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Perigos do alcoolismo habitual - Aspectos
existenciais da Senectude – Finalidade da encarnação
Dr. Iso Jorge Teixeira*
isojorge@globo.com
BELVEDERE BRUNO Escritora ***************
No dia 20 de outubro/2005, a escritora (cronista e
poetisa) amiga BELVEDERE BRUNO repassou-nos “um conto muito diferente” de sua
lavra, publicado na sua página na Internet, no endereço:
http://www.belvederebruno.prosaeverso.net/visualizar.php?idt=61569
, intitulado “O Vinho Branco”, sendo publicado também no
“Recanto das Letras”, cujo endereço é: http://www.recantodasletras.com.br/contoscotidianos/61569
. Eis o que
ela nos disse no dia 24 de outubro em relação a ele:
“Conto com vocês para ver o que faço com o resto, o que sobrou. Aceito
sugestões. Rssssss. Beijusssss”. Bel.
Belvedere Bruno – Niterói – RJ.
Dissemos a ela que,
pela riqueza de substância contida no seu interessante conto, gostaríamos de
desenvolver uma série de aspectos do ponto de vista psiquiátrico, existencial e
espírita e pedimos a sua autorização para isso, no que ela concordou. Vamos,
então, ao belíssimo conto:
O Vinho branco
Sentado na cadeira que pertenceu a várias gerações da
família, faço o inventário de minha vida. O que fiz com ela? Percorri os
caminhos que deveria,ou preferi atalhos? Aos noventa anos, já não tenho como
modificar meus traçados, equívocos, rezas tortas...
Sozinho, miro o firmamento. O ser humano
envelhece, se encarquilha, mas, se não houver a mão do homem, os cenários da
natureza nunca se desfiguram. Gosto do vinho branco seco. Me traz paz à alma.
Meus filhos já se foram. Triste foi a
morte da mais novinha, Mariazinha da Conceição, que a tuberculose levou. Coloquei
nela uma roupa branca com véu cobrindo o rosto, e um terço entre as mãos. Nunca
mais consegui sorrir como antes. Meu riso ficou preso.
A mulher envelheceu antes do tempo, foi
murchando, sequer notou a ida dos filhos. Sofri a dor da morte dos cinco,
enquanto ela ia se encolhendo na cama, me deixando só. Uma tarde, sorriu ,
olhou para o teto suspirando e morreu. Nem senti falta, porque, na verdade, ela
já havia morrido há trinta anos.
Fiquei neste casarão sozinho . Não gosto
de estranhos, nem preciso que cuidem de mim, pois tenho pernas e braços. Monto
a cavalo, cozinho, lavo e passo.Empregado é pra cuidar dos bichos , da terra e
do trabalho pesado da casa.
Cheguei a pensar numa nova companheira,
mas desisti. Nasci pra ser só. Não gosto de vozerios, confusões, e as pessoas
sempre trazem essas coisas.
Os vizinhos moram longe. De quando em
vez, recebo visita. Trazem compotas de frutas , vinhos, pão de aveia. Não gosto
de desfeitear, e aceito ,mas digo que visita não pode passar de meia hora.
O que a vida ainda quer de mim?
Rasguei todas as fotos que havia por
aqui. Quem ficaria com elas após minha morte? Não tenho herdeiros, os vizinhos
acham pecado queimar lembranças , e as fotos ,dizem que têm alma... Já doei
todos os objetos de valor para a igreja. Meu maior apego é com aquele Sagrado
Coração de Jesus em louça que tenho na parede da sala .Ainda não sei o que
fazer com a casa. Tenho tempo pra pensar.
Leio muito bem, nenhum problema pra
enxergar, nunca fui a médico, tenho uma saúde de ferro, mas um dia virá o sono
eterno.Para onde vou ? Como será a morte? Penso que acordarei no céu, vendo
meus cinco filhos, mas por conta do que Conchita me fez, peço a Deus Todo
Poderoso que me livre dela na outra vida. Que continue encolhida no além...
Vou tomar uma tacinha de vinho pra me
ajudar a dormir . Os fantasmas às vezes aparecem e me tiram o sono. Nunca matei
ninguém, apenas dei ordens.Cada cabra safado que encontrei na vida !.. Chegaram
a matar dois de meus filhos. Dei idéia para queimarem eles. Sobrou só pó. Ri e
joguei no charco. Quem sabe eles agora cismaram? Deixa isso pra lá! Tô velho
demais pra me preocupar com esses assuntos.
Não sei por que ainda estou por aqui.
Acordo, fico o dia todo olhando a paisagem, como, escuto rádio, ponho uns
discos que já estão chiando de tão velhos... Que cansaço anda batendo em mim ao
cair da tarde! Me enrosco nas cobertas e vou dormir.
São cinco horas e ainda há sol. Vou tomar
meu vinhozinho branco, ler meu livro de rezas, depois dormir na santa paz.
Nunca gostei de vinho tinto, por me lembrar sangue.
Que canseira me deu de repente, que
sonolência estranha... Sinto frio, arrepios. Meus olhos se embaçam, pareço ver
vultos, mas nunca tive problema de visão...
Estilhaços de garrafas e taças compunham
o cenário final do inventário daquele homem.
Belvedere
Publicado no Recanto das Letras em 20/10/2005
Bem,
não vamos analisá-lo do ponto de vista literário, até porque não temos
competência para tal, só diremos neste aspecto, que é um conto vívido, muito
real para ser ficção e muita introspecção e imagem da personagem para ser
real... Belíssimo conto... Vamos aproveitá-lo para tocar em alguns pontos muito
importantes da vida humana, do ponto de vista existencial e espírita, isto é,
vamos abordar a questão da transformação alcoólica do modo-de-ser, alguns
aspectos existenciais da senectude (da 3 ª idade) e, finalmente, aspectos
doutrinários espíritas em relação à finalidade da encarnação... Este conto propicia-nos abordá-los, embora
de maneira sucinta, sem esgotar os assuntos...

“Very
few people die from taking too much alcohol at one time, but there other
dangers.”
(Gravura de um folheto de ‘Alcoholics
Anonymous’)
(“Muito poucos homens morrem por tomarem álcool demais de uma só vez,
mas há outros perigos.”)
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Perigos do
alcoolismo habitual – Os “bebedores de vinho” – Transformação alcoólica do
modo-de-ser
Vamos resumir os vários tipos de
Alcoolismo e destacar os efeitos do uso habitual, mesmo moderado, de derivados
alcoólicos...
Segundo a Classificação
Internacional de Doenças, 10.ª revisão da Organização Mundial de Saúde (OMS) –
a CID-10 -, vigente, os Transtornos
Mentais provocados pelas bebidas alcoólicas são classificados como “Transtornos
mentais e de comportamento decorrentes do uso de álcool”, catalogados sob o
código F10. Assim, haveria vários Tipos de Alcoolismo:
F10.0 – Intoxicação alcoólica aguda,
que por sua vez pode ser: não complicada; com trauma ou outra lesão corporal;
com outras complicações médicas; com “delirium”; com distorções
perceptivas; com coma; com convulsões e Intoxicação patológica;
F10.1 – Uso nocivo do álcool;
F10.2 – Síndrome de dependência
alcoólica;
F10.3 – Estado de abstinência
alcoólica, que pode ser:não complicado ou com convulsões;
F10.4 – Estado de abstinência
alcoólica com delirium, que pode ser: com ou sem
convulsões;
F10.5 - Transtorno psicótico
alcoólico. Pode ser: esquizofreniforme; predominantemente delirante;
predominantemente alucinatório; predominantemente polimórfico; predominantemente
com sintomas depressivos; predominantemente com sintomas maníacos e misto;
F10.6 – Síndrome amnéstica;
F10.7 – Transtorno psicótico
residual e de início tardio. Podendo apresentar-se com: flashbachs (revivescências) ; transtorno de personalidade ou de comportamento;,
transtorno afetivo residual; demência; outro comprometimento cognitivo
persistente e transtorno psicótico de início tardio;
Aí está a classificação dos tipos de
alcoolismo, resumidamente. Não obstante, gostaríamos de trazer outra
classificação para os nossos leitores, útil, para endendermos melhor os riscos do alcoolismo. Trata-se da classificação
de JELLINEK (1960), sendo ela diferente em alguns aspectos, ei-la:
A-
O Bebedor dependente do álcool;
B- O ALCOÓLATRA QUE
CONSOME VINHO. Este tipo é característico dos países produtores de vinho.
Raramente este tipo de alcoolista precisa beber a ponto de chegar na
intoxicação aguda, no entanto é incapaz de parar. Na França este tipo de
alcoolismo constituía um sério problema de saúde pública;
C-
O
alcoólatra “descontrolado” ou “compulsivo”;
D-
O
alcoólatra sintomático;
E-
O
bebedor periódico ou “de veneta”;
F- O ALCOOLISMO
CRÔNICO. Este pode ser considerado como estágio final para o qual convergem
TODOS os bebedores excessivos.
O conto da escritora
BELVEDERE faz referência a um indivíduo que “gosta de vinho branco” e “seco”,
abstraindo-se do aspecto literário e psicológico do protagonista, ele
incluir-se-ia no tipo B de JELLINEK, acima descrito... O “alcoólatra que consome
vinho” é mais comum na Europa e nos países mais frios, onde muitos usam
normalmente o vinho, isto é, HABITUALMENTE bebem vinho nas refeições, por
exemplo. Este hábito, aparentemente sem conseqüências, pode conduzir a pessoa à
vala comum do “alcoolismo crônico”, com comprometimento físico, mental e nas
relações sociais. “O Vinho branco” da BEL parece descrever um tipo de
alcoolista crônico, “bebedor de vinho”, com sinais inequívocos de
“transformação alcoólica do modo-de-ser”.
Transformação alcoólica do modo-de-ser
O alcoolista crônico
correponderia ao F10.2 da classificação da CID-10, ele costuma apresentar uma
série de características, que foram chamadas inicialmente de “personalidade
alcoólica”, que na realidade não existe, preferimos a expressão “transformação
alcoólica do modo-se-ser” , descrita originariamente pelo grande psiquiatra
suíço do passado EUGEN BLEULER, eis a descrição de BLEULER em seu “Tratado de
Psiquiatria”:
“(...) a transformação alcoólica do modo-se-ser constitui o resultado, tanto do desenvolvimento
psico-reativo mórbido à vivência das conseqüências sociais do alcoolismo, como
ao início de uma psico-síndrome amnésico. Caracteriza-se por labilidade
emocional e das tendências, e do ponto de vista social tem importância a
irascibilidade e a brutalidade que implica. Caracteriza-se, assim, por perda de
inibições, sugestionabilidade, ausência de crítica e debilidade do juízo para focalizar a própria situação
vital, redução dos interesses, inexatidão e distorção egocêntrica das
recordações, substituições dos rendimentos autênticos por mentiras e promessas
vazias, atitude prejuízo frente ao meio ambiente, diminuição da potência sexual
e idéias de ciúmes.” (op. cit.,
Edit. Espasa-Calpe, Madrid, 1967, p. 351).
Enfim, o álcool a médio e longo prazo deteriora a ÉTICA do indivíduo,
levando a tais características, tão bem descritas por um dos maiores
psiquiatras do início do século 20. O embotamento ético
exibido por alguns desses pacientes é
muito semelhante ao da descrição do conto belvederiano...
Por tudo isso, sem querermos ser pedagógicos,
alertamos para os perigos do uso continuado
de derivados alcoólicos, mesmo pequenas doses de um “inocente” vinho branco...
Aspectos existenciais da Senectude (Terceira idade) –
A solidão no idoso
“O Vinho branco” da BEL conta-nos as vivências de um
homem de 90 (noventa) anos, que preferiu “atalhos” em sua vida e que vive uma
grande “solidão”. Um homem que parece ter sido SEMPRE “seco”, como o vinho
branco de sua preferência; aliás, a confreira BELVEDERE foi muito feliz neste
detalhe: vinho branco SECO... Um homem cujos sentimentos mais nobres “secaram”
ou já eram “secos” originariamente. Não obstante, ainda conseguia realizar
algumas tarefas quotidianas...

Mímica facial de pacientes demenciados
Na foto à
esquerda há uma perplexidade resignada; à direita, uma alegria pueril e, no
centro, irritabilidade, desconfiança (Fig.
extraídas do livro “Tratado de Psiquiatría”, de E. BLEULER, p. 232 e 233)
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Em síntese, um homem cuja aridez de
sentimentos conseguiu levá-lo a ser o mandante do assassinato de dois dos seus
próprios filhos e recorda isto sem
sentimento de culpa.
Seria conseqüência da “transformação alcoólica do modo de ser” ou seria um
indivíduo cruel, um psicopata frio
de ânimo? Ambas as
condições são perfeitamente possíveis no mundo REAL.
Analisemos, então, os aspectos gerais
referentes à idade avançada de uma pessoa, e especialmente à do homem que bebia
vinho branco seco...
♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥ Terceira idade
“O fim da vida é sempre conforme a nossa
vida” (VAN DER
HORST)
“Envelhece-se
como se viveu” (AJURIAGUERRA)
♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥
Segundo a célebre frase de L. VAN DER HORST: “o fim da vida é sempre conforme a nossa vida”, isto é, quando chega a nossa idade
involutiva, a chamada 3.ª idade,
exacerbam-se aqueles traços dominantes que tínhamos em nossa personalidade...
Assim, uma pessoa que sempre foi excessivamente preocupada com dinheiro, na
senectude costuma revelar-se uma sovina. Uma pessoa que sempre foi desconfiada,
torna-se quase paranóide na idade involutiva, ou seja, desconfia de tudo e de
todos. Uma pessoa cujos traços de personalidade foram de uma alegria inquebrantável,
podem chegar à velhice e demonstrarem uma
alegria esfuziante, sem ser patológica, obviamente; porque velhice não é doença, é uma fase vital muito propícia a
determinadas patologias, como a infância e a adolescência...
A adaptação à velhice é coisa delicada e
depende muito da personalidade anterior, e um pensamento semelhante ao de VAN
DER HORST também ficou célebre em relação à senectude, disse o grande
psiquiatra do passado AJURIAGUERRA:
“Envelhece-se como se viveu”...
Vejamos o que nos diz sobre o pensamento de
VAN DER HORST, acima aludido, o nosso
mestre da Psiquiatria brasileira, já desencarnado, prof. A. L. NOBRE DE MELO em
seu livro PSIQUIATRA (vol. I):
“(...) Quer-se dizer com isso, naturalmente, que o modo-de-ser-no-mundo de cada um, condicionando suas atitudes anímicas, diante da vida, não
pode deixar de exercer poderosa e decisiva influência em seu modo-de-adoecer, de estar enfermo e de morrer. A enfermidade
e a morte não são, pois, acontecimentos fortuitos, desvinculados do sentido mesmo da existência. São antes acontecimentos ainda
ligados, íntima e profundamente, ao curso da vida, com que formam, não raro, um
todo absoluto.”
(op. cit., Edit. MEC/Civ. Brasileira, 1979, Rio de
Janeiro, p. 273).
Assim, o idoso do conto da BELVEDERE, aos 90 anos,
estaria transmitindo-nos, através de suas vivências, o que provavelmente ele sempre foi? É bem possível no mundo real!
Vamos acrescentar aqui um trecho, que
consideramos muito bonito, embora dramático, dos “fundamentos ontológicos da ancianidade”, abordado pelo prof. NOBRE DE MELO, na mesma
obra PSIQUIATRIA, em seu vol. II (pág. 334), que nos fala da SOLIDÃO, fenômeno
que está provado cientificamente NÃO DEPENDER
do abandono familiar, condições sociais, etc., diz o mestre NOBRE:
“Embora compreendendo haver chegado à última etapa de
sua trajetória, o Homem recebe, entretanto, o advento da velhice, não como
prenúncio consciente do aniquilamento irrecorrível, mas como uma nova modalidade de existência , a que, ainda assim, precisa e se esforça por ajustar-se.
Certo, não ignora, por seu estado orgânico, psíquico, e, sobretudo, pela
mudança da atitude dos que o cercam, a proximidade em que se encontra de sua
extinção biológica inapelável. Percebe, a cada passo, que o seu mundo se
estreita e se esvazia. Foram-se-lhe, um a um, os antigos companheiros, os
parentes mais idosos, os amigos mais diletos.
(...) Sente, dia a dia, que o seu horizonte, outrora amplo e distante,
esbate-se e limita-se, mais e mais à sua frente, como para advertir-lhe de que
já não poderá estar longe aquela outra limitação, derradeira, RADICAL E
DEFINITIVA ¾ o sempre adiado amplexo dos horizontes, de que nos fala Jaspers”.
E complementa o nosso mestre:
“(...) Sabe que algo de ameaçador o vem espreitando
de mais perto, em cada curva, aos caprichos do acaso ou da fortuna ¾ um monstro,
que se chamará
carcinoma, trombose cerebral, cor pulmonale,
ou não importa que outro nome tenha, mas que, a qualquer momento, acabará por
interceptar-lhe a caminhada.”
E concluímos, o pensamento do mestre com o
que ele fala de “solidão”:
“(...) Morrerá só,
como nasceu, no dizer de Pascal. E essa SOLIDÃO, que constitui uma NECESSIDADE
EXISTENCIAL DA VELHICE, é já, sem dúvida, um começo de morte. Porque expressa a quebra da coexistência e da comunicação, que
alimentam a tensão vitral recíproca entre o eu e a comunidade.
O ancião é sempre, pois, e antes de tudo, um
solitário.
Não encontrando, entre os circunstantes quem
comungue dos anseios e aspirações do mundo arcaico, a que pertence, é um insulado, em meio da multidão. Os jovens emudecem à
sua presença. Sentem-se como que embargados ou inibidos, diante dele. Ouvem-no,
às vezes, por curiosidade, consideração, respeito ou complacência. Mas, no
fundo, não o compreendem.” – destaques
nossos, grifos do autor (op. cit., p. 334-335).
Tais palavras do prof. NOBRE poderão
escandalizar muitas pessoas, mas ele fez um estudo profundo da ancianidade do
ponto de vista EXISTENCIAL, ôntico, da velhice, que não caberia aqui esmiuçar
pela sua extensão e complexidade... Não obstante, o mestre NOBRE não era
espírita, embora também não fosse materialista. A propósito, analisemos a
questão da “religiosidade”, contida no conto da BEL...
Religiosidade nem sempre significa “salvação” –
Finalidade da encarnação
Vemos no conto da
amiga BELVEDERE, um homem que apresentava uma religiosidade, mas sem
nenhum sentimento que buscasse a proximidade de DEUS ou de um Espírito
Superior... Ele se mantém, aos 90 anos, ligado simplesmente a coisas materiais:
rasgou todas as fotos de pessoas por quem deveria ter afeição, mas manteve um
“Sagrado Coração de Jesus em louça”, fria, que é “o seu maior apego” e pensa
que com isso, e com seu “livro de rezas”, estará salvo, “acordará no céu”, como
ele diz; apesar de ter perfeita consciência dos crimes que praticou, tanto
assim que “nunca gostou do vinho tinto, por lembrar-lhe sangue”...
Conhecemos algumas
pessoas que assim procedem em relação às suas crenças, embora não sejam más,
perversas, como o homem de 90 anos da BEL... Uns vão à missa todos os domingos,
outros não faltam aos cultos semanais no templo da sua religião e outros
freqüentam as sessões dos Centros Espíritas “religiosamente”, mas, a maioria
não procura modificar-se em suas imperfeições. Todos, com muito misticismo,
acreditam terem ”encontrado JESUS”, mesmo os “espíritas”, isto é, os
“espiritólicos”. Julgam-se “eleitos”, “salvos pela fé”, como diria PAULO DE
TARSO; embora na seara espírita apareçam os falsos humildes com ares de
santarrões, que dizem: ¾ Não estou salvo não, ainda
preciso de muitos passes e muita água fluidificada... Ora, quem espera a salvação somente através do recebimento de passes e
da ingestão de água, supostamente magnetizada, está redondamente enganado; como
está enganado o velho bebedor de vinho da BELVEDERE, porque não basta orar, é preciso orar bem e
AGIR na seara do Bem...
Apesar da Espiritualidade Maior demonstrar,
em todas as épocas da humanidade, a realidade da vida após a morte, através do
mediunismo natural, que todos possuem (não o mediunato), a maioria das
pessoas não consegue modificar-se.
No caso do homem de 90
anos da BEL, também chama-nos a atenção os tais “fantasmas”, que ele veria...
Embora em alguns casos de alcoolismo os pacientes possam apresentar pseudo-alucinações,
a ocorrência destas é mais freqüente sob forma de zoopsias, isto é,
visão de animais minúsculos (micropsias). No caso contado pela confreira BEL,
os “fantasmas” lhe tiram o sono, e tais fantasmas seriam provavelmente daqueles
a quem mandou matar e de outros que deve ter prejudicado com sua vida
desviante, que voltam para o assustar, demonstrando assim que não estão mortos,
isto é, morreram fisicamente, mas a alma
é imortal... Mesmo assim,
os fantasmas da criação belvederiana não conseguem assustar o homem de 90 anos,
porque há muito está afastado das coisas espirituais...
Não temos dúvida de
que há uma finalidade da
nossa encarnação na Terra,
que o tal homem de 90 anos está totalmente esquecido dela... Disseram os
Espíritos Superiores em resposta à pergunta 167 de “O Livro dos Espíritos”, de
ALLAN KARDEC, em relação à FINALIDADE da reencarnação:
“Expiação, melhoramento progressivo da Humanidade.
Sem isso, onde estaria a justiça?”
Muitos, como o homem
de 90 anos da BEL, passam por uma longa existência terrena e, em vez de
buscarem uma melhora, um reajuste dos seus débitos passados, aumentam ainda
mais os débitos, são os maus pagadores, pensam que aqui estão para a vida
material, sensual, e só se lembram da vida espiritual quando desejam levar
alguma vantagem material e, aí, utilizam o “livro de reza”, mas são capazes de,
antes da “reza”, tomarem um trago, uma taça de vinho branco, seco...
Está bem claro, do ponto de vista
doutrinário, qual seja a “finalidade da encarnação”, não obstante, também é
preciso ressaltar que OPTAMOS pelo gênero
de provas, ANTES de reencarnarmos... Se
nos afastamos, pelo nosso livre-arbítrio, daquelas provas que optamos, aqui
voltaremos com provas mais dolorosas, certamente; não é KARMA, nem “lei de
causa e efeito” é COMPROMISSO REENCARNATÓRIO DE REAJUSTE, que nós próprios
assumimos, LIVREMENTE, isto pode ser facilmente conferido e inferido nas
respostas das questões 258, 258-A e 259 e mais detalhado nas respostas das
questões seguintes até a 273 de O
Livro dos Espíritos, às
quais remetemos os nossos leitores.
Epílogo
Concluindo, disséramos à confreira BELVEDERE, respondendo à sua pergunta em
relação ao que fazer com o resto, com o que sobrou, no seu conto, que juntasse
os “estilhaços de garrafas e taças” e concedesse a morte física a esse
desgraçado de 90 anos, para que, após uma reflexão na erraticidade aqui
voltasse com duras provas, regeneradoras, de reajuste e evolução. Obviamente, a
nossa sugestão é no plano da ficção da BEL, pois ela foi a Criadora da
personagem e só ela pode conduzir o homem de 90 anos à morte; pois, a ninguém é
dado o direito de tirar a vida física de outrem, pois seria contrariar uma Lei
Natural, Divina, inscrita na consciência de todos por DEUS – Inteligência
Suprema, Causa primária de toda a Criação...
A partir da leitura deste conto da escritora
BELVEDERE, convidamos os nossos leitores e leitoras a fazerem um inventário de
sua própria existência, no recesso de seus lares, como um exercício do autoconhecimento... Obviamente, não indicaremos uma fórmula mágica para o “Conhece-te a
ti mesmo” socrático, no entanto, quando KARDEC insistiu na forma de realizarmos
esse autoconhecimento, o Espírito SANTO AGOSTINHO deu a sua experiência que
usou quando encarnado, eis um trecho de sua reposta à questão 919-A de “O Livro dos Espíritos”:
“Fazei o que eu fazia quando vivi na Terra: no fim de
cada dia, interrogava a minha consciência, passava em revista o que havia feito
e me perguntava a mim mesmo se não tinha faltado ao cumprimento de algum dever,
se ninguém teria motivo para ser queixar de mim. Foi assim que cheguei a me
conhecer e a ver o que em mim
necessitava de reforma. Aquele que todas as noites lembrasse todas as suas
ações do dia e se perguntasse o que fez de bem e de mal, pedindo a Deus e ao
seu anjo guardião que o esclarecessem, adquiriria uma grande força para se
aperfeiçoar, porque, acreditai-me, Deus o assistirá. (...)”.
Se houvesse somente
uma ÚNICA encarnação e depois o Juízo, como dizem vários religiosos, baseados
nas palavras de PAULO DE TARSO aos Hebreus, que seria deste desgraçado do conto
da BEL ? Que seria de tantos homens e mulheres com problemática semelhante?
Velhice, solidão? Todos nós a teremos, mas que a nossa ancianidade e solidão
sejam tranqüilas, sem desespero, com autenticidade.
Nós levamos alguma vantagem
em relação aos materialistas e alguns espiritualistas de determinadas crenças,
que não são espíritas - acreditamos na continuidade da vida depois da morte.
Parabéns BELVEDERE pela sua criatividade no
seu conto! Brindemo-lo com água pura, cristalina. Vamos sorver o seu “vinho
branco”, ele não é seco...
Ao chegarmos na senectude (aliás, eu tô
ficando véio), Srs. leitores, que possamos enfrentar a nossa consciência
face-a-face, sem “fantasmas” e na hora do passamento possamos dizer
tranqüilamente, sem desespero - como CHICO XAVIER deve ter dito –, pronunciando
palavras do mestre JESUS: Consummatus
est...
Que tal outra rodada de vinho branco,
caríssima BEL? Rsss.
* Médico. Psiquiatra. Prof. Livre - Docente de
Psicopatologia e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM)
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Coordenador do Curso de Especialização em
Psiquiatria (FCM
- UERJ).
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