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As Três Faces de Uma só Doutrina

 

 

Vanda Simões

 

"A religião, a moral, todas as filosofias condenam o suicídio como contrário às leis da Natureza. Todas nos dizem, em princípio, queUma das coisas que mais mobiliza a criatura em todos os tempos é a busca do entendimento em torno do existir. A curiosidade ou mesmo a grande insegurança causada pelo desconhecimento de suas origens, tem impulsionado o homem, secularmente, à procura de respostas. A história, rica por si só, nos dá uma idéia dos caminhos percorridos pela humanidade na construção de seu universo.

Se analisarmos o contexto histórico de forma genérica, deixando de lado as particularidades filosóficas, poderemos verificar que tudo gira em torno da evolução do ser, da preocupação do homem com sua realização e futuro, embora nem sempre tenha consciência disso. Mesmo dentro da evolução das ciências, pode-se sentir cada passo do homem na descoberta de sua importância social, de seus valores, crenças e, acima de tudo, da gradativa compreensão de que é parte integrante de um todo.

Nota-se também, que o homem sempre soube que nunca esteve só no mundo. Mesmo nas épocas mais remotas de sua existência, sempre teve essa intuição. De tempos em tempos, em ocasiões propícias, surgem pessoas dotadas de um esclarecimento maior que vêm impulsionar as massas, dissipar trevas e modificar conceitos, ocasionando com isso, grandes transformações. Foi dessa forma que chegou até nós a Mensagem Divina, bem como todas as outras que chegaram por mãos dos missionários do conhecimento, quer seja filosófico, religioso, empírico ou científico.

Atualmente existe no Movimento Espírita uma vertente de estudiosos que tende a considerar o Espiritismo dissociado da mensagem cristã, como se ele tivesse surgido como uma idéia nova, construída por necessidade de uma época e pelas mãos de um sábio ajustado ao pensamento de seu tempo. Em nossa opinião isso é um grande equívoco, além de contrariar inúmeras afirmações feitas pelos Espíritos Superiores e pelo codificador do Espiritismo, Allan Kardec.

Allan Kardec, baseado na opinião dos missionários do Alto, afirmou em diversos de seus escritos, que o Espiritismo era a confirmação e revivescência do Cristianismo, porque teria vindo explicar e aplicar a doutrina do Cristo à vida dos homens. Uma doutrina renovadora que abriria para o homem um enorme leque de possibilidades, dando a compreensão devida dos fenômenos da vida. Não falava ele de uma religião, mas de uma doutrina, de um corpo de idéias. Faremos breve análise dos fatos, sob o ponto de vista do pensamento religioso.

Para se entender o presente, é necessário retroceder no tempo, à época dos antigos hebreus, cativos no Egito. Esse povo era o único, naquele tempo, que já tinha em suas raízes a idéia de um Deus único. Não nos deteremos na gênese dessa condição. Sabe-se das dificuldades de compreensão dos homens da época, portanto a existência de um povo com uma visão de vida mais voltada para os valores da alma têm sua importância, no sentido da necessidade de ter um terreno mais propício para semear uma nova idéia. Nesse tempo, surgia a figura de Moisés, um homem preparado para uma missão de envergadura política, social e religiosa. Libertaria o povo hebreu da escravidão imposta pelo poder dos faraós e revelaria os primeiros fundamentos das Leis Morais aos homens.

Moisés era um líder espiritual e um legislador por excelência. Soube conduzir com dura disciplina, criaturas ainda em fase de extrema barbárie, para um grau melhor de entendimento das questões terrenas e espirituais. Utilizou instrumentos adequados ao seu tempo, num período em que os homens não poderiam compreender uma divindade que não demonstrasse superioridade material. Criou leis rígidas e deu a idéia de um deus vingativo e poderoso, como forma de deter a animalidade de seres ainda na infância espiritual.

Entretanto, através de Moisés, chegaram ao mundo as primeiras luzes que viriam tirar o homem de uma fase de brutalidade, ensinando-lhe as primeiras noções de respeito ao próximo, da tolerância, de disciplina, e sobretudo de amor ao Criador. Amor que na verdade era entendido como temor, culpa e sacrifícios. O legislador hebreu deixou para aquele grupo de Espíritos leis disciplinares, transitórias, que o ajudaram a caminhar por longo tempo em suas dificuldades. Para o mundo, porém, deixou as Leis Divinas (o Decálogo), cujo desenvolvimento nortearia a humanidade com Jesus, para toda a eternidade.

Nos quase mil anos seguintes, a mensagem mosaica foi sedimentada em meio a lutas, guerras, derrotas e vitórias. Vez por outra surgiam profetas que tratavam de não deixar morrer a semente plantada por Moisés. Eles falavam da vinda de um messias que, no entender deles, traria o reconhecimento da hegemonia de sua raça, para dominar o mundo com supremacia. Os judeus, já tendo uma doutrina em que se fundamentar, viam com naturalidade a vinda do novo profeta.

Todavia, embora de posse do conhecimento da Lei de Deus, não costumavam andar segundo seus preceitos. "Esse povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim", profetizou sobre o futuro, Isaías. A Mensagem Divina estava adormecida, esquecida entre tantas leis, ritos, dogmas, crenças e fantasias. Tinham o conhecimento da Lei, mas não a sabedoria de sua execução. Sentiam-se seres privilegiados por crer em um único Deus, que segundo suas convicções, era privilégio de sua raça. Ao longo do tempo, foram delimitando o conhecimento entre poucos, formando uma casta de sábios e doutos, orgulhosos de seu saber. Ensinavam a Lei, mas não se conduziam segundo ela.

Era chegado o momento de uma nova revelação. E o Alto enviou à Terra, para trazer aos homens a mensagem redentora do Espírito, o Mestre dos mestres - Jesus de Nazaré, o Cristo. A mensagem que chegava causou grande impacto, pois separava na lei mosaica o que era dos homens e o que era de Deus. Jesus confirma a missão divina dos profetas, dizendo: "Não vim destruir a lei e os profetas, mas dar-lhe cumprimento" - (Mateus, 5: 7 e 8).

A revelação de Jesus estabelecia como fundamento os deveres do homem para com Deus e para com seu próximo. Falando de um Reino que não estava na Terra, confundia os que se achavam eleitos e chamava para si os pobres e humildes de coração que, por sua condição de humildade, podiam ouvir-lhe os ensinamentos. Trouxe, com suas idéias, grande desconforto entre os poderosos. Os sacerdotes, por exemplo, não poderiam admitir que surgisse algo procedente de Deus que não fosse no seio de suas famílias. Além do mais, exalando soberba e vaidade, consideravam que Jesus não passava de um simples carpinteiro.

Atendendo à lei do progresso das criaturas, o Cristo trouxe ao mundo o mais importante código de conduta moral, que serviria para direcionar o homem em busca das verdades espirituais, renovando-o definitivamente. Preciosas lições ficaram com pessoas que pudessem difundi-las ao mundo. Dentre elas, aquele que foi o seu maior apóstolo, Paulo de Tarso. Lutou este homem, com afinco, para estabelecer uma idéia renovadora no seio de uma gente que julgava ser muito importante. Sua missão teve êxito entre os que se diziam sem religião, os simples e pequeninos. Mais uma fase se cumpria. Porém, ainda não era hora de tudo ser revelado. Muito tenho a vos dizer, mas vós não o podeis suportar, disse o Senhor, conforme seu discurso em João, 14. O tempo era ainda de pouca compreensão para o Espírito imortal. No tempo certo, haveria nova revelação.

A presença de Jesus, causou uma revolução social e moral de tão grandes consequências que a história da humanidade foi dividida em antes e depois do Mestre. Muitas lutas se desenvolveriam até que seus ensinos fossem compreendidos e assimilados pelos homens. Mas, como no caso dos judeus, a mensagem voltaria a ser desvirtuada. O catolicismo foi criado e com ele todos as consequências de uma doutrina inócua, que manteve o homem na ignorância espiritual por muito tempo, apesar da inestimável ajuda no campo do conhecimento humano. Ao longo de dezoito séculos, muito se construiu em nome desse ideal, mas também muitas dores, destruições e sofrimentos aconteceram. Era o homem fazendo sua história.

Quando o mundo estava novamente em trevas, com a mensagem moralizadora do Cristo adormecida, o materialismo agigantado e o ser humano novamente perdido em indagações filosóficas, Jesus fez cumprir suas promessas: "Se me amais, guardais meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Consolador, para que fique eternamente convosco, o Espírito de Verdade, a quem o mundo não pode receber porque não o vê e não o conhece"- (João, 14:15 a 17).

Pelas mãos de outro missionário, Allan Kardec, chega ao mundo o Espiritismo, doutrina vinda dos planos superiores da vida, para confirmar, reavivar e difundir a mensagem cristã entre os homens. Ao contrário do que pensam os doutores do nosso tempo, a Doutrina é dos Espíritos e não dos homens. Foi emanada das inteligências incorpóreas que vieram ao mundo atender um plano de Deus para seus filhos. Foi desenvolvida e devidamente codificada pelo mestre lionês. É certo que conta com os homens para dar-lhe um rumo seguro e racional, reajustando-a em pontos necessários, de acordo com a evolução das ciências, mas não se pode deduzir disso que deve sujeitar-se a interpretações pessoais ou idéias sem fundamento, desvirtuando seu sentido e objetivo básico para a qual veio ao mundo.

A Doutrina Espírita levantou os véus de muitos mistérios e trouxe enfim a consolação prometida, posto que explica de forma racional as causas dos sofrimentos, dando-lhes um objetivo útil. As diferenças e injustiças são desvendadas e o homem compreende que é fundamental que busque seu equilíbrio e que lute por seus direitos de uma vida digna e justa. As dúvidas existenciais de todas as épocas, finalmente encontraram respostas convincentes. As questões básicas foram respondidas: quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Com a realidade da reencarnação, abriu-se um novo horizonte de possibilidades, trazendo para os homens a esperança de um futuro melhor. A lei de causa e efeito veio alertar para a necessidade do aprimoramento a fim de que fazendo uma boa semeadura, se pudesse também fazer boa colheita. O ponto de vista niilista da vida perde o sentido e derruba todo um edifício de realizações materiais que escraviza as criaturas.

Enfim, a Doutrina Espírita é um mundo novo, que se descortina aos olhos dos homens, trazendo-lhes esperanças, consolações, mas acima de tudo libertação da ignorância. Mas, não é uma nova doutrina. Fundamenta-se toda e completamente na moral do Cristo. É o Cristianismo redivivo, chamando novamente os homens para suas responsabilidades diante da vida. É o encadeamento dos ideais divinos para a libertação do homem das trevas e o conseqüente despertar para a luz. "Moisés abriu a estrada, Jesus continuou a obra, o Espiritismo acabará" - (Revista Espírita, março de 1861)

Allan Kardec afirmou que "partindo o Espiritismo das próprias palavras do Cristo, assim como o Cristo partiu de Moisés é uma seqüência direta de sua doutrina"- (Revista Espírita, setembro de 1867). Demonstra que as três revelações são na verdade uma única doutrina, vindo em épocas diferentes, evidentemente por conta da capacidade de entendimento em cada tempo. E mais: "O Espiritismo, ao contrário, nada tem a destruir, porque assenta suas bases no próprio Cristianismo, sobre o Evangelho, do qual é simples aplicação" - ( Revista Espírita, setembro de 1861)

Com tudo isso conclui-se que o Mosaísmo, o Cristianismo e o Espiritismo são na verdade a mesma doutrina, separadas apenas pelo tempo em que cada uma teve de vir ao mundo, adaptadas obviamente ao nível de entendimento das criaturas, cumprindo uma programação divina da libertação do homem de seus próprios males. Outras concepções, embora sejam respeitáveis, devem ser vistas apenas como opiniões pessoais, destituídas de fundamento doutrinário, filosófico e religioso.

A rejeição a esta idéia pode ser justificada pelo orgulho dos que, não suportando que exista uma submissão do homem às leis de Deus, constroem para si doutrinas que possam adaptar-se às suas convicções de liberdade, que pensam estar na livre iniciativa do pensamento e na grandeza do intelecto de cada um. Não compreendem que há uma ligação em tudo e que a liberdade está justamente na sabedoria da humildade e na extirpação do orgulho de suas mentes privilegiadas. O ranço religioso que se encontra em suas idéias e o desdém com que se referem à cultura judaico-cristã, dá bem uma idéia de quais caminhos percorreram ao longo desses séculos de história e em qual linha filosófica se enquadravam outrora.

De resto, é refletir sobre pequeno trecho das palavras do Espírito de Verdade, encontradas em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo 6, item 5 - "Todas as verdades se encontram no Cristianismo; os erros que nele se enraizaram são de origem humana; e eis que de além-túmulo, que acreditáveis vazio, vozes vos clamam: Irmãos! Nada perece. Jesus Cristo é o vencedor do mal; sede os vencedores da impiedade".

Fonte: www.novavoz.org.br

 

 

 

 

Pensamentos

 

 O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

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Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

 

 

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