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Marcelo Henrique
Pereira
Diretor de Política e Metodologias de Comunicação/ABRADE
Já faz algum tempo
que lemos em um adesivo fixado num automóvel a expressão "Deus é
fiel". A princípio, diante da perplexidade que experimentamos após a
observação inicial, a estupefação levou-nos à busca do sentido real da expressão,
não sem antes constatar de que o adesivo teria sido comercializado através de
uma religião evangélica, porque, ao transitarmos em uma rua, vimos um exemplar
do mesmo na vitrine de uma loja de produtos evangélicos. Ampliando a pesquisa,
chegamos à fonte "religiosa" da frase. Está ela contida em Jeremias;
1:12.
Vejamos os
conceitos. Fidelidade. Característica ou atributo daquele que é fiel. Fiel, o
que dá mostras de lealdade e, por isto, não contraria a confiança depositada.
Leal e devotado. Tais os considerandos colhidos do exame do léxico,
especificamente o Dicionário Houaiss. Eis as diretrizes básicas. De
pronto, a análise lógica da sentença cunhada pelos irmãos evangélicos, denota
certa impropriedade na utilização do sujeito. Deus não pode ser fiel.
Fiéis são os homens, desde que estejam estes sujeitos ao cumprimento de
princípios, fundamentos, pressupostos contidos na organização de determinada
agremiação ou filosofia religiosa.
Deus, assim, na definição espírita,
"(...) é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas
(...) infinito em Suas perfeições". Logo, como costumamos dizer,
Ele não se acha sujeito às variações de humor comuns aos homens, não tem
preferências ou antipatias. Não premia, nem castiga. Não proíbe, nem autoriza.
Criou um Universo perfeito, regido por leis universais, imutáveis, completas,
às quais acham-se sujeitas TODAS as criaturas. Portanto, Deus não demonstra FIDELIDADE
ou infidelidade a quem quer que seja. Neste aspecto, o que salta aos olhos é a
tentativa de desfiguração da idéia do Criador, tomando-o como um homem
que manifesta a sua predileção pelas pessoas que seguem determinada orientação
religiosa. Ledo engano. Aliás, nem há originalidade em esta concepção, de vez
que os hebreus, há vários séculos antes da encarnação de Jesus, já cunhavam as
expressões "terra prometida", "povo escolhido" ou o
"povo de Deus", nítida manifestação do orgulho e da prepotência
daqueles homens, diametralmente contrárias à própria idéia da fraternidade e da
igualdade entre os seres.
Há quem diga que o
efeito provocado nos adeptos daquela corrente religiosa realmente crêem que
Deus é fiel a eles, protegendo-os, livrando-os de todos os males, fazendo por
eles a parte que lhes caberia desempenhar. Acreditam-se imunes aos perigos, aos
obstáculos, aos percalços, simplesmente porque pertencem àquela
agremiação. As organizações - em todos os campos do conhecimento humano -
valem-se de expressões, adágios, frases de efeito, para "venderem"
seus produtos. No caso em exame, é o marketing a serviço da fé, ou da reprodução
de determinada ideologia. E, como há "clientes" para todos os gostos,
há quem aceite - passivamente - a idéia que alguém criou para "vender o
peixe".
Assim, levando-se em conta a diversidade de
graus evolutivos entre os espíritos, há muitos que ainda não conseguem
vislumbrar outra fé - mais ampla e racional, menos dogmática -, e, para estes,
a única linguagem entendível é a da aceitação inconteste. Evoluindo os seres e
os planos, tais "adereços" ou "máscaras" desaparecerão,
porque não encontrarão mais adeptos, tal qual um determinado produto, por
tornar-se obsoleto, vai sendo deixado no ostracismo.
Naturalmente...
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