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A Propósito da Atualização do Espiritismo

Um Discurso, Uma Visão

 

 

Wilson Garcia

São Paulo-SP

 

A matéria “Atualização ou atualidade do Espiritismo?”, publicada na edição número 24 desta “Gazeta Espírita”, julho/agosto de 2003, com assinatura do caro amigo Francisco Castro de Souza, reproduz a preocupação que tem alcançado boa parte da oficialidade espírita e que nós mesmos, em contato com os também amigos da Cepa, onde a proposta de atualização do Espiritismo ganhou força nos últimos tempos, temos manifestado de público e em particular. De fato, a alguns afoitos pode parecer que uma “atualização” permitiria atingir o cerne da questão colocada por Kardec, isto é, a opinião dos Espíritos responsáveis pelos ensinos sem a contraparte da universalidade. Se isto ocorre, entramos num beco sem saída, com conseqüências danosas e irreversíveis.

No entanto, a pretexto dos perigos da atualização não se pode adotar a postura da não atualização, pois a não atualização incide forçosamente na não atualidade da doutrina e na sua morte definitiva. Um perigo e um dano tão grande quanto uma atualização sem método e sem controle. Um perigo do qual estamos muito mais próximos do que se imagina, como se verá à frente.

O movimento espírita brasileiro, ao adotar a postura e a prática religiosa no cotidiano da doutrina, assumiu também a ideologia da não mudança, em flagrante oposição à dinâmica de caminhar passo a passo com o conhecimento. È da herança religiosa essa postura; a tradição religiosa impôs a observância aos textos fundadores, tornados divinos em sua origem, e criou o fosso entre o progresso da humanidade e o conhecimento espiritual. Fixou, assim, o terreno da religião, limitou o espaço e ficou para trás.

Quando as vozes se levantam contra a atualização, despertam a memória religiosa da separação entre a religião e o conhecimento e assumem o comando, a liderança contra a atualidade. Quando outras vozes clamam pela atualização, apontam para esse conflito e acenam pela atualidade. Só o método pode balizar as ações, mas esse método fica totalmente impossibilitado se as partes em litígio não se entenderem, não puderem sentar à mesa para o planejamento comum.

Ninguém de bom senso se oporá ao fato de que o Espiritismo surgiu, em parte, em decorrência da cristalização do conhecimento que a religião adotou. Mas qualquer um de nós será grandemente afetado se amanhã for obrigado a reconhecer que o Espiritismo, também pela cristalização do seu conhecimento, deve ser relegado em benefício de outra filosofia mais concernente com o progresso humano.

À mesa do entendimento, sob a bandeira da alteridade, seremos capazes de definir o que deve ser atualizado e sob que condições. Ou não seremos? Creio que sim, pois somos todos seres de excelente bom senso, como já o dizia o inesquecível Descartes em seu Discurso do Método.

A não disposição para o diálogo da atualidade da doutrina não só inviabiliza o seu progresso como também estimula a que a confusão se aprofunde cada vez mais, como ocorre atualmente, ou seja, no campo da mediunidade a falta de critério faz com que uma enxurrada de produtos duvidosos alcance as massas sem que ninguém tenha condições sequer de traçar uma análise do valor desses produtos, o que seria o mínimo exigido.

Conclusão: num mundo em que ninguém é dono de ninguém e as lideranças se isolam em compartimentos ideológicos, na defesa de seus interesses institucionais, a possibilidade maior é de que a doutrina caminhe para a cristalização e perca o sentido que a justifica.

No entanto, uma firme disposição para o diálogo, além de não oferecer qualquer perigo caso os entendimentos não aconteçam, torna-se a possibilidade real e única de estabelecer o consenso acerca dos pontos fundamentais em que a atualidade deve ser observada. Não resta dúvida de que Kardec já traçou os limites que interessam aos espíritas, em questão de novos conhecimentos a serem incorporados. E o amigo Castro os relembrou em seu artigo. No fundamental, universalidade do ensino dos Espíritos. No acessório, estudo criterioso do avanço científico e dos desdobramentos tecnológicos. No geral, recusa definitiva de distanciamento do progresso, por óbvias razões.

O temor da descaracterização do Espiritismo teve o seu momento e a sua justificativa. O estranhamento com que a doutrina foi recebida resultou em imensas dificuldades de assimilação cultural de suas propostas e informações. Estranhamento, é preciso registrar, que não diz respeito apenas aos adversários, mas a todos os que tiveram sua atenção voltada para o Espiritismo.

Era preciso manter uma fidelidade canina ao texto original, fidelidade quase sempre arranhada por tradutores, mas também ferida por interessados numa atualidade sem método e controle. Os textos de propriedade intelectual de Kardec corriam perigo nas mãos de pessoas despreparadas; grande parte das lutas pela chamada “pureza doutrinária” se destinava à manutenção da integridade desses textos. Apesar do desrespeito de alguns, em traduções que ainda estão na praça, valeu a luta: qualquer que pretenda “inovar” em traduções ou edições terá sempre contra si a quase unânime repulsa da comunidade espírita.

A questão que se coloca, hoje, já não é mais, portanto, a da defesa desse tipo de pureza, mas a da evolução da doutrina, do seu caminhar com o progresso, das abordagens temáticas que, feitas a um tempo sofreram novas interpretações por conta do avanço da ciência.

É verdade que a doutrina permanece “insuperável e de profunda momentaneidade”, como registrou Castro nas palavras de Joana de Angelis, mas que sua atualidade em termos gerais permanece é questão para se discutir, estudar, pesquisar e reconhecer consensualmente.

Para terminar: atualizar é prosseguir o que fizeram Delanne, Bozzano, Aksakof, Rochas, Flamarion e outros, muitos deles contemporâneos de Kardec. Não atualizar é esquecê-los, como vem ocorrendo, pois hoje, por conta de uma suficiência sinuosa de saber, não os conhecemos e não temos memória para a atualização e os desdobramentos que eles promoveram, sob a reverência reconhecida das inteligências brilhantes que os acompanharam.

Está por nossa conta a opção entre permanência e momentaneidade.

 

 

 

 

 

Pensamentos

 

 O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

 

 

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