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Juvanir
Borges de Souza
Todas as criaturas
humanas, ignorantes ou intelectualizadas, boas ou más, desde que lhes surge o
discernimento, procuram noções a respeito do porque da vida, o que são, quais
seus objetivos, de onde vem e para onde vão.
São indagações
naturais que se conjugam ao ambiente em que se encontram, aos fenômenos
observados na Natureza, onde a vida se manifesta sob múltiplas formas, nos
diferentes reinos.
As respostas mais
variadas aos questionamentos acima são proporcionadas pelas religiões,
filosofias e ciências de todos os tempos.
Tanto o homem
primitivo quanto o moderno tiveram essas preocupações e buscaram equacioná-las.
A noção de um Ser
Superior, criador da Vida e de todas as coisas é inata no homem, que desde cedo
percebeu a existência de algo imperceptível aos seus sentidos físicos, mas que
se afirma através dos sentidos extrafísicos.
A marcha evolutiva do
gênero humano guarda correlação com suas concepções do mundo e da vida.
À inquietude do homem
e ao seu esforço na busca de novos conhecimentos junta-se o socorro do Alto,
através das Revelações.
Cada povo, cada
civilização faz jus à ajuda correspondente ao seu estágio evolutivo.
No Ocidente
tomaram-se nítidas as três Revelações, a partir de Moisés.
Não se deve esquecer,
entretanto, que as civilizações e povos orientais tiveram também seus guias,
fundadores de religiões e enviados do Mundo Espiritual, a serviço do Governador
deste Orbe — o Cristo de Deus.
Por isso Emmanuel
torna claro que: “A gênese de todas as religiões da Humanidade tem suas origens
no seu coração augusto e misericordioso”. (“A Caminho da Luz”, pág. 83 da 22ª
edição.)
Dessa forma,
paulatinamente, vão sendo conhecidas as leis divinas que regem a Vida na Terra
e em todo o Universo.
Pouco a pouco parcelas
da Humanidade vão tomando conhecimento do Ser Supremo, de seu Amor pela criação
e de sua justiça indefectível.
Essa marcha evolutiva
é muito lenta e apresenta-se em diversas fases, na Terra.
Encontramos no Mundo
povos e raças orientados por inúmeras crenças e religiões, ao lado da descrença
e do materialismo que também medram por toda parte.
Infelizmente a maior
parcela da Humanidade ainda permanece ignorante das realidades e das leis eternas.
As grandes religiões
do Mundo, ao lado de ensinos morais que favorecem a prática do Bem, estão
envolvidas por tradições, práticas, ritualismos e cultos exteriores que nada
auxiliam a ascensão das almas.
Em conseqüência, a
face superior e útil das religiões, que está de conformidade com as leis
divinas, fica prejudicada pelas práticas e ensinos que lhe são contrários,
afetando o progresso espiritual das criaturas.
É o que acontece com
o Cristianismo, que deu origem à Igreja Romana, desdobrada posteriormente nas
Igrejas Reformadas.
Toda a parte moral da
Mensagem do Cristo permanece íntegra nos ensinos das Igrejas Cristãs, mas suas
doutrinas e interpretações se caracterizam por tantas adições ao núcleo
original do Cristianismo e por tantas interpretações e dogmas criados arbitrariamente
que, praticamente, ficou descaracterizada a doutrina do Cristo.
Quem lê com isenção o
antigo Catecismo da Igreja Católica, recentemente reeditado, com alterações e
adições, verifica o divórcio entre os ensinos do Cristo e os da Igreja.
Desde meados do
século IV até meados do século XIX reinou absoluta, no Ocidente, a concepção da
vida e do mundo ministrada pelas igrejas denominadas cristãs.
Parece estranho que o
dogmatismo, em contraposição às realidades imanentes e às verdades reconhecidas
há milênios — como é o caso da reencarnação — possam ter sido administradas às
massas por tantos séculos, sem reação ao império da imposição autocrática.
No entanto, durante
esse longo tempo estava presente a Mensagem de Jesus à Humanidade, produzindo
efeitos benéficos, à espera, entretanto, de oportunidade para reorientar os
homens e libertá-los das mazelas morais.
Nos planos da
Providência Divina estava prevista a vinda do Consolador, prometido pelo
Cristo.
O Consolador no mundo
representa a libertação do homem da ignorância acerca das coisas que dizem respeito
à sua vida; a libertação dos dogmas criados por ele mesmo, em desacordo com a
realidade; a confirmação da Doutrina Cristã autêntica, encerrada nos
Evangelhos; a perspectiva de evolução mais rápida e segura para a Humanidade,
desde que os homens se proponham a assimilar, praticar e divulgar
intensivamente seus ensinos.
Com sua presença a fé
cega será substituída por uma fé segura e raciocinada; favorecerá a Ciência,
que ora se ocupa somente com a matéria e suas leis, indicando-lhe o outro
elemento do Universo — o espírito — e libertando-a da influência nefasta do materialismo.
O que ele propõe, no
campo social, é a educação integral para todos; a organização social com
equilíbrio, sem os egoísmos de classes, sem os extremismos das doutrinas
materialistas, que consideram o “homem econômico”, mas não o “homem integral”.
O conhecimento e a
utilização das leis naturais trarão, fatalmente, a transformação da legislação
humana, a modificação de hábitos, usos e costumes atuais que se caracterizam
pelo egoísmo individual e grupal.
As conseqüências da
atuação do Consolador na organização social serão logo sentidas, com o
desaparecimento da miséria, da ignorância, da corrupção, da insensibilidade e
da indiferença das classes mais favorecidas diante dos mais carentes.
Essa será a
influência benéfica do Consolador, através da educação e reeducação dos
Espíritos, prevista para uma fase que coincidirá com o início da Era da
Regeneração, que se caracterizará por uma nova concepção da existência humana.
A Doutrina de Jesus,
o vero Cristianismo revivido no Consolador, tem como características essenciais
a liberdade e a solidariedade entre as criaturas. Requer de cada seguidor a
aceitação de seus princípios e a consciência de sua conformação com as leis
naturais, ou divinas.
Por isso, sua
vivência tem que se basear na reeducação individual, na adesão espontânea a
princípios superiores, sem recurso às imposições.
O grande erro que
ocorreu no passado decorreu da fé forçada e instituída, e da conquista dos
poderes de decisão do mundo.
Com o poder temporal
nas mãos, os chefes religiosos, a partir do século IV, preferiram impor a fé,
ultrajando a razão e a liberdade individual.
O caminho que parecia
mais fácil foi a perdição da Igreja, que, com o poder nas mãos, sempre procurou
obrigar a aceitação de sua doutrina, divorciada cada vez mais das fontes
primitivas.
O que há de mais
nobre e sublime no homem é o direito de pensar, de raciocinar, de aceitar ou
rejeitar o que lhe pareça certo ou errado.
O Espiritismo não
pode incorrer no grande equívoco da Igreja Romana.
O caminho a seguir é
mais difícil do que o preferido no passado.
Educar, mostrar,
raciocinar, indicar, sem dúvida é método mais trabalhoso e mais lento do que
impor, decidir, determinar. Mas é também muito mais seguro.
A verdade,
apresentada com simplicidade e clareza, com fulcro na lógica e nos fatos, é
aceita e compreendida pelos Espíritos humildes utilizando-se da própria razão,
que pode recorrer a si mesma para as retificações necessárias.
Por isso o
Codificador sentenciou, com lucidez:
“Fé inabalável só o é
a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.”
(“O
Evangelho segundo o Espiritismo” —Cap.XLX—nº 7).
Fonte: Revista
Reformador - Março/1998
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