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Vanda
Simões
"A religião, a moral, todas as
filosofias condenam o suicídio como contrário às leis da Natureza. Todas nos
dizem, em princípio, queUma das coisas que
mais mobiliza a criatura em todos os tempos é a busca do entendimento em torno
do existir. A curiosidade ou mesmo a grande insegurança causada pelo
desconhecimento de suas origens, tem impulsionado o homem, secularmente, à
procura de respostas. A história, rica por si só, nos dá uma idéia dos caminhos
percorridos pela humanidade na construção de seu universo.
Se analisarmos o
contexto histórico de forma genérica, deixando de lado as particularidades
filosóficas, poderemos verificar que tudo gira em torno da evolução do ser, da
preocupação do homem com sua realização e futuro, embora nem sempre tenha consciência
disso. Mesmo dentro da evolução das ciências, pode-se sentir cada passo do
homem na descoberta de sua importância social, de seus valores, crenças e,
acima de tudo, da gradativa compreensão de que é parte integrante de um todo.
Nota-se também, que o
homem sempre soube que nunca esteve só no mundo. Mesmo nas épocas mais remotas
de sua existência, sempre teve essa intuição. De tempos em tempos, em ocasiões
propícias, surgem pessoas dotadas de um esclarecimento maior que vêm
impulsionar as massas, dissipar trevas e modificar conceitos, ocasionando com
isso, grandes transformações. Foi dessa forma que chegou até nós a Mensagem
Divina, bem como todas as outras que chegaram por mãos dos missionários do conhecimento,
quer seja filosófico, religioso, empírico ou científico.
Atualmente existe no
Movimento Espírita uma vertente de estudiosos que tende a considerar o
Espiritismo dissociado da mensagem cristã, como se ele tivesse surgido como uma
idéia nova, construída por necessidade de uma época e pelas mãos de um sábio
ajustado ao pensamento de seu tempo. Em nossa opinião isso é um grande
equívoco, além de contrariar inúmeras afirmações feitas pelos Espíritos
Superiores e pelo codificador do Espiritismo, Allan Kardec.
Allan Kardec, baseado
na opinião dos missionários do Alto, afirmou em diversos de seus escritos, que
o Espiritismo era a confirmação e revivescência do Cristianismo, porque teria
vindo explicar e aplicar a doutrina do Cristo à vida dos homens. Uma doutrina
renovadora que abriria para o homem um enorme leque de possibilidades, dando a
compreensão devida dos fenômenos da vida. Não falava ele de uma religião, mas
de uma doutrina, de um corpo de idéias. Faremos breve análise dos fatos, sob o
ponto de vista do pensamento religioso.
Para se entender o
presente, é necessário retroceder no tempo, à época dos antigos hebreus,
cativos no Egito. Esse povo era o único, naquele tempo, que já tinha em suas
raízes a idéia de um Deus único. Não nos deteremos na gênese dessa condição.
Sabe-se das dificuldades de compreensão dos homens da época, portanto a
existência de um povo com uma visão de vida mais voltada para os valores da
alma têm sua importância, no sentido da necessidade de ter um terreno mais
propício para semear uma nova idéia. Nesse tempo, surgia a figura de Moisés, um
homem preparado para uma missão de envergadura política, social e religiosa.
Libertaria o povo hebreu da escravidão imposta pelo poder dos faraós e
revelaria os primeiros fundamentos das Leis Morais aos homens.
Moisés era um líder
espiritual e um legislador por excelência. Soube conduzir com dura disciplina,
criaturas ainda em fase de extrema barbárie, para um grau melhor de entendimento
das questões terrenas e espirituais. Utilizou instrumentos adequados ao seu
tempo, num período em que os homens não poderiam compreender uma divindade que
não demonstrasse superioridade material. Criou leis rígidas e deu a idéia de um
deus vingativo e poderoso, como forma de deter a animalidade de seres ainda na
infância espiritual.
Entretanto, através
de Moisés, chegaram ao mundo as primeiras luzes que viriam tirar o homem de uma
fase de brutalidade, ensinando-lhe as primeiras noções de respeito ao próximo,
da tolerância, de disciplina, e sobretudo de amor ao Criador. Amor que na
verdade era entendido como temor, culpa e sacrifícios. O legislador hebreu
deixou para aquele grupo de Espíritos leis disciplinares, transitórias, que o
ajudaram a caminhar por longo tempo em suas dificuldades. Para o mundo, porém,
deixou as Leis Divinas (o Decálogo), cujo desenvolvimento nortearia a
humanidade com Jesus, para toda a eternidade.
Nos quase mil anos
seguintes, a mensagem mosaica foi sedimentada em meio a lutas, guerras,
derrotas e vitórias. Vez por outra surgiam profetas que tratavam de não deixar
morrer a semente plantada por Moisés. Eles falavam da vinda de um messias que,
no entender deles, traria o reconhecimento da hegemonia de sua raça, para
dominar o mundo com supremacia. Os judeus, já tendo uma doutrina em que se
fundamentar, viam com naturalidade a vinda do novo profeta.
Todavia, embora de
posse do conhecimento da Lei de Deus, não costumavam andar segundo seus
preceitos. "Esse povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe
de mim", profetizou sobre o futuro, Isaías. A Mensagem Divina estava
adormecida, esquecida entre tantas leis, ritos, dogmas, crenças e fantasias.
Tinham o conhecimento da Lei, mas não a sabedoria de sua execução. Sentiam-se
seres privilegiados por crer em um único Deus, que segundo suas convicções, era
privilégio de sua raça. Ao longo do tempo, foram delimitando o conhecimento
entre poucos, formando uma casta de sábios e doutos, orgulhosos de seu saber.
Ensinavam a Lei, mas não se conduziam segundo ela.
Era chegado o momento
de uma nova revelação. E o Alto enviou à Terra, para trazer aos homens a
mensagem redentora do Espírito, o Mestre dos mestres - Jesus de Nazaré, o Cristo.
A mensagem que chegava causou grande impacto, pois separava na lei mosaica o
que era dos homens e o que era de Deus. Jesus confirma a missão divina dos
profetas, dizendo: "Não vim destruir a lei e os profetas, mas dar-lhe
cumprimento" - (Mateus, 5: 7 e 8).
A revelação de Jesus
estabelecia como fundamento os deveres do homem para com Deus e para com seu
próximo. Falando de um Reino que não estava na Terra, confundia os que se
achavam eleitos e chamava para si os pobres e humildes de coração que, por sua
condição de humildade, podiam ouvir-lhe os ensinamentos. Trouxe, com suas
idéias, grande desconforto entre os poderosos. Os sacerdotes, por exemplo, não
poderiam admitir que surgisse algo procedente de Deus que não fosse no seio de
suas famílias. Além do mais, exalando soberba e vaidade, consideravam que Jesus
não passava de um simples carpinteiro.
Atendendo à lei do
progresso das criaturas, o Cristo trouxe ao mundo o mais importante código de
conduta moral, que serviria para direcionar o homem em busca das verdades
espirituais, renovando-o definitivamente. Preciosas lições ficaram com pessoas
que pudessem difundi-las ao mundo. Dentre elas, aquele que foi o seu maior
apóstolo, Paulo de Tarso. Lutou este homem, com afinco, para estabelecer uma
idéia renovadora no seio de uma gente que julgava ser muito importante. Sua
missão teve êxito entre os que se diziam sem religião, os simples e pequeninos.
Mais uma fase se cumpria. Porém, ainda não era hora de tudo ser revelado. Muito
tenho a vos dizer, mas vós não o podeis suportar, disse o Senhor, conforme seu
discurso em João, 14. O tempo era ainda de pouca compreensão para o Espírito
imortal. No tempo certo, haveria nova revelação.
A presença de Jesus,
causou uma revolução social e moral de tão grandes consequências que a história
da humanidade foi dividida em antes e depois do Mestre. Muitas lutas se
desenvolveriam até que seus ensinos fossem compreendidos e assimilados pelos
homens. Mas, como no caso dos judeus, a mensagem voltaria a ser desvirtuada. O
catolicismo foi criado e com ele todos as consequências de uma doutrina inócua,
que manteve o homem na ignorância espiritual por muito tempo, apesar da inestimável
ajuda no campo do conhecimento humano. Ao longo de dezoito séculos, muito se
construiu em nome desse ideal, mas também muitas dores, destruições e sofrimentos
aconteceram. Era o homem fazendo sua história.
Quando o mundo estava
novamente em trevas, com a mensagem moralizadora do Cristo adormecida, o
materialismo agigantado e o ser humano novamente perdido em indagações
filosóficas, Jesus fez cumprir suas promessas: "Se me amais, guardais meus
mandamentos. E eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Consolador, para que
fique eternamente convosco, o Espírito de Verdade, a quem o mundo não pode
receber porque não o vê e não o conhece"- (João, 14:15 a 17).
Pelas mãos de outro
missionário, Allan Kardec, chega ao mundo o Espiritismo, doutrina vinda dos
planos superiores da vida, para confirmar, reavivar e difundir a mensagem
cristã entre os homens. Ao contrário do que pensam os doutores do nosso tempo,
a Doutrina é dos Espíritos e não dos homens. Foi emanada das inteligências
incorpóreas que vieram ao mundo atender um plano de Deus para seus filhos. Foi
desenvolvida e devidamente codificada pelo mestre lionês. É certo que conta com
os homens para dar-lhe um rumo seguro e racional, reajustando-a em pontos
necessários, de acordo com a evolução das ciências, mas não se pode deduzir
disso que deve sujeitar-se a interpretações pessoais ou idéias sem fundamento,
desvirtuando seu sentido e objetivo básico para a qual veio ao mundo.
A Doutrina Espírita
levantou os véus de muitos mistérios e trouxe enfim a consolação prometida,
posto que explica de forma racional as causas dos sofrimentos, dando-lhes um
objetivo útil. As diferenças e injustiças são desvendadas e o homem compreende
que é fundamental que busque seu equilíbrio e que lute por seus direitos de uma
vida digna e justa. As dúvidas existenciais de todas as épocas, finalmente
encontraram respostas convincentes. As questões básicas foram respondidas: quem
somos, de onde viemos e para onde vamos. Com a realidade da reencarnação,
abriu-se um novo horizonte de possibilidades, trazendo para os homens a
esperança de um futuro melhor. A lei de causa e efeito veio alertar para a
necessidade do aprimoramento a fim de que fazendo uma boa semeadura, se pudesse
também fazer boa colheita. O ponto de vista niilista da vida perde o sentido e
derruba todo um edifício de realizações materiais que escraviza as criaturas.
Enfim, a Doutrina
Espírita é um mundo novo, que se descortina aos olhos dos homens, trazendo-lhes
esperanças, consolações, mas acima de tudo libertação da ignorância. Mas, não é
uma nova doutrina. Fundamenta-se toda e completamente na moral do Cristo. É o
Cristianismo redivivo, chamando novamente os homens para suas responsabilidades
diante da vida. É o encadeamento dos ideais divinos para a libertação do homem
das trevas e o conseqüente despertar para a luz. "Moisés abriu a estrada,
Jesus continuou a obra, o Espiritismo acabará" - (Revista Espírita, março
de 1861)
Allan Kardec afirmou
que "partindo o Espiritismo das próprias palavras do Cristo, assim como o
Cristo partiu de Moisés é uma seqüência direta de sua doutrina"- (Revista
Espírita, setembro de 1867). Demonstra que as três revelações são na verdade
uma única doutrina, vindo em épocas diferentes, evidentemente por conta da
capacidade de entendimento em cada tempo. E mais: "O Espiritismo, ao
contrário, nada tem a destruir, porque assenta suas bases no próprio Cristianismo,
sobre o Evangelho, do qual é simples aplicação" - ( Revista Espírita,
setembro de 1861)
Com tudo isso
conclui-se que o Mosaísmo, o Cristianismo e o Espiritismo são na verdade a
mesma doutrina, separadas apenas pelo tempo em que cada uma teve de vir ao
mundo, adaptadas obviamente ao nível de entendimento das criaturas, cumprindo
uma programação divina da libertação do homem de seus próprios males. Outras concepções,
embora sejam respeitáveis, devem ser vistas apenas como opiniões pessoais,
destituídas de fundamento doutrinário, filosófico e religioso.
A rejeição a esta
idéia pode ser justificada pelo orgulho dos que, não suportando que exista uma
submissão do homem às leis de Deus, constroem para si doutrinas que possam
adaptar-se às suas convicções de liberdade, que pensam estar na livre iniciativa
do pensamento e na grandeza do intelecto de cada um. Não compreendem que há uma
ligação em tudo e que a liberdade está justamente na sabedoria da humildade e
na extirpação do orgulho de suas mentes privilegiadas. O ranço religioso que se
encontra em suas idéias e o desdém com que se referem à cultura judaico-cristã,
dá bem uma idéia de quais caminhos percorreram ao longo desses séculos de
história e em qual linha filosófica se enquadravam outrora.
De resto, é refletir
sobre pequeno trecho das palavras do Espírito de Verdade, encontradas em O
Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo 6, item 5 - "Todas as verdades
se encontram no Cristianismo; os erros que nele se enraizaram são de origem
humana; e eis que de além-túmulo, que acreditáveis vazio, vozes vos clamam:
Irmãos! Nada perece. Jesus Cristo é o vencedor do mal; sede os vencedores da
impiedade".
Fonte:
www.novavoz.org.br
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