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Alexandre Fontes da Fonseca
Centro Espírita Irmão Agostinho –
Brotas – SP
Artigo publicado no jornal O Idealista, da USE –
Regional Jaú, Setembro p.9 (2006).
A questão sobre a alimentação tem
sido bastante discutida no movimento espírita. Mensagens como a de Emmanuel
(questão 129 da Ref. 1) e de André Luiz (Cap. 4 da Ref. 2) desaconselham o uso
da alimentação carnívora. Entretanto, isso parece se contrapor com a orientação
básica dos Espíritos superiores presentes nas questões 722, 723, 724 e 734 do Livro
dos Espíritos3. Reproduziremos aqui a questão 723:
723.
A alimentação animal é, com relação ao homem, contrária à lei da Natureza?
“Dada a vossa constituição física, a carne alimenta a carne, do contrário o
homem perece. A lei de conservação lhe prescreve, como um dever, que mantenha
suas forças e sua saúde, para cumprir a lei do trabalho. Ele, pois, tem que se
alimentar conforme o reclame a sua organização”.
Pretendemos demonstrar aqui que a recomendação de
Emmanuel e André Luiz de se evitar a alimentação carnívora possui bases
doutrinárias não estando, portanto, em desacordo com o Espiritismo. Para isso,
recorremos à Revista Espírita de dezembro de 1863 onde Kardec reproduziu uma
mensagem do Espírito Lamennais4 que esclarece de modo claro todos os
ângulos dessa questão:
"Sobre
a alimentação do Homem
(Sociedade
de Paris, 4 de Julho de 1863. Médium: Sr. A. Didier)
O sacrifício da carne foi severamente condenado pelos grandes filósofos da
antiguidade. O Espírito elevado revolta-se à idéia de sangue e, sobretudo, à
idéia de que o sangue é agradável à Divindade. E notai bem, que aqui não se
trata de sacrifícios humanos, mas unicamente de animais oferecidos em
holocausto. Quando o Cristo veio anunciar a Boa-Nova, não ordenou sacrifícios
de sangue: ocupou-se unicamente do Espírito. Os grandes sábios da antiguidade
igualmente tinham horror a estas espécies de sacrifícios e eles próprios só se
alimentavam de frutos e raízes. Na terra os incarnados têm uma missão a
cumprir: têm o Espírito que deve ser nutrido pelo Espírito, o corpo com a
matéria; mas a natureza da matéria influi - compreende-se facilmente - sobre a
espessura do corpo e, em consequência, sobre as manifestações do Espírito. Os
temperamentos naturalmente muito fortes para viver como os anacoretas5
fazem bem, porque o esquecimento da carne leva mais facilmente à meditação e
à prece. Mas para viver assim, geralmente seria necessária de uma natureza mais
espiritualizada que a vossa, o que é impossível com as condições terrestres.
E como, antes de tudo, a natureza jamais age contra o bom senso, é
impossível ao homem submeter-se impunemente a essas privações. Pode ser-se bom
cristão e bom espírita e comer a seu gosto, desde que seja razoável.
É uma questão algo leviana para os nossos estudos, mas não menos útil e
proveitosa". (os grifos são
nossos).
Essa mensagem explica que a dieta sem o uso da carne é melhor, pois isso “leva
mais facilmente à meditação e à prece”.Isso aconteceria, pois, segundo
Lamennais, a natureza da matéria influi nas manifestações do Espírito. Podemos
comparar a situação com os vícios. Aquele faz uso de uma droga, por exemplo, impregna
seu perispírito de vibrações que limitarão suas manifestações no mundo espiritual.
Da mesma forma, o uso de uma dieta menos carnívora torna o perispírito menos “espesso”
(usando aqui uma palavra que Lamennais usou no texto) o que permite que ele
tenha mais facilidade em elevar seu pensamento em prece.
Porém, Lamennais, de modo responsável, deixou claro
que a dieta vegetariana dependeria do aprimoramento espiritual da nossa Humanidade
terrestre, o que ainda não ocorre. Daí adverte que “a natureza jamais age
contra o bom senso, é impossível ao homem submeter-se impunemente a essas
privações”. Por isso a questão 723 acima não condena o uso da carne. Sobre
privações, a questão 724 do Livro dos Espíritos3 recomenda:
724.
Será meritório abster-se o homem da alimentação animal, ou de outra qualquer,
por expiação?
“Sim, se praticar essa privação em benefício dos outros. Aos olhos de Deus,
porém, só há mortificação, havendo privação séria e útil. Por isso é que
qualificamos de hipócritas os que apenas aparentemente se privam de alguma
coisa”.
Dessa forma, a privação da carne só
teria mérito se ocorrer em benefício do próximo. As atividades espíritas de
passes e as reuniões mediúnicas constituem exemplos em que a abstenção do uso
da carne, pelo menos no dia dessas atividades, pode levar a benefícios aos
assistidos encarnados ou desencarnados. Mas se o tarefeiro tiver dificuldade
com isso, Raul Teixeira6 assevera que, “É mais compreensível, e me
parece mais lógico, que a pessoa coma no almoço o seu bife, se for o caso, ou
tome seu cafezinho pela manhã, do que passar todo o dia atormentada pela
vontade desses alimentos, sem conseguir retirar da cabeça o seu uso,
deixando-se de concentrar-se na tarefa, em razão da ansiedade para chegar em
casa, após a reunião, e comer ou beber aquilo de que tem vontade”.
Lamennais ainda disse que "Pode ser-se bom
cristão e bom espírita e comer a seu gosto" sem esquecer que isso deve ser
feito “desde que seja razoável”, isto é, sem exageros.
Portanto, a recomendação de Emmanuel e André Luiz é
válida e está de acordo com o Espiritismo, mas não deve ser considerada uma
exigência para a realização de um bom trabalho espírita ou uma boa reunião
mediúnica. Lembremos, afinal, que Jesus em Mateus, Cap. 15 e vers. 11 disse que:
"Não é o que entra pela boca que
contamina o homem; mas o que sai da boca, isso é o que o contamina”.E,
para aprimorar o que sai de “nossa boca” e de nossos atos, devemos nos esforçar
pela reforma íntima e no estudo doutrinário.
Referências
[1]
Emmanuel, psicografia de F. C. Xavier, O
Consolador, FEB, 20ª Edição (1999).
[2]
André Luiz, psicografia de F. C Xavier, Missionários
da Luz, FEB, 26ª Edição (1995).
[3] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76a Edição, (1995).
[4]
Lamennais, Revista Espírita Dezembro, pp. 387—388 (1863).
[5]
Anacoreta é uma pessoa que se retira a um local isolado para dedicar-se a
meditação e oração.
[6]
D. P. Franco e J. R. Teixeira, Diretrizes
de Segurança, Editora FRATER, 8ª Edição (2000).
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