguém
acredite nela. Teorias como realizações mentais ou afirmações sobre o mundo são
criadas livremente por um grupo restrito de cientistas (às vezes apenas um
indivíduo), e portanto, fazem parte de sua bagagem cultural como crenças. É
pela adequação dessas teorias aos fenômenos que elas se tornam aceitas a um
grupo maior. O problema é que a definição de experimentos ou a previsão de
determinadas ocorrências fenomenológicas depende da teoria. Poderíamos dar
inúmeros exemplos dessa situação. Em física – que é uma das ciências comumente
consideradas com grande prestígio – é bastante nítido a ocorrência de
“previsões experimentais” como resultado direto de teorias sofisticadas onde
nada remotamente parecido com o fenômeno em questão tenha entrado como
ingrediente. Algumas outras vezes, são feitas previsões de objetos ou
circunstâncias nunca observados anteriormente. Essa inversão de papéis, no que
tange à importância para o desenvolvimento da Ciência entre teoria e
experimento, é a principal causa de confusão tanto no que se refere à compreensão
correta da Ciência em si como do aspecto científico do Espiritismo. Conseqüentemente
deve-se fazer um esforço para compreender essa inversão a fim de que seja útil
na discussão da relação entre o Espiritismo e a Ciência.
A Ciência só tem início com a teoria. Essas
podem ter qualquer origem – sejam motivadas por algum acontecimento
experimental ou por algum sonho de pesquisador (como no famoso caso do sonho de
Kekulé ao conceber o formato dos anéis de carbono no benzeno). A origem do
conhecimento científico não é importante para a Ciência. Isto que dizer que uma
determinada teoria não tem valor maior ou menor conforme sua origem, embora
muitos cientistas sejam levados a crer ou não nelas de acordo com a força de
autoridade de seus proponentes. A partir da proposição da teoria, segue a
tentativa de explicação dos fenômenos com ou sem a ajuda de leis complementares
que não fazem parte do núcleo principal da teoria. Como um exemplo rápido
podemos considerar o processo de previsão de tempo na meteorologia. As leis que
governam os fenômenos meteorológicos são leis físicas, assentadas em princípios
térmicos e termodinâmicos. Para prever a situação de tempo com todos os
detalhes, pode-se construir modelos numéricos sofisticados onde essas leis
estejam embutidas juntamente com “condições de fronteira” específicas tais como
a separação entre continentes e mares, o estado inicial de temperatura de uma
determinada região, a posição do sol (sua altura em relação ao solo) etc. Essas
são as leis complementares.
Dissemos que a maior parte das pessoas
considera a noção popular a própria essência do “método científico”. Isso é
particularmente forte nas denominadas “ciências parapsicológicas”, ou o
conjunto de disciplinas que tem como objetivo explicar de maneira supostamente
científica os fenômenos mediúnicos no Espiritismo. Essas disciplinas apresentam
escassa discussão teórica, dando enorme ênfase a descrição puramente
fenomenológica dos fatos psíquicos. Quando são fornecidas explicações, essas
procuram ligar-se fortemente aos fenômenos. Dessa forma, é comum a tentativa de
explicação simplificada para cada fenômeno. Assim a telepatia é invocada como
“hipótese” para explicar as comunicações dos Espíritos, negando-se a existência
desses últimos. Ora a “telepatia” é definida simplesmente como a capacidade de
transferência de informação entre duas “mentes” (no caso, pessoas). Essa
capacidade pode ser constatada de forma experimental. É um fato e não um
princípio sobre o qual se possa estabelecer uma explicação. Nas “ciências psi”
busca-se dar explicações aos fatos utilizando-se os próprios fatos. Nesse
processo explicações são muitas vezes tornadas verossímeis pela sua designação
por nomes empolados, difíceis de se pronunciar e com nenhum apelo intuitivo. É
muito conhecida a frase, dada a guisa de explicação, de que os fenômenos psíquicos
se fundamentam nas capacidades desconhecidas do cérebro. Diz-se que os seres
humanos normais utilizam apenas “10% da capacidade cerebral”. Ora, qual a base
para semelhantes afirmações? Como se mede essa capacidade cerebral? Nas
“ciências parapsicológias” ocorrem falhas graves de compreensão dos verdadeiros
atributos de uma disciplina para ser denominada ciência.
Já discutimos muito brevemente que uma
verdadeira ciência se constrói utilizando modelos, teorias ou paradigmas. A
Fig. 2 ilustra essa “concepção de ciência” mais próxima da realidade. Há num
centro irradiador de explicações (a teoria), e integrado naturalmente aos
fenômenos naturais a respeito dos quais a teoria ou paradigma versa. Leis complementares
reforçam a estrutura do paradigma e integram os princípios, que fazem parte
dele, aos fenômenos. Juntamente com essas leis, o paradigma fornece explicações
para os fenômenos, inclusive alguns desconhecidos. É possível assim que no
corpo teórico que constitui o paradigma, já exista o gérmen para explicação de
muitos fenômenos nunca observados. Esse modelo encontra respaldo na história do
desenvolvimento de muitas ciências bem sucedidas.
Também o modelo da Fig. 2 não faz nenhuma
referência à necessidade externa de “instrumentos especiais de medida” e nem a
métodos supostamente rigorosos de medida experimental, pois a existência desses
aparelhos (a explicação de seu funcionamento) só se justifica pelo paradigma
que para eles fornece explicação. É o caso, por exemplo, da utilização de
equipamentos ópticos para estudar o movimento dos planetas e outros corpos
celestes. A explicação do funcionamento dos equipamentos é fornecida pela
óptica, uma área da física, não necessariamente ligada à astronomia ou
astrofísica. É possível englobar os princípios da óptica e da mecânica dos
corpos em um corpo de teoria comum (no caso a “física”), mas prefere-se
mantê-los separados por referirem a domínios fenomenológicos diferentes.
Ressaltamos porém que o grau de complexidade desses aparelhos não tem correlação
alguma com o rigor com que eles realizam suas medidas. Muito ao contrário,
nesse modelo, estimula-se a realização de testes experimentais simples, de observação
direta, onde haja pouca influência de fatores de erro a comprometer a
realização das medidas. No modelo da Fig. 2 a teoria tem papel fundamental e
não o fenômeno. Desde de que se creia e desenvolva a teoria, explicações para
os fenômenos irão aparecer. Visto de outra forma, os fenômenos são justificados
(explicados) pelo modelo a ponto de só poderem ser percebidos por aqueles que
disponham de conhecimento do paradigma. Muitas vezes é possível notar que um
mesmo paradigma fornece explicações para inúmeros fenômenos – muitos deles
tratados inicialmente como sem correlação alguma com a teoria. Há inúmeros exemplos
como esses nas chamadas “ciências normais”, as ciências que se desenvolveram historicamente
segundo o modelo “paradigmático” de ciência. Percebe-se que a negação dos
fenômenos não traz conseqüência alguma para a ciência vista nesse sentido pois
o paradigma tem papel fundamental. Nesse caso, negar um fato soa profundamente
suspeito de falha de compreensão da teoria ou paradigma. Não há também nenhuma
preocupação com o grau de comprometimento do cientista com sua crença: pelo
contrário admite-se abertamente que ciência é uma atividade onde a criatividade
e crença particular do cientista tem uma importância muito grande e benéfica
para a ciência. Há, porém, limites para a livre criação, o corpo teórico deve
ser inter-relacionado e coerente, isto é, seus princípios não devem conflitar
entre si. Além disso, a excelência de um determinado paradigma é medido em
termos de sua capacidade de explicar os fenômenos a ele ligado e também prever
outros. Assim, não basta apenas criar muitas explicações, essas originam-se de
princípios mais primitivos e harmônicos, mais ou menos imutáveis2.
Entendemos que a parte científica do
Espiritismo deve ser entendida conforme o modelo da Fig. 2. Nele os fenômenos
são parte secundária e não fundamental da doutrina. A Doutrina Espírita contém
o núcleo principal teórico da ciência espírita. Da utilização de leis
complementares chega-se a explicação dos fatos. No caso dos fenômenos
mediúnicos, a existência do perispírito como agente intermediário entre o
Espírito e o corpo material é fundamental para compreender a imensa maioria dos
fenômenos mediúnicos também denominados psíquicos. Entretanto, a Doutrina
Espírita vista como paradigma com conseqüências mais profundas, abarca um
conjunto muito mais extenso de fenômenos: fenômenos sociais (principalmente
comportamentais), biológicos, históricos, patológicos etc. Assim, embora não
seja seu objetivo principal, o Espiritismo contribui a muitas áreas do conhecimento,
em particular àquela que busca compreender a origem, essência e futuro do homem
entendido como uma criatura sem limite no tempo. O Espírito é assim o objeto de
estudo da ciência espírita e o paradigma espírita é formado por um conjunto
harmônico e mais ou menos fixos. Princípios como a existência de Deus, do
espírito como elemento fundamental (além da matéria), da evolução do espírito e
da comunicabilidade entre os Espíritos e os homens (reinterpretados como Espíritos
encarnados) são alguns dos princípios fundamentais. Esses princípios juntamente
com outros (tal como a busca da felicidade por parte das criaturas) explicam e
prevêem os fenômenos. Consideremos o caso das doenças denominadas
“psiquiátricas”. Faz parte desse enorme grupo de patologias mentais, (que
afetam o comportamento do indivíduo) um grupo não menos importantes de doenças
provocadas por influências espirituais – as obsessões em seus mais diferentes
graus. Compreender o surgimento dessas doenças, que fornece idealmente a base
para um tratamento eficaz, é tarefa simples para o Espiritismo (desde que
corretamente aplicado), mas muito difícil para as correntes que negam a
existência do Espírito, e que buscam uma explicação puramente material. Já
citamos aqui a telepatia. Dentro do paradigma espírita, a comunicação entre
Espíritos é um fato bem estabelecido. Em particular, a comunicação entre
Espíritos encarnados é uma forma particular dessa capacidade de comunicação.
Temos assim uma explicação muito natural (dizemos “intuitiva”) da telepatia.
Essa explicação funda-se num princípio muito mais geral que explica simples e
igualmente bem a enorme variedade de comunicações ou fatos psíquicos.
3. Como
se deve entender a relação entre o Espiritismo e a Ciência.
Depois dessa discussão inicial, fica claro
que não se pode falar em uma receita infalível, tal como o sonho de um método
rigoroso, para se fazer ciência. Ela é o resultado de uma atividade altamente
complexa e integrada no tempo através de grupos de indivíduos formando uma
cultura. O Espiritismo, diante das considerações feitas, classifica-se
plenamente como uma doutrina científica. Não segue daí que deva adotar o modelo
popular de ciência por algumas das falhas que discutimos anteriormente. Essa
discussão é importante para os que consideram a Doutrina Espírita, desenvolvida
nos livros básicos de Allan Kardec, como conhecimento ultrapassado. Não existe
nada mais longe da realidade. Como dissemos, o corpo principal da teoria é
protegido com certa rigidez. Modificações no paradigma só acontecem – são
conclusivamente admitidos como necessários – se houverem razões muito fortes
para isso. Tal não é o caso do Espiritismo proposto pelos Espíritos que
auxiliaram Kardec. Da mesma forma que negar os fenômenos é sinal de falha na
compreensão do paradigma, com muito mais razão, as tentativas de “reforma” do
núcleo principal do Espiritismo (invenção de novos princípios em desacordo com
aqueles) é sinal forte de falha na compreensão desses princípios. Clamores
recentes nesse sentidos são assentados em considerações bastante pueris, e
deixam entrever uma dificuldade de compreensão do verdadeiro caráter do
Espiritismo entendido como ciência.
A tarefa agora é começar a entender como se
estabelece a relação entre o Espiritismo e as ciências. Certamente não será
objetivo do Espiritismo competir com esses ramos de atividade humana. Por isso,
não é tarefa do Espiritismo fornecer explicações alternativas ou
desenvolver o núcleo principal das ciências com as quais o Espiritismo faz
fronteira. Não se deve esquecer que o Espiritismo como movimento é uma realização
humana. O cientista que é espírita – se trabalha profissionalmente com alguma
dessas áreas correlatas – tem seus próprios meios e procedimentos, advindos do
estudo adquirido de sua atividade. Como faz parte do processo de
desenvolvimento da ciência normal, ele pode (e deve) utilizar-se dos meios a
sua volta (inclusive sua própria cultura) para fazer desenvolver sua ciência
que tem suas regras próprias. Como dissemos, a ciência não faz caso da origem
do conhecimento, o importante é que esse se organize como um paradigma bem
estruturado, coerente e naturalmente integrado aos fenômenos. Fazemos abaixo
alguns breves comentários das regiões de fronteira entre a Doutrina Espírita e
as ciências enfatizando alguns pontos que nos parecem interessantes:
Espiritismo X Astronomia: é bem conhecida as descrições da origem do sistema
solar (nebulosa primordial) existente no livro “Gênese” [2] de Allan Kardec. O
capítulo VI de “Gênese” também fala de inúmeras galáxias (denominadas
“nebulosas” – entendidas como agrupamentos de bilhões de estrelas como a
“Via-Láctea”) numa época em que não se havia certeza desse fato. Há relatos de
comunicações de Espíritos anunciando a existência de satélites desconhecidos em
outros planetas. Além disso, o Espiritismo parece ter se antecipado às
discussões que deram origem à exobiologia, proposta para estudar as formas de
vida extraterrestres. É interessante observar que, uma vez classificada como um
planeta qualquer, a Terra passou a ser vista como um dos muitos planetas a ter
vida inteligente no Universo (algo muito difícil de se acreditar no século 19).
O Espiritismo prevê abertamente, pelo princípio da “pluralidade dos mundos
habitados”, a existência de vida inteligente fora da Terra (ainda a ser
verificada pelos métodos normais – contato físico). Antes disso, porém, previu
a existência de inúmeros planetas orbitando as estrelas, um fato que se tornou
tema de pesquisa contemporâneo, graças ao desenvolvimento de novos métodos de
observação muito mais precisos. Muitos planetas foram encontrados a partir de
1990 em torno de estrelas próximas.
Espiritismo X Física: aqui deparamo-nos com algumas afirmações feitas em
“O Livro dos Espíritos” que parecem ter antevisto a modificação radical por que
passaria a física a partir do século 20. Os Espíritos falaram em uma forma que
“que não sois capaz de apreciar” [4] a respeito da estrutura dos átomos (uma
alusão às “nuvens de probabilidade” dos elétrons?) num contexto bastante
diferente para a física da época. Considerações sobre a origem do Universo são
feitas no começo de “O Livro dos Espíritos”, levando o Espiritismo para a
fronteira com a cosmologia. É preciso, porém, ter cautela em se tratar a
questão inversa: a da influência da física no Espiritismo. Muitos falam
abertamente nas diversas “energias” que constituem o mundo espiritual,
esquecendo-se que “energia” é um conceito muito bem definido em física e que
não admite reinterpretações dessa forma [5]. Outros levantam a possibilidade de
entender o próprio mundo espiritual como um “contínuo quadridimensional” do
mundo físico. Para se utilizar conceitos e sugestões advindos do Espiritismo na
física, faz-se necessário grande competência em física uma vez que os núcleos
das teorias (tanto do lado espírita como material) possui certa resistência a
mudanças, além de estar fundamentado em teorias profundamente matemáticas. Por
isso mesmo, tentativas de modificação de conceitos por sugestão de ambos os
lados (de um lado para outro) são muito duvidosas no que diz respeito a
qualquer avanço significativo no conhecimento. É importante também considerar
as questões de diferença de linguagem (significado de termos e conceitos dentro
de cada teoria particular) quando essa linguagem tenta conectar um fenômeno
supostamente descritível tanto pela física como pelo Espiritismo. Minha
impressão particular é de que o grau de especificidade atingido pela física
(especialização na forma de pulverização de campos de competência) torna pouco
viável qualquer tentativa “fácil” de interação.
Espiritismo X Biologia (medicina): aqui a fronteira torna-se um pouco mais nítida. Em
“O Livro dos Espíritos”[6], existem muitas questões a respeito da origem dos
seres vivos. É também na “Gênese” que existe um famoso capítulo sobre a gênese
orgânica. Naturalmente, esse capítulo faz eco às concepções da época, ainda às
voltas com a “teoria da geração espontânea”, então a teoria mais aceita. É no
Capítulo XI da II Parte de “O livro dos Espíritos” [3] que vamos encontrar
questões cujas perguntas reafirmam a natureza espiritual de todos os seres
vivos e sua submissão à lei de progresso. Naturalmente, os mecanismos da
evolução das espécies não estão afirmados nesses livros, mas o princípio de
evolução espiritual ajusta-se perfeitamente bem aos princípios da seleção
natural, representando um mecanismo de modificação que atua na parte material
levando o Espírito a se desenvolver. É importante considerar que as discussões
sobre a gênese orgânica são complementares para a compreensão da Doutrina e seu
desenvolvimento. Por isso esses pontos, assim como muitos outros, sofrem e
sofrerão modificação, sem que haja impacto ao corpo principal de doutrina.
Tal não é o caso, porém, com as inúmeras
patologias da alma [7] que citamos acima. Nos quadros obsessivos, a ação do
Espírito obsessor pode levar ao colapso orgânico do obsidiado. A origem da
doença, em sua íntima essência, encontra-se assim descrita através desse quadro
de “simbiose espiritual”. É difícil entender como outra teoria – que desconheça
a ação dos Espíritos – possa ter um sucesso maior no desenvolvimento de uma
terapia apropriada. Aqui vê-se claramente a enorme importância dos princípios
espíritas no desenvolvimento de certos ramos da medicina pois não se trata
apenas de construção ou progressão da ciência mas do desenvolvimento de
terapias apropriadas a inúmeros transtornos mentais.
Espiritismo X História: as contribuições que o Espiritismo pode dar à
História são bastante evidentes. Um aspecto bastante inovador surge aqui, que é
o de considerar os relatos históricos fornecidos pelos Espíritos, quando por
meio de médiums conhecidos. São notórios os casos de médiums que colaboram com
investigações policiais na elucidação de crimes. No Brasil a psicografia já
ajudou a elucidar vários assassinatos. Com médiums equilibrados, os Espíritos
podem fazer revelações úteis ao progresso moral da sociedade e, muitas vezes,
essas revelações trazem noticias de relevante valor histórico (como no caso dos
inúmeros romances históricos de Emmanuel por meio de Francisco C. Xavier).
Espiritismo X Psicologia: o Espiritismo tem muito a contribuir com as
disciplinas que tem como objetivo de estudo o homem em sua essência. Esse é o
caso da Psicologia. Podemos falar em uma psicologia espírita que nasce por
“inspiração” dos postulados da doutrina (principalmente de suas conseqüências
morais) na maneira de viver, de se comportar e de interagir dos seres humanos.
O conhecimento da lei de evolução e reencarnação é crucial para se entender as
tendências inatas dos seres humanos que determinam o comportamento para além
das limitadas considerações genéticas. Esse certamente é um campo com grande
futuro, onde apenas vislumbramos um começo.
Espiritismo X Sociologia: o comportamento social e evolução das sociedades é
função de seu desenvolvimento cultural, de seu passado e da maneira de ser de
seus indivíduos. Como no caso da História e da Psicologia, o Espiritismo tem muito
a contribuir para o estudo e desenvolvimento da história social do homem uma
vez que o compreende como Espírito em perene evolução. Há uma interação natural,
desde a mais remota antigüidade entre o mundo material e o plano espiritual.
Esse fluxo é responsável pelo aparecimento e desenvolvimento de muitas religiões
e culturas consideradas “inspiradas”. Dos princípios e informações fornecidos
pelos Espíritos é possível complementar a história sociológica de várias sociedades.
Todos esses campos (assim como outros não
listados acima tais como as artes) aguardam um futuro quando o espírita
cientista seja capaz de utilizar judiciosamente o conhecimento espírita, de
acordo com as regras estabelecidas por sua ciência particular. O objetivo não é
fazer o Espiritismo brilhar para a sociedade como um concorrente das ciências,
mas como fonte de inspiração e origem para proposição de novos mecanismos de
explicação dos fenômenos e ocorrências característicos de cada uma delas.
Considerações diferentes dizem respeito à
atuação do cientista espírita. Por esse termo referimo-nos àqueles que
pretendem desenvolver a ciência espírita a partir de seus princípios ou com a
modificação desses, utilizando idéias advindas de outras ciências. É uma
conseqüência natural que se pretenda estabelecer um ambiente acadêmico espírita
– uma vez verificado o caráter científico do Espiritismo. Mas cautela é
necessária para não exagerar demais nas comparações. Se o Espiritismo é de fato
uma ciência não segue daí que no nosso momento histórico ele deva se preocupar
com o estabelecimento de um ambiente acadêmico como uma cópia dos ambientes
acadêmicos de outras ciências. Todos sabemos dos efeitos que a excessiva profissionalização
pode trazer em detrimento do fluxo de idéias, gerando estagnação. Imaginamos
que no presente momento de desenvolvimento e expansão da Doutrina Espírita não
temos um ambiente completamente apropriado a efetiva realização dos objetivos
de um ambiente puramente acadêmico. Outras considerações sobre essa questão
serão feitas em texto futuro.
4.Alguns
comentários finais.
Tentamos limitadamente neste texto discutir
algumas idéias sobre o conceito moderno (paradigma) de ciência “normal” – bem
amadurecida – e o que seria compreensível como uma salutar relação dessa
ciência com o Espiritismo. A aplicação padrão dos procedimentos de construção
da ciência leva a plena formação e progresso do conhecimento científico. A
tentativa forçada de se estabelecer relações – não sugeridas pelo
desenvolvimento científico mas imaginadas como situações idealizadas – não só
conduz a perda de tempo como ao descrédito. Da parte do Espiritismo, tentativas
forçadas de querer transcrevê-lo ou moldá-lo segundo normas ou procedimentos de
outras ciências pode conduzir a ilusão de falsificação da doutrina uma vez que
o conhecimento científico e sua interpretação é função de um contexto altamente
específico e mutante mas desconexo em relação a ela. Por outro lado, querer misturar
conceitos de outras ciências com princípios espíritas não é científico pois
dentro da noção de paradigma cada um deles deve ser entendido dentro de seu
contexto de pesquisa (ambientação acadêmica) não se permitindo enxertias ou
fusões ainda que muito bem intencionadas.
Aprendamos a ver cada ciência – o
Espiritismo entre elas – como linguagens a respeito do mundo. No
procedimento de comunicação normal, plena compreensão só é conseguida quando o
emissor e o receptor dispõem de bagagem lingüística comum. Todo e qualquer
procedimento de tradução leva necessariamente a perda de significado pela
impossibilidade de se transcrever plenamente determinados conceitos e idéias
típicos de um determinado referencial lingüístico. O Espiritismo é uma
linguagem a respeito do mundo espiritual, criada e desenvolvida para transmitir
conceitos sobre esse mundo. As ciências materiais são linguagens distintas que
tratam de outro cenário, embora o “palco” apresente áreas comuns ou adjacentes
que no momento não dispomos de linguagem apropriada para descrever.
Entretanto, a própria evolução das ciências
levará a criação de uma linguagem comum em futuro incerto (talvez distante para
o nosso calendário). Esperamos que quando esse futuro acontecer, o Espiritismo
tenha cumprido em sua totalidade seu papel fundamental que é o de promover a
efetiva reforma moral em todos os Espíritos que dele tiverem se aproximado
buscando consolo e refazimento moral.
Agradecimento
Agradeço ao Alexandre F. da Fonseca pela
leitura e comentários a esse texto.
Referências
[1] A. F. Chalmers, “O que
é ciência afinal ?”, (1993), Ed. Brasiliense.
[2] A. Kardec, “A Gênese”, Uranografia
Geral, o espaço e o tempo (Cap. VI). Ed. Federação Espírita Brasileira, 34a
edição (1991).
[3] A. Kardec, “O Livro dos
Espíritos”, Trad. Guillon Ribeiro, Ed. Federação Espírita Brasileira, 71a
edição (1991).
[4] Referência [3] ,
questão 34.
[5] A. P. Chagas, Polissemias
no Espiritismo, Revista Internacional de Espiritismo, pp. 247-49, Setembro
de 1996.
[6] Referência [3], Cap.
III.
[7] I. Ferreira, “Novos
rumos à medicina”, Vol. I, Tratamento dos processos obsessivos no Sanatório
Espírita de Uberaba, Edições Federação Espírita do Estado de São Paulo
(1990).
1 Para uma introdução básica ao assunto ver [1] .
2 Essa imutabilidade não deve ser entendida com a rigidez dos
dogmas. Há um conjunto de regras muitas vezes não explícitas que protegem o
conjunto de princípios de modificações mal justificadas.
Fonte:
Boletim GEAE Nº 472 – março/2004
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