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Renato Costa
rsncosta@terra.com.br
Em
O Livro dos Espíritos, tem-se o seguinte diálogo entre Allan Kardec e os
Espíritos que ditaram a Codificação com respeito à forma do Espírito:
88.
Os Espíritos têm forma determinada, limitada e constante?
“Para
vós, não; para nós, sim. O Espírito é, se quiserdes, uma chama, um clarão, ou
uma centelha etérea”.
a)
- Essa chama ou centelha tem cor?
“Tem
uma coloração que, para vós, vai do colorido escuro e opaco a uma cor
brilhante, qual a do rubi, conforme o Espírito é mais ou menos puro”.
Representam-se
de ordinário os gênios com uma chama ou estrela na fronte. É uma alegoria, que
lembra a natureza essencial dos Espíritos. Colocam-na no alto da cabeça, porque
aí está a sede da inteligência.
Analisemos
primeiro, a frase inicial da resposta: “Para vós, não; para nós, sim”.
Trata-se
aqui da diferença existente entre o que os Espíritos desencarnados podem
perceber, usando seus sentidos sutis e aquilo que os Espíritos encarnados podem
perceber, usando seus sentidos físicos.
De
fato, a própria Ciência nos ensina o quão limitada é a percepção da realidade
que nossos sentidos físicos nos propiciam.
As faixas de freqüência que nossos sentidos da visão e da audição
capturam são extremamente estreitas assim como impróprio é o nosso tato para a
realidade mais sutil como, por exemplo, a das ondas mais diversas de comunicação
que nos envolvem em todas as direções.
Nas
dimensões espirituais, o Espírito está livre das restrições impostas pela
matéria. Sua percepção da realidade, portanto, é infinitamente mais rica, logrando
ele perceber cores e formas que, encarnado sequer poderia descrever.
Analisemos,
agora, a segunda parte da resposta:
“O
Espírito é, se quiserdes, uma chama, um clarão, ou uma centelha etérea”.
Uma
chama, um clarão ou uma centelha etérea são elementos caracterizados, os três,
basicamente, pela sua tonalidade de cor, sua intensidade de brilho e o calor
que possuem. Os três são, por outro lado, desprovidos de forma precisa. Desse
modo, os Espíritos confirmaram o que antes haviam dito, isto é, que os
Espíritos não são percebidos com forma.
Chama
a nossa atenção, nessa resposta, entretanto, que os Espíritos parecem estar
falando do Princípio Inteligente, e não do Espírito, entidade formada por esse
Princípio somado ao Perispírito. afinal,
o Espírito tem forma, uma vez que o Princípio Inteligente imprime forma ao Perispírito.
É, portanto, com forma que médiuns de todas as raças e culturas têm percebido
Espíritos desde as mais remotas eras.
Desse
modo, os Espíritos que ditaram a Codificação parece terem aproveitado essa
questão para dizer que o Princípio Inteligente tem uma forma que foge aos
nossos sentidos, sendo aceitável que a imaginemos como uma chama.
Nossa
interpretação encontra confirmação no Item 55 do Capítulo I de O Livro dos Médiuns, onde Kardec afirma:
Hão
dito que o Espírito é uma chama, uma centelha. Isto se deve entender com
relação ao Espírito propriamente dito, como princípio intelectual e moral, a
que se não poderia atribuir forma determinada. Mas, qualquer que seja o grau em
que se encontre, o Espírito está sempre revestido de um envoltório, ou
perispírito, cuja natureza se eteriza, à medida que ele se depura e eleva na
hierarquia espiritual. De sorte que, para nós, a idéia de forma é inseparável
da de Espírito e não concebemos uma sem a outra. O perispírito faz, portanto,
parte integrante do Espírito, como o corpo o faz do homem....
A Cor dos Espíritos
Voltando
a O Livro dos Espíritos, verificamos que, tendo os Espíritos respondido quanto
à forma, Kardec fez um complemento à questão preliminar, querendo saber a cor
dos Espíritos. A essa segunda pergunta, a resposta foi a seguinte:
“Têm
uma coloração que, para vós, vai do colorido escuro e opaco a uma cor
brilhante, qual a do rubi, conforme o Espírito é mais ou menos puro”.
Se
prestarmos atenção, veremos que essa resposta tem uma característica estranha.
Kardec perguntou, de forma inequívoca, pela cor da “chama ou centelha”.
Os Espíritos, no entanto, nada disseram de cor. O que é uma cor “escura e
opaca” ou uma cor “brilhante, qual a do rubi?” Note-se que a resposta nada fala
da cor em si, destacando apenas o brilho. Nos ocorreu ter havido um equivoco de
tradução, o que nos fez recorrer ao original em Francês:
"Pour vous, elle varie du sombre à l'éclat du rubis, selon
que l'Esprit est plus ou moins pur”. (Para
vós, ela varia do sombrio ao brilho intenso do rubi, conforme seja o Espírito
mais ou menos puro).
Como
vemos, no original, a palavra cor (“couleur”) sequer foi usada na resposta.
De fato, tudo o que se obtém da resposta é que os Espíritos mais atrasados são
vistos como uma sombra escura e os mais adiantados com uma chama intensamente brilhante
deles emanando.
Essa
resposta e sua interpretação coincidem com o que nos passam a diversas
tradições religiosas, que reportam que os anjos e santos ofuscam nossos olhos
com seu intenso brilho, ao passo que os chamados demônios são ditos “espíritos
das trevas”, devido à sua aparência sombria.
É
interessante notar que a resposta dos Espíritos tanto é válida se estivermos
falando do Princípio Inteligente quanto se estivermos falando do Espírito, isto
é do Princípio Inteligente acoplado ao perispírito.
Teriam
os Espíritos se furtado a falar da cor por ser ela de somenos importância ou
teria sido por serem as cores em questão além de nossa capacidade visual? Por
alguma razão não o fizeram e por alguma razão Kardec não os redargüiu a
respeito, dando-se por satisfeito em confirmar o brilho.
Uma Aventura pela
Questão da Freqüência
Apesar de nada terem dito os Espíritos a Kardec
sobre a cor em si, a sub-questão “a” nos oferece uma boa oportunidade para
estudarmos um pouco a questão da freqüência emitida pelos Espíritos, como é
percebida pelos médiuns videntes, como nos reporta a tradição e como é
entendida pela Ciência humana.

Sabemos, das noções básicas da Física, que, no espectro
da luz visível, a cor vermelha corresponde às mais baixas freqüências percebidas,
correspondendo o violeta às freqüências mais elevadas que o olho humano consegue
ver.
A
tradição, que nada mais é que o acúmulo dos testemunhos dos médiuns videntes
através dos milênios, parece confirmar que a noção que obtemos da Física pode
ser utilizada. Todas as tradições religiosas sempre associaram a cor vermelha
aos demônios e Espíritos perturbadores enquanto a cor branca sempre foi
associada aos anjos e demais Espíritos elevados.
Alguém
poderia levantar a questão: “É verdade que os demônios são representados
tradicionalmente na cor vermelha, mas as representações dos anjos e demais
Espíritos elevados utilizam, predominantemente, a cor branca ou, se muito, anil
e não à cor violeta”.
A
própria Física nos ajuda a entender o que ocorre. O branco visível nada mais é
que a mistura equilibrada das cores básicas ou de todas as cores. Ora, os
Espíritos mais adiantados necessitam adequar sua vibração à dos médiuns
videntes que os enxergam com sua visão sutil. Por outro lado, o seu
adiantamento moral deve produzir uma determinada vibração elevada mesmo quando
em contato com Espíritos menos evoluídos que requerem deles uma vibração mais
baixa.
Isso
sugere, a nosso ver, que eles tenham capacidade de vibrar em mais de uma
freqüência simultaneamente. Se supusermos que os Espíritos mais evoluídos podem
vibrar em diversas freqüências simultaneamente, quando desejam entrar em
contato com diversos Espíritos em estágios diferentes de evolução ao mesmo
tempo, o resultado visual dessa simultaneidade de emissão de freqüência tenderá
ao branco, como percebido pelos videntes.
Agora
que já nos aventuramos pelos domínios da cor, vamos utilizar o relacionamento
entre as freqüências de vibração e a temperatura e nosso conhecimento sobre o
que nos diz a tradição para ver se chegamos a uma conclusão semelhante.
Ao
longo dos séculos, a proximidade de Espíritos perturbados ou perversos sempre
foi percebida como uma sensação de frio pelos médiuns. A temperatura fria
corresponde à baixa freqüência de vibração (o mesmo que a cor vermelha). Os
Espíritos evoluídos, por outro lado, sempre foram percebidos como tendo
temperatura agradável e não como quentes, o que corresponderia a uma alta freqüência de vibração. Ora, a
temperatura agradável significa exatamente o cuidado que o Espírito evoluído
tem em tornar igualmente agradável a sua aproximação, guardado, pois, um
paralelo com a cor branca.
A Alegoria dos Gênios
Kardec
conclui a questão 88 com o seguinte comentário:
Representam-se
de ordinário os gênios com uma chama ou estrela na fronte. É uma alegoria, que
lembra a natureza essencial dos Espíritos. Colocam-na no alto da cabeça, porque
aí está a sede da inteligência.
De
fato, em todas as tradições os homens e mulheres santos e mesmo as
representações da divindade costumam ser representados com uma chama, um halo
ou uma estrela na fronte ou pairando sobre a cabeça. Kardec comenta que esse
fato se deve a ser a cabeça a sede da inteligência, o que se explica pela
associação da inteligência à mente e desta com o cérebro.
Como se Deslocam os
Espíritos
As
questões que sucedem a de número 88 até a de número 91 tratam da maneira com
que os Espíritos se movem de um lugar para o outro.
89.
Os Espíritos gastam algum tempo para percorrer o espaço?
“Sim,
mas fazem-no com a rapidez do pensamento”.
Dizer
que algo se move com a rapidez do pensamento é o mesmo, para efeitos práticos,
que falar de deslocamento instantâneo. O que sabemos, no entanto, pelas obras
de André Luiz, particularmente, mas por outras também, é que os Espíritos se
movem com velocidades diversas, desde o deslocamento lento e pesado dos
Espíritos perturbados ao volitar veloz e gracioso dos Espíritos Bons
trabalhadores da espiritualidade.
Teriam
os Espíritos esquecido essa realidade? Veremos que não.
Os
Espíritos perturbados têm seus pensamentos confusos, força de vontade embotada
pela sua baixa auto-estima e encontram-se desprovidos de fé. Assim, podemos
induzir que a rapidez do pensamento deles é baixa, quase nula. À medida que o
Espírito vai evoluindo, seus pensamentos ficam mais coerentes, ao passo que
aumenta sua força de vontade e sua fé se torna raciocinada e firme. Desse modo,
podemos entender que a rapidez de seu pensamento e, por analogia, de seu
próprio deslocamento, vai crescendo à medida que ele evolui, até que, alcançado
o estado de Espírito Puro, ele passa a se deslocar de forma quase instantânea
de um lugar a outro.
a)
- O pensamento não é a própria alma que se transporta?
“Quando
o pensamento está em alguma parte, a alma também aí está, pois que é a alma
quem pensa. O pensamento é um atributo.”
A pergunta de Kardec nos parece hoje algo
estranha. Talvez o Codificador estivesse pensando em “mente” quando disse
“pensamento”. Do modo que ele perguntou, a resposta dos Espíritos não podia ter
sido diferente. Pensamento é um atributo do Espírito e não pode, portanto, ser
confundido com ele. No entanto, o pensamento também é um atributo da mente.
Ficamos sem saber qual teria sido a resposta, neste caso.
90.
O Espírito que se transporta de um lugar a outro tem consciência da distância
que percorre e dos espaços que atravessa, ou é subitamente transportado ao
lugar onde quer ir?
“Dá-se
uma e outra coisa. O Espírito pode perfeitamente, se o quiser, inteirar-se da
distância que percorre, mas também essa distância pode desaparecer
completamente, dependendo isso da sua vontade, bem como da sua natureza mais ou
menos depurada”.
A
resposta é perfeitamente clara. Se o Espírito possui o devido adiantamento que
lhe permita vencer grandes distâncias de forma instantânea, não há porque ele
se dê conta de tais distâncias se tal não for necessário. Pensemos em uma
analogia simples. Se eu percorro 12 km a pé, eu sinto em meu corpo, nos meus
pés, nos meus pulmões, na minha boca seca, o efeito do percurso, o que me torna
impossível deixar de avaliar a distância percorrida. Suponhamos, agora, que um
avião a bordo do qual eu esteja percorra os mesmo 12 km em velocidade supersônica.
Será que eu, confortavelmente sentado a bordo, tomando uma bebida gelada, lendo
uma revista ou assistindo a um filme, me darei conta de que saí do lugar?
É
bom ter em mente, entretanto, que, do mesmo modo que ocorre com o passageiro do
avião, o fato de não sentir o efeito do percurso não faz com que o Espírito
seja impedido de conhecê-lo, caso isso lhe seja importante.
91.
A matéria opõe obstáculo ao Espírito?
“Nenhum;
eles passam através de tudo. O ar, a terra, as águas e até mesmo o fogo lhes
são igualmente acessíveis.”
O Espírito desencarnado, em princípio, é
capaz de passar através de tudo. Ocorre, no entanto, que Espíritos perturbados
podem se crer incapazes de transpor certas barreiras materiais, o que os leva a
tentar contorná-las. É baseado nesse fato que os Espíritos arraigados no mal
constroem prisões e fortalezas ideoplásticas nas dimensões espirituais de modo
a submeter outros Espíritos de que se servem para seus propósitos escusos.
A Ubiqüidade dos Espíritos
92.
Têm os Espíritos o dom da ubiqüidade? Por outras palavras: um Espírito pode
dividir-se, ou existir em muitos pontos ao mesmo tempo?
“Não
pode haver divisão de um mesmo Espírito; mas, cada um é um centro que irradia
para diversos lados. Isso é que faz parecer estar um Espírito em muitos lugares
ao mesmo tempo. Vês o Sol? É um somente. No entanto, irradia em todos os sentidos
e leva muito longe os seus raios. Contudo, não se divide.”
a)
- Todos os Espíritos irradiam com igual força?
“Longe
disso. Essa força depende do grau de pureza de cada um”.
Cada
Espírito é uma unidade indivisível, mas cada um pode lançar seus pensamentos
para diversos lados, sem que se fracione para tal efeito. Nesse sentido
unicamente é que se deve entender o dom da ubiqüidade atribuído aos Espíritos.
Dá-se com eles o que se dá com uma centelha, que projeta longe a sua claridade
e pode ser percebida de todos os pontos do horizonte; ou, ainda, o que se dá
com um homem que, sem mudar de lugar e sem se fracionar, transmite ordens,
sinais e movimento a diferentes pontos.
Não pode haver divisão de um mesmo Espírito.
Essa é uma resposta clara. A capacidade de ser percebido em diversos lugares ao
mesmo tempo não contraria, em absoluto, esse princípio.
Nos dias de hoje podemos ter uma idéia melhor da
ubiqüidade do Espírito pensando em uma rede de televisão. O Espírito está no
estúdio dando uma entrevista que é assistida em todo o Brasil por milhões de
pessoas.
Podemos melhorar nossa analogia lembrando da
capacidade que tem a mente humana de cuidar de várias interações ao mesmo
tempo. Há pessoas capazes de escrever um texto no computador ao mesmo tempo em
que conversam com uma pessoa ao seu lado. Uma mãe consegue dar atenção a três
filhos falando com ela ao mesmo tempo e não deixa de dar a resposta correta a
cada um.
A
nossa analogia da TV ainda é fraca, portanto, uma vez que, se uma pessoa
encarnada consegue interagir de forma diferente com mais de uma pessoa ao mesmo
tempo, por que se daria de forma diferente com um Espírito desencarnado. Se ele
é capaz de irradiar sua presença, é válido deduzir que ele também será capaz de
ser percebido interagindo de forma diferente com pessoas diferentes.
A
força com que os Espíritos irradiam depende de seu grau de pureza, isso é, de
seu adiantamento evolutivo. Quanto mais evoluído o Espírito, portanto, mais
longe e para mais pessoas ele poderá irradiar sua presença. Do mesmo lodo,
quanto mais evoluído, mais poderá ele diversificar o relacionamento que tem com
cada um.
Para
concluir nosso estudo sobre a ubiqüidade do Espírito, nada melhor do que nos
lembrarmos da promessa do Mestre quando disse que onde quer houvesse dois ou
mais reunidos em Seu nome, entre eles Ele estaria.
(Parte de estudo
originalmente apresentado no Grupo Espírita João de Freitas, Rio de Janeiro, em
27 de março de 2003)
Bibliografia Consultada
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. 77
Ed. FEB. Rio de Janeiro, 1997.
- _____, _____. O Livro dos Médiuns. 61
Ed. FEB. Rio de Janeiro, 1995.
- _____, _____.
O Que é o Espiritismo. 38 Ed. FEB. Rio de Janeiro, 1995.
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