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É provável que você nunca tenha
ouvido falar no Museu das Almas do Purgatório. Mesmo entre os católicos é
praticamente desconhecido. Ele guarda registros do que seriam aparições de
pessoas mortas. Pessoas que teriam voltado do além ou do purgatório para pedir
orações.
Na doutrina católica, o
purgatório é um estado de espera. Um lugar de almas em purificação. Um
sofrimento que só terá fim com a chegada ao paraíso.
Na Divina Comédia, uma das
maiores obras poéticas de todos os tempos, o purgatório imaginado por Dante
Alighieri é uma montanha muito alta, cercada de terraços, onde as almas se
purificam dos pecados cometidos na Terra.
Foi na Idade Média que o
purgatório viveu o auge da fama na imaginação dos cristãos. Hoje, fala-se pouco
dele. O céu e o inferno desfrutam de maior prestígio nos sermões católicos.
Numa igreja de Roma, um museu
misterioso contém relíquias que seriam um testemunho da comunicação de almas do
purgatório. A igreja não permite que nenhuma imagem seja gravada, mas um pesquisador
de parapsicologia, o brasileiro Clóvis Nunes, entrou no Museu das Almas do
Purgatório e conseguiu filmar as peças: “Este museu está reservado à Igreja.
Para nós termos acesso a ele, precisei contar com o apoio de uma autoridade
eclesiástica, em Roma, da Igreja Católica Brasileira”, conta.
Clóvis entrou na Igreja do
Sagrado Coração do Sufrágio. Sufrágio significa ato de piedade, oração pelos
mortos. A igreja pertence aos missionários do Sagrado Coração, ordem católica
fundada pelo padre francês Jules Chevalier, em 1854.
Numa pequena sala, ao lado da
sacristia, estão guardadas as relíquias: os antigos missionários do Sagrado
Coração acreditavam que elas eram provas da comunicação entre vivos e mortos.
Uma das peças mais
impressionantes mostra o que seria a mão de uma freira - morta em 1637 -
impressa como se fosse a fogo, no hábito, uma espécie de avental, de uma outra
freira. Segundo os registros do museu, a irmã Clara Schoelers apareceu no
mosteiro beneditino de Winnenberg, na Alemanha, em 1696 -- quase 60 anos depois
de sua morte -- e deixou a marca no hábito da freira Maria Herendorps: “Ela
chegou envolvida em luz, e para a irmã não ter dúvida de que não era um sonho,
ela deixou impressa no avental que estava pendurado no cabide a marca de sua
mão queimada com fogo”, diz Clóvis.
A maioria das peças que compõem
o Museu das Almas se referem à aparição de padres, freiras e fiéis, ocorridas
em ambiente católico: igrejas, conventos, quartos de oração.
A marca que se vê na foto acima
faz parte de uma série de aparições do padre Panzini, que foi abade em Mântova,
Itália. Dizem os registros do Museu das Almas do Purgatório que o padre Panzini
apareceu em 1731, no mosteiro de San Francisco, em Todi. Teria sido visto pela
madre superiora, a venerável Isabela Fornari: “A marca foi deixada numa pequena
mesa de madeira sobre a qual estava colocado um pano, que era na verdade a
manga da camisa do hábito”, conta Clóvis. “Ele deixou impressa em queimadura,
pela irradiação da luz de sua mão, e também apareceram marcas de sangue”.
O padre Panzini teria deixado a
marca da mão também na túnica da madre superiora: “Ele também imprimiu sobre a
madeira onde estava o hábito o desenho de uma cruz, feita também com o fogo de
suas mãos, onde se vê, ao lado da mão, o sinal desenhado da cruz. A marca está
bem visível”, diz o pesquisador.
Por ordem do padre Isidoro
Gazala, confessor da madre superiora, os fragmentos da mesa e das roupas foram
guardados e conservados, durante quase dois séculos, antes de serem trazidos ao
museu.
Na noite de 21 de junho de 1789,
na Bélgica, Giuseppe Leleux foi acordado pela visão da mãe, morta 27 anos
antes. A mãe teria deixado uma marca impressa na roupa de dormir do filho e
pedido que o rapaz mudasse de vida e se convertesse à Igreja. Depois da
aparição, Giuseppe fundou uma congregação católica.
Outras marcas apareceram na
paróquia de Ellinguen, na Alemanha, num livro que pertencia à devota Margarita
Demerlê. Não há registro de datas, mas a história começou quando Margarita viu
o que seria o espírito de uma mulher: “Ela lhe pergunta: ‘Quem é você e o que
pretende?’. A alma materializada diz: ‘Eu sou sua sogra, morta de parto há 30
anos. Quero que você vá até a Igreja de Nossa Senhora e celebre missas por
minha alma’”, conta Clóvis.
Dizem as crônicas do Museu das
Almas que Margarita correu para contar tudo ao padre, e que o padre lhe disse:
"Faz o que ela quer. Celebre as missas”. “Ela celebra as missas com
orientação do padre. Meses depois a alma volta e agradece a ela, dizendo que está
livre”, diz o pesquisador.
“Ela foi até o livro, abriu, e
ali imprimiu as marcas de fogo de sua mão. E o que é curioso, é que ela abriu o
livro na parte final do capítulo IV. As marcas ficaram sobre o seguinte texto:
“Estou carregado de pecados, combatido de tentações, e não há quem me valha,
não há quem me livre e salve senão tu, Senhor”, recita Clóvis.
Lorena, Alemanha, 21 de dezembro
de 1838. Giuseppe Schitz aparece diante do irmão e pede orações, porque está
sofrendo no purgatório. Marcas dos dedos de Giuseppe foram deixadas num livro
de orações do irmão: “A marca do dedo atravessou nove páginas com a queimadura.
Ela chegou a fazer uma perfuração”, conta o pesquisador.
Marcas semelhantes aparecem em
outros livros que fazem parte do acervo do Museu das Almas do purgatório. Uma
coleção espantosa.
Uma figura misteriosa aparece no
altar depois de um incêndio. Assim começou a história do Museu das Almas do
Purgatório.
Quem fundou a Igreja do Sagrado
Coração do Sufrágio foi o missionário francês Vitor Jouet. Ele queria que o
templo fosse dedicado às almas dos mortos. No dia 15 de novembro de 1893, houve
um incêndio ao lado do altar. O fogo deixou uma marca no mármore: nela, os
fiéis enxergaram o rosto atormentado de um homem. Padre Jouet acreditou que
aquilo era um sinal, como se uma alma do purgatório estivesse suplicando por
ajuda.
Depois desse episódio, o padre
Jouet viajou por conventos na Itália, França, Bélgica e Alemanha, coletando
objetos que comprovassem a manifestação dos mortos. Na volta, criou o Museu
Cristão do Além-Túmulo, que mais tarde passaria a se chamar Museu das Almas do
Purgatório. Tinha cerca de 200 peças, mas só restaram hoje as que foram
aprovadas pelos sucessores do padre Jouet, aquelas consideradas autênticas
acima de qualquer dúvida.
O padre Philipo Seveau,
responsável pelo arquivo da Ordem dos Missionários do Sagrado Coração, diz que
o padre Jouet era procurador da Santa Sé, e que tinha o apoio da cúria romana:
“Padre Jouet era bem visto pelos cardeais e pelo Papa Pio X, ele conseguiu
muitos benefícios para nossa congregação”, afirma.
Pode-se acreditar na
autenticidade do Museu das Almas do Purgatório? O Vaticano não quer dar uma
opinião oficial sobre a autenticidade das relíquias, mas as peças que estão no
museu impressionaram vários especialistas da Igreja.
Orazio Petrosillo, especialista
em Vaticano, já tinha ouvido histórias sobre as relíquias. Quando conheceu o
museu, acreditou na autenticidade dele: “Eu, sinceramente, acredito que seja
verdadeiro. Tenho a impressão de que são almas do purgatório que deixaram
aqueles sinais para lembrar aos parentes e amigos de rezar por elas. Eu já
tinha ouvido várias histórias e fui preparado para aquele museu. Não tenho
nenhuma dificuldade de pensar que seja verdadeiro, mas é claro que não se deve
dar tanta importância a um livro queimado, que será sempre um livro queimado.
Mas esses objetos não são falsos”, afirma. “O fato é que não são falsos. Mas
também é fato que a Igreja não se compromete, não faz uma declaração sobre a
verdade. Não são truques e não são documentos falsos. Claramente se pensa que
são almas do purgatório”.
Sandro Magister, outro
especialista em Vaticano, diz que o museu foi criado para tentar comprovar a
existência do purgatório, e que sempre causou controvérsia: “Eu acredito que
algumas pessoas considerem aquelas peças testemunhos dignos de fé e, talvez,
outra grande parte veja as relíquias com menos credibilidade”.
Padre Gino Concetti, teólogo
franciscano, não dá muita importância às peças do museu: ““Eu penso que a materialização
da religião e das verdades é sempre uma expressão ligada a uma determinada
época, a uma cultura e sensibilidade. Eu acredito mais numa verdade
sobrenatural espiritual. Não podemos saber nada do purgatório, apenas isto: é
um lugar, como disse Dante, onde os espíritos vivem até ser dignos do reino dos
céus. Sabemos que o inferno é um lugar de tormento, como disse Jesus no
Evangelho, onde há pranto e lamento. Mais do que isso não podemos saber”.
Padre Gino diz que,
pessoalmente, não acredita naquelas relíquias: “Não é possível materializar uma
coisa espiritual. Não é possível. Nós imaginamos as almas entre chamas para
exprimir a idéia de que essas almas sofrem tormentos e precisam de ajuda. Mas
na verdade não é assim”.
Nossa reportagem ouviu também um
dos poucos exorcistas oficiais do Vaticano. O padre capuchinho Vittorio Traini
mostra-se muito prudente quando fala do Museu das Almas do Purgatório: ““As
peças podem até ser verdadeiras, mas as almas não manifestam a sua presença com
essas coisas, a menos que tenham sido graças especiais concedidas a pessoas
especiais. Assim como existem essas manifestações, há também manifestações de
caráter infernal, do diabo”.
As relíquias do Museu das Almas
trazem uma questão muito delicada para a Igreja Católica: existe a comunicação
entre vivos e mortos? “Eu acredito que sim. Eu acredito e me baseio num
fundamento teológico que é o seguinte: todos nós formamos em Cristo um corpo
místico, do qual Cristo é o soberano. De Cristo emanam muitas graças, muitos
dons, e se somos todos unidos, formamos uma comunhão. E onde há comunhão,
existe também comunicação”, acredita padre Gino Concetti.
“O espiritismo existe, há sinais
na Bíblia, na Sagrada Escritura, no Antigo Testamento. Mas não é do modo fácil
como as pessoas acreditam. Nós não podemos chamar o espírito de Michelangelo,
ou de Rafael. Mas como existem provas na Sagrada Escritura, não se pode negar
que exista essa possibilidade de comunicação”, afirma padre Gino.
“A Igreja acredita que seja
possível uma comunicação entre este mundo e o outro mundo. A Igreja tem
convicção de que esta comunicação existe. A Igreja se sente peregrina, porque
vive na terra e possui uma pátria no céu”, diz Sandro Register.
O email do pesquisador Clóvis
Nunes é paz@gd.com.br
Reportagem
do site do "Fantástico", da Rede
Globo.
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