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Alexandre Fontes da Fonseca* – Brotas, SP afonseca@if.usp.br
Pesquisas teóricas e
experimentais em um tipo de “jogo” chamado “ultimatum
game”
(jogo do ultimato) mostram
que os seres humanos já desenvolveram um senso de Justiça no relacionamento uns
com os outros.
Em matéria anterior divulgamos algumas
pesquisas em Matemática Aplicada com a chamada Teoria de Jogos [1], onde
grupos sociais são analisados estatisticamente com relação ao comportamento cooperativo
ou não-cooperativo dos seus membros. Discutimos as conseqüências morais
dessas pesquisas ao verificar como a idéia de solidariedade emerge,
naturalmente, como comportamento que proporciona maior progresso ao grupo.
Verificamos que se os preceitos do Evangelho resumidos no “amai a Deus e ao
próximo como a si mesmo” forem seguidos por cada um de nós a humanidade
progredirá, certamente, a passos largos. O que consideramos digno de destaque é
que essa conclusão, há muito conhecida e ensinada pelas religiões em geral,
está agora se tornando uma certeza matemática.
Aqui, pretendemos complementar o assunto
divulgando os estudos sobre o chamado “ultimatum
game” (jogo do ultimato) [2,3] cujos resultados mostram que o ser humano
não age de forma absolutamente racional e egoísta.
No jogo do ultimato dois jogadores
são convidados a dividir uma determinada quantia em dinheiro. Um deles, o proponente,
é o que fará uma oferta ao outro, o que responde. Se o que responde aceita
a oferta, o dinheiro é dividido de acordo com a proposta. Se o que responde rejeita
a oferta ambos os jogadores não recebem nada. A solução puramente racional é o proponente
oferecer o menor valor possível e o que responde aceitá-lo. Afinal
de contas, receber um valor muito baixo é melhor do que receber nada. Os
jogadores são esclarecidos que só participarão do jogo uma única vez e que não
é possível barganhar, ou seja, uma vez feita a oferta pelo proponente,
cabe ao que responde dizer se aceita ou não.
Porém o resultado das pesquisas feitas
aplicando-se este jogo a pessoas do mundo inteiro (maiores detalhes na
referência [4]), mostra que os seres humanos não jogam de forma absolutamente racional.
A maioria dos proponentes fazem uma oferta justa (até 80% deles
oferecem de 40% a 50% do total) e mais da metade dos que respondem rejeitam
ofertas menores que 30% do valor total [2,3].
Existem suposições para explicar esse
comportamento, considerado irracional pelos cientistas (sem teor
pejorativo), de dar ênfase na divisão justa, em contrapartida a obter-se
o maior lucro. Uma delas sugere que os jogadores acreditam que, no
futuro, se encontrarão novamente para jogarem o jogo. De fato, se o mesmo jogo
for realizado várias vezes entre as mesmas pessoas o resultado tenderá para
ofertas mais justas pois o que responde poderá rejeitar ofertas pequenas
para obter ofertas maiores em rodadas posteriores [2].
Num contexto mais biológico, o jogo do
ultimato pode representar o comportamento de dois indivíduos tentando
dividir adiantadamente o ganho devido a alguma tarefa a ser realizada em conjunto,
como uma atividade de caça. Outro exemplo seria a aplicação dessa idéia ao problema
da divisão de alimentos. A rejeição com relação a um acordo pode fazer com que
o alimento seja levado por uma outra pessoa ou ele pode estragar, ou ainda, o
alimento pode “fugir” (no caso de uma caça ou pesca), etc. Acredita-se que
situações similares tenham formado um instinto da divisão justa nos animais e
seres humanos ao longo dos milhões de anos [2].
Podemos notar que as interpretações e
ilações dos cientistas quanto aos resultados das pesquisas feitas com o jogo
do ultimato refletem um ponto de vista materialista que ainda predomina no
meio acadêmico. Porém, longe de lançar qualquer anátema aos cientistas, pretendemos
discutir esses resultados à luz da Doutrina Espírita. Em O Livro dos
Espíritos [5], encontramos as seguintes afirmativas:
“766. A vida social está em a
Natureza?
“Certamente. Deus fez o homem para
viver em sociedade. Não lhe deu inutilmente a palavra e todas as outras
faculdades necessárias à vida de relação.”
767. É contrário à lei da Natureza o
insulamento absoluto?
“Sem dúvida, pois que por instinto os
homens buscam a sociedade e todos devem concorrer para o progresso,
auxiliando-se mutuamente.”(Grifos nossos).
Nos resultados com as pesquisas feitas
com o jogo do ultimato, vemos um reflexo dessas duas afirmativas dos
espíritos. A vivência em sociedade já proporcionou algum progresso moral para a
humanidade. Quando verificamos que a maioria das pessoas fazem ofertas justas
no jogo do ultimato inferimos um comportamento que está presente nas
situações da vida onde as pessoas necessitam da união para atingir um
determinado objetivo. Cada uma delas tende a fazer a sua parte da melhor forma possível,
promovendo o progresso já que o sucesso da equipe depende do esforço de seus
membros.
Como a Humanidade ainda está em processo
de evolução, é importante notar que a filosofia do jogo do ultimato não
corresponde à filosofia do Evangelho. No jogo da vida segundo as
regras cristãs cada proponente oferece o máximo e o melhor de si e o
que responde recebe a oferta, de forma bastante grata, e retribui da melhor
forma possível. Nossa humanidade, apesar do progresso intelectual e de alguns
passos no progresso moral, ainda está num estágio evolutivo onde o egoísmo e o
orgulho predominam.
As pesquisas com o jogo do ultimato oferecem
ainda um resultado interessante. No artigo da referência [3], os autores
estudaram os efeitos do conhecimento prévio, por parte do proponente, quanto
aos valores que o que responde tem aceito em participações anteriores no
jogo. Em outras palavras, eles estudaram os efeitos da “reputação” daquele que
responde em aceitar determinadas ofertas. Eles mostram que o custo de se
rejeitar uma oferta relativamente baixa é contrabalanceado pela “reputação” de
ser um indivíduo que só aceita ofertas mais justas. Isso faz com que ele receba
ofertas melhores em jogadas posteriores. Os autores do artigo da referência [3]
concluem, portanto, que “reputação” favorece a justiça nas divisões do
dinheiro.
Do ponto de vista moral e evangélico, uma
boa “reputação” é obtida com o desenvolvimento da autoridade moral.
Sabemos que os Espíritos influem no nosso pensamento “muito mais do que imaginais.
Influem a tal ponto, que, de ordinário, são eles que vos dirigem.” (O
Livro dos Espíritos [5], questão número 459). Nesse aspecto, quando a
influência ocorre por Espíritos ainda imperfeitos, apegados de forma demasiada
às sensações da vida material, percebemos um pouco da estratégia do jogo do
ultimato. Existem pessoas que realizam verdadeiros pactos com esses
Espíritos onde eles ajudam essas pessoas a obterem os objetos de seus desejos
materiais (muitas vezes vícios) e, em troca, eles exploram os sentidos delas ao
sugarem os fluidos que as envolvem nessas práticas. Quando essas pessoas, pela evangelização, decidem
mudar de vida, abolindo, de vez, tais práticas e vivências, após sofrerem
alguma perseguição pelos algozes invisíveis, elas acabam adquirindo uma verdadeira
“reputação” moral, afastando-os da sua atmosfera mental, permitindo a ligação
com os Espíritos bons.
É por essa razão que os centros espíritas
sérios sempre oferecerão a palavra do Evangelho, à luz do Espiritismo,
como melhor remédio para a solução dos nossos males e imperfeições.
Page e Nowak [6] apresentaram os
resultados de um interessante estudo feito, ainda, com o jogo do ultimato,
onde uma idéia denominada por eles de empatia leva à justiça nas ofertas
de dinheiro. Empatia foi definida por eles como sendo o comportamento do
proponente em oferecer valores que ele aceitaria receber se fosse o que
responde. Encontramos a frase “fazei aos outros o que quereríeis vos
fizessem” no primeiro parágrafo do item 3 do capítulo XV do Evangelho Segundo
o Espiritismo [7], intitulado “Fora da Caridade Não Há
Salvação”. Temos aqui uma verificação direta dos efeitos da prática do Amor e
da Caridade diante de um simples jogo que reflete um relacionamento social.
Page e Nowak mostraram que “oferecer aos outros o que quereríeis vos fizessem
como oferta” culmina com o comportamento justo diante da divisão dos bens e lucros.
Sugerimos a leitura do artigo do Sr.
Armando dos Santos [8] a respeito do progresso que a humanidade já conquistou.
Aqui, apresentamos uma pequena contribuição para mostrar que a Humanidade está
sim, como dos Santos afirmou [8], “caminhando a passos largos, pela senda do PROGRESSO”
(grifos originais).
A mais de dois mil anos Jesus testemunhou
o seu Amor mostrando-nos o Caminho para a vida Superior; a quase 150 anos
Kardec recebeu das vozes do Além o “consolador prometido” para relembrar-nos os
ensinamentos cristãos; hoje, arriscamos dizer que a Ciência, sem perceber,
começa a verificar as conseqüências da prática da Caridade. Só temos a
agradecer ao Pai pela Sua infinita bondade em nos mostrar o “caminho certo” de
várias maneiras.
Publicado na revista
FidelidadESPÍRITA 20, pp. 26-28 (2004).
*O autor é Doutor em Física pela UNICAMP e “Post-Doc” no
Instituto de Física da USP.
Referências:
[1] J. von Neumann e O. Morgenstern, Theory of Games and Economic
Behavior, Princeton Univ. Press, New
Jersey, (1944).
[2] K. M. Page, M. A. Nowak e K. Sigmund, Proceedings of the Royal
Society of London B Vol. 267, p. 2177
(2000).
[3] M. A. Nowak, K. M. Page e K. Sigmund, Science Vol. 289, p.
1773 (2000).
[4] A. E. Roth, V.
Prasknikar, M. Okuno-Fujiwara e S. Zamir, American Economical Review Vol. 81,
p. 1068
(1991).
[5] A. Kardec, O
Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76a. Edição,
(1995).
[6] K. M. Page e M. A. Nowak, Bulletin of Mathematical Biology Vol. 64,
p. 1101 (2002).
[7] A. Kardec, O
Evangelho Segundo o Espiritismo, Editora FEB, 112a. Edição, (1996).
[8] A. dos Santos,
Revista FidelidadEspírita n.11, p. 18, (2003).
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