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Ciência Ajuda a Entender a Evolução
Renato Costa – rsncosta@terra.com.br
O neurologista americano Paul MacLean é o autor da
teoria segundo a qual nosso encéfalo atual reflete a evolução que sofreu ao
longo das eras.
MacLean acredita que nossa caixa craniana contenha
não um, mas três encéfalos, sendo cada um deles o registro de um estágio
diferente de nossa evolução. Ele chama seu paradigma de “Encéfalo Triúnico”.
Segundo ele, os três encéfalos operam como
computadores biológicos interconectados, cada um com sua própria inteligência,
sua própria subjetividade, seu próprio senso de espaço e tempo e sua própria
memória. Cada um dos três encéfalos é conectado aos outros dois, mas opera como
um cérebro individual com capacidade própria.
O encéfalo mais antigo está situado atrás e embaixo.
O mais recente, na parte superior dianteira. O intermediário, entre eles, na
parte central.
O mais antigo dos três encéfalos
é o reptiliano, primitivo ou arquipálio , que MacLean também chama de
“Complexo-R”. Corresponde ao cerebelo e ao tronco encefálico (mesencéfalo,
ponte de Varólio e bulbo raquidiano). É responsável pelos processos de
auto-sustentação do corpo, como a respiração, o batimento cardíaco e o sono,
assim como pelos rituais imutáveis de aproximação, ataque, vôo e acasalamento,
processos que não requerem controle consciente, mas que são essenciais à vida
do animal, tanto que o encéfalo reptiliano jamais para de funcionar, nem
durante o sono profundo. O encéfalo reptiliano não muda, não aprende com a experiência.
A ele se limita quase a totalidade do encéfalo dos répteis atuais, tendo estado
presente nos répteis que precederam aos mamíferos, há cerca de 240 milhões de
anos. O encéfalo reptiliano corresponde ao comportamento mecânico, puramente
instintivo.
A maioria dos mamíferos
compartilha conosco o encéfalo paleomamífero (mamífero antigo), que corresponde
ao sistema límbico, a parte média do encéfalo. MacLean acredita ter ele surgido
após o encéfalo reptiliano, há cerca de 60 milhões de anos, tendo sido acrescentado
a este último. Os mamíferos primitivos tinham um encéfalo constituído
basicamente do encéfalo reptiliano somado ao sistema límbico.
O encéfalo paleomamífero contem o hipotálamo, o
tálamo, o hipocampo e a amígdala, que são considerados responsáveis pelas
emoções e instintos emocionais como comportamentos relacionados à alimentação,
competição e sexo. Essas emoções são importantes tanto para o indivíduo quanto
para a espécie. O encéfalo paleomamífero é capaz de aprender, pois retém
memórias de emoções que resultam das experiências onde o animal sentiu prazer
ou dor em maior ou menor grau. O encéfalo paleomamífero responde pelo comportamento
emocional.
O neocórtex, córtex ou neopálio é
o encéfalo principal dos primatas, que foram dos últimos mamíferos a
aparecerem. Ele constitui cerca de cinco sextos da massa total do encéfalo
humano, tendo evoluído no último milhão de anos. MacLean o chama de encéfalo
neomamífero, o que significa mamífero recente. Todos os mamíferos possuem
neocórtex, mas somente nos primatas e cetáceos ele é particularmente
importante. Esse encéfalo neomamífero é responsável pelas funções cognitivas
mais nobres, como a linguagem e o raciocínio. O neocórtex é responsável pelo
comportamento racional.
Como vimos, todos os três encéfalos colaboram para
produzir o comportamento dos mamíferos e do homem, em particular, que, conforme
as necessidades e circunstâncias, ora mostra-se predominantemente mecânico, ora
emocional e ora racional.
Para melhor compreendermos o quanto a teoria de
Maclean fala da evolução anímica, convém termos em mente a função organizadora
do perispírito. Esse corpo sutil de que dispomos e que, junto do Princípio
Inteligente, do qual jamais se separa, constitui o Espírito, funciona como uma
formidável memória transpessoal onde ficam registrados todos os eventos por que
passou o ser em suas inúmeras passagens pela vida física e os efeitos desses
eventos por força da Lei da Causalidade.
Assim, se no cérebro físico encontramos um encéfalo
reptiliano, por exemplo, é porque existe, no encéfalo sutil, um encéfalo
reptiliano que lhe serviu de molde. E, mais, que esse encéfalo reptiliano sutil
que se acha no perispírito é registro indelével da história anímica do ser.
Seguindo nossa linha de raciocínio, poderíamos nos
perguntar, a aceitar como válida a hipótese de evolução do homem vindo de
espécies e reinos inferiores, o porque de não existirem no encéfalo sutil do
perispírito os registros das passagens por estágio algum anterior ao de réptil.
A resposta, a nosso ver, se encontra na tese de André Luiz e trabalhada por
Jorge Andréa, de que a individualidade se define quando aparecem nos animais as
primeiras células da futura glândula pineal ou epífise.
Muitos peixes e todos os répteis, aves e mamíferos
hoje existentes possuem a epífise. Tal, no entanto, pode não ter sido realidade
na Era Mezozóica, quando, há 240 milhões de anos, segundo os cientistas
acreditam, répteis originaram os primeiros mamíferos. O Tuatara é um pequeno
réptil, existente em algumas ilhas ao norte da Nova Zelândia, que possui um
terceiro olho que se une a um primitivo corpo pineal. Ele é um fóssil vivo,
único exemplar de uma família que existe desde a Era Mezozóica, o que nos permite
inferir, utilizando a tese de André Luiz e Jorge Andréa, que os répteis que
originaram os mamíferos tinham uma epífise pelo menos tão rudimentar quanto a
dele, levando, ainda mais, à conclusão de que nenhuma espécie na história
evolutiva daqueles mesmos répteis antes que eles se tornassem répteis tivesse a
dita glândula.
Antes do aparecimento da epífise, como explica Jorge
Andréa, a alma-grupo-da-espécie tinha ascendência sobre os vórtices individuais
em início de formação. Desse modo, é natural que os registros anteriores à
definição da individualidade tenham sido gravados no molde organizador da
alma-grupo da espécie de onde a mesma se originou. Daí o não estarem presentes
no encéfalo triúnico atual.
Como vimos, o modelo proposto pelo neurologista
MacLean é bastante elegante e útil, servindo para explicar, de um modo claro e
didático, como ocorreu a evolução humana, desde os instintos mais primitivos da
vida autônoma até o uso das atividades mais nobres da mente, a razão e a
consciência, passando pela etapa intermediária de aprendizado para adaptação ao
meio.
Outra característica interessante do modelo de
MacLean é que ele permite que imaginemos o aparecimento de novas camadas em
nosso encéfalo, à medida que formos galgando os patamares que nos levarão à
perfeição.
Ao atingirmos o próximo patamar, como ocorreram nas
transições anteriores, o encéfalo hoje intitulado de neomamífero deixará de
abrigar as funções mais nobres da mente, passando as funções mais nobres, que
certamente não serão as mesmas a que chamamos hoje de “nobres”, a serem
processadas em novas camadas que irão surgir. Com esta visão parece coincidir a
constatação de que os Espíritos evoluídos são incapazes de fazer o mal. Fazer o
bem teria, quem sabe, passado a fazer parte de seus instintos.
Infelizmente, a Ciência nunca se preocupou em
examinar o encéfalo dos homens e mulheres santos que vieram ao mundo,
detendo-se exclusivamente em estudar cérebros de figuras marcantes da política,
das artes ou da própria Ciência. O exame do cérebro de um São Francisco de
Assis, de uma Santa Tereza d’Ávila, de um Mahatma Ghandi ou de um Chico Xavier
teria revelado a existência de um encéfalo tetraúnico? Teria revelado um
encéfalo triúnico, mas com sete e não seis camadas no neocórtex? Essas são
perguntas cujas respostas ficamos, por ora, a ignorar.
BIBLIOGRAFIA
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ZIMERMANN, Zalmino. Perispírito. Campinas: CEAK, 2000.
(Este artigo foi originalmente
publicado na Revista Internacional do Espiritismo, edição de Abril de 2003)
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