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Orson
Peter Carrara
Recomendação é para uso
permanente, sem medo
Eis
vocábulos que nunca podem faltar na prática espírita. Uma pessoa sem
discernimento é alguém que age impensadamente, sem reflexão; discernimento é
exatamente uma apreciação prévia de fatos e situações, prudência no agir, refletindo
antecipadamente. Bom senso é a faculdade de discernir, de julgar, de raciocinar.
Como
espíritas somos sempre convidados a refletir sobre o que lemos, o que fazemos,
como fazemos. O critério de discernimento e bom senso deve estar apoiado na
lógica, mas especialmente ligado ao bem geral. Isto exige atenção, amadurecimento,
conhecimento.
Allan
Kardec, O Codificador da Doutrina Espírita, é reconhecido pelos espíritas como
o "bom senso encarnado", tamanha sua capacidade de refletida análise
- que bem demonstrou em seus escritos - diante dos fenômenos que teve oportunidade
de presenciar e estudar. A própria aceitação pessoal da realidade das manifestações
esteve sujeita a esta característica de sua personalidade, acostumada à análise
ponderada e cuidadosa de fatos, situações e novidades que a vida lhe apresentava.
É interessante ponderar sobre este aspecto da personalidade do então professor
Rivail, pois o detalhe foi de máxima importância na organização do corpo
doutrinário do Espiritismo, já que ele tudo submetia à análise prévia da razão,
da lógica e do bom senso.
Encarando
os fenômenos apresentados pelas manifestações dos espíritos, Allan Kardec
estudou-os e os submeteu a rigoroso método científico de observação, optando
pela publicação daquilo que ficou conhecido como a "universalidade dos
ensinos", quer dizer: os ensinos foram os mesmos, ainda que recebidos por
médiuns desconhecidos entre si, de diversos pontos do planeta, e primavam pela
concordância entre si. Fato notável esse, pois essa concordância é que dá garantia
dos ensinos.
Dessas
reflexões, destacamos trecho importante colhido na Revista Espírita (1):
"(...) Sabemos que os Espíritos estão longe de possuir a soberana ciência
e que se podem enganar; que, por vezes, emitem idéias próprias, justas ou
falsas; que os Espíritos superiores querem que o nosso julgamento se exercite
em discernir o verdadeiro do falso, aquilo que é racional daquilo que é
ilógico. É por isso que nada aceitamos de olhos fechados. Assim, não haveria
ensino proveitoso sem discussão. Mas, como discutir comunicações com médiuns
que não suportam a menor controvérsia, que se melindram com uma observação
crítica, com uma simples observação, e acham mau que não se aplaudam as coisas
que recebem, mesmo aquelas lançadas de grosseiras heresias científicas? Essa
pretensão estaria deslocada se o que escrevem fosse produto de sua
inteligência; é ridícula desde que eles não são mais que instrumentos passivos,
pois se assemelham a um ator que ficaria ofuscado, se nós achássemos maus os
versos que tem de declamar. Seu próprio Espírito não se pode chocar com uma
crítica que não o atinge; então é o próprio comunicante que se magoa e
transmite ao médium a sua impressão. Por isto o Espírito trai a sua influência,
porque quer impor as suas idéias pela fé cega e não pelo raciocínio ou, o que
dá no mesmo, porque só ele quer raciocinar. Disso resulta que o médium que se
acha com tais disposições está sob o império de um Espírito que merece pouca
confiança, desde que mostra mais orgulho que saber. Assim, sabemos que os
Espíritos dessa categoria geralmente afastam seus médiuns dos centros onde não
são aceitos sem reservas.
Esse
capricho, em médiuns assim atingidos, é um grande obstáculo ao estudo. Se só
buscássemos o efeito, isto seria sem importância; mas como buscamos a
instrução, não podemos deixar de discutir, mesmo com o risco de desagradar aos
médiuns. (...) Aos seus olhos, os obsedados são aqueles que não se inclinam diante
de suas comunicações. Alguns levam a sua susceptibilidade a ponto de se
formalizarem com a prioridade dada à leitura das comunicações recebidas por outros
médiuns. Por que uma comunicação é preferida à sua? Compreende-se o mal-estar imposto
por tal situação. Felizmente, no interesse da ciência espírita, nem todos são
assim (...)" (2).
Observem
os leitores que a simples citação, no início do texto, indicando que os
espíritos não sabem tudo, que podem se enganar e emitir idéias próprias, já por
si só convida ao bom senso de analisar criteriosamente tudo que venha dos espíritos.
Este simples cuidado é capaz de afastar toda investida de misticismo que possa
haver por iniciativa dos espíritos ou mesmo no comportamento que venha dos encarnados,
de vez que sabendo, por antecedência, que os espíritos estão ainda em patamares
de evolução e limitados em seu saber e moralidade, teremos o cuidado de avaliar
e refletir, usando o discernimento e o bom senso nestas avaliações.
Por
outro lado, sem envolver-se diretamente com os fenômenos advindos da
mediunidade, a própria vida do espírita, em particular, suas ações e
engajamento no movimento espírita, também solicitam a aplicação desses dois
princípios. Seja na conduta, seja na vida social ou familiar, pois são
princípios norteadores de uma vida equilibrada. Usando-os, sempre teremos onde
nos apoiar.
A
continuidade do texto apresentado por Kardec, acima parcialmente transcrito,
permite alargar o horizonte de observação para outro aspecto marcante deste
tesouro espiritual chamado Espiritismo. É que, estudando-o metodicamente - com
o mesmo sentido observador e crítico, característico do discernimento e do bom
senso - alcançaremos um degrau importante no entendimento de sua proposta:
seremos adeptos esclarecidos, conscientes, coerentes.
Adeptos
esclarecidos, conscientes, coerentes formarão a própria consciência espírita;
esta consciência espírita permitirá saber que rumo tomar, que diretrizes usar,
identificar descompassos na prática espírita - inclusive de dirigentes, que
também são seres em aperfeiçoamento e experiências necessárias -, para agir com
segurança.
Ora, é
esta mesma consciência espírita que faz o espírita compreender o dever de agir
em favor de seus irmãos, enquanto age concomitantemente pelo próprio progresso;
é ela mesma que toma posições, que não se deixa abater pelos obstáculos, que
não se afasta da Doutrina em virtude de comportamentos equivocados de
companheiros espíritas, enfim já desperta para o grave compromisso de estarmos
reencarnados.
Efeitos
naturais de uma consciência espírita formada pelo estudo e embasada pelas
virtudes do discernimento e do bom senso, caminhos seguros para o espírita
consciente.
E já que
o Espiritismo não está restrito à prática mediúnica, o campo é vasto e pede
ponderada análise do que estamos fazendo.
(1) Publicação fundada por
Allan Kardec em 1858.
(2) Trecho parcial de discurso de Allan Kardec na Sociedade Parisiense de Estudos
Espíritas, na abertura do ano social, a 1º de abril de 1862 (extraído da
Revista Espírita de junho de 1862, ano V, vol. 6, edição EDICEL).
Artigo publicado originariamente na RIE - Revista Internacional de Espiritismo
- de janeiro de 2004.
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