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Dr. Iso Jorge Teixeira*
isojorge@globo.com
Cristo expulsando os
vendilhões do templo. EL GRECO. 1600
Dias atrás recebi um mail
de minha sobrinha, repassando artigo do excelente JOÃO UBALDO RIBEIRO,
intitulado "PRECISA-SE DE MATÉRIA PRIMA PARA CONSTRUIR UM PAÍS", onde
ele aponta uma série de pequenas irregularidades que a maioria comete,
acreditando ele que o povo precisaria mudar o caráter para podermos ter governantes honestos... Tem ele
razão em quase tudo o que escreveu, não obstante, o seu artigo acaba por
conduzir-nos à conclusão de que as mazelas do povo (que, aliás, não são tão
generalizadas assim, a nosso ver) justificariam a continuidade do atual Governo
brasileiro, como se todos nós fôssemos corruptos, do que discordamos. Diz ele
em determinados trechos:
“A crença geral
anterior era que Collor não servia, bem como Itamar e
Fernando Henrique. Agora dizemos que Lula não serve. E o que vier
depois de Lula também não servirá para nada. Por isso estou começando a
suspeitar que o problema não está no ladrão corrupto que foi Collor, ou na
farsa que é o Lula. O problema está em nós. Nós como POVO.
Nós como matéria prima de um país. (...)”
“Pertenço
ao país onde as "EMPRESAS PRIVADAS" são papelarias particulares
de seus empregados desonestos, que levam para casa, como se fosse correto,
folhas de papel, lápis, canetas, clipes e tudo o que possa ser útil para o
trabalho dos filhos ...e para eles mesmos. Pertenço a um país onde a gente
se sente o máximo porque conseguiu "puxar" a tevê a cabo do
vizinho, onde a gente
frauda a declaração de imposto de renda para não pagar ou pagar menos
impostos. (...)”
Há
um aspecto neste último trecho que gostaríamos de aprofundar, do ponto de vista
espiritual... Obviamente, a classe-média, à qual pertencemos, sente-se
INJUSTIÇADA em pagar Imposta de Renda, sendo assalariada e, diga-se de
passagem, com baixos salários; entretanto, é nosso DEVER, como é DEVER das
classes mais bem aquinhoadas pagar o que deve à Receita Federal...
A propósito, em maio de 2002 foi
publicado artigo nosso no Jornal O SEMEADOR (Órgão da FEESP), com o título “A ‘Mordida do leão’, o vil metal e a morte física de JESUS – Seria JESUS
o ‘Cordeiro de DEUS’?” (O SEMEADOR, N.º 784, ANÁLISE, ÚLTIMA PÁGINA, mai/02)
e o repetiremos aqui, com ligeiras modificações...
Em
breve, os brasileiros deverão cumprir seu dever através da sua Declaração do Imposto de Renda. Para
muitos, essa é uma obrigação intolerável, pois não aceitam dar a sua cota,
compulsória, de contribuição ; ou porque há uma corrupção generalizada em
vários setores do Estado - como é de domínio público -, ou porque são pessoas
materialistas.
À
época de JESUS, o CRISTO, também havia conceito semelhante dos judeus em
relação aos impostos cobrados pelo império Romano. Assim, os publicanos eram os cobradores
de impostos e eram vistos pelos judeus como pessoas de má-índole,
pois a posição daqueles propiciava a extorsão; tanto é assim que a palavra publicano
tornou-se pejorativa, assim como a palavra tratante, com o mesmo
significado. Então, é importante que conheçamos exatamente quem eram os publicanos
para entendermos bem muitas passagens bíblicas e KARDEC nos oferece
didaticamente esse entendimento ao qual remetemos o leitor (ALLAN KARDEC. O Evangelho segundo o
Espiritismo. Introdução. III. Notícias históricas, LAKE, 27
ed.,1985, São Paulo, p. 28).
Jesus ante os publicanos, escribas e fariseus
Logo
no início do seu ministério, JESUS desagradou muito os judeus ao convocar
MATEUS, O PUBLICANO para ser um dos seus doze apóstolos (cf. Mt 10,3). A Bíblia
faz outras referências aos publicanos que provocaram reações dos judeus, vejamo-las:
1- Conversão de ZAQUEU. JESUS foi à casa do maioral (não em estatura, pois
era de baixa estatura) dos publicanos – ZAQUEU, que era rico (cf. Lc 19,2) e este
se converteu à Boa Nova, dizendo:
"Senhor, eis que dou a metade de meus bens aos
pobres, e se defraudei a alguém restituo-lhe o quádruplo". A propósito, a lei judaica só previa restituição
ao quádruplo para o roubo de ovelhas (Ex 21,37), já a lei romana para todos os furtos manifestos. Assim, ZAQUEU
ampliou para si mesmo todos os prejuízos que porventura tenha causado. JESUS,
então, respondeu-lhe que "(...) ele
– ZAQUEU, um publicano – também é um filho de ABRAÃO" (cf. Lc 19,9), isto é,
nenhuma profissão, por mais desprezada que seja, é incompatível com a
"salvação".
2- Amor aos
inimigos. Mostrando a hipocrisia dos judeus, que tanto
enfatizavam a letra da Lei de MOISÉS e que desprezavam os publicanos, JESUS propôs que
se amasse os inimigos: "Com efeito, amar os
que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem também os publicanos a mesma
coisa? " (Mt 5,46).
Portanto, JESUS mostrou que, espiritualmente,
os judeus não tinham base moral para desprezar os publicanos.
3- Reforma moral. JESUS foi criticado por hospedar-se na casa de
ZAQUEU, um publicano (Lc 19,7),
foi criticado por comer com os publicanos (Mt 9,10-11;Mc 2,15-16;Lc 3,30 e cf.
Lc 15,2), porém, respondendo aos fariseus a esse respeito, disse JESUS:
"Ide, pois, e
aprendei o que significa:
Misericórdia é que eu quero, e não sacrifício! Com efeito, eu não vim
chamar justos, mas pecadores" (Mt 9,13) e aos escribas e fariseus JESUS propôs a parábola da ovelha perdida
(Mt 18,12-14;Lc 15,4-7).
Enfim, JESUS preferia os sentimentos íntimos de um coração sincero e não a
prática exterior dos fariseus. Novamente aqui fica claro, com o conhecimento
que temos da Doutrina dos Espíritos, que símbolos materiais, sacrifícios e
outros atos exteriores não elevam ninguém espiritualmente e sim a reforma moral.
4- O Homem e suas obras. Julgando a sua geração,
JESUS criticou aqueles que não o entendiam e aos que não entenderam JOÃO
BATISTA, pois diziam que JOÃO BATISTA não comia nem bebia e JESUS seria "um glutão
e beberrão, amigo
dos publicanos e pecadores" (cf. Mt 11,19; Lc 7,34) e
mostrou na parábola do fariseu e o publicano o contraste de
atitudes, em que ambos oram, mas na prece do fariseu este se exalta a si mesmo
e na do publicano não, então JESUS conclui a parábola: "Pois todo
aquele que se
exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado"
(Lc 18,14 "in fine").
Para JESUS "a
Sabedoria foi justificada
pelas suas obras" (Mt 11,19 "in
fine"; Lc 7,35), ou seja, não é um comportamento alimentar, material, que
engrandece o homem e sim as suas obras.
Como se vê, a atitude de JESUS foi severa com os fariseus
e escribas, mostrando que os publicanos
tão severamente criticados pelos judeus estariam em melhores condições
espirituais que estes. Além disso, nas sete maldições contra os escribas e fariseus (Mt
23,13-32), principalmente a terceira maldição (Mt 23,16-22), JESUS fez
corajosas e ácidas críticas aos
escribas e fariseus
e também contra
os legistas (Lc 11,46); tais
críticas foram contra, principalmente, a hipocrisia, a vaidade e o apego deles
aos bens
materiais, ao vil metal...
Talvez,
por isso os judeus tenham tramado contra JESUS, desejando apanhá-lo pela
palavra, perguntando-lhe se era lícito pagar imposto a CÉSAR, ou não (cf. Mt
22,17;Mc 12,14 "in fine"; Lc 20,22). Esta pergunta, além de total
incompreensão da mensagem espiritual trazida por JESUS, demonstrada pelos
fariseus, levou-os a odiá-lo ainda mais, pois a resposta de JESUS foi: "Devolvei, pois, o
que é de CÉSAR a CÉSAR, e o que é de Deus a Deus" (Mt 22,21;Mc 12,17;Lc 20,25).
5- O amigo dos
publicanos e pecadores. JESUS ensinou como se deve corrigir fraternalmente aquele que erra, espiritualmente...
Só admitia que uma pessoa fosse tratada como "impura" - como os
judeus tratavam os publicanos -, após
uma série de tentativas frustradas (cf. Mt 18,15-17). Para JESUS, por pior que
seja uma pessoa, DEUS não o desampara, por isso disse: "Assim também, não é
da vontade do vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se
perca" (Mt 18,14).
Na parábola dos dois filhos (Mt 21,28-32) JESUS volta a
criticar a fé
sem obras, enfatiza a reforma íntima
- pois muitos publicanos
e prostitutas reconsideraram
a sua vida dissoluta, acreditando na mensagem de JOÃO BATISTA - e chegou a
dizer aos judeus:
"Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas estão vos
precedendo no reino de Deus" (Mt 21,31 "in fine").
De fato, o Evangelho faz referência ao batismo dos publicanos por JOÃO BATISTA - e a única
coisa que este lhes prescrevia é que não extorquissem (cf. Lc 3,13) - assinalando
a conversão deles (cf. Lc 7,29); já os "fariseus e os legistas" não
quiseram ser batizados por JOÃO (Lc 7,30).
JESUS foi amigo dos publicanos e pecadores e os
"fariseus e legistas" cada vez mais se insurgiram contra ele...
6-
Misericórdia Divina para os que se arrependem. Finalmente,
o Evangelho faz referência à aproximação de publicanos
e pecadores para ouvirem JESUS (Lc 15,1) e este conta-lhes três
parábolas (A ovelha perdida; A dracma perdida e O "filho pródigo"),
voltando a enfatizar a Misericórdia Divina para aqueles que erram, mas que se
arrependem e modificam-se
intimamente. Os fariseus e os escribas, porém, murmuraram a sua
reprovação: "Esse homem recebe os pecadores e come
com eles!” (Lc 15,2; cf. Mt 9,11).
JESUS É "O CORDEIRO DE DEUS ?" - EPÍLOGO
É
indubitável que o tratamento dado por JESUS aos publicanos só fez crescer o ódio dos judeus, pois estes eram
extremamente apegados aos bens materiais...
JESUS expulsou os vendilhões do
Templo (Mt 21,12; Mc 11,15; Lc 19,45; Jo
2,15) – este episódio é descrito por todos
os evangelistas – e essa atitude, parece-nos, foi a gota d 'água para que os
judeus resolvessem tramar a sua morte física e, para capturá-lo utilizaram o
vil metal: pagaram a JUDAS ISCARIOTES não 30 dinheiros (ou 30 denários como se afirma freqüentemente),
e sim, 30 siclos de prata, isto é, o
preço que a Lei de MOISÉS fixava pela vida de um escravo, um servo que tenha sido morto (cf. Ex
21,32), ou seja, 30 siclos de prata não era uma quantia tão irrisória assim e a
captura de JESUS não teria sido tão fácil quanto se faz supor, como seria a
captura de um cordeiro...
A ADORAÇÃO DO
CORDEIRO. Parte inferior do políptico O CORDEIRO MÍSTICO. HUBERT e JAN VAN EYCK. 1425-1429. Catedral de São Bavo, Gand, Bélgica.

Muitos
religiosos consideram JESUS como DEUS. Não discutiremos aqui esse aspecto, até
porque o Espiritismo não se propõe a fazer proselitismo; no entanto, não
podemos calar sabendo que pessoas que se dizem espíritas, coloquem JESUS como
se fosse DEUS e, pior do que isso, chegam a repetir - como algumas seitas religiosas - que JESUS foi o "Cordeiro de DEUS". Ora, grande parte
da Doutrina de JESUS foi – como vimos – uma crítica veemente ao materialismo,
aos negócios com
coisas divinas e os sacrifícios a IAHWEH era uma prática comum dos judeus...
Hoje, admitir-se um sacrifício de uma vida humana em homenagem a DEUS, além de
ranço do judaísmo antigo, significa um misticismo religioso que é contrário à
Doutrina dos Espíritos e até superstição,
pois a razão repudia
que um sacrifício humano possa salvar alguém espiritualmente. Vejamos:
A Cristologia de JOÃO, o evangelista, admitia que JESUS
era um "servo" que carrega o
pecado dos homens (Is 53) e se oferece como "cordeiro de
expiação" (Lv 14) e o rito do cordeiro pascal
(Ex 12,1-14); assim, o Conselho dos chefes dos sacerdotes judeus e fariseus
reuniram-se para decidir o que fazer com JESUS e um trecho do Evangelho de JOÃO
assim o descreve:
"(...) Um deles, porém, Caifás, que era Sumo
Sacerdote naquele ano, disse-lhes: 'Vós
de nada entendeis. Não compreendeis que é de vosso interesse que um só homem
morra pelo povo e não pereça a nação toda?' Não dizia isso por si mesmo, mas
sendo Sumo Sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus iria morrer pela nação –
e não só pela nação, mas também
para congregar na
unidade todos os filhos de Deus
dispersos" (Jo
11,49-52).
Lembrando que a atuação fundamental do Sumo Sacerdote dos
judeus era o controle do altar dos sacrifícios; ele ,CAIFÁS, propôs que JESUS fosse
morto para "salvar" o povo judeu, isto é, dever-se-ia cumprir a Lei
(Lv 14 e Ex 12,1-14) e assim resolveriam o perigo que JESUS representava para
seus negócios, matando assim dois coelhos (e não dois cordeiros) de uma só
cajadada...
Hoje, órgãos espíritas denominam JESUS como
"Salvador", "Cordeiro de DEUS", etc... Ou seja, não
entenderam ou fingem não entender o exemplo de JESUS. Acreditamos que a
principal razão da morte física de JESUS foi econômico-financeira e não
ideológico-religiosa.
Vemos hoje pessoas que se dizem espíritas, praticarem uma
série de comportamentos exteriores de
fé, atuando exatamente como os antigos fariseus... Quando se fala em Imposto de Renda com
elas, utilizam uma série de subterfúgios para não pagarem o seu imposto que
seria devido; uns, por exemplo, até utilizavam contribuições a entidades
filantrópicas inexistentes, para aumentar a mais
– valia, isto é, o seu capital ou de sua Empresa. Há até Editoras
de Livros espíritas que não pagam direitos autorais aos autores dos livros,
alegando falta de capital ou filantropia, são o que o ilustre colunista CIÇO DI NIRO,
inteligentemente, denominou "miserabilidades" (jornal espírita, Coluna "Causos" Espíritas”,
fev./2002, p. 5)...
Somente a Doutrina dos Espíritos veio demonstrar, por
fatos patentes, que os bens materiais são perecíveis e que o mais importante no
homem é a conquista dos bens espirituais. Por isso, o Espiritismo é o CONSOLADOR
que JESUS prometeu pedir ao Pai que nos enviasse.
Certamente, a "mordida do leão" dói,
principalmente na classe média – a mais mordida -; no entanto, não devemos
reclamar de restituir a CÉSAR o que é de CÉSAR e, principalmente, nunca nos
esquecermos de restituir a DEUS o que é
de DEUS. Devemos
seguir o exemplo de JESUS?! Então!!
* Médico.
Psiquiatra. Prof. Livre - Docente de Psicopatologia e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro (UERJ).
Coordenador do Curso de Especialização em Psiquiatria (FCM - UERJ).
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