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Vinícius
Lousada
“A verdadeira pureza não está somente nos atos; está
também no pensamento, porquanto aquele que tem puro o coração, nem sequer pensa
no mal.(...)”[1]
Vivemos num
momento em que se valoriza sobremaneira as aparências. Na sociedade de consumo, contaminada pelo espírito do capital, pela gana desvairada de acumulação das coisas, mais do que
nunca é preciso fazer de tudo um produto e desenvolver imagens que cativem o
consumidor, que mexam com seus desejos e construam, mesmo que falaciosamente,
necessidades de usufruto disto ou daquilo.
Todos nós
conhecemos pessoas que vivem de compras, compram tudo o que vêem pela frente.
Buscam freneticamente adquirir utensílios de ponta, eletrodomésticos de última geração, o carro do ano, mesmo
que seja para pagar em suaves prestações
para “umas dez encarnações”.
Não que eu
seja contra a conquista honesta de conforto ou partidário de um falso
voto da pobreza; porém, infinidade de criaturas observam
como se vestem os artistas de televisão ou qual o produto que, mediante bem
urdida propaganda, apresenta-se como a solução para as suas problemáticas,
confiando-se cegamente ao que a mídia sugere.
Há um frenesi
instaurado nesta era da informação aligeirada, destituída de reflexão, dando-se
valor demasiado à embalagem dos produtos, olvidando-se seu conteúdo; e no que
diz respeito às pessoas, o juízo de valor também cede à aparência.
Exalta-se a
beleza exterior propondo estereótipos que são verdadeiras torturas psicológicas
para os indivíduos sem significado existencial, que se confiam aos ditames do
mundo das modas passageiras.
A religião
do consumo tem ampliado seus adeptos, inclusive
invadindo os arrais que se afirmam cristãos, transformando a fé em negócio,
ação religiosa em “plano de carreira” para a conquista do reino terrestre,
quando Jesus Cristo propunha aos seus discípulos: “buscai,
pois, em primeiro lugar, o seu reino (o de Deus) e a sua justiça, e todas estas
coisas vos serão acrescentadas.”
O que deveria
ser um apelo à conversão real da criatura aos ensinos do doce Nazareno passa a ser
um programa de “pequenas igrejas, grandes negócios”, com a aparência de culto a Deus, que conforme a raiz etimológica do verbo latino colere, se configuraria numa proposta de “honrar” ou “venerar” o
Criador e não numa preocupação sórdida com as finanças alheias.
Com um marketing “invejável”, as “merco-religiões”, ou seja, as alternativas religiosas que se conduzem na lógica insana
do mercado, estabelecem em sua ideologia de prosperidade uma aparência palatável aos que não sabem para onde vão, que estão
desesperados atravessando variadas crises, deixando-se arrebatar pela retórica
e glorificação de posturas que preconizam o
exterior, preterindo as Leis do Criador.
Tenho por
hábito, quando o tempo me faculta, ir em algumas livrarias só para “namorar” livros que contribuam com meu crescimento pessoal, que me
esclareçam sobre alguma temática de meu interesse. Percebo nessas inserções
literárias um fenômeno interessante: há um
investimento das editoras na beleza das capas, numa certa arte na produção das
encadernações. Isto indica que mais uma vez o “rótulo” dita o que é relevante
ou não para aqueles que ainda podem comprar livros, quando não possuem
criticidade, é claro.
Classificados
de empregos exigem boa aparência como quesito
fundamental, bom visual para lidar o cliente, é claro. E cá entre nós, diante
da política de maximização da lucratividade adotada diabolicamente pelo mundo
dos negócios, penso que esta seja a seção mais lida
nos jornais nesses dias de crise ou, ao menos, que muita gente se alfabetiza
por ali...
Vejamos como
as aparências ainda nos dominam: Não existem pessoas que deixam a fachada da
casa “um brinco”, enfeitam o jardim, mas tem total descaso pelo interior de sua
moradia? Não sabemos de casamentos infelizes que são disfarçados em cortês
convivência para manter a imagem social? Ainda aí o império do ter sobre o ser, do que deve parecer com o que
realmente o é.
Desde
pequenos, através da linguagem dos adultos, introduzimos em nosso psiquismo os
valores socialmente aprovados, incorporamos posturas de nossa cultura e, de
certa forma, sem determinismo, introjetamos exemplos.
Nas nossas
lutas no movimento espírita, ou em movimentos sociais de qualquer matiz, a
coisa não é diferente. Descobrem-se códigos, normativas comportamentais que, em
acanhada visão, poderiam garantir o “sucesso” das relações e, assim, passa-se a
reproduzir discursos e comportamentos em
sintonia com a “maré”, sem de fato, conhecer o que se fala maduramente. Tudo
mais uma vez, a serviço do parecer ao invés de ser.
Citam-se
livros e autores dos quais foram lidos somente a orelha da capa. Copiam-se
trechos daqui e dali para ilustrar falas empoladas e em nome da ciência
força-se correlações com o Espiritismo que mais são um engessamento de saberes
do que descobertas sérias, não representando a opinião da maioria da comunidade
científica responsável.
Há a
insensatez dos que, sem conhecimento de causa, se crêem vaidosamente como
vanguardeiros, autorizando-se a dar sua opinião sobre temas dos quais os
pesquisadores e especialistas estão traçando apenas as primeiras letras.
Outros dão
sopas aos pobres e não suportam seus
companheiros de tarefa....
Em nossa
proposta de fé reflexiva, não-fundamentalista e aberta ao diálogo com outros saberes
sem ser descaracterizada, não podemos nos permitir a sedução pelas aparências, adotando comportamentos hipócritas, de pseudo-sabedoria ou
posturas caricatas de santidade falsa compostas por falas suaves e trejeitos angelicais que se
desfazem ao sabor do melindre.
Quem quiser
fingir para si mesmo, como fazemos nos “regimes de segunda-feira”, tudo bem,
não penso que tenhamos de ser fiscal do comportamento alheio.
Mas, a moral proposta por
Jesus Cristo é insuperável e pede-nos reflexão e conversão autênticas, sendo esta última uma mudança
de direção na vida com base no paradigma
descortinado pela Religião dos Espíritos,
provocando uma ruptura com a cultura do parecer e aparecer para efetivarmos em nossa historicidade
pessoal a experimentação da ética espírita, o que nos compromete com a ação cristã
junto aos que sofrem.
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