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Deolindo Amorim
O lastro
experimental, com a apresentação de fatos comprobatórios, ainda é uma necessidade,
pois estamos muito longe, por enquanto, daquele estágio evolutivo em que a
mediunidade ficará no puro domínio da intuição , como diz a própria Doutrina.
Será uma expressão muito elevada em função, porém do tempo e do melhoramento
espiritual do ser humano. Claro que a prática mediúnica, como geralmente
falamos, precisa de condições básicas: honestidade pessoal, perseverança,
lucidez e prudência do verdadeiro espírito científico. A mediunidade exercitada
a esmo, embora bem intencionada, como acontece muitas vezes, tem os seus
riscos.
Então, sem perder de
vista o valor do estudo filosófico, a que Kardec atribui influência decisiva, é
lógico entender que o aspecto mediúnico sempre teve e tem o seu momento de
necessidade e relevância, seja pelo consolo das mensagens, seja pelos elementos
de estudo e reflexões que oferece. Mas o Espiritismo não se contém todo ele no
campo mediúnico, conquanto este lhe tenha servido de ponto de partida, como se
sabe. O fenômeno por si só não nos levaria a conseqüências profundas, ou seria
apenas objeto de observação ou motivo de deslumbramento, sem a formulação
filosófica. Justamente por isso - repetimos kardec - "a força do
Espiritismo está em sua filosofia". E por que não está no fato mediúnico?
Porque o fato prova e convence objetivamente, não há dúvida, porém não elucida
os problemas mais graves de nossa vida, por si mesmo, se não tomar a direção
filosófica que conduz à inquirição das causas, dos porquês e das conseqüências.
A comunicação dos
espíritos demonstra praticamente a sobrevivência da alma "após a
morte". É o elemento básico. Mas é preciso partir daí para as indagações
que compreendem essencialmente o destino humano e as conseqüências morais do
Espiritismo. A esta altura já é esfera da filosofia e a força do Espiritismo -
não faz mal insistir neste ponto - está exatamente nesse corpo de princípios em
cuja homogeneidade e coerência e encontramos respostas às mais complexas e
momentosas questões de nossa vida: a existência de Deus, a justiça divina e as
desigualdades morais, intelectuais e sociais, livre arbítrio e determinismo, a
reparação do mal pelas provas, o reajuste de compromissos do passado através
das experiências reencamatórias. São temas de reflexão filosófica. Entretanto,
a Doutrina estaria incompleta e não decorressem daí as conseqüências morais com
que nos defrontamos a cada passo.
Quem, por exemplo,
gosta apenas de ver sessões mediúnicas, porque acha interessante ouvir os
conselhos dos espíritos ou conversar com os médiuns, mas não vai além desse
hábito, que se transforma em rotina com o decorrer do tempo, naturalmente não
tem uma visão global do ensino Espírita. Conhece o Espiritismo apenas pela
parte fenomênica, que é muito rica de lições e sempre temo que oferecer para
estudo e meditação, porém não abre horizonte mais amplo a respeito das leis e
causas, a que o fenômeno está sujeito. Há pessoas, por exemplo, que se interessam
muito pelo lado experimental do Espiritismo e fazem realmente estudos sérios,
mas encaram o fenômeno do intercâmbio entre dois mundos com a mesma
neutralidade ou frieza com que os especialistas lidam com os fenômenos da
Física ou da Eletrônica, e assim, por diante. A preocupação é exclusivamente
com o fenômeno puro e simples. E daí?... Que resulta de tudo isso? Sim, o
fenômeno da comunicação entre vivos e mortos é neutro até certo ponto, uma vez
que sempre ocorreu no mundo, muito antes das civilizações e, portanto, do
Espiritismo. E pode ser observado e registrado em ambientes não espíritas como
também pode ser discutido à luz de critérios diversos, nas áreas da
Parapsicologia, Psiquiatria, Antropologia, etc., sem nenhuma cogitação quanto
às causas e conseqüências. Se o psiquiatra se volta para a procura da
anomalidade, já o antropólogo vê o fenômeno dentro de um contexto cultural sem
implicações de ordem transcendental, como se costuma dizer.
Quando, porém, o
fenômeno está situado no contexto espírita, já não é tão neutro, porque assume
um valor moral muito especial e, por isso mesmo, não pode ser considerado
indiferentemente, como se estivesse em laboratório de Física ou Química. O fato
de o espírito entrar em comunicação com o nosso mundo pela via mediúnica já
pressupõe muita responsabilidade para o médium e também para quantos tenham de
lidar com esse tipo de trabalho. Há necessidade, portanto, de um preparo moral
indispensável. Já se vê que a situação, agora, é bem diferente. E porque,
finalmente, o Espiritismo engloba o fato mediúnico numa contextura filosófica
de conseqüências tão acentuadas? Exatamente porque a verificação de que os
mortos continuam vivos e vêm até nós, identificando-se, interferindo-se,
interferindo em nossos atos, "chorando as suas mágoas" ou trazendo
alegria e esperança, confirma a tese capital de que a vida continua no tempo e
no espaço. Partimos daí, desse princípio essencial, para a especulação
filosófica das origens e do chamado sobrenatural. O próprio impulso da sede de
saber nos leva a propor questões dessa natureza: que significa esse intercâmbio
em nossa vida? Qual o ponto inicial, a causa primária dessa força ou
inteligência aparentemente misteriosa? Que benefício poderá esse tipo de
conhecimento trazer para a humanidade? Começamos a sentir o conteúdo ético e
filosófico do Espiritismo desde o momento em que lhe avaliamos a profundidade e
a integridade como Doutrina capaz de corresponder às nossas preocupações com o
desconhecido e o nosso destino.
Mas a especulação filosófica,
embora necessária e valiosa, ainda não é suficiente para atender
satisfatoriamente às necessidades do ser humano quando desperta para os
problemas espirituais; torna-se necessário, senão indispensável, além deste
passo no conhecimento, procurar as conseqüências dos princípios espíritas na
vivência individual e coletiva. E aí, principalmente, que se sente força do
Espiritismo em sua filosofia.
Revista Espírita Harmonia - Fevereiro/2000
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