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Elucidações complementares a um trabalho publicado há
10 anos
Kleber Halfeld
A revista REFORMADOR de abril de 1987 publicou na
seção Retalhos do Cotidiano um relato ligado ao desastre ocorrido entre as
cidades mineiras de João Aires e Sítio¹ que envolveu dois trens: um de
passageiros, o noturno N-2, e um Cargueiro, o C-65. O fato aconteceu no ano de
1938. ²
Os pormenores desse triste acontecimento foram
fornecidos pela confreira D. Yara Silva Miranda e por outros funcionários da
antiga Estrada de Ferro Central do Brasil, hoje Rede Ferroviária Federal S.A.
Malgrado todos os esforços desenvolvidos quando da
elaboração do citado trabalho, uma lacuna ficou para os leitores. Exatamente o
nome do vendedor de bilhetes, salvo no desastre por uma irmã de caridade.
Decorridos 10 anos da publicação por REFORMADOR, uma
surpresa estava reservada para mim.
*
Em agosto de 1997 o telefone tocou:
- Quem fala aqui é o João Costa Pinto. Resido em
Barbacena, na Rua Mestre Lucas Chaves nº 87. Tenho uma notícia para o prezado
amigo.
Sem que eu pudesse falar qualquer coisa, continuou:
- A respeito do trabalho que foi publicado em abril
de 1987, de sua autoria, informo-lhe que já tenho o nome do vendedor de
bilhetes.
Não lembrava eu da pessoa que me telefonava. Tampouco,
em qualquer época, havia solicitado a quem quer que fosse, descobrir o nome do
personagem que durante 59 anos ficara no anonimato. De qualquer forma, o
momento não era para maior delonga. E rápido indaguei:
- Mas, quem é?
- Chama-se Washington Luiz da Costa. Mora na cidade
de Santos Dumont, na Rua Joaquim Nunes nº 31. É aposentado da Rede Ferroviária
Federal. Se quiser uma entrevista com ele é só combinar com o Namir Esteves de
Lima, que é amigo dele e que também mora em Santos Dumont, na Rua 46 nº 223.
Não perdi tempo. Em poucos dias estava na residência
do personagem que se salvara de um desastre em decorrência da interseção do
Plano Espiritual.
Com atenção ouviu ele a leitura que fiz do trabalho
publicado com o título O choque do N-2 com o C-65. Deu sua concordância, tendo
acrescentado, ainda, outros detalhes. Por exemplo:
a) que no desastre dos trens 182 pessoas morreram;
b) que havia dois “carros de baianos” e dois de
primeira classe;
c) que só escapou da morte metade dos passageiros de
um carro de 1ª classe.
Após a citação destes pormenores uma afirmativa
curiosa:
- Sou um homem sempre a escapar de acidentes
ocorridos em terra, ar e água...
E depois de uma pausa:
- Na terra você já sabe. Vejamos outros. Em 1948
escapei de um desastre ocorrido com um avião da antiga Panair que fazia a rota
Belo Horizonte - Rio de Janeiro, porque no aeroporto cedemos o lugar (eu, meu
tio e sua esposa) para um casal de estrangeiros que precisava viajar com
urgência naquele dia. Muito bem.
O avião caiu no Alto do Rio Doce.
Com olhar perdido dá prosseguimento à conversa:
- Também escapei de um desastre ocorrido há muito
tempo com duas barcas da Cantareira que faziam o trajeto Rio - Niterói - Rio.
Eu estava em Niterói e deveria pegar no Rio o noturno, que me levaria para
Santos Dumont. Quando atravessava a Baía de Guanabara nossa barca chocou-se com
outra. Foi uma cena indescritível. Salvei-me segurando numa tábua. E ainda
consegui salvar uma criança. Dezenas de pessoas pereceram nesse desastre que
comoveu todo o País e foi motivo de muitos comentários nos meios de
comunicação.
*
Os fatos atrás mencionados são dignos de nossa
reflexão. Afinal, envolvem uma pessoa que saiu ilesa de três situações assaz
perigosas.
Coincidentemente relacionadas a desastres em terra,
no ar e na água.
Um tema, aliás, este da tragédia, muito debatido
tanto nos círculos espíritas quanto naqueles de outros campos religiosos.
Invariavelmente opiniões sobre fatalidade vêm à tona. E são elas as mais
curiosas. Divergentes, é claro.
“O Livros dos Espíritos”, em sua Parte Terceira,
capítulo X - Da lei de liberdade - contém interessantes considerações sobre
Fatalidade. Destacarei apenas algumas perguntas e correspondentes respostas,
transcrevendo pequenos trechos, contudo, bem esclarecedores.
A primeira pergunta tem o número 851:
“Haverá fatalidade nos acontecimentos da vida,
conforme ao sentido que se dá a este vocábulo? Quer dizer: todos os
acontecimentos são predeterminados?
E, neste caso, que vem a ser o livre-arbítrio?”.
Resposta:
“A fatalidade existe unicamente pela escolha que o
Espírito fez ao encarnar, desta ou daquela prova para sofrer”. (...)
Depois que uma Entidade Espiritual considerou para
Kardec que “fatal, no verdadeiro sentido da palavra, só o instante da morte o
é”, o Codificador questionou no pergunta 853a:
“Assim, qualquer que seja o perigo que nos ameace, se
a hora da morte ainda não chegou, não morreremos?”
Respondeu o Plano Espiritual:
“Não; não perecerás e tens disso milhares de exemplos”.
(...)
Do que se conclui que em todas as épocas muitas
criaturas têm saído ilesas das mais perigosas situações. Todavia, por outro
lado, haverá quem questione:
- Mas, com que fim passam elas por tais perigos que
nenhuma conseqüência grave lhes causam?
Na questão 855, o assunto é abordado pelas Entidades
que cooperam com Kardec na feitura de “O Livro dos Espíritos”:
“(...) Se escapas desse perigo, quando ainda sob a
impressão do risco que correste, cogitas, mais ou menos seriamente, de te
melhorares, conforme seja mais ou menos forte sobre ti a influência dos
Espíritos bons”.
O estudo sobre fatalidade tem múltiplas facetas. Deve
ser considerado sob diversos ângulos.
A Doutrina Espírita tem vastos esclarecimentos nesse
sentido.
Estudá-la é alargar os horizontes da própria vida,
adentrando em faixas de superior entendimento!
__________
1. Hoje a cidade de Sitio é chamada Antonio Carlos.
2. Em sua edição de dezembro de 1980 a revista O
Médium divulgou um artigo nesse sentido.
Fonte: Revista Reformador - julho/1997
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