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Carmem Imbassahy
É muito raro
quem não conheça François Marie Arouet que veio a se assinar Voltaire
em sua famosa obra literária. Nasceu já no final do século XVII e por volta de
1700 ou pouco mais, ingressou no Colégio de Clermont, dos jesuítas, tendo sido
excelente aluno, a ponto de seus mestres considerarem-no como sendo um dos mais
novéis seguidores da Companhia de Jesus.
Paradoxalmente,
pela sua irreverência, não tardou a se rebelar contra os dogmas da Igreja,
tendo escrito em 1733 sua primeira crítica a ela, intitulada “Epístola a
Urânio” contudo, seu primeiro trabalho foi contra a corte real francesa o que
lhe mereceu um bom período de Bastilha, ou melhor, um ano de reclusão, quando,
então, escreveu o seu primeiro poema épico sobre Édipo.
Sua biografia é
deveras conhecida, por isso, seria repetitivo tudo o que dele pudéssemos dizer.
Contudo, merece destaque o que comentou Jean Huber, pintor suíço, natural de
Genebra, que, embora se notabilizasse pelas suas tintas, sendo cartunista,
deixou-se influenciar por este escritor que, àquela altura, a convite de
Friedrich II (Berlim), foi participar de sua corte onde escrevera Zadig, uma
obra considerada como sendo o início do seu período sarcástico.
Huber
encantara-se com Voltaire e se dedicara a uma série de caricaturas descritivas
sobre este autor. Muita coisa que se sabe de Voltaire deve-se a ele, pois, a
maioria dos escritos em revistas e o que se tinha como jornais (journal – diário) informativos da época
ficou perdida no tempo, embora Paul Zimmermann, um dos redatores da Larousse em
1905 tenha dito que, se juntássemos tudo o que já houvera sido publicado a
respeito de Voltaire, far-se-ia uma outra enciclopédia.
Max Legrand, no
início do século XX, referindo-se a Huber, comenta que não sabe quem tenha sido
mais irreverente, se Voltaire ou se seu caricaturista de Genebra.
Hubert podia
estar por volta dos seus 57 anos quando Voltaire veio a falecer. Para ele, a
Igreja perdera o maior dos seus divulgadores, porque, com sua irreverência, é
quem destacava os atos da Religião do Vaticano, contestada por Martin Luther –
Lutero – desde a época da descoberta do Brasil, coincidentemente.
Merece
destaque, aqui, a charge que Hubert fez a respeito de uma exposição de Voltaire
definindo Deus como o factótum da
Igreja, Deus atrapalhado com as suas tarefas a criar o mundo enquanto que um
provável futuro padre jesuíta lhe dava conselhos a respeito desse trabalho.
A princípio,
nada se observa de curioso, mas, se atentarmos para o fato de que, mesmo antes
da Criação, já ali estava o padre jesuíta orientando Deus, isto evidencia o
fato de que Voltaire não primava pelo conceito de que todos os homens tenham
sido feitos a partir do barro, barro esse que ninguém sabe de onde proveio,
afinal, se a Terra ainda não havia sido criada, como poderia existir um
“barranco” para fornecer tal matéria?
Um equívoco: a
Terra já havia sido criada porque surgiu antes de Adão, tanto é que, quando
expulsos do Eden, o casal bíblico da Gênese mosaica foi condenado à vida humana
em nosso planeta, dando origem a nós, criaturas.
O que,
provavelmente, não se pode entender é que, se Adão fora feito para habitar no
Paraíso, não deveria ter sido elaborado de barro terreno, mas de material
contido no Éden. E de que era composto este paradisíaco habitat? Pela Gênese bíblica, tinha serpente, senão venenosa como
uma áspide, pelo menos, na catequese de Eva, soube sê-lo, induzindo-a ao famoso
pecado original, responsável pela
perpetuação das espécies, sem o que nenhum outro animal seria capaz de
proliferar.
Aliás, foi um
dos comentários de Voltaire: se Eva não tivesse cometido o pecado original, com Adão, os demais seres vivos tê-lo-iam
praticado? E quem os ensinou a fazê-lo? E como é que eles souberam que tinham
que usar de tal prática para que suas espécies não deixassem de existir?
Perguntamos nós, complementando as indagações irreverentes do autor de Cartas Filosóficas.
Realmente, o
crítico mordaz tinha sempre um comentário ferino, quando instigado por algum
motivo; e não perdoava a Igreja, provavelmente, diria Freud, como neurose da
infância, em relação à educação eclesiástica que tivera.
Embora a Igreja
já houvesse tido um período em que aceitara a reencarnação, ela não mais fazia
parte dos seus dogmas eclesiásticos. Talvez, por isso, Voltaire nunca tivesse
feito nenhum comentário a seu respeito.
Só no começo do
século XVII (por volta de 1805) é que, oficialmente, o estudo reencarnatório
fora introduzido em França, com o nome de palingênese (do grego: vidas
sucessivas) nos salões de recepção da Senhora Récamier, esposa do maior
banqueiro do país à época; por sinal, Voltaire veio a falecer um ano antes de
esta senhora nascer. Mas este é outro assunto.
O fato é que
não se sabe como reagiria o satírico escritor francês ante a possibilidade de outras
vidas, materialista como era, a ponto de admitir que o Espírito estivesse nas
coisas – o espírito das coisas, na
sua expressão – e não, na criatura humana, mas que, a necessidade de a Igreja
comercializar o privilégio de colocá-lo junto a Deus, havia feito com que ele
se sujeitasse a um julgamento final. E haja existência para isso!
Todavia, como
tudo se faz a seu tempo, nem Voltaire nasceu antes, nem os estudos de Kardec
surgiram depois, para ver como o sábio enciclopédico francês parisiense reagiria
ante o Espiritismo.
Fica, apenas, a idéia de que ele não se furtaria aos comentários. Mas...
quais?
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