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Planeta Terra, Exílio das Almas

 

 

Eliana Thomé

  

Devemos muito à abençoada morada que nos acolhe há milênios

Numa tarde calma, um familiar anuncia pelo telefone o desencarne de alguém. O dever cristão nos leva a realizar uma prece por aquele que acabara de partir do planeta e buscamos em O Evangelho Segundo o Espiritismo1 a melhor inspiração. Sensibiliza-nos a mensagem, ao mesmo tempo em que notamos uma definição diferenciada para a nossa casa terrestre: exílio.
Diz o texto em certo momento: “Do exílio onde ainda nos retém a vontade de Deus, bem assim os deveres que nos correm neste mundo, acompanhar-te-emos pelo pensamento, até que nos seja permitido juntar-nos a ti, como tu te reuniste aos que te precederam”.

O parágrafo reúne alguns conceitos espíritas, como reencarnação e sobrevivência da alma após a morte. Fala-nos ele, sobretudo, da vida difícil na Terra (reter é o verbo utilizado) e o que aguarda a alma do outro lado, após libertar-se do pesado fardo material: o reencontro com os que a precederam na grande viagem.

Morte e Vida, planeta Terra e Mundo Espiritual, eis o grande duelo, a grande incógnita para a maioria dos homens. Mas nós, espíritas, há muito nos encontramos saciados em relação ao tema, pela vasta literatura à nossa disposição e pelas muitas informações que recebemos dos amigos do Além.

Surpreende-nos, no entanto, tanta dificuldade em nos desapegarmos dos bens materiais. Tanta dor em praticar o bem. Tanta irreverência para com a vida. Tanto apego ao planeta. Somos sim, seres sem muita ambição. Ou talvez a nossa ambição esteja com um grave problema de foco. Será que o homem não percebeu ainda que tem seu corpo voltado para o Alto e que há muito não anda mais de quatro? Quando dirigirá ele sua alma na mesma direção?

Mesmo com a Espiritualidade dizendo tratar-se a Terra de um exílio para as almas – planeta de dor, segundo uns; das trevas, segundo outros –, grande é o nosso apego a essa morada.

Calcula a Ciência, que somos cerca de 6 bilhões de seres humanos disputando um espaço. Seis bilhões de alminhas na ótica espírita. Moramos no quinto maior planeta do Sistema Solar, cuja idade varia entre 4,5 a 5 bilhões de anos.

Allan Kardec, interessado por tudo que toca o homem, seja no aspecto material, seja no espiritual, inquiriu na questão 42 de O Livro dos Espíritos, se podíamos saber o tempo de duração da formação dos mundos, ou da Terra, por exemplo. E teve como resposta:

– Não posso te dizer, somente o Criador sabe, e bem louco seria quem pretendesse saber ou conhecer o número dos séculos dessa formação.

A idade exata da Terra, ou o tempo que ela levou para formar-se são lacunas que não impedem o homem de ter esse planeta como a sua grande casa. Tomamos posse do seu terreno, invadimos seus ares, furamos seu solo, desbravamos suas matas, mergulhamos em suas águas no afã de tudo encontrar e de tudo explorar, impulsionados pela característica meramente humana da necessidade e da curiosidade.

Muito poderíamos escrever sobre o relacionamento do homem com sua casa material, interpretada pelo globo terrestre. Mas, como nós espíritas buscamos em tudo a essência espiritual das coisas, importa investigar também a morada dos Espíritos, representada pelo Mundo Espiritual, situada em outro patamar (dimensão), e que desde sempre se fez presente na vida humana.
Toda a Doutrina está calcada na parceria existente entre as duas casas humanas, e é justamente por isso que encontramos no homem as duas naturezas: a material e a espiritual. Hoje sabemos ser a sua natureza espiritual (a alma ou Espírito encarnado), aquela que sobrevive à morte do corpo físico e com a Terra manterá sempre contato.

Referências não faltam na Doutrina sobre isso. Não apenas continuamos a existir, libertados enfim pelos laços da morte, como podemos nos comunicar com aqueles que deixamos. Saímos então de uma humanidade para outra, da mesma forma que podemos dormir hoje no Brasil e acordar amanhã na França, em outro continente, com a mesma identidade, os mesmos pensamentos e desejos, as mesmas inclinações. « A História se faz assim: pela íntima e profunda colaboração das humanidades, a da Terra e a do Espaço2», define Léon Denis ao falar da ação dos Espíritos sobre os acontecimentos.

“As relações entre o mundo visível e o invisível não são mais individuais; são coletivas”, já alertava Kardec em seu discurso de abertura na Sociedade de Paris, em 1o de novembro de 1868, por ocasião da Sessão anual comemorativa dos mortos3.

Assim fomos, nós, espíritas, instruídos sobre essas duas humanidades que se completam e se atendem mutuamente, tendo sempre uma (a espiritual) mais consciência e liberdade do que a outra, pois, ainda, infelizmente, nem todos os homens admitem o mundo espiritual, ou o invisível, segundo denomina o mestre Denis em seus estudos.

E nem a figura ainda incompreendida da morte, a grande dama libertadora da alma, nos impede de errar, como não consegue fazer-nos meditar e aprender sobre o imensurável amor de nosso Pai, que nos permite, na lei venturosa do livre-arbítrio, avançar pelos próprios passos, pelos próprios desejos, pela própria força e pela própria fé.

Se jamais devemos esquecer nosso destino nobre: o da evolução de nosso ser, também não devemos esquecer nossos deveres na Terra, principalmente quando a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) anuncia em seu relatório anual que, em média, uma criança morre de fome a cada cinco segundos.

Pertençamos a uma ou a outra humanidade, a realidade é uma só: a fraternidade deve sempre existir entre os seres e os mundos. Talvez assim, flagelos como esses sejam exterminados de nosso planeta e a Terra conquiste finalmente um lugar mais nobre no Universo. Quanto ao homem, o ser inteligente da Criação4, quem sabe cumpra ele finalmente seu contrato com o Pai de amar e de fazer-se amado. 

Bibliografia:

1.Evangelho Segundo o Espiritismo –  cap. XXVIII, item IV – Preces pelos que já não são da Terra – Por alguém que acaba de morrer.
2.O Mundo Invisível e a Guerra, cap. VIII, págs. 91-103.
3.Obsessão, pág. 302.
4.O Livro dos Espíritos, questão 76. 

A autora é jornalista, professora e colaboradora da imprensa espírita; integra instituição espírita da cidade de São Paulo-SP.

 

Fonte: Revista Internacional de Espiritismo – nov/2005

 

 

 

 

Pensamentos

 

 O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

 

 

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