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Luciano dos Anjos e Hermínio C. Miranda
Já tivemos oportunidade de
comentar o livro “Comunicações Mediúnicas entre os Vivos”, do cientista
italiano Ernesto Bozzano, que relata e estuda algumas dezenas de casos em que o
Espírito de pessoas encarnadas se manifesta através de outras pessoas
encarnadas. O fenômeno exige, ao que parece, uma mediunidade especial,
ainda pouco pesquisada, mas de grande interesse cientifico. Há manifestações
espontâneas, ocorridas em plena sessão espírita, enquanto outras são provocadas
da parte do médium, que solicita a presença do Espírito encarnado com o qual
entra em relação, por meio da psicografia ou da tiptologia.
Segundo Bozzano, quem
também possuiu essa faculdade desenvolvida em alto grau foi o famoso jornalista
britânico William Stead que, na cobertura da Conferência de Haia, tornou-se
amigo pessoal de Ruy Barbosa.
A propósito de Ruy, aliás,
há um relato bastante curioso e não muito conhecido, que nos leva a admitir que
o eminente brasileiro, se não teve suas simpatias pelo Espiritismo, pelo menos
tomou conhecimento de uma parte bem importante da sua literatura e de alguns
fenômenos que devem tê-lo feito pensar a sério sobre o assunto.
Ao que se sabe, sua
biblioteca incluía livros declaradamente espíritas, como do próprio Bozzano,
além de outros de autoria de Léon Denis, Camille Flammarion, Arthur Conan
Doyle, William Crookes, Oliver Lodge, todos eles estudiosos do problema e
convictos da legitimidade dos postulados espíritas.
Acha ainda o Dr. Sérgio
Valle que o conhecido “Tratado de Metapsíquica”, de Charles Richet, teria sido
a última obra lida por Ruy.
Por outro lado, na famosa
“Oração aos Moços”, o grande tribuno brasileiro deixa entrever a sua certeza
não apenas da sobrevivência do Espírito, como da comunicabilidade entre
Espíritos e homens. Teria Ruy praticado esse intercâmbio?
Pelo menos um episódio
ficou documentado e perece ter tocado profundamente o coração do baiano
ilustre, e se deu justamente com o Espírito do seu amigo William Stead. O
caso foi narrado, em novembro de 1952, por Ataliba Nogueira, numa conferência
pronunciada em Campinas e reproduzida no “Jornal do Comércio” de 8 daquele mês
e ano.
Achava-se Ruy numa estação
de águas, em Minas Gerais, e já se recolhera ao leito, quando um grupo de
senhoras e moças lembrou-se de propor uma experiência com o “copo” uma das
formas rudimentares de comunicação mediúnica. Formou-se o círculo, com o
alfabeto disposto à volta da mesa e o copo ao centro. A esses
preparativos assistia, meio irônico, o historiador Batista Pereira, genro de
Ruy. Ataliba Nogueira, devido à sua posição religiosa, reprova a
“brincadeira”. De repente, porém, Batista Pereira, de pé, observa que o
copo denotava “alguma inquietação”. Em pouco, entrou a indicar as letras,
que alguém foi anotando, sem saber ainda ao certo o que sairia dali. Por
fim, decifraram o enigma: tratava-se de uma mensagem, em inglês, dirigida a Ruy
Barbosa. A coisa era tão insólita que, depois de alguma hesitação, o
próprio Batista Pereira opinou que deveriam levar o caso ao conhecimento de
Ruy. O Conselheiro atende-os à porta dos seus aposentos, em pijama, e lê
a mensagem, visivelmente emocionado.
- É o estilo dele – exclama
-, o estilo perfeito. E o assunto! O mesmo que conversamos em nossa
despedida em Haia. A mensagem somente poderia ter uma origem – William
Stead.
Naquele dia, os jornais
noticiaram que Stead havia morrido no trágico naufrágio do navio
“Titanic”. Viera, pois, desembaraçado do corpo físico, trazer ao seu
amigo brasileiro o testemunho da sua sobrevivência.
Ataliba Nogueira conclui a
narrativa declarando, algo perplexo, que Ruy “acreditava nestas histórias do
Espiritismo”.
E como não haveria de crer
se submetera seus postulados básicos ao exame competente de sua inteligência
excepcional?
Fonte: Livro “Crônicas de Um e de Outro –
De Kennedy ao Homem Artificial”
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