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Wanderley
Pereira
O Espiritismo não encampa
qualquer idéia de rebaixamento da mulher em relação ao homem nem vice-versa.
Segundo O Livro dos Espíritos, “são os mesmos espíritos que animam homens e
mulheres.” E a escolha que motiva uma ou outra experiência, em corpo
masculino ou feminino, obedece às suas necessidades de progresso. Como devem
progredir em tudo, “cada sexo, como cada posição social, lhes oferece provas e
deveres especiais, oportunidade de adquirir experiência, conhecimento”. Se
reencarnassem somente numa ou noutra condição, teriam um progresso deficitário,
incompleto e estariam impedidas de alcançar a perfeição que requer amor e
sabedoria.
Na visão espírita, a
condição de homem não lhe assegura nenhuma autoridade particular sobre a
mulher. Superioridade só a moral e a exercida pela posição de mando ou
autoridade na hierarquia social. Mas isso não é privilégio do homem porque a
mulher detém também, a seu turno, essas posições. No mundo espiritual,
a autoridade é a moral, exercida naturalmente por homem ou mulher
que a detenha por mérito do seu progresso. Por isso, toda discriminação e
preconceito, segundo a ótica espírita, são contrários à caridade e
tidas como atitudes anticristãs. Nesse caso, não há diferença entre machismo ou
feminismo, quando fora dos padrões naturais da relação homem-mulher na
sociedade.
Vem das raízes da
civilização ícones como Adão e Eva, mais ou menos comuns a todas as crenças e
lendas antigas, com diferenças apenas de enfoque cultural próprio de cada povo,
compondo a versão religiosa sobre a origem do homem na Terra. É uma versão
inerente a uma época e a um povo que não tinham ainda as informações da
ciência. É como a criança que assimilou durante muito tempo a lenda da Cegonha,
na interpretação ao seu alcance sobre o ato de nascimento do bebê. Foi entre
esses povos que a idéia de inferioridade da mulher ganhou força pela crença
quase generalizada de que ela era a clonagem feminina do homem. Se o
Gênesis dizia que a mulher foi feita a partir de Adão, ela era com justiça uma
espécie de propriedade dele. Não lhe devia a própria vida?
Depois vem o episódio do
pecado original no paraíso terrestre, em que a mulher, tentada pelas fantasias
da serpente, leva o homem ao erro. E Deus, ofendido, decreta: “Multiplicarei os
sofrimentos de teu parto; darás a luz com dores, teus desejos te impelirão para
o teu marido e tu estarás sob o seu domínio.” A essa sentença foi incorporada
toda uma ordem de restrições e discriminações à mulher, transformada em escrava
passiva do homem. Sara chega a pedir ao marido Abraão que lhe dê um filho com a
escrava egípcia Agar. Foi imposta à mulher à morte por apedrejamento pelos
mesmos que a prostituíam, como na narrativa bíblica da mulher adúltera. Os
fariseus, que faziam do seu saber uma arma de domínio sobre a massa inculta,
saíam dos templos olhando para o chão para não encarar as mulheres. Buda também
não permitia que seus seguidores olhassem para elas. Sócrates chegou a
xingá-las. Havia uma oração judaica que dizia: “Agradeço-te, ó Deus, por não me
teres feito mulher...” Paulo, Pedro, Agostinho, Lutero revelam-se ríspidos
para com a mulher. Pedro recomendava a submissão
da mulher ao marido, " como Sara que
obedecia a Abraão chamando-o de Senhor."
Paulo escreve a Timóteo dizendo:
"Não permito à mulher
que ensine, nem se arrogue autoridade sobre
o homem, mas permaneça em silêncio,
com espírito de submissão."
Eles também falaram bem da
mulher. Mas foi Jesus Cristo, chamado mais Filho de Maria do que Filho de José,
que tomou as dores pela mulher. Desde o início da sua pregação, Ele criou um
novo conceito da mulher, como escreve Aleksandr Mien, em Jesus, Mestre de
Nazaré. A partir dele, o lugar da mulher não se limitou mais ao lar doméstico.
Por isso, no seu grupo de seguidores mais íntimos brilharam mulheres como Maria
sua mãe; Madalena, a pecadora; Marta e Maria, irmãs de Lázaro; Salomé, mãe de
João e de Tiago; Maria, mulher de Cleófas; Suzana e Joana, mulher de Cusa,
procurador de Herodes Antipas, entre outras. Jesus dialogou com a samaritana e
enfrentou a censura de Simão, o fariseu, e seus convidados ao permitir que uma
prostituta lhe lavasse os pés e os enxugasse com os cabelos. E
disse à adúltera ameaçada de apedrejamento: “Eu também não te condeno;
vás e não peques mais.”
Como
vemos, o feminismo surgiu com Jesus. Foi a uma mulher, em Samaria, que Ele se
revelou o Messias Divino. Foi também a uma mulher a quem Ele se apresentou,
primeiro, depois do drama do calvário, revelando-lhe a imortalidade. Jesus
mostrou que não quer a mulher subjugada, submissa, anulada. Quer a mulher lutadora
como foi Madalena, equilibrada, sensata, compenetrada do seu papel de mulher,
consciente da sua missão na família, das suas atribuições no lar e na sociedade,
na condição de parceira leal do homem (e ele dela) na implantação do Reino de
Deus pela regeneração da humanidade. O Espiritismo incorpora tudo
isso, ao esclarecer que “a emancipação da mulher segue o progresso da civilização,
enquanto que a sua subjugação caminha com a barbárie.”
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