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Autenticidade Espírita

 

Alamar Régis Carvalho

 

Quando os institutos de pesquisas, tipo IBOPE e IBGE, fazem verificações junto ao público para saberem os números das religiões, apontam sempre o Brasil como um país de maioria católica. De fato, os institutos não estão mentindo, porque a grande maioria do povo brasileiro, a ser perguntada pela sua opção religiosa, respondem, automaticamente: sou católico.

Na verdade existe diferença entre o católico, aquele que apenas é filho de família católica, é batizado logo que nasce, totalmente inconsciente daquele ritual que lhe está sendo aplicado, casa-se na igreja católica, mantém um crucifixo na parede da sua casa, benze-se com o sinal da cruz ao passar diante de uma igreja ou um cemitério e aquele outro Católico que cumpre com as obrigações que a religião lhe impõe, que é ir à missa todos os domingos e dias "santos", crisma-se (todo católico consciente e praticante é crismado) e participa ativamente da sua igreja.

Quero dizer: Nem todo mundo que se diz católico é verdadeiramente Católico. O universo de Católicos no Brasil é muito menor que o que aponta o IBGE. É fácil você checar isso: Saia na sua cidade, como eu tive oportunidade de fazer em Salvador, com objetivo de visitar o maior número possível de igrejas católicas, de manhã, de tarde e de noite, durante a semana e nos finais de semana, e confira o público que está presente nas igrejas.

No segmento espírita também acontece algo semelhante.

Só que a autenticação do verdadeiro Espírita não se mede pelo fato da pessoa freqüentar Centros Espíritas, porque, graças a Deus, no Espiritismo não existe obrigação nenhuma.

Mas existem aqueles que são espíritas de rotulação e os que são Espíritas por terem assimilado a proposta da Doutrina e vivem, mais ou menos, conforme o que sugere o Espiritismo, pelo menos nas instruções básicas de conduta, principalmente em relação ao seu próximo...

... Eu não fico muito à vontade, porque não me agrada muito, falar sobre o Espiritismo, comparando-o com uma religião porque, embora muitos espíritas o definem como religião, o querem como sendo necessariamente uma religião, inclusive muitos amigos queridos, eu, particularmente, no exercício sagrado de expressar a minha opinião pessoal, não gosto de concebê-lo como tal, porque, para mim, esse qualificativo, longe de elevá-lo, termina por diminuí-lo...

Mas não vem ao caso essa discussão aqui.

Deixe eu falar sobre a autenticidade espírita.

Algumas pessoas, do movimento, quando questionada se são espíritas, dentro daquela "humildade" que muitos gostam de ostentar, respondem: "Eu estou tentando ser espírita".

Desconhecimento da Doutrina, que nos ensina que reconhece-se o verdadeiro espírita não apenas pelo fato de já ter atingido a Plenitude, a elevação espiritual e estar no nível do Dr. Bezerra, e sim pelo esforço que faz em domar suas más inclinações, tornando-se hoje melhor que ontem, amanhã melhor que hoje e assim vai.

Há quem precipita-se em apontar determinadas pessoas como verdadeiramente espíritas, pelo simples fato de as verem freqüentando Centro Espírita, até mesmo na condição de "dirigente da casa", há mais de dez ou mais de vinte anos.

Nem sempre são.

Afinal de contas, como podemos identificar um autêntico espírita?

A pessoa que fala manso, veste-se em cores sóbrias, vive desejando "muita paz" para os outros, vai assiduamente ao Centro, diz conhecer de cor e salteado todas as 1018 questões de "O livro dos espíritos", não bebe e não fuma, faz o Evangelho no lar regularmente e é considerado por muitos freqüentadores como a pessoa mais importante ou uma das mais importantes do Centro Espírita onde freqüentam?

Não necessariamente isso.

Eu, que nunca tomei qualquer bebida alcoólica e nunca fumei, portanto não suporto cheiro de cigarros e ambientes poluídos com nicotina, já vi muita gente, fumante, muito mais espírita do que muitos espíritas que ocupam cargos importantes em instituições espíritas.

Ser espírita é tolerar, calado, todas as provocações dos outros? É ter que agüentar as chantagens, as indiferenças, as fofocas, as calúnias e todo tipo de agressão que lhe dirigem, em nome da "humildade", sem poder falar nada e ainda abrir a boca para dizer que aqueles que nos agridem e nos fazem sofrer são os nossos maiores amigos?

Se você conceber a Doutrina como uma proposta de agrupamento de masoquistas, esses podem ter a identificação de verdadeiros espíritas.

Será que ser autêntico espírita é apresentar-se ao movimento como defensor da "pureza" doutrinária, postando-se como patrulhador da vida de outros espíritas, bisbilhotando o que eles dizem, o que lêem e o que escrevem para censurá-los, energicamente, caso pensem diferente dele?

Será aquele que já é conhecido, nas páginas dos jornais espíritas, como ferrenho inimigo dos que lêem as obras de Roustaing, Ramatis, Pietro Ubaldi e outras, sob a argumentação de fidelidade a Kardec?

Será aquele que, no exercício de um cargo de diretoria de um Centro, não permite que o trabalho de ninguém seja realizado, a matéria de ninguém seja publicada, o livro de ninguém seja vendido na livraria da casa, sem antes passar pelo seu crivo ou pelo dos seus demais companheiros de diretoria, impondo o princípio de que somente eles conhecem o Espiritismo e que todas as demais pessoas, fora do conjunto diretor da sua instituição, indistintamente, são necessariamente analfabetas em termos de Doutrina Espírita?

Será aquele que costuma dizer: "o tempo que você tem de idade, eu tenho de Espiritismo"?

Posso garantir que não são estes os autênticos espíritas.

Relembremos Kardec, quando disse no diálogo com o padre, exposto no "O que é o Espiritismo", que o Espiritismo não veio ao mundo com proposta de ser religião e que foram eles, os intolerantes religiosos, que o fizeram ser considerado desta forma.

Portanto, quando alguns resolveram "igrejar" o Espiritismo, certamente estavam dispostos a, eles, assumirem lideranças em cima de um certo número de pessoas, sobre as quais pudessem dar ordens, impor as suas maneiras de pensar, agir e viver; submetendo-as a ser seus fantoches, tratando-as como se fossem gado do seu curral.

E nessa proposta, recorreram aos modelos das religiões tradicionais, sobretudo a Católica, que tem a figura do padre que manda na cidade (há algumas décadas atrás, o padre mandava mesmo, bem mais do que o delegado, o juíz e até o prefeito), impõe às pessoas os seus costumes, censura o que os outros estão lendo, os locais onde estão freqüentando, com quem se relacionam, como se vestem, a que horas dormem e até o que fazem com o seu dinheiro.

E dessa forma adaptaram muitas casas espíritas.

Substituíram a obrigação de ir à missa, todos os domingos, para não cometerem pecado mortal, por irem ao Centro Espírita, para se livrarem de obsessão.

Substituíram a água benta da igreja católica pela água fluidificada.

Substituíram o inferno católico pelo umbral.

Substituíram o satanás pela figura do obsessor. Fala-se demais em obsessores, no movimento espírita.

Substituíram o Céu católico pelo Nosso Lar.

Substituíram os santos de devoção católicos, pelo Dr. Bezerra, a Joanna de Ângelis, a Scheila, a Meimei, o Emmanuel etc.

Substituíram a figura do padre que determina o que toda a comunidade da sua paróquia deve fazer, pelo dirigente do centro que, por sua vez, determina tudo o que os freqüentadores devem fazer.

Na igreja Católica existe a excomunhão. No movimento espírita existe o afastamento do companheiro dos trabalhos, proibições de fazer palestra no Centro, de dar passe, de fazer a leitura de trechos das obras básicas, de participar da mediúnica, de "compor a mesa"...

Antigamente as pessoas batizavam os seus filhos, na igreja, sem maiores burocracias. De algumas décadas para cá a igreja católica resolveu criar cursos de padrinhos, cursos para os pais das crianças, cursos de testemunhas... No movimento espírita acontece a mesma coisa: Chico Xavier constituiu-se no maior médium do Brasil, talvez o mais perfeito do Mundo, sem nunca ter feito curso algum. Hoje você tem que participar de cursos de médiuns, curso de expositor, curso de espírita, com carga horária pré estabelecida, tempo de duração, obrigação de freqüência e tudo. Não será bem visto se alegar que é auto didata, que está disposto a estudar a doutrina (claro que o estudo é indispensável) em casa mesmo, porque estará tumultuando.

Afinal de contas, serão estes os verdadeiros e autênticos espíritas?

Não. Tenho certeza absoluta que não.

O verdadeiro espírita não se finge de humilde. Ou ele é, verdadeiramente, para ter nas suas atitudes o comportamento natural (não o fingido) de humilde ou não é, e vive naturalmente.

Ele não faz teatro, na frente dos outros, para demonstrar uma evolução espiritual de fachada.

Fala normalmente, no seu natural tom de voz, seja no Centro Espírita, na rua, em casa e em tudo quanto é lugar, porque é autêntico.

Quando se vê desejoso de dar um largo sorriso ou uma gargalhada, dá mesmo, e não se preocupa com os praticantes do baixo astral, eternos caras mal humoradas.

Por mais que saiba, que tenha conhecimentos e cultura espírita, jamais se julga superior aos demais e muito menos impõe os seus conhecimentos a ninguém.

Se não aceita as menstruações de espíritos, relatadas nos romances modernos, que vende aos milhares pelo movimento espírita, não toma atitudes de boicotar a editora, de agredir os autores e editores e respeita o direito que todos têm de ler o que quiserem.

Se é contra alguns ensinamentos de obras como as de Roustaing, Ramatis, Pietro Ubaldi e outros deve ter a dignidade de limitar o "ser contra" apenas à sua pessoa e até a falar, se convidado for para tal, e dizer porque é contra, e não tomar atitudes violentas em agredir quem aprecia as obras ou quem se recusa a ter o mesmo ponto de vista que ele tem. Ninguém é obrigado a ser seu fantoche.

Autêntico espírita, diante de uma fofoca ou um disse-me-disse, jamais absorve a maledicência como sendo verdade porque, por ser inteligente, deve saber muito bem que por trás de uma pessoa que vive a falar mal dos outros sempre existe alguma frustração, algum recalque, algum processo de inveja geralmente causados pela incompetência e absoluta improdutividade que o fofoqueiro sempre trás.

Espírita coerente define as pessoas pelo que elas verdadeiramente são e não pelo que os outros dizem ou pelos seus “achismos” deturpados.

Autêntico espírita não está incluído nesta triste e lamentável pesquisa que demonstra que os "espíritas" são os que menos visitam os confrades quando estão doentes, os que menos estendem as mãos para os seus confrades, quando estão vivendo momentos difíceis, os que menos telefonam para os confrades para saber como estão, os que menos se lembram de datas de aniversários e os que menos fazem visitas cordiais.

Autêntico espírita sabe ser enérgico, diante de uma pessoa inconveniente, abusada, agressiva, mal educada e sem vergonha, falando-lhe a altura o que essa pessoa precisa ouvir, sem medo dos patrulhadores que lhe cobram humildade aparente e caridade de fachada. Se tiver que dizer que alguém é sem vergonha diz mesmo.

Dispõe-se a analisar profundamente cada caso, sobretudo os mais complexos, e jamais toma decisões baseado em conhecimento superficial, em “achismos” e muito menos em disse-me-disse.

Sabe dizer: "Sobre esta pessoa, este fato, este caso, este livro, esta obra... eu não dou opinião, nem a favor e nem contra, porque não a conheço". Sabe ser neutro e não se mete a tomar decisões, contra ou a favor, só porque está na posição de dirigente, ostentando o seu poder de decisão, na maioria das vezes imbuído do mais elevado orgulho.

Quando discorda de alguém, apenas limita-se a discordar, não se transforma em inimigo da pessoa com a qual não concorda, não insiste em viver tecendo críticas contra essa pessoa, boicotando e sabotando todos os seus projetos, proibindo tudo o que vem em seu nome e muito menos falando sobre ela o que ela não é.

O autêntico espírita é aquele que, no uso da sua inteligência e do bom senso, sabe muito bem que não adianta enganar ninguém aqui no mundo encarnado porque, mais cedo ou mais tarde, ele estará no mundo espiritual cheio de olhos voltados para si, na condição de prestação de contas no tribunal infalível da consciência.

Viva o Espiritismo de espíritas autênticos, sinceros, alegres, felizes e coerentes!!!

 

 

Pensamento

 

O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier

 

 

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