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Dora Incontri
O
espiritismo não surgiu do nada. Todas as idéias se filiam a uma história. Fazem
parte da construção lenta do processo evolutivo do homem. Uma tarefa urgente
aos estudiosos da doutrina é contextualizá-la, apreendê-la no devir da
História, para melhor compreender suas raízes, seu desenvolvimento e sua importância
no tempo e no espaço. Não se trata de situar o espiritismo como um reflexo das
estruturas econômicas vigentes na época do seu nascimento ou como mera
expressão de uma dada cultura. Esse o erro brutal das concepções antropológicas,
exibidas nas universidades atuais. Nessa linha de interpretação, não existiria
conteúdo de verdade – ou pelo menos, não há a preocupação por uma possível
verdade proclamada por esta ou aquela manifestação cultural ou religiosa. O que
há são idéias que refletem o contexto sóciopolíticoeconômico de uma época. Assim,
teríamos um espiritismo explicado e acabado dentro da ótica do século XIX, da
herança racionalista francesa, fruto de um momento histórico. Essa visão relativista
das idéias é conseqüência de toda a corrente inaugurada, de um lado pelo marxismo
e do outro pelo positivismo – ambos aliás, primos-irmãos em ideologia e cujos
descendentes são a sociologia e a antropologia atuais. Todas essas matizes de
interpretação têm em comum a redução da realidade ao seu aspecto social. E sob
essa ótica, não são mais as idéias, nem os indivíduos que movem o mundo, mas a
sociedade, com sua divisão em classes, com seus conflitos de interesses e sua
ânsia de progresso (predominantemente material) que gera idéias, e essas não
têm qualquer sentido intrínseco de verdade atemporal.
Ora,
justamente num ramo dessa corrente – o positivismo – que tanta influência teve
na história do Brasil, querem alguns incluir Kardec. O positivismo, além de
realizar esse corte materialista no real, o oposto do que faz o espiritismo,
que aumenta a nossa percepção ao infinito, realizou, no plano histórico, a fragmentação
das ciências, originando a especialização excessiva do conhecimento, também em
oposição à proposta de síntese e de entrelaçamento das áreas, feita por Kardec.
É
polêmico se Kardec teria ou não uma afinidade com o positivismo. Os espíritas
se dividem. Os não-espíritas são quase unânimes em dizer que sim, mas há aí uma
evidente má fé, porque a afirmação não vem acompanhada de estudos sérios e
profundos (este é o caso de François Laplantine em seu livro, bastante superficial:
LAPLANTINE, François e AUBRÉE, Marion. La Table, le Livre et les Esprits. Paris:
JC Lattes, 1990) e fica patente a intenção de colocar o espiritismo no rol das
doutrinas positivistas fracassadas e obscurantistas do século XIX.
Pessoalmente, partilho a idéia de que há um abismo entre ambas as doutrinas,
embora esta ou aquela idéia isolada possam ser aproximadas. O assunto requer um
estudo mais aprofundado, mas apenas de passagem cito as seguintes discrepâncias:
1) o positivismo é coletivista, endeusa a humanidade, fazendo dela a sua
religião; o espiritismo faz apelo ao indivíduo e não se perde em teorias
totalitárias, em que o ser individual se sacrifique em prol de um todo
abstrato. 2) Isso se baseia nas opostas concepções de homem esposadas por ambas
as doutrinas: para o positivismo, o homem não passa de fruto da espécie animal.
O seu materialismo grosseiro está mesmo ultrapassado pelos atuais avanços da
física. Para o espiritismo, o homem é antes de tudo espírito e aí reside o seu
valor e a sua dignidade de ser, candidato à angelitude, herdeiro de
potencialidades divinas. 3) O positivismo quer reduzir toda a apreensão do
mundo à ciência materialista. Desprezou a filosofia e fez da religião algo
meramente social; ao passo que o espiritismo quer promover o diálogo e a
concordância entre as diversas formas de captação do real. 4) O positivismo tem
uma estrutura doutrinária sistemática, fechada e foi contaminado por um
personalismo patológico, que se manifestou no culto hierárquico ao seu
fundador, Auguste Comte. O espiritismo pretende ser uma doutrina assistemática,
como várias vezes advertiu Kardec, aberta e sem nenhuma forma de idolatria
hierárquica.
Associar,
pois, o espiritismo ao positivismo revela falta de compreensão do verdadeiro
sentido da doutrina codificada por Kardec, ou então pode se tratar de uma
intenção não confessada de denegrila. Não estou só nessa minha interpretação:
Léon Denis criticou diversas vezes o materialismo positivista e, aqui no
Brasil, Bezerra de Menezes se ergueu em polêmica com seus representantes.
Assim,
fazer a história do espiritismo não é enquadrá-lo em alguma dessas teorias
reducionistas da realidade, com as quais se trabalha atualmente nos redutos do
academicismo mais radical. Trata-se, isso sim, de conceber a evolução das
idéias filosóficas, religiosas e científicas e observar como essa evolução desemboca
no espiritismo. Trata-se de fazer história das idéias e, se há alguma filosofia
permeando a aprensão histórica, é a própria filosofia espírita que pode nos dar
os elementos para a compreensão mais acurada do processo evolutivo. Essa
apreensão é feita de maneira abrangente nas obras de J. Herculano Pires — o
único até hoje a quem poderíamos chamar de filósofo espírita da história das
idéias. Em seus livros, ele caminha de Platão a Sartre com a desenvoltura de alguém
que se coloca do alto de uma montanha e vê as contribuições particulares de
cada pensador, como tijolos, levados à construção do edifício da verdade.
As
raízes mais evidentes e ainda pouco relacionadas com Kardec saltam aos olhos em
seu mestre, Pestalozzi e no mestre de Pestalozzi, Rousseau. Em ambos, vamos
encontrar subsídios para esse estudo. Entretanto, não haverá aqui uma
referência mais específica ao tema da imortalidade da alma, pois trata-se de um
conceito por demais obviamente enraizado na linha de pensamento aqui investigada.
Desde a antiga filosofia grega, até um racionalista como Descartes, passando
por toda a tradição cristã, sem contar as diversas doutrinas orientais, a
imortalidade sempre foi o ponto de apoio de inúmeras formas de estruturação doutrinária.
Passemos,
portanto, aos dois autores, que evidentemente aceitavam a imortalidade, mas que
nem só por isso se ligam à corrente histórica do espiritismo. Em torno de
Rousseau e em torno de Pestalozzi até hoje se acendem polêmicas para discutir
uma questão mais nominal, que essencial: teriam sido eles iluministas ou românticos,
racionalistas ou sentimentalistas? Ambos estão enraizados no século XVIII,
berço, ou pelo menos palco da consolidação, de um racionalismo feroz, que
atingiu o apogeu na ironia de um Voltaire ou no materialismo de um Helvetius e
acabou entronizando a deusa Razão, durante a Revolução Francesa. Mas ambos se
projetam igualmente no século XIX, influenciando o romantismo alemão e francês,
abrindo as comportas de uma torrente de paixão, sentimento e religiosidade, nos
tons literários de Victor Hugo ou nos delírios grandiloqüentes dos filósofos
alemães… (O próprio século XIX, aliás, é o palco tanto do romantismo mais exarcebado,
quanto das correntes cientificistas materialistas. Esse século foi tão fértil
em idéias, movimentos e talentos, que pelo menos alguns volumes seriam
necessários para situar o espiritismo nesse cenário, abarcando os aspectos
estéticos, políticos, filosóficos, científicos, etc.)
Embora
haja divergências entre Rousseau e Pestalozzi, pois esse último, como
discípulo, ultrapassou o mestre, sobretudo na aplicação prática das idéias educacionais,
pode-se falar de muitas afinidades entre ambos. A primeira delas, que é
justamente a causa dessas polêmicas, é a seguinte: tanto um como o outro não
podiam se desfazer dessa herança racionalista, iniciada por Descartes já um
século antes. Nem mesmo pretendiam a apreensão irracional da vida, banindo as
conquistas da humanidade nesse sentido. Uma prova disso é a rejeição dos dogmas
irracionais das igrejas vigentes, a preocupação pedagógica do desenvolvimento
racional do educando, para o que Pestalozzi, por exemplo, baseado em Rousseau,
criou um método próprio, que sempre partia do mais simples ao mais complexo, da
unidade ao composto, da observação à teoria, e assim por diante. Entretanto,
ambos são igualmente declarados como precursores ou mesmo fundadores do
romantismo – o primeiro da estética e da filosofia românticas e o segundo, da
pedagogia romântica. É que, tanto por temperamento, quanto provavelmente por
suas respectivas missões, Rousseau e Pestalozzi se esforçaram por fugir de um
racionalismo estéril, sufocante do espírito e apartado do sentimento moral.
Tentam restabelecer os direitos do coração – nem de longe entendido aqui num
sentido piegas ou mesmo romantiqueiro. Para eles, a moral – sua preocupação
básica – não é mera questão racional, não pode ser apenas encarada do ponto de
vista pragmático ou do puro dever social, ou ainda como dogma institucional. A
moral é antes de tudo um despertar de sentimentos elevados. Para Rousseau, a
própria consciência não se manifesta através de regras, mas pela voz do sentimento
– a primeira reação a uma infração moral é o sentimento de remorso.
Para
ambos, o próprio desenvolvimento da razão e sua capacidade de compreender e de
pesquisar a verdade está relacionada com a elevação de sentimentos. Ou seja, a
reta razão, de que fala Rousseau, só pode ser exercitada se aquecida pela luz
do sentimento puro. Pestalozzi vai ainda mais longe. Em Rousseau, talvez
possamos ainda falar de uma dicotomia, ou pelo menos de uma dualidade, de razão
e sentimento, um influenciando o outro, mas ainda apreendidos em compartimentos
estanques. Já em Pestalozzi, existe uma apreensão unitária do homem, onde
razão, sentimento e ação, se integram e se entrelaçam. Pestalozzi propõe uma
educação integral do homem, para desenvolver harmoniosamente todas as potências
do espírito, simbolizadas na tríade: cabeça, mão, coração.
Erram,
portanto, tanto os que reduzem Rousseau e Pestalozzi a meros iluministas, como
aqueles que os incham como românticos acabados. Eles quiseram justamente
promover o equilíbrio do homem, resgatando o sentimento, desprezado pelos
iluministas mais radicais, mas sem abdicar da razão. Foram autores de transição
entre duas épocas, e portanto, assimilaram o que havia de melhor no passado,
mas semearam os germes do futuro. Estão, isso sim, acima da rotulagem das
escolas de pensamento, porque os verdadeiros gênios transcendem sempre o mero
paradigma vigente.
Isso
tudo se torna ainda mais flagrante na religiosidade de Rousseau e de Pestalozzi.
Antes de mais nada, não é demais lembrar que ambos nasceram no mesmo país
protestante, a Suíça, e foram alimentados numa fé que, embora já cristalizada
institucionalmente – ou seja, já cadaverizada em sua essência – pressupunha
algum avanço em relação à Igreja de Roma. A Reforma de fato deu um grande
impulso, dentro das limitações das circunstâncias históricas, ao processo de
volta ao cristianismo primitivo e de dessacralização da Igreja Católica. No
caso de Pestalozzi, a influência foi ainda mais benéfica. Pois se Rousseau
nasceu em Genebra, onde o temível e árido Calvino havia pontificado, Pestalozzi
nasceu em Zurique, onde através da língua e, portanto, da cultura alemã e pelas
mãos de seu avô pastor, lhe chegaram os ventos mais amenos do pietismo alemão.
O pietismo foi um movimento dentro da Reforma, que pretendia justamente fugir
da aridez teológica para reacender a prática e a devoção cristãs. Seu fundador,
Philipp Jacob Spener (1635-1705), pretendia revitalizar a presença de Jesus no
coração dos fiéis e pregava que o verdadeiro cristianismo se dá antes pela
prática da caridade do que pelas especulações teológicas, e antes realizado por
leigos, do que monopolizado pelo clero… É supérfluo dizer da afinidade de
algumas idéias pietistas com a proposta espírita. Aliás, segundo os livros de
história das religiões, num sentido mais vasto, são chamados de pietistas,
quaisquer grupos cristãos – e não apenas o fundado por Spener – cujo núcleo
doutrinário seja a prática individual da devoção e da moral de Cristo, em
oposição às formas institucionais das igrejas.
Eis
um ponto-chave, tanto em Rousseau como em Pestalozzi: ambos baseiam a
religiosidade no indivíduo. E esse indivíduo é concebido de forma integral,
guiado pela razão e iluminado pelo sentimento. A religião não emana de uma
fonte artificial, implantada e mantida pelos homens, de alguma igreja,
hierarquia ou instituição qualquer. A religião emana do homem, porque ele é
animado pelo Espírito Divino e a natureza à sua volta também o é. A religião é
essa forma de sintonia com a própria essência divina, com a essência divina da
natureza, e com o Criador, que a tudo transcende; uma sintonia, sem a
necessidade de intermediários, sem a obrigação de se obtê-la ou mesmo
manifestá-la através de qualquer tipo de ritualística.
A
única conseqüência óbvia e desejável dessa conexão consigo mesmo, com o cosmos
e com o Ser Supremo é a prática da fraternidade, da justiça e do amor na
sociedade. Portanto, a religião individual se traduz naturalmente em prática
moral. Assim diz Pestalozzi: E a fonte da justiça e de toda a felicidade no
mundo, a fonte do amor e do sentido de fraternidade humana, repousa no grande
pensamento da religião: de que somos filhos de Deus, e de que a fé nessa verdade
é a base segura para toda a felicidade do mundo. (…) toda força interior da
moralidade, do esclarecimento e da sabedoria repousa nessa base: na fé da humanidade
em Deus. (PESTALOZZI, Johann Heinrich: Abendstunde eines
Einsiedlers. in Kleine Schriften zur Volkserziehung und Menschenbildung. Bad Heilbrunn: Ed. Julius Klinkhardt,
1983, p. 17)
Digno
de nota é que se Rousseau é muitas vezes erroneamente interpretado como mero
deísta, com uma noção ainda bastante iluminista de Deus, em que a Divindade
teria sido causa do mundo, mas não estaria mais presente no universo, ao
contrário, Pestalozzi é, algumas vezes, interpretado erroneamente num sentido
oposto, o de uma concepção totalmente panteísta de Deus. Nenhuma das duas
posições é verdadeira. Rousseau evoluiu do iluminismo deísta para uma concepção
mais abrangente de Deus, em que ele é causa primeira, mas também imanência na
consciência humana e presença viva em todas as coisas. E Pestalozzi, apesar de
se referir constantemente à imanência de Deus, ainda o considera como Ser
transcendente e dirige-se a Ele em prece. A idéia mais evidente, nesse devir
evolutivo, que aqui se esboça e que vem desde o Renascimento, atingindo sua
culminância nos séculos XVIII e XIX, é a restituição aos homens de sua autonomia
individual, é a tentativa progressiva de romper as tutelas, para reconhecer a
infinita capacidade humana de pensar, procurar a verdade e encontrar a si mesmo
e a Deus. Nesse movimento de libertação, contudo, muitos se perderam na rebeldia
completa, endureceram seus corações na luta e caíram no materialismo grosseiro
ou em outras formas de tutela, que não as religiosas, como as tutelas de Estados
totalitários. E no entanto, entre os que mais permaneceram em equilíbrio,
procurando reconhecer a autonomia humana, mas promovendo ao mesmo tempo o homem
em sua totalidade, e acenando-lhe sobretudo a tutela de Deus – de cujas leis
não podemos escapar, pois estamos inseridos num universo, por Ele sustentado –
estão justamente Rousseau e Pestalozzi.
O traço
original e comum a ambos os autores, que apenas é encontrado tão fortemente num
dos maiores filósofos de todos os tempos – Platão – e no antecessor de ambos –
Comenius – é o desaguar de todas as idéias na idéia magna da educação. O maior
e talvez único meio de reintegrar o homem em si mesmo, entregando-lhe a tutela
de si próprio, cultivando-lhe a reta razão e o sentimento elevado, é dado pelo
ato pedagógico.
A
diferença entre os dois educadores, e que indica a superioridade de Pestalozzi,
é que Rousseau, apesar de sua aguda consciência da moral e da religião em seu
sentido mais elevado, não foi capaz de traduzi-la em atos e há sempre a
contradição do pensador Rousseau, proclamando a beleza de uma educação
revolucionária em Emílio, com o pai Rousseau, abandonando os próprios filhos.
(É preciso que se diga do seu intenso arrependimento, ainda em vida, por tal
feito, que também teve algumas atenuantes, dentro das circunstâncias de sua posição
familiar.) Ao invés, Pestalozzi projetou suas idéias em ação de amor e socorreu
crianças órfãs, educou pobres e ricos, ajudou a erguer um novo conceito de
educação, teorizando e praticando uma pedagogia do amor. Ele precedeu o espiritismo
não apenas em idéias, mas foi um fiel representante da máxima "Fora da
Caridade não há Salvação".
(Revista Heresis)
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