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Marcelo Henrique*
Você
sobe o degrau do ônibus e, de súbito, uma pessoa lhe encara. Transmite-lhe
energias pesadas. Você logo antipatiza com o cidadão. Outra hora, você vai à
padaria e a pessoa que está ao seu lado irradia-lhe tanta paz e serenidade que
lhe dá vontade de começar a conversar. Você o faz, e a recíproca é verdadeira.
Logo, você descobre que a moça mora há algumas casas à frente da sua e que
vocês parecem velhos amigos...
Situações
como essas demonstram o quão mágicas e complexas são as relações humanas. Na
maioria das vezes, os condicionantes externos nos predeterminam determinadas
sensações, ou estímulos. Pessoas bem vestidas nos remetem a seres que se apegam
demais à aparência. Para outro, podem representar indivíduos cuidadosos e
solícitos, que procuram valorizar cada momento. De outra sorte, uma senhora
desconfiada, que nos olha por sobre os óculos, pode simbolizar alguém que teme
ser atacada ou agredida. E o senhor, bonachão que carrega com cuidado seus
jornais pode estar disposto a uma boa conversa, amigável e prestativo.
O
certo é que a proximidade do outro e a afabilidade, de nossa parte, vão aos
poucos vencendo as pequenas barreiras que colocamos no nosso convívio com o
outro. De tão envoltos em nossas preocupações e concentrados em nossas
obrigações, acabamos não permitindo que o outro “invada” nosso espaço interior,
perceba nossas fragilidades, ou adivinhe nossos pensamentos.
É
bem verdade que episódios negativos, antes experimentados, em relação a pessoas
que abusaram de nossa boa-vontade ou presteza, às vezes podem dificultar
qualquer nova experiência. A recíproca também pode ser verdadeira, quando,
apesar de nossa intenção positiva, o outro não esteja disposto a “baixar a
guarda”.
A
par das experiências do hoje, você deve encarar a vida como uma mágica espiral
onde as experiências se repetem ou se diversificam. Costumamos dizer que, ao
abrir um livro a esmo e reler um capítulo ou um item antes já memorizado, suas
impressões podem ser bastante diferentes da primeira ou das outras vezes.
Justamente porque o seu momento existencial é diferente!
Assim
também se dá com as pessoas e nosso interagir com elas estará baseado no
somatório entre nossa atmosfera interior e nossas percepções pessoais do outro.
Embora a tônica, quase sempre, se baseie no adágio “a primeira impressão é a
que fica”, os exemplos diários nos mostram casos em que uma antipatia original
pôde ser, aos poucos, cuidadosamente talhada numa sólida amizade, ou, mesmo,
numa carinhosa convivência conjugal. O grande segredo é, portanto, dar-se mais,
e exigir menos, para que o outro tenha oportunidade, também, de conhecer você
por dentro, desfrutando de sua real essência.
Para
quem tem visão para perceber e audição para sentir, parafraseando um certo
galileu, há quem consiga constatar que as afeições e as antipatias extravasam
os instantes do hoje e perdem-se no tempo suas raízes e causas. Um grande amigo
que cativamos hoje, na verdade, já esteve conosco em outras jornadas,
construindo uma relação sólida e duradoura que atravessa os limites do
espaço-tempo tradicionais. E, quem sabe, aquele companheiro que trabalha
contigo, e que você não consegue “suportar”, mas o faz, apenas e
circunstancialmente em virtude das exigências da instituição, pode ter-lhe sido
uma vítima, ou um algoz em tempos imemoriais.
O
importante, em essência, não é tentar entender tais laços. O que se nos exige,
amiúde, é a tentativa de transformar laços de ódio em amor, até porque, no
fundo destas relações tempestuosas e agressivas, pode estar um amor
mal-resolvido.
Ou
você não acha?
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Diretor de Política e Metodologias de Comunicação, da Associação Brasileira de
Divulgadores do Espiritismo (ABRADE).
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