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A Meditação

 

“Sem a oração, a reflexão,a meditação, quem nos estimulará a amar este Senhor [Jesus Cristo]”.

Santa Teresa d’Ávila (1.515-1.582)

 

“Sentar e esquecer: abandona-se o corpo e elimina-se a audição e a visão. Evitam-se as formas e a experiência. É como penetrar num lugar imenso”.

Chuang Tsé

Mestre e autor do livro sagrado taoísta “Chuang Tsé”

 

Todas as formas de Yoga são sempre formas de meditação.

 

A qualificação mínima à meditação é ter um corpo humano. Meditar significa concentrar a mente (Manas inferior) em algo, ação física desempenhada principalmente pela área pré-frontal do cérebro humano. Aqui vemos o conceito necessário e imprescindível a qualquer caminho psicológico/espiritual: a concentração. Divagar e deixar os pensamentos se sucederem desordenadamente não é meditar. Meditação implica abstração: focar a concentração em um único objeto (que pode ser qualquer coisa) e retirar, abstrair, a sua essência ideativa, o seu significado mais profundo.

Dessa forma, meditação (ou contemplação) não é o mesmo que o Quietismo, doutrina defendida por Miguel de Molinos (1.640-1.696), considerada herética pela Igreja Católica, que pregava a negação de toda a atividade mental, emocional e física. Só quem tenta concentrar a mente em um só ponto, por pelo menos oito segundos, ou não pensar em nada, sabe que é necessário um imenso esforço da mente, da vontade e do corpo para isso.

Vimos Einstein afirmando que o conhecimento humano é fruto de um salto da consciência para uma região desconhecida, para uma dimensão intuitiva, de onde ela retira uma tese que pode ser analisada e experimentada. Essa dimensão intuitiva é facilmente atingida por algumas pessoas, mas é duramente buscada por outras. Pode-se dizer que toda busca místico/religiosa é uma busca dessa dimensão, como passo inicial para se atingir o divino. Mas essa busca não deve demandar esforço excessivo, nem uso da vontade de uma forma autoritária, forçando a busca, sob o risco de se deparar com perturbações físicas e mentais.

 

“Não deixe a mente esquecer-se de seu trabalho, mas deixe que isso ocorra de modo natural”.

Meng-tzu (século VI a.C.)

 

Hoje em dia as pessoas estão procurando a meditação como uma forma de obtenção de saúde física e bem estar psicológico, sentimental e mental. A felicidade, como meta da humanidade, está sendo, cada vez mais, buscada no local certo: dentro de si mesmo e não nas coisas exteriores. O conselho do Cristo está sendo cada vez mais seguido: “Não ajunteis tesouros na Terra... mas ajuntei tesouros no céu” (Mt 6:19s). Para os budistas atingir o céu é chegar ao Nirvana, e o Nirvana é um estado mental. O céu está dentro da nossa mente.

Existem diferentes tipos de concentração/meditação. A devocional, presente em todas as religiões devocionais (Bhakti-yoga), consiste em concentrar-se na recitação de preces sagradas (como os Salmos bíblicos ou o terço católico, a Shahada muçulmana, ou os mantras budistas e hindus) ou na entoação de cânticos de louvor (os kirtans dos hindus). A recomendação rabínica (como de todas as outras tradições) a esse respeito é que a Shema e qualquer outra oração judia devem ser recitadas tendo-se em mente a kavanah, a intenção.

A concentração/meditação analítica usa o poder de concentração para resolver problemas racionalmente insolúveis (como nos koans da meditação Zen), contemplar e refletir sobre as verdades universais e leis espirituais (como na Jnana-yoga ou na Teosofia), ou analisar nossos pensamentos, sentimentos e atitudes (como no Pathwork de Eva Pierrakos). Há também a concentração/meditação em imagens visuais imaginadas ou visualizadas fisicamente (as visualizações criativas), a concentração/meditação na ação (Karma-yoga e Bushido), a meditação que visa à total entrega e passividade do ego, anulando-o como forma de que o Divino flua livremente e a concentração/meditação no vazio interior.

A vida interior contemplativa sempre esteve presente em todas as tradições. Na tradição judaica, a meditação é ensinada a muito poucos sendo inacessível para a maioria, segundo explica o rabino Jonathan Omer-Man, de Los Angeles. Na história da Igreja Católica ficou relegada ao segundo plano, ficando restrita à vida das freiras, monges e padres (principalmente os franciscanos, jesuítas, carmelitas e dominicanos), enquanto ao povo restou a oração devocional. Mas a oração devocional é apenas uma das práticas contida no conjunto de práticas e exercícios contemplativos. O Novo Testamento cita evidências claras de que a vida meditativa era uma regra no início do cristianismo: “compenetrado no temor do Senhor” (II Cor 5:11), “arrebatados fora dos sentidos por Deus” (II Cor 5:13)..., “arrebatado ao 3o céu..., arrebatado ao paraíso, e lá ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir” (II Cor 12:1-4).

Os “Exercícios Espirituais” de Santo Inácio de Loyola (1.491-1.556) são um exemplo de exercício meditativo cristão dividido em quatro semanas, ou séries reflexivas. São Francisco diariamente entrava na madrugada murmurando: “Meu Deus e meu Tudo”. Tomás de Kempis (1.380-1.471) já se referia a essa prática como “exercícios de piedade” (Imitação de Cristo II: 1-7), meditação ou contemplação.

Essa prática milenar está sendo reintegrada à vida cristã leiga. Desde que o monge beneditino inglês John Main (1.926-1.982) criou a célula inicial da Comunidade Mundial para a Meditação Cristã, seu atual instrutor espiritual, o monge beneditino Laurence Freeman, está divulgando pelo mundo as vantagens da vida meditativa como maneira de promover a paz.

 

“Primeiro conserva-te em paz, e depois poderás pacificar os outros. [...] Tem, pois, principalmente zelo de ti, e depois o terás, com direito, do teu próximo”.

Tomás de Kempis (IC II,3:1)

 

Para o budismo a meditação é a forma de desenvolver uma visão interior que livre o praticante de todos os condicionamentos, levando-o a ver todas as coisas na sua verdadeira natureza, sem nome, sem rótulos, sem conceitos, enfim, sem apegos. É a forma de alcançar a perfeição em vida, através da purificação e compreensão do que é Real, do que é a Verdade. Pela meditação, o homem consegue livrar-se da relatividade dos fatos e compreender a verdadeira natureza da existência, ficando livre de todas as ilusões.

OBJETIVOS

“Não podemos conhecer Deus por meio do pensamento, e sim por meio do amor. O processo de contemplação é uma experiência de amor. Meditação é amor”.

Dom Laurence Freeman

Monge beneditino

 

“Não penso, logo existo”.

Harbans Lal Arora – Ph.D. em física

 

Mais do que uma arma contra o estresse diário da vida, a meditação é uma forma de transcender a vida e a morte, manter nossa saúde física, emocional e mental, e uma forma de atingirmos a nossa utopia (a perfeição). Meditar é a única forma de interiorização que conduz ao autoconhecimento, autotransformação e auto-realização.

 “Pensar na vida!” Quantas vezes em nossa rotina diária paramos para simplesmente “pensar na vida”? O contato com o nosso íntimo é essencial, principalmente hoje em dia, como forma de nos ligar com a nossa fonte interna de paz, alegria e amor. Desde que Sigmund Freud (1.856-1.939) criou a psicoterapia pela fala, mais e mais pessoas têm procurado os divãs de psicanalistas, psicólogos e terapeutas como forma de entrar em contato com seus problemas emocionais, com as suas mais íntimas verdades, escondidas da consciência como forma de proteção. Mas esse processo de autoconhecimento psicanalítico/terapêutico ainda é superficial. É apenas a forma de desfazer os primeiros véus que nos escondem da nossa divindade, nosso Eu.

Diferentemente de nosso corpo emocional que pode sentir mais de uma emoção simultaneamente, o nosso corpo mental é incapaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo. Os pensamentos vêm um após o outro, não havendo simultaneidade deles. Assim, o primeiro passo para controlar nosso corpo mental é ocupá-lo com um único pensamento, criar o hábito de fazer tudo de forma concentrada, sem distrações, evitando o dispersar da mente. É um exercício importantíssimo e vital para que se consiga centrar a mente durante a meditação. Da mesma forma, a constante seleção de pensamentos que vêm à mente, quando “ociosa”, deve ser realizada de forma a se criar um novo e melhor hábito mental.

 

“A mente é produto do hábito e é fácil concentrá-la uma vez que o hábito esteja definitivamente estabelecido”.

Igbal Kishen Taimni

Filósofo e doutor em química

 

O objetivo final e início da verdadeira meditação ou contemplação, na linguagem das religiões, é o pangree africano, o Samadhi hindu, o Sanmai zen-budista, o êxtase contemplativo cristão (contemplação infusa), o nirvana budista, o fanan muçulmano, a superconsciência de Sri Aurobindo (1.872-1.950), a supra-consciência de Paramahansa Yogananda (1.893-1.952), a Grande Imobilidade dos taoístas, etc.. Nomes diferentes para a comunhão com o “Eu Superior”.

 

“Quando sua alegria na meditação e na comunhão for maior que qualquer outra, você terá encontrado Deus”.

Swami Sri Yukteswar (1.855-1.936)

Santo hindu

 

Para alcançar esse objetivo final, inicialmente, se faz uso de várias técnicas e caminhos possíveis. Em geral se utilizam técnicas de concentração, com repetições, orações, visualizações, diversas maneiras para se silenciar a mente de seu barulho. Essas técnicas são de utilidade para se procurar a nossa paz interior, o nosso “Eu superior” (nosso Espírito Santo), oculto sob o nosso barulho mental e emocional. Então advém a verdadeira meditação que não é a meditação consciente. A verdadeira meditação acontece quando a “casa está em ordem” e a mente silenciosa. É a mente silenciosa, e não a mente silenciada por uma prática qualquer, que experimenta a meditação.

A partir de então, com a mente livre, nenhum método utilizado tem alguma utilidade, pois todos visavam a libertação da mente. Surge o não-método, o não-agir (o wu-wei taoísta), amplamente defendido por Jiddu Krishnamurti (1.895-1.986), onde uma mente desejosa de aprender é o único requisito: a meditação no vazio. Todos os métodos antes conhecidos são empecilhos dogmáticos a serem esquecidos, pois todos eles visavam a silenciar a mente, e a mente já está silenciosa. Dá-se início a um processo totalmente individual e único que visa se transcender a individualidade e se atingir a consciência da unidade com o Cosmos e com o Nada: origem e final do Cosmos.

 

“A Eternidade e eu, um facho de união. Pequenino brilho de riso, eu me converto no próprio Oceano de Alegria”.

Paramahansa Yogananda (1.893-1.952)

Santo hindu

Extraído do livro “Yoga e as Tradições Sapienciais” de Cláudio Azevedo

 

 

Pensamento

 

O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier

 

 

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