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Claudio
C. Conti
Em vários
pontos dos ensinamentos contidos na Doutrina Espírita, os Espíritos Superiores,
responsáveis pelo trabalho da codificação realizada pela pessoa de Allan Kardec,
se referem a nossa capacidade de compreensão sobre alguns assuntos com frases
do tipo: “porque não falais senão do que conheceis” (O Livro dos Espíritos
questão 22), “falta-lhe para isso o sentido” (O Livro dos Espíritos questão
10), “ser incompleta a vossa linguagem”
(O Livro dos Espíritos questão 28), etc; significando que muitos conhecimentos
ainda estão longe da nossa capacidade de compreensão.
Entre muitos
exemplos que se poderia citar sobre a nossa incapacidade de compreensão,devido
a nossa situação evolutiva, seria a compreensão da natureza de Deus. A simples
tentativa de compreender um ser que seja perfeito, em todas as qualidades
possíveis e imagináveis, considerando que ainda não temos a compreensão de
qualidades outras, diversas das poucas que conhecemos, já seria um exercício
mental estafante, além de nossos limites. No entanto, Kardec, no livro A
Gênese, capítulo II item 8, diz que:
“Não é dado ao homem sondar
a natureza íntima de Deus. Para compreendê-Lo, ainda nos faltam sentido
próprio, que só se adquire por meio da completa depuração do Espírito.Mas,
se não pode penetrar na essência de Deus, o homem, desde que aceite como premissa
a sua existência, pode, pelo raciocínio, chegar a conhecer-lhe os atributos
necessários, porquanto, vendo o que ele absolutamente não pode ser,sem deixar
de ser Deus, deduz daí o que ele deve ser.
“Sem o conhecimento dos
atributos de Deus, impossível seria compreender-se a obra da criação. Esse o
ponto de partida de todas as crenças religiosas e é por não se terem reportado
a isso, como ao farol capaz de as orientar, que a maioria das religiões errou
em seus dogmas. As que não atribuíram a Deus a onipotência imaginaram muitos
deuses; as que não lhe atribuíram soberana bondade fizeram dele um Deus cioso,
colérico, parcial e vingativo.”
Este texto não tema pretensão de esclarecer ou desvendar os ainda
mistérios envolvendo a criação dos espíritos, compreendemos a nossa pouca
capacidade, relativa ao nosso estágio inicial no longo processo do caminho à
perfeição mas, apenas expor algumas considerações, tentando, assim, dar alguma
forma ao assunto.
Na questão 81 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta se os
Espíritos são formados espontaneamente ou procedem uns dos outros, e obtém como
resposta o seguinte: “Deus os cria, como a todas as outras criaturas, pela Sua
vontade. Mas, repito ainda uma vez, a origem deles é mistério.”
Esta
questão foi selecionada por dois motivos. O primeiro é para assegurar ao leitor
que temos consciência de que os Espíritos deixam claro que a origem do espírito
é um mistério; o segundo motivo é para salientar que, apesar de tudo, podemos
ainda formar uma idéia da origem dos espíritos, por mais geral que seja,
sabemos que somos criação de Deus. Fica claro que o espírito não surge do nada,
não surge espontaneamente, a origem do espírito está atrelada à vontade de
alguém ou alguma coisa, isto é, de Deus.
Como o
ponto de partida para qualquer estudo relativo ao Espiritismo, recorrendo ao O
Livro dos Espíritos, veremos várias citações a respeito da natureza do espírito.
Na questão 23 a, Kardec pergunta qual seria a natureza íntima do Espírito, ao
que os Espíritos respondem: “Não é fácil analisar o Espírito com a vossa linguagem.
Para vós, ele nada é, por não ser palpável. Para nós, entretanto, é alguma
coisa. Ficai sabendo: coisa nenhuma é o nada e o nada não existe.”
Nesta
questão, os Espíritos responsáveis pela codificação deixam claro que os
espíritos são formados por alguma “coisa”,possuem uma constituição sem, todavia,
esclarecer sobre a natureza desta“coisa”. Contudo, graças à mente perspicaz de
Kardec, durante todo o seu trabalho na Doutrina, manteve-se sempre atento a
possíveis lacunas nos ensinamentos. Uma doutrina, seja ela sobre que assunto
for, quando é passível de dúvidas e colocações em aberto, não poderia ser considerada
como sendo completa e, com isso, daria margens a especulações de toda natureza
permitindo,a qualquer um, utilizando má fé, usá-la em seu próprio benefício
através de interpretações pessoais.
Encontraremos
maiores esclarecimentos na questão 27:
Há então dois elementos gerais do Universo: a matéria e o
Espírito?
“Sim e
acima de tudo Deus, o criador, o pai de todas as coisas. Deus, espírito e matéria
constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade universal. Mas ao
elemento material se tem que juntar o fluido universal, que desempenha o papel
de intermediário entre o Espírito e a matéria propriamente dita, por demais grosseira
para que o Espírito possa exercer ação sobre ela. Embora, decerto ponto de
vista, seja lícito classificá-lo com o elemento material, ele se distingue
deste por propriedades especiais. Se o fluido universal fosse positivamente
matéria, razão não haveria para que também o Espírito não o fosse. Está
colocado entre o Espírito e a matéria; é fluido, como a matéria, é suscetível,
pelas suas inumeráveis combinações com esta e sob a ação do Espírito, de
produzir a infinita variedade das coisas de que apenas conheceis uma parte
mínima. Esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar, sendo o agente de
que o Espírito se utiliza, é o princípio sem o qual a matéria estaria em
perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe
dá.”
Desta questão é possível tirar algumas informações passíveis de
análise. Tentaremos analisá-las da melhor forma que nossa capacidade nos
permite.
Primeiramente,como os próprios Espíritos colocam, o fluido cósmico
até pode ser considerado como matéria, todavia, é preciso ter em mente que este
apresenta características outras que não estão presentes na matéria. É preciso
deixar claro que por “matéria” não está apenas sendo considerado a matéria
densa que conhecemos mas, também, estados variados do fluido cósmico, com
diferentes densidades, apenas excluindo o fluido cósmico na sua forma mais
pura,primordial.
Outra afirmação muito interessante e que merece toda a atenção é
que “se o fluido universal fosse positivamente matéria, razão não haveria para
que também o Espírito não o fosse”. O que isto poderia significar? Pode-se
chegar a duas conclusões: a) que o espírito é formado por fluido cósmico; b)
que o espírito é formado por “algo” similar ao fluido cósmico. Como a
existência de duas substâncias, vamos denominar de “substâncias” apenas pela
limitação do vocabulário, em nossa visão ainda muito estreita, seria
desnecessário e, mesmo que existissem, no nosso ponto de vista, até onde nossa
mente pode alcançar,seriam equivalentes e se justaporiam, podemos, assim,
considerar apenas uma substância – o fluido cósmico.
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