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O "Vinho Branco" da Belvedere e sua Substância

 

 Perigos do alcoolismo habitual - Aspectos existenciais da Senectude – Finalidade da encarnação

Dr. Iso Jorge Teixeira*

isojorge@globo.com

  

BELVEDERE BRUNO
Escritora
***************

No dia 20 de outubro/2005, a escritora (cronista e poetisa) amiga BELVEDERE BRUNO repassou-nos “um conto muito diferente” de sua lavra, publicado na sua página na Internet, no endereço:

http://www.belvederebruno.prosaeverso.net/visualizar.php?idt=61569 , intitulado “O Vinho Branco”, sendo publicado também no “Recanto das Letras”, cujo endereço é:
http://www.recantodasletras.com.br/contoscotidianos/61569 . Eis o que ela nos disse no dia 24 de outubro em relação a ele:

            “Conto com vocês para ver o que faço com o resto, o que sobrou. Aceito sugestões. Rssssss. Beijusssss”.  Bel.

            Belvedere Bruno – Niterói – RJ.

            Dissemos a ela que, pela riqueza de substância contida no seu interessante conto, gostaríamos de desenvolver uma série de aspectos do ponto de vista psiquiátrico, existencial e espírita e pedimos a sua autorização para isso, no que ela concordou. Vamos, então, ao belíssimo conto:

O Vinho branco

Sentado na cadeira que pertenceu a várias gerações da família, faço o inventário de minha vida. O que fiz com ela? Percorri os caminhos que deveria,ou preferi atalhos? Aos noventa anos, já não tenho como modificar meus traçados, equívocos, rezas tortas...

Sozinho, miro o firmamento. O ser humano envelhece, se encarquilha, mas, se não houver a mão do homem, os cenários da natureza nunca se desfiguram.  Gosto do vinho branco seco. Me traz paz à alma.

Meus filhos já se foram. Triste foi a morte da mais novinha, Mariazinha da Conceição, que a tuberculose levou. Coloquei nela uma roupa branca com véu cobrindo o rosto, e um terço entre as mãos. Nunca mais consegui sorrir como antes. Meu riso ficou preso.
A mulher envelheceu antes do tempo, foi murchando, sequer notou a ida dos filhos. Sofri a dor da morte dos cinco, enquanto ela ia se encolhendo na cama, me deixando só. Uma tarde, sorriu , olhou para o teto suspirando e morreu. Nem senti falta, porque, na verdade, ela já havia morrido há trinta anos.

Fiquei neste casarão sozinho . Não gosto de estranhos, nem preciso que cuidem de mim, pois tenho pernas e braços. Monto a cavalo, cozinho, lavo e passo.Empregado é pra cuidar dos bichos , da terra e do trabalho pesado da casa.

Cheguei a pensar numa nova companheira, mas desisti. Nasci pra ser só. Não gosto de vozerios, confusões, e as pessoas sempre trazem essas coisas.

Os vizinhos moram longe. De quando em vez, recebo visita. Trazem compotas de frutas , vinhos, pão de aveia. Não gosto de desfeitear, e aceito ,mas digo que visita não pode passar de meia hora.

O que a vida ainda quer de mim?

Rasguei todas as fotos que havia por aqui. Quem ficaria com elas após minha morte? Não tenho herdeiros, os vizinhos acham pecado queimar lembranças , e as fotos ,dizem que têm alma... Já doei todos os objetos de valor para a igreja. Meu maior apego é com aquele Sagrado Coração de Jesus em louça que tenho na parede da sala .Ainda não sei o que fazer com a casa. Tenho tempo pra pensar.

Leio muito bem, nenhum problema pra enxergar, nunca fui a médico, tenho uma saúde de ferro, mas um dia virá o sono eterno.Para onde vou ? Como será a morte? Penso que acordarei no céu, vendo meus cinco filhos, mas por conta do que Conchita me fez, peço a Deus Todo Poderoso que me livre dela na outra vida. Que continue encolhida no além...

Vou tomar uma tacinha de vinho pra me ajudar a dormir . Os fantasmas às vezes aparecem e me tiram o sono. Nunca matei ninguém, apenas dei ordens.Cada cabra safado que encontrei na vida !.. Chegaram a matar dois de meus filhos. Dei idéia para queimarem eles. Sobrou só pó. Ri e joguei no charco. Quem sabe eles agora cismaram? Deixa isso pra lá! Tô velho demais pra me preocupar com esses assuntos.

Não sei por que ainda estou por aqui. Acordo, fico o dia todo olhando a paisagem, como, escuto rádio, ponho uns discos que já estão chiando de tão velhos... Que cansaço anda batendo em mim ao cair da tarde! Me enrosco nas cobertas e vou dormir.

São cinco horas e ainda há sol. Vou tomar meu vinhozinho branco, ler meu livro de rezas, depois dormir na santa paz.

Nunca gostei de vinho tinto, por me lembrar sangue.

Que canseira me deu de repente, que sonolência estranha... Sinto frio, arrepios. Meus olhos se embaçam, pareço ver vultos, mas nunca tive problema de visão...

Estilhaços de garrafas e taças compunham o cenário final do inventário daquele homem.

Belvedere

Publicado no Recanto das Letras em 20/10/2005

            Bem, não vamos analisá-lo do ponto de vista literário, até porque não temos competência para tal, só diremos neste aspecto, que é um conto vívido, muito real para ser ficção e muita introspecção e imagem da personagem para ser real... Belíssimo conto... Vamos aproveitá-lo para tocar em alguns pontos muito importantes da vida humana, do ponto de vista existencial e espírita, isto é, vamos abordar a questão da transformação alcoólica do modo-de-ser, alguns aspectos existenciais da senectude (da 3 ª idade) e, finalmente, aspectos doutrinários espíritas em relação à finalidade da encarnação... Este conto propicia-nos abordá-los, embora de maneira sucinta, sem esgotar os assuntos...

“Very few people die from taking too
much alcohol at one time, but there other
dangers.”

(Gravura de um folheto de ‘Alcoholics
Anonymous’)

(“Muito poucos homens morrem por
tomarem álcool demais de uma só vez,
mas há outros perigos.”)

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Perigos do alcoolismo habitual – Os “bebedores de vinho” – Transformação alcoólica do modo-de-ser

            Vamos resumir os vários tipos de Alcoolismo e destacar os efeitos do uso habitual, mesmo moderado, de derivados alcoólicos...

            Segundo a Classificação Internacional de Doenças, 10.ª revisão da Organização Mundial de Saúde (OMS) – a CID-10 -, vigente, os Transtornos Mentais provocados pelas bebidas alcoólicas são classificados como “Transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de álcool”, catalogados sob o código F10. Assim, haveria vários Tipos de Alcoolismo:

            F10.0 – Intoxicação alcoólica aguda, que por sua vez pode ser: não complicada; com trauma ou outra lesão corporal; com outras complicações médicas; com “delirium”; com distorções perceptivas; com coma; com convulsões e Intoxicação patológica;

            F10.1 – Uso nocivo do álcool;

            F10.2 – Síndrome de dependência alcoólica;

            F10.3 – Estado de abstinência alcoólica, que pode ser:não complicado ou com convulsões;

            F10.4 – Estado de abstinência alcoólica com delirium, que pode ser: com ou sem convulsões;

            F10.5 - Transtorno psicótico alcoólico. Pode ser: esquizofreniforme; predominantemente delirante; predominantemente alucinatório; predominantemente polimórfico; predominantemente com sintomas depressivos; predominantemente com sintomas maníacos e misto;

            F10.6 – Síndrome amnéstica;

            F10.7 – Transtorno psicótico residual e de início tardio. Podendo apresentar-se com: flashbachs (revivescências) ; transtorno  de personalidade ou de comportamento;, transtorno afetivo residual; demência; outro comprometimento cognitivo persistente e transtorno psicótico de início tardio;

            Aí está a classificação dos tipos de alcoolismo, resumidamente. Não obstante, gostaríamos de trazer outra classificação para os nossos leitores, útil, para endendermos melhor os riscos do alcoolismo. Trata-se da classificação de JELLINEK (1960), sendo ela diferente em alguns aspectos, ei-la:

A-    O Bebedor dependente do álcool;

           B- O ALCOÓLATRA QUE CONSOME VINHO. Este tipo é característico dos países produtores de vinho. Raramente este tipo de alcoolista precisa beber a ponto de chegar na intoxicação aguda, no entanto é incapaz de parar. Na França este tipo de alcoolismo constituía um sério problema de saúde pública;

C-    O alcoólatra “descontrolado” ou “compulsivo”;

D-    O alcoólatra sintomático;

E-    O bebedor periódico ou “de veneta”;

           F- O ALCOOLISMO CRÔNICO. Este pode ser considerado como estágio final para o qual convergem TODOS os bebedores excessivos.

            O conto da escritora BELVEDERE faz referência a um indivíduo que “gosta de vinho branco” e “seco”, abstraindo-se do aspecto literário e psicológico do protagonista, ele incluir-se-ia no tipo B de JELLINEK, acima descrito... O “alcoólatra que consome vinho” é mais comum na Europa e nos países mais frios, onde muitos usam normalmente o vinho, isto é, HABITUALMENTE bebem vinho nas refeições, por exemplo. Este hábito, aparentemente sem conseqüências, pode conduzir a pessoa à vala comum do “alcoolismo crônico”, com comprometimento físico, mental e nas relações sociais. “O Vinho branco” da BEL parece descrever um tipo de alcoolista crônico, “bebedor de vinho”, com sinais inequívocos de “transformação alcoólica do modo-de-ser”.

Transformação alcoólica do modo-de-ser

            O alcoolista crônico correponderia ao F10.2 da classificação da CID-10, ele costuma apresentar uma série de características, que foram chamadas inicialmente de “personalidade alcoólica”, que na realidade não existe, preferimos a expressão “transformação alcoólica do modo-se-ser” , descrita originariamente pelo grande psiquiatra suíço do passado EUGEN BLEULER, eis a descrição de BLEULER em seu “Tratado de Psiquiatria”:

            “(...) a transformação alcoólica do modo-se-ser constitui o resultado, tanto do desenvolvimento psico-reativo mórbido à vivência das conseqüências sociais do alcoolismo, como ao início de uma psico-síndrome amnésico. Caracteriza-se por labilidade emocional e das tendências, e do ponto de vista social tem importância a irascibilidade e a brutalidade que implica. Caracteriza-se, assim, por perda de inibições, sugestionabilidade, ausência de crítica e debilidade do  juízo para focalizar a própria situação vital, redução dos interesses, inexatidão e distorção egocêntrica das recordações, substituições dos rendimentos autênticos por mentiras e promessas vazias, atitude prejuízo frente ao meio ambiente, diminuição da potência sexual e idéias de ciúmes.” (op. cit., Edit. Espasa-Calpe, Madrid, 1967, p. 351).

            Enfim, o álcool a médio e longo prazo deteriora a ÉTICA do indivíduo, levando a tais características, tão bem descritas por um dos maiores psiquiatras do início do século 20. O embotamento ético exibido por alguns  desses pacientes é muito semelhante ao da descrição do conto belvederiano...

Por tudo isso, sem querermos ser pedagógicos, alertamos para os perigos do uso continuado de derivados alcoólicos, mesmo pequenas doses de um “inocente” vinho branco...

Aspectos existenciais da Senectude (Terceira idade) – A solidão no idoso

            “O Vinho branco” da BEL conta-nos as vivências de um homem de 90 (noventa) anos, que preferiu “atalhos” em sua vida e que vive uma grande “solidão”. Um homem que parece ter sido SEMPRE “seco”, como o vinho branco de sua preferência; aliás, a confreira BELVEDERE foi muito feliz neste detalhe: vinho branco SECO... Um homem cujos sentimentos mais nobres “secaram” ou já eram “secos” originariamente. Não obstante, ainda conseguia realizar algumas tarefas quotidianas...

Mímica facial de pacientes demenciados

Na foto à esquerda há uma perplexidade resignada; à direita, uma alegria pueril e, no centro, irritabilidade, desconfiança
(Fig. extraídas do livro “Tratado de Psiquiatría”, de E. BLEULER, p. 232 e 233)

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Em síntese, um homem cuja aridez de sentimentos conseguiu levá-lo a ser o mandante do assassinato de dois dos seus próprios filhos e recorda isto sem sentimento de culpa. Seria conseqüência da “transformação alcoólica do modo de ser” ou seria um indivíduo cruel, um psicopata frio de ânimo? Ambas as condições são perfeitamente possíveis no mundo REAL.

Analisemos, então, os aspectos gerais referentes à idade avançada de uma pessoa, e especialmente à do homem que bebia vinho branco seco...

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Terceira idade
“O fim da vida é sempre conforme a nossa vida”
                                                         
(VAN DER HORST)

“Envelhece-se como se viveu”
                                                     
 (AJURIAGUERRA)

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Segundo a célebre frase de  L. VAN DER HORST: “o fim da vida é sempre conforme a nossa vida”, isto é, quando chega a nossa idade involutiva, a chamada 3.ª  idade, exacerbam-se aqueles traços dominantes que tínhamos em nossa personalidade... Assim, uma pessoa que sempre foi excessivamente preocupada com dinheiro, na senectude costuma revelar-se uma sovina. Uma pessoa que sempre foi desconfiada, torna-se quase paranóide na idade involutiva, ou seja, desconfia de tudo e de todos. Uma pessoa cujos traços de personalidade foram de uma alegria inquebrantável, podem chegar à velhice e demonstrarem uma  alegria esfuziante, sem ser patológica, obviamente; porque velhice não é doença, é uma fase vital muito propícia a determinadas patologias, como a infância e a adolescência...

A adaptação à velhice é coisa delicada e depende muito da personalidade anterior, e um pensamento semelhante ao de VAN DER HORST também ficou célebre em relação à senectude, disse o grande psiquiatra do passado AJURIAGUERRA: “Envelhece-se como se viveu”...

Vejamos o que nos diz sobre o pensamento de VAN DER HORST, acima aludido,  o nosso mestre da Psiquiatria brasileira, já desencarnado, prof. A. L. NOBRE DE MELO em seu livro PSIQUIATRA (vol. I):

“(...) Quer-se dizer com isso, naturalmente, que o modo-de-ser-no-mundo de cada um, condicionando suas atitudes anímicas, diante da vida, não pode deixar de exercer poderosa e decisiva influência em seu modo-de-adoecer, de estar enfermo e de morrer. A enfermidade  e a morte não são, pois, acontecimentos fortuitos, desvinculados do sentido mesmo da existência. São antes acontecimentos ainda ligados, íntima e profundamente, ao curso da vida, com que formam, não raro, um todo absoluto.” (op. cit., Edit. MEC/Civ. Brasileira, 1979, Rio de Janeiro, p. 273).

Assim, o idoso do conto da BELVEDERE, aos 90 anos, estaria transmitindo-nos, através de suas vivências,  o que provavelmente ele sempre foi? É bem possível no mundo real!

Vamos acrescentar aqui um trecho, que consideramos muito bonito, embora dramático, dos “fundamentos ontológicos da ancianidade”, abordado pelo prof. NOBRE DE MELO, na mesma obra PSIQUIATRIA, em seu vol. II (pág. 334), que nos fala da SOLIDÃO, fenômeno que está provado cientificamente NÃO DEPENDER  do abandono familiar, condições sociais, etc., diz o mestre NOBRE:

“Embora compreendendo haver chegado à última etapa de sua trajetória, o Homem recebe, entretanto, o advento da velhice, não como prenúncio consciente do aniquilamento irrecorrível, mas como uma nova modalidade de existência , a que, ainda assim, precisa e se esforça por ajustar-se. Certo, não ignora, por seu estado orgânico, psíquico, e, sobretudo, pela mudança da atitude dos que o cercam, a proximidade em que se encontra de sua extinção biológica inapelável. Percebe, a cada passo, que o seu mundo se estreita e se esvazia. Foram-se-lhe, um a um, os antigos companheiros, os parentes mais idosos, os amigos mais diletos.  (...) Sente, dia a dia, que o seu horizonte, outrora amplo e distante, esbate-se e limita-se, mais e mais à sua frente, como para advertir-lhe de que já não poderá estar longe aquela outra limitação, derradeira, RADICAL E DEFINITIVA ¾  o sempre adiado amplexo dos horizontes, de que nos fala Jaspers”.

E complementa o nosso mestre:

“(...) Sabe que algo de ameaçador o vem espreitando de mais perto, em cada curva, aos caprichos do acaso ou da fortuna ¾  um monstro, que se chamará carcinoma, trombose cerebral, cor pulmonale, ou não importa que outro nome tenha, mas que, a qualquer momento, acabará por interceptar-lhe a caminhada.”

E concluímos, o pensamento do mestre com o que ele fala de “solidão”:

“(...) Morrerá só, como nasceu, no dizer de Pascal. E essa SOLIDÃO, que constitui uma NECESSIDADE EXISTENCIAL DA VELHICE, é já, sem dúvida, um começo de morte. Porque expressa a quebra da coexistência e da comunicação, que alimentam a tensão vitral recíproca entre o eu e a comunidade.

O ancião é sempre, pois, e antes de tudo, um solitário.

Não encontrando, entre os circunstantes quem comungue dos anseios e aspirações do mundo arcaico, a que pertence, é um insulado, em meio da multidão. Os jovens emudecem à sua presença. Sentem-se como que embargados ou inibidos, diante dele. Ouvem-no, às vezes, por curiosidade, consideração, respeito ou complacência. Mas, no fundo, não o compreendem.” – destaques nossos, grifos do autor (op. cit., p. 334-335).

Tais palavras do prof. NOBRE poderão escandalizar muitas pessoas, mas ele fez um estudo profundo da ancianidade do ponto de vista EXISTENCIAL, ôntico, da velhice, que não caberia aqui esmiuçar pela sua extensão e complexidade... Não obstante, o mestre NOBRE não era espírita, embora também não fosse materialista. A propósito, analisemos a questão da “religiosidade”, contida no conto da BEL...

Religiosidade nem sempre significa “salvação” – Finalidade da encarnação

            Vemos no conto da amiga BELVEDERE, um homem que apresentava uma religiosidade, mas sem nenhum sentimento que buscasse a proximidade de DEUS ou de um Espírito Superior... Ele se mantém, aos 90 anos, ligado simplesmente a coisas materiais: rasgou todas as fotos de pessoas por quem deveria ter afeição, mas manteve um “Sagrado Coração de Jesus em louça”, fria, que é “o seu maior apego” e pensa que com isso, e com seu “livro de rezas”, estará salvo, “acordará no céu”, como ele diz; apesar de ter perfeita consciência dos crimes que praticou, tanto assim que “nunca gostou do vinho tinto, por lembrar-lhe sangue”...

            Conhecemos algumas pessoas que assim procedem em relação às suas crenças, embora não sejam más, perversas, como o homem de 90 anos da BEL... Uns vão à missa todos os domingos, outros não faltam aos cultos semanais no templo da sua religião e outros freqüentam as sessões dos Centros Espíritas “religiosamente”, mas, a maioria não procura modificar-se em suas imperfeições. Todos, com muito misticismo, acreditam terem ”encontrado JESUS”, mesmo os “espíritas”, isto é, os “espiritólicos”. Julgam-se “eleitos”, “salvos pela fé”, como diria PAULO DE TARSO; embora na seara espírita apareçam os falsos humildes com ares de santarrões, que dizem: ¾  Não estou salvo não, ainda preciso de muitos passes e muita água fluidificada... Ora, quem espera a salvação somente através do recebimento de passes e da ingestão de água, supostamente magnetizada, está redondamente enganado; como está enganado o velho bebedor de vinho da BELVEDERE,  porque não basta orar, é preciso orar bem e AGIR na seara do Bem...

            Apesar da Espiritualidade Maior demonstrar, em todas as épocas da humanidade, a realidade da vida após a morte, através do mediunismo natural, que todos possuem (não o mediunato),  a maioria das  pessoas não consegue modificar-se.

            No caso do homem de 90 anos da BEL, também chama-nos a atenção os tais “fantasmas”, que ele veria... Embora em alguns casos de alcoolismo os pacientes possam apresentar pseudo-alucinações, a ocorrência destas é mais freqüente sob forma de zoopsias, isto é, visão de animais minúsculos (micropsias). No caso contado pela confreira BEL, os “fantasmas” lhe tiram o sono, e tais fantasmas seriam provavelmente daqueles a quem mandou matar e de outros que deve ter prejudicado com sua vida desviante, que voltam para o assustar, demonstrando assim que não estão mortos, isto é, morreram fisicamente, mas a alma é imortal... Mesmo assim, os fantasmas da criação belvederiana não conseguem assustar o homem de 90 anos, porque há muito está afastado das coisas espirituais...

            Não temos dúvida de que há uma finalidade da nossa encarnação na Terra, que o tal homem de 90 anos está totalmente esquecido dela... Disseram os Espíritos Superiores em resposta à pergunta 167 de “O Livro dos Espíritos”, de ALLAN KARDEC, em relação à FINALIDADE da reencarnação:

            “Expiação, melhoramento progressivo da Humanidade. Sem isso, onde estaria a justiça?”

            Muitos, como o homem de 90 anos da BEL, passam por uma longa existência terrena e, em vez de buscarem uma melhora, um reajuste dos seus débitos passados, aumentam ainda mais os débitos, são os maus pagadores, pensam que aqui estão para a vida material, sensual, e só se lembram da vida espiritual quando desejam levar alguma vantagem material e, aí, utilizam o “livro de reza”, mas são capazes de, antes da “reza”, tomarem um trago, uma taça de vinho branco, seco...

Está bem claro, do ponto de vista doutrinário, qual seja a “finalidade da encarnação”, não obstante, também é preciso ressaltar que OPTAMOS pelo gênero de provas, ANTES de reencarnarmos... Se nos afastamos, pelo nosso livre-arbítrio, daquelas provas que optamos, aqui voltaremos com provas mais dolorosas, certamente; não é KARMA, nem “lei de causa e efeito” é COMPROMISSO REENCARNATÓRIO DE REAJUSTE, que nós próprios assumimos, LIVREMENTE, isto pode ser facilmente conferido e inferido nas respostas das questões 258, 258-A e 259 e mais detalhado nas respostas das questões seguintes até a 273 de O Livro dos Espíritos, às quais remetemos os nossos leitores.

Epílogo

Concluindo, disséramos à confreira  BELVEDERE, respondendo à sua pergunta em relação ao que fazer com o resto, com o que sobrou, no seu conto, que juntasse os “estilhaços de garrafas e taças” e concedesse a morte física a esse desgraçado de 90 anos, para que, após uma reflexão na erraticidade aqui voltasse com duras provas, regeneradoras, de reajuste e evolução. Obviamente, a nossa sugestão é no plano da ficção da BEL, pois ela foi a Criadora da personagem e só ela pode conduzir o homem de 90 anos à morte; pois, a ninguém é dado o direito de tirar a vida física de outrem, pois seria contrariar uma Lei Natural, Divina, inscrita na consciência de todos por DEUS – Inteligência Suprema, Causa primária de toda a Criação...

A partir da leitura deste conto da escritora BELVEDERE, convidamos os nossos leitores e leitoras a fazerem um inventário de sua própria existência, no recesso de seus lares, como um exercício do autoconhecimento... Obviamente, não indicaremos uma fórmula mágica para o “Conhece-te a ti mesmo” socrático, no entanto, quando KARDEC insistiu na forma de realizarmos esse autoconhecimento, o Espírito SANTO AGOSTINHO deu a sua experiência que usou quando encarnado, eis um trecho de sua reposta à questão 919-A  de “O Livro dos Espíritos”:

“Fazei o que eu fazia quando vivi na Terra: no fim de cada dia, interrogava a minha consciência, passava em revista o que havia feito e me perguntava a mim mesmo se não tinha faltado ao cumprimento de algum dever, se ninguém teria motivo para ser queixar de mim. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver  o que em mim necessitava de reforma. Aquele que todas as noites lembrasse todas as suas ações do dia e se perguntasse o que fez de bem e de mal, pedindo a Deus e ao seu anjo guardião que o esclarecessem, adquiriria uma grande força para se aperfeiçoar, porque, acreditai-me, Deus o assistirá. (...)”.

            Se houvesse somente uma ÚNICA encarnação e depois o Juízo, como dizem vários religiosos, baseados nas palavras de PAULO DE TARSO aos Hebreus, que seria deste desgraçado do conto da BEL ? Que seria de tantos homens e mulheres com problemática semelhante? Velhice, solidão? Todos nós a teremos, mas que a nossa ancianidade e solidão sejam tranqüilas, sem desespero, com autenticidade. Nós levamos alguma vantagem em relação aos materialistas e alguns espiritualistas de determinadas crenças, que não são espíritas - acreditamos na continuidade da vida depois da morte.

Parabéns BELVEDERE pela sua criatividade no seu conto! Brindemo-lo com água pura, cristalina. Vamos sorver o seu “vinho branco”, ele não é seco...

Ao chegarmos na senectude (aliás, eu tô ficando véio), Srs. leitores, que possamos enfrentar a nossa consciência face-a-face, sem “fantasmas” e na hora do passamento possamos dizer tranqüilamente, sem desespero - como CHICO XAVIER deve ter dito –, pronunciando palavras do mestre JESUS: Consummatus est...

Que tal outra rodada de vinho branco, caríssima BEL? Rsss.

 

* Médico. Psiquiatra. Prof. Livre - Docente de Psicopatologia e Psiquiatria da  Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).  Coordenador do Curso de Especialização em Psiquiatria (FCM - UERJ).

 

 

 

 

Pensamentos

 

 O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

 

 

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