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Washington Borges de Souza
Doutrina é o conjunto de princípios em que se baseia
uma crença religiosa, ou sistema filosófico, ou político. Em sentido restrito
pode significar uma disciplina, ciência, regra, opinião, etc.
Abordando-se apenas os aspectos religiosos da
vivência e ação das pessoas, constata-se que existem procedimentos
relacionando, ao mesmo tempo, diversas doutrinas. A Doutrina Espírita talvez
seja a mais envolvida por esses desvios. Isso se deve à ignorância em sentido
amplo e, particularmente, ao desconhecimento dos postulados dessa Doutrina.
Deve ser lembrado, contudo, que parte desses estorvos poderia ser evitada não
fora a atuação de alguns participantes do próprio Movimento Espírita, que
adotam atitude de intolerância, intransigência, incompreensão e até de
animosidade em vez do esclarecimento.
Nota-se, também, algumas vezes, o corrosivo do
orgulho e da vaidade a levar outros desatentos a dissensões e desejos de
inovações descabidas a macular a pureza e sublimidade da Doutrina Consoladora.
Há templos religiosos que permanecem sem alteração no
número de seus freqüentadores enquanto que outros estão se esvaziando
visivelmente. Alguns aumentam de maneira exagerada sua freqüência. Isso
demonstra desorientação nos meios religiosos. Certos ambientes, nos quais há
manifestações espirituais ostensivas, apresentam grande afluência, enquanto que
em alguns grupos dedicados ao estudo da Doutrina dos Espíritos e à prática da
caridade o rol de participantes não se reduz mas permanece sem expansão
acentuada.
O fenômeno mediúnico, em alguns locais e ocasiões,
prepondera sobre o estudo doutrinário em detrimento do progresso moral,
individual e coletivo.
Lamentar apenas essa tendência ocasional e deplorável
não adianta nem constrói. A tarefa de esclarecimento em nenhuma hipótese deve
ser interrompida ou arrefecida. Cada vez mais se impõe o dever fraterno e
sagrado de instruir e amar como ensina e age o Cristo de Deus através dos
milênios. Não importam o buliço das multidões e a incompreensão temporária. A
edificação espírita está fincada sobre rocha para a eternidade.
Ouve-se, às vezes, até de pessoas supostamente
instruídas, a expressão “baixo Espiritismo” com a intenção de relacioná-la à
Doutrina instituída em luz como se o Espiritismo fosse ora mais ora menos alto.
O alcance intelectual é que pode ir mais ou menos longe. A Doutrina dos
Espíritos é como o Sol que não se nega a clarear os montes e o charco. Mostra a
todos as verdades eternas da existência de Deus e da alma, as vidas sucessivas
do Espírito e sua imortalidade, e tantas outras.
Dado o seu caráter divino, o Espiritismo suporta mas
não comporta o obscurantismo, a ignorância, o erro, as atitudes intransigentes
e mesquinhas. De conformidade com as lições de Jesus, os sãos não necessitam de
médico.
Incumbe aos espíritas conscienciosos a observância da
tolerância sem transigência com o erro.
Aproximadamente há dois mil anos, o Divino Mestre
prevenira que as religiões voltar-se-iam umas contra outras, se hostilizariam
como ora ocorre em regiões do Orbe. Em nome da fé que dizem professar, o
fanatismo de alguns religiosos leva-os aos extremos de matarem-se uns aos
outros. De outras vezes, profitentes investem contra crenças qualificando seus
seguidores de adeptos do “demônio”, de “satanás”, como dizem.
Apesar das lições dos Espíritos, alguns seguidores da
sua Doutrina, também, incorrem em erros ao defrontarem com certas crendices e
hábitos sem fundamento na Nova Revelação. Em lugar de levarem a candeia do esclarecimento
como recomenda Jesus, ou quando não for possível acendê-la, adotarem o
silêncio, preferem as imprecações, as ofensas, a incompreensão. Na ânsia,
talvez, de iluminar, insultam a consciência carente de luz.
Do mesmo modo que o progresso aclara os fatos
considerados milagrosos, explicitando-os à luz da Ciência, do Espiritismo,
também as crendices serão desfeitas com o esclarecimento das consciências.
Jamais devemos olvidar que a Doutrina Espírita nunca será atingida pelas
arremetidas de seus opositores ou mesmo de alguns de seus partidários
desavisados. Dia virá em que uns e outros serão convenientemente esclarecidos.
As crendices, distanciadas da realidade, têm origem
no passado obscurecido. Sem fincas na razão, algumas perduram devido à
necessidade imanente na criatura humana de crer em alguma coisa, daí serem mais
ou menos absurdas, dependendo das fontes primitivas. São vulgarmente
sustentadas pela tradição. Quando nascem de lendas ou narrativas que se
aproximam da realidade deixam de constituir crendices, desaparecendo, conseqüentemente,
os atos e as práticas em torno e em razão delas.
Crendices e rituais são para as religiões o mesmo que
as manias e cismas significam para a vida: existem mas sem qualquer
justificativa. O próprio misticismo não encontra nenhum arrimo na apreciação
criteriosa e correta. A existência do Espírito e suas manifestações constituem
fatos naturais inconcussos que prescindem de cerimônias com referência a eles e
em torno deles. Ademais, tudo que se afasta da simplicidade fica reduzido de
autenticidade.
As formalidades e posturas extravagantes e
excêntricas relacionadas com superstições e exorcismos diversos são exemplos de
fanatismos escravizadores e irracionais. São gestos e atitudes que sempre
existiram, anteriores, portanto, ao Espiritismo Codificado, o que comprova não
lhe caber qualquer responsabilidade por essas práticas. Antes, pelo contrário,
ele as evita e as faz cessarem com o conhecimento, por meio do esclarecimento
que proporciona. Nesses casos aplicam-se com exatidão as palavras de Jesus:
“Conhecereis a verdade e ela vos libertará”.
O desconhecimento das leis trazidas a lume pelos
Espíritos é o principal responsável por rituais muitas vezes inconvenientes e
até nocivos, dado o desperdício de tempo e de recursos que causam e que
poderiam ser aplicados em benefício da educação e da caridade.
Assim, os que praticam exorcismos e os atribuem ao
Espiritismo incorrem em erro grosseiro.
As crendices, pois, como fantasias devem ser alijadas
do comportamento humano com o uso da razão, do bem senso e da inteligência
iluminada.
É, também, muito freqüente confundir o culto do
Candomblé, da Umbanda, etc. com o Espírita. Releva lembrar que os termos
“Espiritismo”, “Espírita”, “Espiritista” e outros constituem neologismos
criados com o advento da Doutrina codificada a partir de 18-4-1857, data da
publicação de “O Livro dos Espíritos”. É, portanto, necessário distinguir o
adepto dessa Doutrina, ou seja, o “espírita” do “médium”. Este pode estar
vinculado a qualquer religião ou não estar a nenhuma delas, já que o fenômeno
mediúnico é próprio da natureza e da condição humanas, enquanto que aquele, ou
seja, o “Espírita” somente ao Espiritismo está relacionado.
Ademais, o Candomblé já era crença existente antes do
descobrimento do Brasil e a Umbanda resultou do sincretismo religioso dos
cultos africanos com o Catolicismo a partir de cerca de 50 anos após o aludido
evento.
Espírita é, pois, o adepto, o seguidor dos postulados
do Espiritismo.
Contudo, nesse entendimento não há nem pode haver
nenhuma intenção de melindrar essas ou quaisquer outras crenças ou religiões,
mas, apenas a constatação e exposição da realidade.
Ao Espiritismo é reservada missão eminentemente
esclarecedora. Por isso jamais se distancia da verdade e é a via natural do
progresso geral e da evolução de cada criatura. Tendo suas bases na natureza e
nas suas leis sua estrutura é inabalável. Prima pela simplicidade, clareza e
precisão de seus princípios e fundamento obedientes à Divina Providência
reinante perenemente acima de todos e sobre tudo o que existe em toda parte.
Fonte: Revista Reformador – Fev/1999
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