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Mediunidade Santificada

 

 Vinícius Lousada

“A mediunidade é coisa santa e deve ser praticada santamente, religiosamente.”

– Allan Kardec

 

            Na epígrafe acima, verificamos de maneira indelével, esta amadurecida recomendação que diz respeito à prática da mediunidade de forma desinteressada, em virtude de sua santa finalidade de educar as criaturas dos dois âmbitos da vida, despertando desencarnados e encarnados à consciência de sua própria imortalidade e à responsabilidade dela advinda.

A experiência mediúnica séria consiste numa sala de aula inter-existencial em que, como partícipes, ensinamos e aprendemos ao ouvir os dramas daqueles que se desnortearam nas escolhas equivocadas sobre os rumos que tomaram nas suas vidas.

 Ocorrem também, produtivas trocas de informações naquelas proveitosas tertúlias em nossas casas doutrinárias, onde dedicamo-nos à orientação dos libertos do escafandro corporal, contribuindo assim para o crescimento intelecto-moral daqueles que são orientados e dos que nos fazemos esclarecedores, sem contudo nos descuidarmos das sábias e justas orientações de nossos benfeitores espirituais para com as nossas lutas cotidianas.

            A vivência mediúnica equilibrada, eivada de espírito de renúncia e abnegação promoverá o médium que, na sua condição de intérprete dos espíritos, realiza a filtragem dos conteúdos que veicula, como agente transmissor do recado do além, oportunizando-se amplo aprendizado, no que tange não somente aos postulados doutrinários, como também sobre as Leis da Vida e a ação amorosa da Providência Divina em prol da realização plena dos Filhos de Deus.

Ao experimentarmos como co-partícipes a comunicação espiritual, se atentos à nossa auto-educação, muito embora busquemos um estado de passividade mental para a boa consecução do fenômeno medianímico,  seremos capazes de meditarmos mais tarde a respeito dos registros que foram feitos, do porque dos complexos pugilatos morais e estertores que enfrentam espíritos sofredores, sua relação com as atitudes impensadas que tomaram, com base em seu próprio livre-arbítrio, justificando-se nas mais variadas razões, sem contudo observarem a Lei de Amor.

Os médiuns espíritas notaremos assim, que tudo ocorre dentro das normas divinas, por conta do Código Penal da Vida Futura[2], de forma que Deus jamais deserda seus filhos do mesmo modo que nunca anui com o erro, como também fariam os mais prestimosos educadores terrestres.

Por outro lado, verificaremos que os Bons Espíritos, os Amigos da Vida Maior, não se cansam de apontar o caminho do bem como único roteiro capaz de divisar-nos um estado de felicidade na vida futura e destacar o egoísmo como a raiz de todos os males[3], como é possível apreender na palavra das Vozes do Céu através do estudo da codificação kardequiana.

            É nesse circuito do exercício de doação da aparelhagem orgânica e de recursos fluídicos, num autêntico serviço de enfermagem espiritual, que temos farto material de estudo prático a ser “cruzado” com a bagagem teórica – estabelecida previamente e de aprimoramento contínuo –, convidando-nos incessantemente a emendarmo-nos, a corrigirmo-nos, na conquista dos tesouros que os ladrões não furtam e nem as traças e a ferrugem podem corroer[4], mesmo que as dificuldades assomem à nossa volta, por querermos ser éticos, honestos e justos num mundo que o pessimismo pós - moderno diz ser dos espertos, dos utilitaristas.

            Provavelmente sentiremos, na atividade de medianeiros espíritas, a palavra do Rabi Galileu ordenando-nos ao coração, como o fez com Lázaro: Acorda Lázaro! Vem para fora! Dizendo-nos também: Desperta médium! Serve! A caridade aguarda tua cota de participação a fim de diminuir a dor e o abandono no mundo! 

Despertando assim, para os compromissos iluminativos da messe mediúnica, surgirá na pauta de nossos estudos, se almejarmos sermos médiuns responsáveis, O Livro dos Médiuns, que se configura na atualidade como o maior e mais lúcido tratado que norteia e aprofunda a experimentação das faculdades espirituais da criatura humana, exaltando a seriedade e o desinteresse com o qual esse campo do Espiritismo deve ser pesquisado e vivenciado.

            Allan Kardec, sob a égide do Espirito da Verdade apresenta para o edifício da novel doutrina esse guia dos médiuns e evocadores, naquele ambiente de primeiras horas do Espiritismo, em que o racionalismo materialista impunha aos médiuns o estigma de desordens mentais e que o absolutismo clerical, que teimava em dominar vidas, erguia a chibata do escárnio para desfigurar o verdadeiro caráter da mediunidade. Tal obra, deixa-nos um vasto espaço para a reflexão do que venha a ser a tarefa mediúnica aliada aos serviços de transformação na Terra, sob a direção de Jesus.        

E é nesse Guia Prático que Kardec vai reiterar a missão do espírita no mundo, que para nós outros se torna corolário de plena recomendação aos medianeiros de boa - vontade esclarecida: “(...) O verdadeiro espírita não deixará jamais o bem por fazer; corações aflitos a aliviar, consolações a dar, desesperos a acalmar, reformas morais a operar, aí está sua missão; nisso também encontrará sua verdadeira satisfação.(...)” [5]

Cabe-nos então, conforme podemos deduzir, a tarefa de estender o bem onde possamos, o quanto possamos, sempre que possamos, apresentando ao mundo – através de nossa conduta –  que o médium estudioso do Espiritismo não é uma figura esquisita, caricata, cheia de chiliques ou mistérios, disfarçando seus recalques ou bengalas psicológicas num ar de ser privilegiado. E que nem pode ser confundido com aqueles que comercializam a fé.

Como médiuns espíritas, precisamos ser servidores uns dos outros, apagando-nos em prol da Verdade, favorecendo-nos moralmente com a Luz da raciocinada que a religiosidade espírita proporciona, convivendo com a nossa comunidade, anotando-lhe as necessidades e apoiando nossos irmãos que atravessam duras provas de exclusão social ou estigmatização de quaisquer ordem. Por que, a mediunidade, enfim, é coisa santa e deve ser religiosamente praticada, o que equivale dizer que ela deva ser conjugada, inquestionavelmente, com a ação cristã pelos sofredores no mundo.



[1] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XXVI, item 10.

[2] O Céu e o Inferno, Livro I, 1ª Parte, Cap. VII.

[3] O Livro dos Espíritos, questão 913.

[4] Mateus  6:19.

[5] O Livro dos Médiuns, item 30.

 

 

Pensamento

 

O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier

 

 

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