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Vinícius Lousada
“A união faz a força; sede unidos para
sede fortes.”
São Vicente de Paulo [1]
Como mourejamos no movimento
espírita, algumas vezes ouvimos falar da unificação
sendo exposta sem a clareza do seu real significado, restrita ao cumprimento de
protocolos sociais e às formalidades humanas. É triste como algumas palavras
caem no senso comum, vulgarizam-se e se transformam em jargão. Viram moda, esvaziando-se de seu sentido para nomear outras
coisas, que não raras vezes são até contraditórias se postas em análise
cuidadosa.
Muito se fala em unificação e é bonito realizar alguma
referência ao que disse Dr. Bezerra sobre o assunto, mas é triste apenas
repetirmos as suas palavras sem pensarmos maduramente sobre as mesmas, que
muitas vezes são desmentidas nas nossas ações na casa espírita ou no âmbito do
movimento espírita, para não falarmos dos outros setores de nossas vidas... Não
queremos com esta reflexão, desconsiderar os sábios conselhos do Médico dos Pobres, muito pelo contrário.
O que estamos propondo é que venhamos pensar sobre a nossa compreensão do que
seja a unificação da família
espírita, que se constitui na união
indispensável ao fortalecimento de nosso movimento doutrinário e para uma
efetiva ação coletiva no melhoramento de nosso mundo, a fim de que nós
espíritas não nos tornemos em mais um movimento religioso alienado.
Allan Kardec, ao propor o Projeto 1868,
que se constitui num plano de organização do movimento espírita, visando a
propagação da doutrina de modo mais estruturado e o entrelaçamento fraterno das
sociedades espíritas – com relações pautadas na caridade, na abnegação e na
humildade –, aponta a falta de unidade
doutrinária como sendo um dos maiores obstáculos
ao avanço da Causa Espírita.
A incompreensão dos postulados
espíritas leva inquestionavelmente à divisão, à rivalidade entre aqueles que se
crêem donos da verdade, querendo
impor-se à maioria com base em revelações
particulares, incapazes de serem
sustentadas perante a lógica do bom senso
ou ao Controle universal do ensino dos
Espíritos, critério este que reza o seguinte: “Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a
concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente,
servindo-se de grande número de médiuns, estranhos uns aos outros e em vários
lugares.”
Então, a primeira premissa para a
união dos espíritas é o entendimento dos postulados lecionados pelos Amigos da Verdade, de outra forma,
surgirão as dissidências, as rivalidades
vazias por causa das guerras de palavras, originadas nas leituras personalistas destituídas do
intuito honesto de se aprender a Doutrina
dos Espíritos. Aliás, o que demonstra a sinceridade da fé raciocinada do
espírita é o desejo constante de colher na doutrina os meios de reformar a si
mesmo e a sua dedicação num estudo sério de suas obras basilares.
Outro ponto capital para o processo
de unificação, sem o qual todo esforço
intelectual perde sentido, é o laço da fraternidade recíproca que deve nos
unir. Este tem de se configurar num sentimento de lídima caridade evangélica a
ser nutrido de uns para com os outros, mesmo que tenhamos diferenças conceituais
ou nas formas de agir.
Na Casa do Caminho, a “multidão dos que creram eram um o coração e
a alma,
o que quer dizer que viviam num só interesse: o de servir ao Cristo na
propagação da boa nova e no soerguimento dos pobres.
Embora nem todos pensassem da mesma forma porque eram individualidades, o seu
amor em Cristo levava homens e mulheres simples a conjugarem esforços para a execução
da implantação do Reino.
Caso nos reportemos ao Cristianismo
do século III, vamos reconhecer o estabelecimento de um laço moral
inquebrantável entre os cristãos que eram assolados por perseguições insanas e
arrastados até os circos romanos pela incúria do poder dominante, para que
fossem martirizados caso não renunciassem a Jesus; e dessa forma, vamos
descobrir que os filhos dos mártires eram acolhidos pelos companheiros de ideal
como membros de uma mesma família, do modo que acontecia na comunidade cristã
de Lião, conforme a narrativa do mentor espiritual de Chico Xavier, Emmanuel.
Não será esse o espírito da unificação dos tempos apostólicos no
qual devemos nos inspirar, o de sermos uma grande família, solícitos em amarmos
uns aos outros?
Esse ideal também foi revivido entre
os irmãos menores que acompanhavam Francisco de Assis na aventura de fazer
acontecer o inédito viável (a utopia)
de reerguer a Igreja do Cristo. Além
de laborarem para a sobrevivência digna, num regime de austero casamento com a pobreza,
os tutelados do Pobrezinho
entregavam-se ao socorro dos deserdados do mundo e conviviam alegremente numa
irmandade pacífica, embalados pelos cânticos que entoavam em louvor à vida, num
cristianismo dinâmico.
Kardec previa a necessidade da
construção de uma rede de relações entre as sociedades espíritas e seus membros
quando sugeria: “Esses grupos,
correspondendo-se entre si, visitando-se, permutando suas observações, podem,
desde o presente, formarem o núcleo da grande família espírita que congregará,
um dia, todas as opiniões, e unirá os homens num mesmo sentimento de
fraternidade, selado pela caridade cristã”. Mas não deixou de advertir antes: esse “(...)laço não pode existir senão entre
aqueles que lhe vêem o objetivo moral, o compreendem e o aplicam a si mesmos.”
Conscientizemo-nos que a casa
espírita é o reflexo da natureza de seus indivíduos e a regra se aplica também
ao movimento espírita num âmbito global, ele é o resultado de suas
“instituições – base”, se estas forem formadas por criaturas atrasadas
moralmente, o movimento não refletirá tão cedo a beleza do Espiritismo.
Assim, é fundamental que percebamos
a necessidade de estudarmos muito a Doutrina Espírita e de nos unirmos em
nossas localidades – sem imposições descabidas –, trocando idéias, ouvindo-nos
e abraçando-nos mutuamente como companheiros dispostos a estreitar os vínculos
de amizade real, alimentando nossos sonhos de mudarmos o mundo e mudarmos a nós
mesmos em ações conjugadas junto aos “sem-ninguém”; sendo sempre companheiros
dos que labutam na Causa. Afinal de
contas, “aqueles que estão imbuídos dos
verdadeiros princípios desta Doutrina, vêem irmãos em todos os espíritas”.
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