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As Reuniões Espíritas de Allan Kardec

 

 

Eliseu F. Mota Júnior

  

Com tanta confusão reinante no movimento espírita, alguém já parou para pensar como seria uma reunião espírita dirigida pelo próprio Allan Kardec? Pois bem, vamos tentar reconstituir como eram as sessões da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que foi a primeira entidade espírita do mundo, devendo, portanto, servir de modelo a toda instituição que pretenda estudar, divulgar e praticar o Espiritismo como fazia o seu próprio criador, de acordo com pesquisa realizada em várias edições da Revista Espírita.

O nascimento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas — Em 1858, um ano depois do lançamento de O livro dos Espíritos, Allan Kardec residia à Rua dos Mártires, nº 8, no centro de Paris, onde realizava reuniões espíritas às terças-feiras, tendo como principal médium a Senhorita Ermance Dufaux. O local comportava de quinze a vinte pessoas no máximo, porém houve sessões em que estiveram presentes até trinta interessados.

Como não era nada cômoda essa situação, alguns dos freqüentadores resolveram cotizar-se para alugar um local mais amplo. Para isso, era imprescindível uma autorização legal, evitando-se problemas com as autoridades constituídas. Desse modo, o Sr. Dufaux, que conhecia o Prefeito de Polícia, encarregou-se do caso, sendo que a autorização dependia também do Ministro do Interior. Coube então a um influente general, simpatizante anônimo das idéias espíritas, a obtenção da autorização, o que ocorreu em apenas quinze dias.

Então, no dia 1º de abril de 1858 surgiu oficialmente a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, destinada a reuniões de estudos teóricos e práticos da Doutrina Espírita, para cuja presidência Allan Kardec foi seguidamente reconduzido. Ele costumava abreviar o nome da entidade para Sociedade de Estudos Espíritas, Sociedade Espírita de Paris ou apenas Sociedade de Paris. As reuniões continuaram acontecendo às terças-feiras, só que agora em um compartimento alugado no Palais Royal (Palácio Real), galeria de Valois, onde ficou até 1º de abril de 1859, quando passou a reunir-se às sextas-feiras em um dos salões do Restaurante Douix, no mesmo Palais Royal, Galeria Montpensier nº 12, até 1º de abril de 1860, ocasião em que se transferiu para a sua sede própria, situada na Rua e Passagem de Sant’Ana, nº 59, também na região central da capital francesa.

A disciplina nas reuniões — Assim, regularmente constituída a Sociedade, ali seus associados se reuniam para o estudo do Espiritismo, como outros para o estudo da Frenologia, da História ou de outras ciências, e, como em toda reunião séria, exigia-se uma regra para manutenção da boa ordem, destinada a estabelecer a disciplina das sessões, e a manter, entre os presentes, as relações de urbanidade e educação que devem presidir todas as assembléias de pessoas de boas maneiras, respeitadas as condições inerentes à especialidade dos seus trabalhos. Isto porque ali não se tratava apenas com homens, mas também com Espíritos, e, como é sabido, nem todos são bons. Contra a violência daqueles que destoavam, era necessário se resguardar. Nesse número, alguns eram mais astuciosos e podiam mesmo, por ódio ao bem, induzir os presentes a uma via perigosa. Devia-se, pois, ter muita prudência e perspicácia para vencê-los, o que exigia que fossem tomadas precauções especiais.

Na reunião do dia 24 de agosto de 1860, tendo em vista que várias pessoas estranhas ali estavam, e a fim de alertá-las contra as falsas idéias que poderiam formar acerca dos objetivos de seus trabalhos, Kardec as advertiu de que ali não eram feitas experiências e que estavam enganadas se esperavam encontrar assunto para distrações, porque a Sociedade ocupava-se de coisas muito sérias, mas pouco interessantes e pouco inteligíveis para quem quer que fosse estranho à ciência espírita.

Asseverou ainda que, como a presença de tais pessoas seria inútil para elas próprias e poderia ser causa de perturbação para a sessão, recusava-se a admitir as que não possuíssem, pelo menos, um mínimo de conhecimento do Espiritismo, pois, antes de tudo, aquela era uma Sociedade científica, de estudos sérios, e não uma sociedade de ensino; afirmou que jamais convocou o público porque sabia, por experiência, que a convicção só se formava por uma longa série de observações e não por se haver assistido a algumas sessões que não apresentam nenhuma continuidade metódica. Eis a razão por que ali não eram feitas demonstrações, que deveriam recomeçar cada vez e que paralisariam os trabalhos. Entretanto, se malgrado isso, ali estivessem pessoas atraídas só pela curiosidade, ou que não partilhassem da sua maneira de ver, foram lembradas de que não haviam sido convidadas e que por isso esperava-se delas o respeito às convicções da Sociedade, como esta respeitava as suas. Assim, caso insistissem em permanecer, deveriam manter silêncio e recolhimento, que é uma das mais expressas recomendações da parte dos Espíritos que de boa vontade ali se comunicavam, de modo que todos os presentes deveriam abster-se de qualquer tipo de conversação particular.

Manifestações de efeitos físicos — Normalmente as sessões da Sociedade de Paris eram reuniões de estudos, mas, durante certa sessão, um rapaz de treze anos de idade recebeu um Espírito batedor a ele ligado e que o fazia simular, com as mãos e os dedos, com incrível volubilidade, toda sorte de evoluções militares, com cargas de cavalaria, manobras de artilharia, ataques de fortes etc., tomando todos os objetos a seu alcance, para fingir de armas. Exprimia os vários sentimentos que o agitavam — como a cólera, a impaciência e a zombaria —, por violentas batidas e gestos de pantomima, muito expressivos. Além disso, notava-se a impassibilidade e a despreocupação do rapaz, enquanto mãos e braços se entregavam a essa espécie de ginástica. Tornava-se evidente que todos os movimentos independiam de sua vontade. Durante o resto da sessão e quando já interrompida a experiência, o Espírito aproveitava a ocasião para manifestar, a seu modo, o contentamento ou o mau humor a respeito do que se dizia. Numa palavra, via-se que se apoderava dos membros do rapaz e os empregava como seus. Tal gênero de manifestações oferecia um curioso assunto para estudo, por sua originalidade, e podia dar a compreender a maneira pela qual os Espíritos agem sobre certas criaturas.

Entretanto, interrogado acerca das conseqüências que tais manifestações exercem sobre o médium, o Espírito São Luís fez advertências cheias de sabedoria e aconselhou que elas não fossem provocadas. Além disso, o mentor concitou a Sociedade a não entrar nessa via de experiências, cujo resultado seria o afastamento dos Espíritos sérios, e poderia impedi-la de continuar, como havia feito até então, no aprofundamento de questões importantes.

Conclusão — Este singelo relato acerca da natureza da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, o primeiro Centro Espírita do mundo criado e dirigido pelo próprio Allan Kardec, bem como de algumas características de suas reuniões, tem o único propósito de servir de motivo para reflexão por parte dos dirigentes de certas Casas Espíritas da atualidade, onde tem sido praticado de tudo, menos Espiritismo!

 

 

 

 

 
 

Pensamentos

 

 O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

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Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

 

 

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