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Apometria: Nem Problema Nem Solução

 

 

Dr. Ricardo Di Bernardi*

 

            Herculano Pires, saudoso estudioso da nossa doutrina, já nos ensinava que a postura do espírita consciente deve ser tão ousada quanto prudente.  Nem nos maravilharmos  com as luzes feéricas das novidades, nem escondermos nossas cabeças tal qual avestruzes que se protegem  do desconhecido deixando-se ridiculamente descobertos.

            Kardec, que nos ensinava ser preferível rejeitar noventa e nove verdades do que aceitar uma só mentira, também nos dizia que ,  se  a ciência demonstrasse estar o espiritismo errado em um ponto, ele se modificaria neste ponto.

            Inúmeros  grupos , ou entidades espíritas começam a se interessar pela apometria, técnica de trabalho anímico-mediúnica na qual os médiuns, ou sensitivos, se desdobram  conscientemente, participando de maneira ativa no encaminhamento das entidades espirituais  enfermas. A apometria se apresenta como técnica moderna que une avançados métodos de intercâmbio com o plano extrafísico. Sua utilização  torna a sessão mediúnica  de desobsessão dinâmica, ao invés da passividade  sonolenta  tradicionalmente observada em determinados grupos.

            No entanto, a dificuldade que vem se observando  na utilização  da apometria, não se refere à técnica em si, mas à utilização equivocada, precipitada, radical, sem embasamento  filosófico e, o que é mais preocupante , pouco fraterna no trato com os desencarnados.

            Somos inteiramente favoráveis  a correta utilização do método apométrico, desde que, alicerçado  nas sólidas bases kardequianas, sem prejuízo do conteúdo  ético-moral e, sobretudo, do trato afetivo com as entidades desencarnadas . Nada há de misterioso nas técnicas desenvolvidas pelo Dr. Lacerda, de Porto Alegre, e tão bem divulgadas pelo Dr. Victor Ronaldo Costa, de Brasília, em proveitosos seminários e cursos que didaticamente efetua. Vale aqui , uma especial recomendação.

            Freqüentemente, nos deparamos com certas polêmicas e queixas de velhos amigos, trabalhadores  da doutrina espírita . Uma delas se expressa assim: “Muitos entusiastas da apometria abandonaram  a casa espírita de origem  e organizaram entidades próprias ” . Bem, desde há 30 anos atrás , quando iniciei  a estudar  seriamente  a doutrina espírita , quase todos os centros espíritas  recém-fundados surgiram de cisões em casas anteriores. É preciso que admitamos : nós espíritas não somos (infelizmente) melhores do que ninguém. A Doutrina Espírita , esta sim , é que é melhor. Inúmeras casas surgiram  por discordância de métodos de trabalho, o que, na realidade , é lamentável. Não há problema importante com os métodos, mas com as pessoas. Trata-se de nosso orgulho pessoal, vaidade, intolerância  ( e outros adjetivos menos honrosos) dos quais nós, trabalhadores da seara espírita , ainda não conseguimos nos libertar totalmente, sejamos adeptos ou não , da apometria.                  

              A resistência em estudar e o imobilismo de determinados dirigentes acabam gerando o afastamento de médiuns que interpretam, erroneamente, a postura do dirigente como se fosse a postura do espiritismo.

Acabam, então, se desvinculando do movimento espírita.

            Por que, ao invés de se exorcizar  novos conhecimentos não os estudamos profundamente ? Por que não apoiamos os irmãos  interessados no trabalho ?  É verdade que seria imprudente nos precipitar na adoção, pura e simples, de qualquer técnica revolucionária ou infalível. Se a apometria mal utilizada é desastrosa, o mesmo podemos afirmar da mediunidade convencional erroneamente praticada. Nem a mediunidade nem a apometria  são positivas ou negativas: ambas são neutras. Argumentos tais como:  “Depois que  se iniciou a apometria neste centro  muitos problemas surgiram ...”  são tão inconsistentes como: “Depois que passou a se envolver com mediunidade necessitou de internação hospitalar em casa de saúde mental ...” todos nós sabemos que é o mal uso das faculdades ou a ignorância acerca do espiritismo que levam a estes problemas. 

            A falta de apoio recebido, bem como a deficiência no estudo  por parte dos envolvidos , aliada a embriaguez pela ofuscante novidade, tem levado muitos grupos espíritas que utilizam a apometria à distorções que poderiam ser facilmente evitáveis. Com todo respeito aos nossos  “primos “ umbandistas, que executam trabalho sério e útil, faz-se necessário definir algumas fronteiras que devem ser tão nítidas quanto fraternas. Não há porque criarmos  grupos de umbanda técnico-científica nas casas espíritas. Ao invés do clássico e necessário “ DIÁLOGO COM AS SOMBRAS “ tão preconizado  por Hermínio de Miranda, passamos a ouvir o contínuo estalar de dedos seguido de verdadeiras expulsões  dos espíritos obsessores ou simplesmente sofredores.  O diálogo construtivo e fraterno passou a ser considerado peça de museu. Ao invés de amor e filosofia,  muita sonoridade e gesticulação espalhafatosa , sob o argumento de que  som serve de veículo para a energia. Então, bater palmas e gritar alto seriam tão úteis quanto mais  ruidosos forem... Naturalmente, o impacto energético seria cada vez mais produtivo quanto mais escandalosa  for a sessão ...    É necessário que acordemos para que logo não estejamos admitindo outras atitudes materiais e periféricas  totalmente incompatíveis com nossa filosofia. O trabalho espiritual é , acima de tudo, mental. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra: equilíbrio...

            Desde a época pré-histórica que hábeis feiticeiros removem obsessores de forma rápida utilizando métodos tão eficazes quanto grosseiros. Em pleno século XX assim  como não se concebe rejeitar preconceituosamente novos conhecimentos, da mesma forma não se admite a paixão pelas formas dos frascos coloridos da exteriorização  sensorial em detrimento da essência filosófica .

            Técnicas  apométricas que possibilitam a remoção  rápida e objetiva dos “aparelhos parasitas “ instalados pelos obsessores no perispírito do obsediado, devem ser assimiladas por todos nós, interessados no progresso de nossos trabalhos. 

            No entanto, um equívoco freqüentemente observado em alguns grupos que utilizam  a apometria, é o esquecimento do apoio ao obsedido após a remoção dos aparelhos s parasitas instalados . É  indispensável o esclarecimento pelo estudo e a promoção da reforma íntima da pretensa vítima qual não se modificando, logo atrairá  novos ovbsessores.

            Obsessores  retirados do campo mental do obsediado “a forciori “  e enviado a “outros planetas “ ou a estranhos locais ou dimensões extrafísicas, talvez merecessem uma atenção mais  adequada .

                        A ausência de diálogo com espíritos enfermos, em certos casos, apenas determinará a mudança de endereço  dos obsessores, bem como a admissão de novos inquilinos na casa mental desocupada  do obsediado.

                        Se está na hora  de modernizarmos  as sonolentas sessões , onde chega-se a dormir literalmente, imaginando ingenuamente estar se cedendo ectoplasma ou trabalhando  em desdobramento inconsciente  o que eventualmente até ocorre) , também está na hora de não exagerarmos na postura inversa. Faz-se  necessário recolocarmos a filosofia espírita, o amor e a seriedade nos trabalhos mediúnicos  e não umbandizarmos  a doutrina espírita nem brincarmos irresponsavelmente com animadas técnicas.

Na matemática do trabalho é preciso somar a nova técnica sem subtrair conceitos filosóficos básicos evitando divisões desnecessárias para multiplicar os resultados na tabuada  do amor.  

           

 *Dr. Ricardo Di Bernardi é presidente da AME - SC e colaborador do IPEPE   

 

 

 

 

 

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