|
Fábio Gallinaro e Maria Lúcia dos Santos Gallinaro
1) INTRODUÇÃO
Antes
de adentramos ao tema Família Universal, é mister breve intróito sobre a Gênese
Espiritual, o início dos corpos orgânicos, animados por um princípio
inteligente.
a) Princípio Espiritual
Segundo
a teoria kardequiana, “todo efeito tem uma causa, todo efeito inteligente
deve ter uma causa inteligente”.[1] Assim, tudo que se manifesta
de forma coerente e racional dentro do Universo possui no seu bojo a
constituição de um princípio inteligente. Tal princípio, é o que diferencia o
homem dos animais, acumulando naquele a razão no lugar do instinto, o
discernimento no lugar da selvageria e a ponderação ao invés dos impulsos.
Não
nos é permitido ainda conhecer a origem do princípio inteligente, mas, pela
soberana justiça e bondade divinas, podemos perfeitamente deduzir que todos têm
um único ponto de partida; todos são criados simples e ignorantes e são
entregues aos reveses da vida onde, utilizando-se desse princípio e do
livre-arbítrio conferido a cada um, possam encontrar o caminho da felicidade e
do aperfeiçoamento.
O
princípio inteligente não se extingue com a desagregação das moléculas e
conseqüente perecimento do organismo físico. Pelo contrário, continua vigendo
mesmo após o desaparecimento da matéria que o sustenta. É perene e possui graus
de evolução e aperfeiçoamento dentro da grandiosa Criação Universal.
Sem
a sobrevivência do ser pensante, tudo aquilo que aprendemos e adquirimos nas
sucessivas existências do espírito se perderia em frações de segundos e,
fatalmente, estaríamos destinados ao nada, apesar dos esforços empreendidos
para o alcance do saber.
b) Origem dos Corpos Humanos
Adotamos,
por hipótese, a teoria científica de que o homem descende do primata. É
perfeitamente possível que o espírito, antes de habitar o corpo humano como
conhecemos nos dias de hoje, passou por estágios em corpos físicos mais
rudimentares que o atual. Espírito e Corpo foram evoluindo gradativamente, até
alcançarem uma forma mais perfeita, como na origem de novas espécies da
natureza.
Com
ensina a codificação, “corpos de macacos puderam muito bem servir de
vestimenta aos primeiros espíritos humanos, necessariamente pouco avançados,
que vieram se encarnar sobre a Terra, sendo essas vestimentas os meios
apropriados às suas necessidades e mais próprios ao exercício de suas
faculdades que o corpo de nenhum outro animal”.[2] Portanto, o princípio
inteligente que habitava em um corpo rudimentar, foi evoluindo juntamente com
ele, desenvolvendo razão, discernimento e ponderação.
c) Encarnação dos Espíritos
O
Espiritismo vem nos ensinar de que maneira se opera a união do Espírito e do
Corpo que tem por escopo o início de uma existência, o exórdio de uma
encarnação.
O
Espírito, por sua essência, é um ser abstrato, indefinido, que não pode ter uma
ação direta sobre a matéria. Não pode interatuar, não consegue interferir em um
ambiente material, ante a depuração que lhe é peculiar. Por isso ele possui um
envoltório semi-material que o recobre, denominado perispírito e que
serve de meio de interação entre o mundo material e espiritual.
Mas,
por ser o perispírito constituído de matéria quintessenciada, ainda não
é suficiente para propiciar ao Espírito os meios necessários para a encarnação.
Daí a necessidade da indumentária carnal que compõe o corpo físico. Por intermédio
de cordões fluídicos, perispírito se une à matéria célula a célula,
molécula por molécula, formando uma simbiose entre organismo físico e organismo
espiritual, este portador do princípio inteligente e aquele reunindo os meios
necessários de interação no mundo material.
Com
a bênção do esquecimento do passado, damos início a uma (ou a mais uma)
existência, onde somos depositados em uma família, com outros espíritos afins
ou comprometidos com o nosso planejamento encarnatório.
A
encarnação é uma necessidade, útil ao adiantamento do Espírito, e este deve
zelar por seu corpo físico, provendo a sua nutrição, bem-estar e equilíbrio.
2) FAMÍLIA ESPIRITUAL E
FAMÍLIA CONSANGUINEA
Toda
essa explanação preliminar serve para evidenciar que todos os seres procedem do
mesmo lugar; todos nós temos a mesma origem, que é divina. Daí a constituição
da grande família universal.
A
consangüinidade tem apenas a intenção de aproximar espíritos dentro de um mesmo
contexto familiar para unirem-se em prol da evolução e reforma íntima
recíprocas. Podem ser espíritos simpáticos, ligados por afeições advindas de
existências anteriores e que assumem um papel de auxílio mútuo. Entretanto, é
também possível que sejam almas endividadas umas com as outras e que necessitam
de uma existência carnal em comum para o exercício do perdão, da paciência e da
tolerância e, dentro desse antagonismo, a providência divina também reconduz
tais indivíduos para a conquista do adiantamento espiritual.
Podemos
dizer que há duas espécies de famílias: as famílias por laços espirituais e as
famílias por laços corporais. “As primeiras, duradouras, fortificam-se pela
purificação da alma. As segundas, frágeis como a própria matéria, extinguem-se
com o tempo e quase sempre de dissolvem moralmente desde a vida atual”.[3]
Somos
todos espíritos interligados a uma divina Criação. Fazemos parte de uma grande
construção, onde ocupamos espaços entre os alicerces, as pedras e o cimento que
a compõe. Como elementos constitutivos dessa obra de Deus, sustentamos a
edificação que está acima de nós. Mas não podemos olvidar que há uma base que
nos sustenta nos momentos de provação de nossa vida.
É
chegado o momento da humanidade se unir. Chega de divisões entre os povos.
Basta de fronteiras e línguas, que acabam por distanciar as pessoas.
Infelizmente, o homem ainda não se deu conta que somente será feliz por
completo quando ajudar a minimizar o sofrimento de seu próximo. A humanidade
nunca conquistará a felicidade plena, enquanto houver um espírito sequer
sofrendo na face da Terra.
Jesus,
depois de haver sido questionado e testado inúmeras vezes pelos Fariseus,
continuava com a sua pregação, elucidando as mentes daquela época, quando
recebe a notícia de que sua mãe e seus irmãos lhe aguardavam e desejavam
falar-lhe. Para a surpresa de todos, redargüiu o Nazareno: “Quem é minha
mãe, quem são meus irmãos?” Em nenhum momento Jesus quis menosprezar seus
parentes com essa indagação. Ao contrário, com a sua infinita sabedoria,
desejava despertar o pensamento dos homens para essa grande família universal
que ora tratamos. Desejava demonstrar que todos somos irmãos, pois somos filhos
do mesmo Criador, devendo ser exteriorizado o respeito e afeto pelos nossos semelhantes.
Estendeu as mãos apontando para os discípulos e disse: “eis minha mãe e meus
irmãos” e finalizou com uma das maiores pérolas de seus ensinamentos: “porque
todo aquele que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e
mãe”.[4]
Desejamos
discorrer ainda sobre alguns tópicos específicos, porém diretamente
relacionados ao tema “Família Universal”.
3) A ADOÇÃO
A
adoção constitui o maior exemplo prático da máxima cristã que diz: “fazei
aos outros aquilo que gostaríeis que fizessem a ti”. Coloquemo-nos no lugar
das crianças abandonadas, sejam em orfanatos, sejam nas ruas. Não possuem a
referência de um pai e de uma mãe e muito menos da constituição familiar
tradicional, que tanto educa e que é de suma importância ao espírito que inicia
uma nova encarnação.
Trazer
uma criança órfã para dentro de um lar com o intuito de ministrar-lhe atenção
individualizada, carinho, afeto, orientação, ser educada e evangelizada nos
preceitos cristãos trazidos pela “boa nova” é uma das maiores caridades que
pode ser exercida.
Mas
engana-se aquele que acha que a adoção se resume em um simples gesto caridoso.
Existem comprometimentos espirituais entre adotado e adotante, e a providência
divina se encarrega de colocar esses espíritos novamente em um convívio salutar
para o adiantamento moral de cada um. Se a união dessas almas não é possível
através dos lanços de consangüinidade, serão aproximadas por intermédio da
adoção, como nos ensina várias obras mediúnicas, entre elas o livro “E a Vida
Continua”, de André Luiz, psicografado por Chico Xavier.
Segundo
Richard Simonetti, “há Espíritos que reencarnam para serem filhos adotivos.
Esta situação faz parte de suas provações, geralmente porque no passado
comportaram-se de forma indigna em relação aos deveres familiares. Voltam ao
convívio dos companheiros do pretérito sem laços de consangüinidade, o que para
os Espíritos de mediana evolução representa sempre uma provação difícil,
destinada a ensiná-los a valorizar a vida familiar”.[5] A responsabilidade dos
adotantes, portanto, é ainda maior. É preciso uma dedicação ainda mais intensa
por parte dos pais, enquanto educadores e evangelizadores desse espírito que
lhes foi confiado por meio da adoção, a fim de diminuir os efeitos de eventual
trauma que o adotado possa desencadear quando do conhecimento de sua situação.
Quiçá
um dia não haverá mais orfanatos em nosso planeta, onde o real sentimento de
fraternidade tomará conta de todos os corações e crianças abandonadas possam
ser recebidas de braços abertos em famílias dignas e honradas com os
compromissos mais sublimes e elevados da existência física.
4) O ABORTO
Não
desejamos falar aqui do aborto provocado, intencional, que traz conseqüências
cármicas desastrosas àqueles que o praticam. Também não é oportuno para o
momento discutir acerca da legalidade ou ilegalidade dessa conduta, uma vez que
encontramos posicionamentos distintos nas várias regiões do planeta.
Dentro
do encadeamento das idéias de família universal aqui desenvolvidas, desejamos
tecer comentários sobre o aborto espontâneo. Ora, é cediço que o abortamento
natural (não provocado) promove nos genitores dessa criança imenso abatimento
diante da frustração de não terem em seus braços o bebê que tanto desejavam.
Para
o espírito reencarnante, a decepção também é grande em ver obstada a
possibilidade de uma nova existência.
Entretanto,
nada acontece por acaso. Como explica Richard Simonetti, o abortamento
espontâneo, “pode ser a conseqüência de uma recusa à maternidade no
pretérito, envolvendo, não raro, o aborto criminoso. Quanto ao filho, ele pode
estar comprometido com o mesmo crime ou com o desvario do suicídio, colhendo
agora a frustração do anseio de reencarnar, com o que aprenderá a valorizar a
vida”.[6]
Os
desencontros provocados pelo aborto serve de engrandecimento para essas almas
afins, seja no amor ou no ajuste cármico para que, em novas tentativas,
consigam equilibrar-se com bases sólidas nos ensinamentos cristãos e possam
desenvolver dentro de si a aceitação de iniciarem uma jornada existencial
unidos pelos laços de consangüinidade.
5) ESPÍRITOS MISSIONÁRIOS
Por
que a maior parte dos espíritos missionários passaram uma existência inteira
desvinculados de uma família? Por que esses espíritos tão evoluídos não se
renderam à união conjugal e constituíram para si um ambiente familiar? Por qual
motivo desprezaram a paternidade e se renderam a uma vida inteira de renúncia e
de sacrifícios?
Essas
e outras indagações são feitas constantemente por aqueles que iniciam ao estudo
do Espiritismo.
Tais
espíritos, pela sua grandeza e magnitude, já passaram por diversas fases de
entendimento e aprendizado em família. Já suplantaram as dificuldades de
relacionamento e respeito mútuo. Passaram por esse estágio evolutivo. Hoje,
fazem parte de uma outra classificação espiritual onde não há mais necessidade
das trocas de experiências dentro do ambiente familiar. Se encarnaram entre
nós, foi mais pela necessidade de ensinar do que aprender.
Podemos
dizer que esses espíritos, dentro do contexto de família universal, são nossos
“irmãos maiores” que nos recolocam ao caminho do bem e a quem depositamos nossa
inteira confiança diante da experiência que denotam em suas atitudes e
palavras.
Com
grande devotamento, primeiramente em São Leopoldo e posteriormente na cidade de
Uberaba, Chico Xavier teve uma vida inteira dedicada na propagação do
Espiritismo. Através da sua mediunidade, foram publicados mais de 400 obras que
são o corolário do aprendizado de adeptos e simpatizantes dessa doutrina.
Eurípedes Barsanulfo também abdicou de seus momentos de prazer e descanso em
prol dos doentes e, na cidade de Sacramento, foi o maior exemplo de dedicação e
apreço pelo empenho em favor do próximo, trabalhando até o dia de seu
desencarne. Nosso querido irmão Tadeu, na cidade de Araxá, abriga velhinhos na
“Casa do Caminho”, dando a eles uma oportunidade ímpar nos últimos anos das
suas encarnações. Por fim, temos a Dona Cida que, na cidade de Uberaba, ainda
dirige o Hospital do Fogo Selvagem, e, em um momento de grande dificuldade de
sua vida, levou os doentes do pênfigo para o seu próprio lar, preterindo a sua
família consangüínea, mas acolhendo com amor membros dessa grande família
universal.
Entre
outros, eis os maiores exemplos de Família Universal que passaram por essa
pátria. Cuidaram de estranhos como se parentes seus eles fossem. Ensinaram
desconhecidos como se eles estivessem sob sua guarda e tutela. Renunciaram ao
próprio descanso em favor dos menos afortunados do caminho.
6) ENCERRAMENTO
Abracemos
essa causa irmãos e irmãs. Regozijemo-nos diante da oportunidade de servir e
aprender com aqueles que nos são caros e que a eles estamos entrelaçados pela
consangüinidade ou pela proximidade afetiva, e que possamos estender esse amor
e esse apreço a todos que nos circundam, formando entre várias uniões, uma só
família: A FAMÍLIA UNIVERSAL!
[1] A Gênese, Capítulo XI
[2] A Gênese, Capítulo XI
[3] ESE, Capítulo XIV.
[4] Novo Testamento,
Evangelho Segundo Mateus, cap. XII, v. 46/50.
[5] Texto extraído do site www.espirito.org.br
[6] Texto extraído do site www.espirito.org.br
|