|
Eliseu
F. Mota Júnior
Quando vai realizar uma
simples viagem a um país estrangeiro, uma pessoa dotada do mínimo de ordem e
previdência toma algumas precauções para evitar contratempos. Assim, após
providenciar o passaporte e o necessário visto de entrada, procura saber qual a
estação do ano e a temperatura reinantes, a língua falada, a moeda circulante e
outras informações. De posse desses dados, compra as passagens, prepara a
bagagem e deixa todos os compromissos organizados, para que os parentes e
amigos não sejam perturbados na sua ausência Tudo isso ela faz sem ter certeza
de que concretizará a viagem, porque um obstáculo imprevisível pode impedi-la
de viajar.
Entretanto, para a grande viagem que todos faremos, ou
seja, para a morte, poucas pessoas estão preparadas; raras são as que procuram
saber as condições de tempo e de espaço, o clima, a língua, a moeda, os meios
de transporte, a alfândega e todos aqueles detalhes necessários para a viagem
ao mundo espírita, ou mundo dos Espíritos, de onde viemos e para onde retornaremos
a qualquer momento. Foi pensando nisso que resolvemos convidar o leitor para
uma viagem imaginária ao mundo espírita, fazendo uma analogia com uma viagem
aqui no mundo físico. Vamos nessa?
Os preparativos — Antes de mais nada, convém não esquecer que essa viagem terá início sem aviso prévio, de modo que a
bagagem deverá estar sempre pronta, porquanto quando nascemos já recebemos a
passagem de volta, faltando apenas marcar o horário e o local do embarque.
Assim, é bom deixar todos os papéis, contas e demais compromissos em ordem,
para não amolar os que não irão conosco. A moeda circulante no mundo espiritual
é constituída pela inteligência,
pelos conhecimentos e pelas qualidades morais, de acordo com o Espírito Pascal
(ler O Evangelho segundo o Espiritismo,
Cap. XVI, item 9). Serão estes recursos que nos garantirão um alojamento em um
hotel de cinco, quatro, três, duas, ou apenas de uma estrela, ou um aposento de
péssima categoria, ou, o que é pior ainda, o abandono pelas ruas, debaixo de
pontes e entre malfeitores. Esta será também a nossa única bagagem, pois de
nada mais precisaremos no nosso destino.
Como os Espíritos se
utilizam do pensamento para a comunicação, será ótimo que desenvolvamos o hábito de pensar muito, não
esquecendo que desde já os nossos pensamentos são lidos pelas entidades
desencarnadas, que são atraídas de acordo com a qualidade desses pensamentos.
Serão tais Espíritos, afinizados conosco, que nos estarão esperando na chegada
ao mundo espiritual. Como será ela? Vejamos a seguir.
A chegada — Comparemos a nossa chegada no mundo espiritual a uma chegada
em um movimentado terminal aqui da Terra, seja uma estação rodoviária,
ferroviária, do metrô ou um aeroporto; as circunstâncias em todos eles são
muito semelhantes. Com efeito, quando embarcamos ou desembarcarmos em uma
grande cidade, onde estivemos apenas uma vez ainda na infância, se não houver
alguém à espera e que conheça o local, teremos muitas dificuldades com as
informações sobre os meios de transportes, hotéis, e se for em um país
estranho, teremos ainda as complicações com o idioma e com a moeda.
Algo análogo acontece nessa
nossa viagem. Neste exato momento (olhe o seu relógio), milhões de pessoas
estão desencarnando, isto é, estão desembarcando no mundo dos Espíritos, e ali
estamos nós, na nossa viagem imaginária. Olhamos para cá e para lá: ninguém
conhecido se aproxima... Espíritos em tudo semelhantes a pessoas encarnadas,
usando a roupagem perispiritual, circulam, passam por nós, afastam-se, cada um
cuidando da sua própria vida. Ah! Por que não nos preparamos melhor para a
viagem? Onde está o balcão de informações? Lá vem agora o oficial da alfândega!
Certamente vai nos perguntar quem somos, de onde viemos e o que estamos fazendo
aqui! E agora?
Nesse exato momento uma
pessoa gentil se oferece para nos ajudar e se identifica: é o nosso anjo
guardião, aquele mesmo de quem tantas vezes ouvimos falar e a quem pouco valor
demos. Mas parece que ele não se importa com a nossa ingratidão. Conversa com o
oficial alfandegário, que se afasta meio desconfiado. Agora o guardião fica a
sós conosco e tenta nos acalmar. Ele tem enorme dificuldade para explicar que
já estamos no plano espiritual, que atravessamos a "fronteira de
cinzas" e que deveremos nos ambientar na nova vida. Diante da nossa
perplexidade, ele nos toma pelo braço, a fim de nos afastarmos do ponto de
chegada, onde vários Espíritos já nos olham com curiosidade. Eles sabem que
somos recém-chegados! O que vai nos acontecer em seguida?
A vida no mundo espiritual — Os Espíritos dizem que, para nos
informarem acerca das condições de vida no mundo em que estão, encontram o obstáculo
de um indígena que, tendo realizado uma
visita à civilização, tenta, ao retornar à tribo, explicar aos seus parentes e
amigos as conquistas que viu, como, por exemplo, a televisão, o telefone, o
fax, etc. Ou, ainda, de algo semelhante a descrever a um cego de nascença a luz
e as cores.
Não obstante isso, temos que
aguçar a nossa imaginação, porque já estamos, em nossa viagem, no mundo
espírita. Aqui as condições ambientais não dependem da atmosfera ou do
heliotropismo, mas do fluido cósmico universal. É ele que, por exemplo, serve
de veículo ao pensamento, como o éter conduz o som na Terra. As trevas existem
apenas para os Espíritos a elas condenados, que pensam inexistir a luz. A
poluição reinante decorre dos maus pensamentos, assim como o saneamento depende
da sua elevação. A duração do tempo também é relativa à posição individual,
pois para este Espírito um século pode parecer
um segundo nosso, enquanto que para aquele o contrário é que se dá.
Existem praças, avenidas,
ruas, casas, escolas, hospitais, Prefeitura, Cadeia, Fórum e outras
repartições, com profissionais e servidores semelhantes aos nossos. Os meios de
transporte são velozes e silenciosos, posto que os Espíritos possam
locomover-se usando apenas o pensamento.
Por falar nisso, eis que se
aproxima um agente oficial, querendo saber do nosso destino. O guardião já nos
alertara de que isso aconteceria a qualquer momento. Esse agente é a nossa
consciência, que, a partir de agora, passa a rebobinar o filme de nossa vida.
Lances dela que já havíamos esquecido, ou que deixáramos para um exame futuro,
chamam-nos para o ajuste de contas tantas vezes adiado, perante uma Justiça
cuja balança é mais precisa do que a dos
laboratórios científicos. Neste tribunal não adianta ajustar advogado de
fora, pois seremos nós mesmos os nossos próprios juízes, proferindo a sentença
relativa ao nosso modo de viver na Terra, e na decisão as circunstâncias atenuantes
e agravantes serão consideradas nos mínimos detalhes, a ponto de qualquer
delas, ainda que do peso de uma asa de beija-flor, influir no julgamento.
Quando a sentença transitar
em julgado e dela não couber mais nenhum recurso, seremos levados para o local
que merecermos, em perfeita consonância com aqueles valores já antes
mencionados: a inteligência, os nossos conhecimentos e, sobretudo, as nossas
qualidades morais. Somos ricos ou pobres deles? Cada um sabe exatamente a sua
situação, bastando para isso uma profunda reflexão acerca do modo pelo qual vem
rolando a sua vida. Mas, que tal voltarmos rapidamente à Terra para essa
reflexão?
Era tudo um sonho! — Você
acordou! Tudo não passou de imaginação, de um sonho. Mas de um sonho que se
tornará realidade a qualquer instante. Com efeito, já compramos realmente o
bilhete de volta no avião para o além, de sorte que convém deixar a viagem
preparada. Eis aqui algumas sugestões para o grande retorno: uma leitura da
segunda parte do livro O céu e o inferno,
de Allan Kardec, onde estão 67 depoimentos de Espíritos nas mais diversas
condições no mundo espiritual, sendo que uma delas será, sem nenhuma dúvida, a
nossa, dependendo da semelhança com o modo de vida que aqueles Espíritos
levaram aqui na Terra; do capítulo 3, do livro Cartas e crônicas, do Espírito Irmão X, pela psicografia do querido
Chico Xavier, intitulada Treino para a
morte, que nos dará muita informação sobre a vida de lá; do já mencionado
item 9, do capítulo XVI, do Evangelho
segundo o Espiritismo, para conhecermos a Verdadeira propriedade, valendo para o mundo físico e para o mundo
espiritual. E muita caridade, pois fora dela não há salvação. Depois, é só
apertar o cinto e boa viagem!
|