|
Eliseu F. Mota Júnior
Em matéria intitulada ‘Período de Luta’, publicada na
Revista Espírita de dezembro de 1863,
Allan Kardec preconizou seis fases ou períodos distintos para o Espiritismo,
iniciando pelo período da curiosidade,
caracterizado sobretudo pelos fenômenos de efeitos físicos das mesas girantes,
seguido pelo período filosófico,
marcado pela publicação de O Livro dos
Espíritos, ocasião em que o Espiritismo tomou um caráter completamente
diferente e foram entrevistos o seu objetivo e a sua extensão.
Kardec deixou registrado que desde então foi dirigida
uma verdadeira cruzada contra o Espiritismo, principiando o período da luta com o auto-de-fé de
Barcelona, ocorrido a 9 de outubro de 1861, luta essa que causaria a eclosão do
período religioso, a ser logo
sucedido pelo período intermediário,
conseqüência natural do precedente. Finalmente, Kardec previu o sexto e último
período, por ele chamado de período da regeneração
social e que deveria abrir a era do século vinte.
Entretanto, daqui do limiar do terceiro milênio, verificamos com
indisfarsável tristeza que em muitos locais o Espiritismo ainda está parado no período religioso, quando Kardec havia
imaginado que essa fase religiosa e o
período intermediário estariam
superados dentro do século dezenove, possibilitando que a Doutrina Espírita
ingressasse no século vinte no seu período
de regeneração social. Mas, à parte essa lamentação, o propósito real
destas reflexões é o de constatarmos que os períodos do Espiritismo podem
perfeitamente ser comparados às fases pelas quais passa todo espírita,
independentemente de ter nascido ou não em família espírita, como veremos em
seguida.
Com efeito, na fase
da curiosidade, a pessoa mostra maior interesse em assistir aos fenômenos
de efeitos físicos, como por exemplo objetos lançados à distância, movimentos
de móveis, lâmpadas que apagam e acendem, geralmente produzidos por Espíritos
levianos ou zombeteiros, mas que têm o objetivo de despertar a atenção dos
assistentes para a realidade do mundo extrafísico, deixando patente que os
mortos continuam vivendo e que podem interferir no mundo físico através da
mediunidade.
Então, profundamente impressionado com isso, o futuro
espírita vai procurar conhecer as obras básicas da codificação espírita, em especial
O Livro dos Espíritos, quando entrará
na fase filosófica, porque encontrará
explicações lógicas e racionais para os grandes enigmas da humanidade: Quem sou eu? De onde vim? O que estou
fazendo aqui? Para aonde irei depois da morte? Assimilando as respostas, o
sujeito perceberá que está na hora de mudar de hábitos e de vida, passando para
a fase da luta interior, da
proclamada reforma íntima, pois estará convicto de que a morte é apenas uma
forma inevitável de enfrentar o tribunal da consciência.
Essa luta determinará um novo progresso na vida do
espírita, que o conduzirá à quarta fase, à fase
religiosa. Passará então a freqüentar ‘religiosamente’ uma Casa Espírita,
assistirá às reuniões de estudos e participará dos debates, fará sua primeira
exposição doutrinária, tomará e aplicará passes e água fluidificada, integrará
grupos de desenvolvimento mediúnico e de desobsessão, e quando pensar que tudo
está resolvido, que já pode esperar a morte para entrar na sonhada colônia
espiritual, descobrirá que apenas isso não basta, que é preciso mais trabalho
para justificar a sua encarnação.
Muitos desistem aqui e chegam até mesmo a abandonar a
vida espírita. Acontece que a quinta fase — chamada período intermediário —, é
conseqüência natural da religiosa e exige que a pessoa reflita mais
profundamente sobre a moral do Cristo, a qual Allan Kardec, no seu
extraordinário poder de síntese, resumiu na bandeira do Espiritismo: Fora da caridade não há salvação! Mas
essa caridade deve ser entendida no seu verdadeiro sentido, conforme está na
questão 886 de O Livro dos Espíritos,
pois consiste em sermos benevolentes para com todos, indulgentes para as
imperfeições dos outros, de perdoarmos todas as ofensas, valendo lembrar ainda
que a caridade não pode e nem deve ficar restrita à esmola, bem como que o
verdadeiro homem de bem procura elevar seus inferiores, tratando-os da mesma
forma que trata os seus iguais e os seus superiores.
Diante disso, é hora de indagarmos: será que estamos
na fase da curiosidade e ainda somos
‘caçadores’ de fenômenos de efeitos físicos? Ou será que paramos na fase filosófica, duvidando da realidade
espírita? Ou ingressamos na fase da luta e
ali estacionamos diante das dificuldades? Ou nos apegamos à fase religiosa, ignorando que devemos
seguir em frente para atingir a fase
intermediária? Certamente poucos estarão na fase de regeneração, porque estariam antecipando-se à própria
Terra, que ainda não é um mundo de regeneração.
Depois de fixada a posição em que estivermos,
deveríamos aproveitar esse momento de transição milenar para refletirmos sobre
a necessidade inapelável de alcançarmos logo a última fase, inaugurando o
período de regeneração social no
século vinte e um, quando, como previu Kardec já para o século vinte,
finalmente todos os obstáculos à implantação da ordem de coisas ditadas por
Deus, para a transformação da Terra, terão desaparecido. Isto porque a nova
geração que está surgindo acatará essas idéias e estará com a força necessária
para preparar o caminho que vai possibilitar a vitória definitiva da união, da
paz e da fraternidade entre os homens, confundidos todos numa mesma crença pela
prática da lei evangélica. Assim serão verificadas todas as palavras do Cristo,
que certamente serão cumpridas agora em que, sem nenhuma dúvida, “os tempos
preditos são chegados”.
|