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Marcelo Henrique Pereira
Durante séculos - e, até
mesmo, ainda hoje - o homem foi aprisionado por correntes filosóficas e
religiosas que lhe prescrevem normas de conduta e lhe tolhem a oportunidade de
ação. Com promessas de paraísos espirituais e, mais ainda, com ameaças de
condenações eternas, seitas e filosofias restringiram-lhe o mais basilar dos
direitos: a liberdade. Há quem diga que, em estágios anteriores, de bruta
animalidade e de lento despertar da sensibilidade (sentimentos e virtudes),
eram necessárias rígidas amarras e condões. Por isto, ao examinarmos apenas um
dos códigos de procedimento jurídico-religiosos do passado - a Tábua da Lei -
vamos encontrar prescrições negativas (obrigações de não fazer): "Não matar;
não roubar; não pecar contra a castidade; não desejar a mulher do próximo; não
cobiçar as coisas alheias".
Hoje, contudo, em termos de filosofia espírita - que é, por nós, cognominada
como a doutrina da fé raciocinada - não podemos utilizar os mesmos procedimentos,
fórmulas e idéias de outras correntes ou épocas. A pretexto de orientar
condutas, explicar acerca de conseqüências futuras dos nossos atos, ou, até,
sobre o "futuro" individual ou coletivo, é totalmente descabido
valer-se da mesma "pedagogia" que manteve as criaturas, por medo ou
terror, aficcionadas a determinados movimentos sociais, entre eles, os
religiosos. Afinal de contas, se não há "inferno", ou seja, se a
condenação (se é que podemos utilizar este termo, em relação ao "julgamento"
divino) não atravessará os tempos e as Leis Espirituais permitem inúmeras
formas de compensação de erros, aprendizado e progresso, é imperioso que
modifiquemos, também, nossa forma de ensinar, orientar, aconselhar, apresentar
ou discutir questões de fundo espiritual.
Vamos a um exemplo prático: a campanha em defesa da vida, instituída no movimento
espírita (pela Federação Espírita Brasileira e, por tal supervisão, recomendada
como diretriz aos milhares de centros espíritas a ela filiados, em todo o
país), ou, até mesmo, discutida, sem o caráter de "campanha" em
eventos espiritistas. Ao utilizar-se o slogan "Sim à vida", tem-se um
determinado resultado prático: a conscientização no sentido de que ela (a vida)
seja respeitada como o mais básico e elementar dos direitos humanos, merecendo
a criteriosa atenção e proteção de pessoas, instituições e governos. Isto é
válido, necessário e imprescindível. Todavia, o que nos preocupa - e, em
essência, nos fez meditar na feitura deste ensaio - é a mensagem (subliminar ou
explícita, em alguns casos) que é-lhe correlata: o não matar.
Evidentemente, nosso raciocínio vai no sentido da defesa da vida em situações
que não sejam violentas e agressivas (como assassínios e guerras), pois estas
já merecem das pessoas de bom senso e relativa elevação espiritual o rechaço e
a oposição naturais. Não há, pois, qualquer criatura espiritualizada que possa
defender a aniquilação proposital do semelhante, seja em disputas pessoais,
grupais ou estatais. O respeito ao semelhante (e, por extensão, a não-agressão
contra sua integridade física - vida) é uma conquista derivada da evolução
espiritual.
Mas, em paralelo, há situações que merecem uma atenção mais detida de todos nós
que pensamos o Espiritismo. E, neste cenário, temos que voltar à citada campanha
febeana. Como sub-temas da mesma estão: aborto, eutanásia, pena de morte,
suicídio. Para todos eles, a orientação da Casa-Máter é uma só: NÃO. Isto é,
conjuga-se a prescrição em favor da defesa (incondicional) da vida com a vedação
completa a qualquer meio ou forma de aniquilamento da existência física. Entende-se,
assim, que o aborto nunca deva ser praticado, porque Deus é que sabe acerca do
futuro e toda encarnação é um aprendizado, uma oportunidade para o(s)
Espírito(s) - o que encarna no feto, seus pais, e outros mais próximos - não
interessando se a "vida" durará semanas ou meses (no ventre), ou
alguns segundos (fora dele), independentemente do locus maternal. Quanto à
eutanásia, também, prefere-se prolongar indefinidamente a vida (?) do moribundo,
de modo artificial, com poderosos (e caríssimos) aparelhos, em UTIs, só para
satisfazer a máxima da "hora chegada", ou seja, "o momento em
que Deus chamará aquela alma para o seu convívio".
Em outro plano, o do suicídio, utilizam-se trechos de livros (psicografados ou
não) para designar o cenário que tais espíritos irão divisar, ao chegarem ao
Plano Espiritual, no pós-desencarne. Algumas obras, inclusive, espelham
cenários dantescos, que nada têm a ver com a mensagem da Boa Nova, que sempre
foi representada como a porta aberta ao arrependimento e o desejo íntimo e
sincero de progresso.
Parece-nos, amiúde, que o único ponto concorde é o tema da pena de morte, esta
sim considerada uma brutal agressão ao ser que, independentemente do tipo criminal
que cometeu, merece, do sistema legal-processual, uma oportunidade de
reparação.
Deste modo, o que temos visto nas casas (e nos periódicos) espíritas, são condenações
prévias, seja direta ou indiretamente, dizendo que aqueles que abortam, se
suicidam, ou cometem ou permitem a eutanásia serão grandes devedores, no
futuro, pelo "agravamento" de suas penas, provas ou expiações, em
razão dos atos cometidos.
Lamentamos tudo isto... Reiteramos que, nesta direção, não somos nem um pouco
diferentes dos adeptos de outras religiões do presente (sem falar nas do passado),
porque utilizamos as mesmas "armas" para amedrontar, impressionar ou
condicionar a liberdade de ação das pessoas, agravada, ainda, pela impossibilidade
de discutir seriamente tais questões, porque alguém (encarnado ou não) já ditou
diretrizes suficientes para o deslinde da matéria. Não há como antepor argumentos
ou pretender dialogar com quem já está com a sua convicção formada e, também,
não admite que o dizer dos "Espíritos Superiores" possa ser
contestado.
Vemos em muitos ambientes e cenários espíritas a utilização das entrevistas, conversas
fraternas e aconselhamentos (todos no plano individual), e, coletivamente, nas
reuniões doutrinárias e de estudos, criaturas que, a pretexto de orientar ou
ensinar as verdades espíritas, afirmam textualmente o que irá acontecer com os
outros, numa relação de causa-efeito direta e inquestionável, sobretudo porque
já prescreve, antes de qualquer julgamento, qual a pena a que o possível
infrator das Leis Espirituais estará sujeito. Se, então, juridicamente não
concordamos com o pré-julgamento, com a ausência do contraditório e do amplo
direito de defesa do "criminoso", em termos espirituais, considerando
a completude e a perfeição da Justiça Divina, não podemos aceitar que se abra
mão, na consideração das ações individuais, do inalienável direito de
liberdade, que condiciona nossas escolhas, não por receio de futuras
conseqüências, mas baseado, direta e principalmente, na equação
entendimento-vontade que nos caracteriza como Espíritos. E, por fim, no âmbito
do julgamento espiritual, devemos lembrar, sempre, da máxima evangélica que
assevera: "o amor cobre uma multidão de pecados", o que, em linhas gerais
nos faz refletir que, se, por acaso, viermos a cometer equívocos na trajetória,
não serão estes, isoladamente, o único quesito que irá ser aferido para a nossa
compensação futura (pagamento de débitos); de outro lado, com muita força e
vigor, estarão as "boas obras" que atenuarão - e muito - qualquer
deslize porventura cometido.
Finalmente, na via interpretativa da filosofia espírita, cada um é o único e
legítimo responsável por suas ações, e estas - sempre - decorrerão do
inalienável direito de liberdade que em nenhuma circunstância nos será tolhido.
O que fizermos de nossas oportunidades diz respeito tão-somente a nós mesmos, e
a ninguém mais. Uma coisa, então, é advertir - carinhosa e fraternamente -
acerca de determinados atos, considerados contrários à Lei Divina. Outra, bem
diversa - e repugnante - é a crítica pessoal, a condenação prévia, a
impossibilidade de, alteritariamente, respeitarmos as decisões dos outros - e a
conseqüência real que lhes advirá no futuro.
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