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Rodolfo Calligaris
Se o homem tivesse
uma única existência corporal, como crêem os - que rejeitam o princípio da
reencarnação, poder-se-ia imputar ao Criador um gravíssimo defeito, qual seja a
falta de equidade, senão mesmo a mais clamorosa injustiça, pela circunstância
de suscitar as criaturas umas antes que as outras, privando assim as primeiras
dos benefícios reservados às que chegam por último. Como deixamos exposto em
nosso escrito anterior, a civilização avança, vagarosa mas ininterruptamente,
de modo que, de um século a outro, há sempre, para o homem, melhores condições
de vida, o que eqüivale a dizer, mais felicidade.
Destarte, todos
quantos hajam vivido nos tempos primitivos, em que tiveram que enfrentar a
rudeza do meio e todo gênero de dificuldades, fartas e boas razões teriam para
lastimar-se pela má sorte de terem nascido muito cedo...
Assim também, todos
quantos houvessem ajudado a promover o progresso do mundo, através dos -
séculos, teriam motivo de queixa por não lhes ter sido dado viver mais
longamente, de modo a colherem os frutos de seus esforços e de seus
sacrifícios.
Deus, porém, não
poderia consagrar semelhante iniqüidade, e, pela lei das vidas sucessivas,
permite aos que viveram ao longo do passado voltem a viver na Terra em épocas
vindouras, assegurando-lhes, por esse processo de rigorosa justiça, o ensejo de
desfrutarem o que construíram e, através de novos labores e experiências,
participarem da marcha ascensional da Humanidade.
A teoria, da vida
única, que estamos analisando, dá margem, ainda, à seguinte objeção: É
princípio seu que a alma de cada ser humano é criada no momento de sua união
com o corpo, isto é, no instante do nascimento. Assim, pois, se o individuo «A»
é mais adianta do do que «B», é porque Deus criou para ele uma alma mais
adiantada. Por que esse favor? Que merecimento teria ele para ser dotado de uma
alma superior, mais burilada?
Essa, entretanto, não
é a maior dificuldade, e sim estoutra:
«Se os homens
vivessem um milênio, argumenta Allan Kardec em O Livro dos Espíritos —
conceber-se-ia que, nesse período milenar, tivessem tempo de progredir. Mas,
-diariamente, morrem criaturas em todas as idades; incessantemente se renovam
na face do planeta, de tal sorte que todos os dias aparece uma multidão delas e
outra desaparece. Ao cabo de mil anos, já não há naquela nação vestígio de seus
antigos habitantes. Contudo, de bárbara, que era, ela se tornou policiada. Que
foi o que progrediu? Foram os indivíduos outrora bárbaros? Mas esses morreram
há muito tempo. Teriam sido os recém-chegados? Mas, se suas almas foram criadas
no momento em que eles nasceram, essas almas não existiam na época da barbárie
e forçoso será então admitir-se que os esforços que se despendem para civilizar
um povo têm o poder, não de melhorar almas imperfeitas, porém de fazer que Deus
crie almas mais perfeitas.
«Comparemos esta
teoria do progresso com a que os Espíritos apresentaram. As almas vindas no
tempo da civilização tiveram sua infância, como todas as outras, mas já tinham
vivido antes e vêm adiantadas por efeito do progresso realizado anteriormente.
Vêm atraídas por um meio que lhes é simpático e que se acha em relação com o
estado cm que atualmente se encontram. Desta forma, os cuidados dispensados à
civilização de um povo não têm como conseqüência fazer que, de futuro, se criem
almas mais perfeitas; têm, sim, a de atrair as que já progrediram, quer tenham
vivido no seio do povo que se figura, ao tempo da sua barbárie, quer venham de
outra parte. Aqui se nos depara igualmente a chave do progresso da Humanidade
inteira. Quando todos os povos estiverem no mesmo nível, no tocante ao
sentimento do bem, a Terra será ponto de reunião exclusivamente de bons
Espíritos, que viverão fraternalmente unidos. Os maus, sentido-se aí repelidos
e deslocados, irão procurar, em mundos inferiores, o meio que lhes convém, até
que sejam dignos de volver ao nosso, então transformado.»
Os que vivemos neste
século XX da era cristã, sejamos gratos ao Criador por aquilo que permitiu já
fosse realizado em favor do progresso e da tranqüilidade das nações;
compreendamos, entretanto, o nosso papel no mundo, saibamos que somos os artífices
do nosso porvir e se quisermos viver, amanhã, numa sociedade ainda melhor, auxiliemos
a preparar o seu evento, cultivando o amor aos semelhantes, a bondade e a
justiça, como ensina o Evangelho de N. S. Jesus Cristo.
Fonte:
Revista
Reformador - janeiro/1972
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