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Octávio Caúmo Serrano
Todos os anos, no
mês de novembro, festejam-se os santos e os mortos
Ao endereçar orações e rogativas aos santos e aos
mortos, esquecemos que eles podem estar reencarnados. Nem todos os que foram
canonizados são espíritos puros. Precisam ainda da reencarnação para provas e
expiações, assim como os nossos amigos ou parentes mortos.
Perdem-se as preces, nesses casos? Absolutamente não. Todo pensamento que
envolve amor e otimismo é aproveitado como energia positiva para a purificação
espiritual do planeta, atualmente tão poluído. E quanto a recebermos a ajuda,
esta dependerá do merecimento.
Os chamados dias dos finados são tempos de tristeza. Pessoas que passaram todo
o ano sem lembrar de alguém que se foi, nesse dia vivem o tormento da
consternação coletiva e terminam por reviver momentos de agonia.
Não deveria ser assim. Todavia, pela deturpada orientação religiosa de quase
dois milênios, a morte significa uma perda irreparável e irreversível. Para
muitas pessoas, Deus é malvado a ponto de tirar do seu convívio aqueles que
tanto amaram. E não respeita se era moço ou velho. Pratica uma inversão, quando
leva os bons e deixa que os maus prossigam vivendo.
Acostumados a ouvir que a vida é uma só, é evidente que morrer é uma tragédia.
É o final de sonhos, de longos planejamentos, e de expectativas que são
cortadas sem aviso antecipado. Observem que as pessoas dizem quando eu crescer,
quando eu me formar, quando eu me casar, mas não reflexionam sobre a morte. Aliás,
sequer suportam ouvir essa palavra. Preparamo-nos para tudo, menos para a
morte. E esta é, no entanto, a única certeza da vida. Tudo o mais é suposição.
Nada fará com que o homem mude de pensamento enquanto acreditar que vive uma
única vez. “A vida é uma só e é preciso aproveitar”, é a mensagem que sempre
ouvimos. Agimos como se fôssemos, em essência, um corpo que tem uma alma e não
percebemos que somos uma alma que tem um corpo. Um corpo que se acaba e uma
alma que é eterna e guarda conhecimentos, sabedorias e virtudes, para ser cada
vez melhor.
O Espiritismo propõe que acreditemos na reencarnação, mas não como os tradicionais
dogmas de fé. Quer-nos racionais. Para crer num Deus misericordioso e justo,
temos de aceitar que as diferenças humanas são causadas pelos próprios
espíritos nas suas diferentes experiências na matéria. Ser rico ou pobre,
saudável ou doente, bonito ou feio, viver muito ou pouco tem a ver com o
passado espiritual de cada um, porque tudo é conseqüência de atos anteriores.
Acreditar na reencarnação, portanto, não é simplesmente repetir conceitos, mas
agir de maneira a construir dias melhores para vivê-los no presente e no
futuro, nesta ou nas próximas encarnações. É usar esta encarnação para preparar
a vida eterna.
Tem boa morte quem tem boa vida. E ter boa vida não é ter vida boa.
Ter boa vida é usar a vida física para preparar a vida espiritual. Ao fazer o
bem agora, qualificamo-nos a viver melhor numa próxima encarnação, além de ter
menos sofrimento no mundo espiritual. Não esqueçamos que nossa consciência vai
conosco para onde formos. Enganamos os homens, mas não enganamos a Deus e nem a
nós próprios.
De nada vale ser espírita e acreditar que vivemos muitas vezes em mundos materiais
para aprendizado intensivo e criticar nossos irmãos de outras doutrinas que não
comungam das nossas idéias se não somos diferentes deles no relacionamento com
os semelhantes. Teorias não bastam. Discursos são insuficientes. Palavras são
levadas pelo vento. Para mostrar que acredita na reencarnação e a vê como
solução para livrar-se dos pesados fardos dos equívocos do passado, o espírita
precisa viver de modo a aproveitar esse momento especial.
Segundo André Luiz, o momento em que o espírito está encarnado funciona como
catalisador (estimulador) para que seu progresso se faça com rapidez. Em dois
séculos, diz ele, consegue o que demandaria um ano luz. Segundo o dicionário do
Sr. Aurélio, ano luz é a “unidade de distância que equivale à distância
percorrida pela luz, no vácuo, em um ano, à razão de 299.792 km por segundo, e
igual a aproximadamente 9 trilhões e 450 bilhões de quilômetros.” Números que
sequer conseguimos conceber.
Chorar a morte de alguém é um direito de quem sente saudade. A separação de um
amigo ou de um familiar deixa um vazio na alma de quem ama. É humano e temos o
direito de externar essa dor. O que não podemos é sentir aborrecimento,
imaginando que Deus é injusto.
Ao compreender que este é o mundo das dores, a libertação do corpo físico representa
para o espírito um momento de alegria. Referimo-nos especialmente aos que
cumprem os desígnios divinos e que dão bom aproveitamento à sua vida na Terra. O que morre assemelha-se ao
condenado que cumpriu a pena e tem direito à liberdade para reintegrar-se à
sociedade. Exigir que ele permaneça preso depois de quitar sua falta é injusto
e desumano.
O mundo primitivo é o espiritual e um dia já não precisaremos de matéria física
para evoluir.
Por enquanto, e por muito tempo, iremos perdendo a densidade até que sejamos
espíritos mais puros. É só o que podemos fazer no estágio em que nos encontramos.
Quando alguém já filosofou se “não seria a vida a morte e não seria a morte a vida?,
estava conjeturando sobre algo profundo. Muitos imaginam que seus entes
morreram, quando, na verdade, mortos estamos nós atrelados a um corpo que exige
grande sacrifício de manutenção. Temos que nos limpar, nos alimentar e,
principalmente, controlar pensamentos e emoções para não adoecer. É a prisão da
carne que doma o espírito rebelde.
Não apressemos a morte de ninguém. Nem a nossa, com desequilíbrios e aflições.
Mas aceitemos a beleza do desligamento do espírito quando os amigos do plano
divino vêm desatar nossos laços para o vôo amplo de libertação e êxtase.
Levem flores, se quiserem. Mas não se esqueçam que a prece é o que mais perfuma
aquele a quem amamos e que nos vê recordá-lo com alegria. Jamais fique
inconformado ou se sinta traído pelo suposto abandono, porque angustiará aquele
que se foi. A lei da vida não se engana. Tudo está certo e tudo é necessário.
Um abraço a todos os que têm problemas como estes, para que se sintam aliviados
e de coração leve enquanto aguardam, com fé e resignação, a chegada da sua
própria liberdade.
Fonte: Revista Internacional de
Espiritismo – nov/2005
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