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Vinícius Lousada
“(...)Sede alegres, sede felizes, mas da alegria que dá uma boa
consciência, da felicidade do herdeiro do céu contando os dias que o aproximam
de sua herança. (...)” [1]
Era Domingo, eu estava sentado no banco de uma praça em
Porto Alegre, aproveitando o sol e o ambiente verde procurando ler um livro.
Enquanto dividia a atenção entre o meu chimarrão e a leitura, tentando me
concentrar para compreender o texto.
De repente, fui interrompido pelo som ritmado de um tambor.
Tratavam-se de dois artistas populares que se identificaram como alegres
palhaços e convidavam as pessoas que passavam por ali para assistir o seu show.
Foi impossível continuar lendo, sentou-se ao meu lado uma
família com os olhos e falas voltados a apresentação artística, e não demorou
muito para ajuntar-se em torno dos jovens artistas um aglomerado de adultos e
crianças. Como sou gente, não pude resistir, larguei a leitura e comecei a
prestar atenção naquele espetáculo popular; e o melhor de tudo: gratuito!
Eles eram artistas pobres, magros, com roupas surradas e
portadores de um maravilhoso senso de humor, notadamente representado na
alegria que expressavam.
Na medida em que acontecia o espetáculo na praça, passei a
refletir o quanto artistas desse gênero são desvalorizados na nossa sociedade de consumo, o tanto que a
boa arte, motivadora da alegria, é desconsiderada nos dias de hoje. É um
verdadeiro disparate este desvalor, se considerarmos o benefício da alegria
ocasionada a aqueles que também tem seus desafios diários e que no instante de
lazer se felicitavam no trabalho humorístico de rua.
Com base nas anotações de Boaventura de Sousa Santos,
verificamos que no paradigma da modernidade – ainda hegemônico em nosso
cotidiano – só tem relevância o que pode ser quantificado, medido e
classificado; quer dizer, o objeto que pode ser sistematicamente matematizado é
o que tem valor. Caso observemos nossa sociedade ocidental, arraigada aos
valores do materialismo, notaremos que só merece consideração aquilo que gera
lucro, que tenha utilidade prática na lógica do capital, deixando-se em plano
inferior tudo o que tenha uma contribuição no campo da ética, da solidariedade,
da felicidade ou espiritualização da criatura humana.
A alegria não tem sentido aos que se deixam contaminar por
um enfoque desesperançoso da existência, entregando-se à fruição de uma rotina
infernal em que se prestam a destacar os dissabores valorizando o mal em suas
conversações, esquecidos de que vivem de anotar as benesses com as quais a Providencia Divina diariamente lhes felicita.
Para os que se conduzem na via materialista a
alegria é confundida com as posses. Crêem que quanto mais possuírem, mais terão
motivos de alegria, colocando equivocadamente seus objetivos na obtenção dos
supérfluos, que não raras vezes queimam toda a oportunidade de alegria real,
àquela gerada pela conquista dos valores do espírito, resultante das ações
enobrecidas no campo da doação desinteressada de si mesmo ou do convívio
fraterno com aqueles que laboram na bendita seara da caridade.
Muitas criaturas reencarnadas na Terra, cooptadas pelo consumismo chegam a explorar seu
próximo, encastelando-se – às custas do sofrimento alheio – em fortunas pelas
quais passam a ser possuídos, pela falta de liberdade e problemáticas variadas
que estas geram.
Outros, enlouquecidos pelo poder que lograram atingir por
uma gama variada de fatores, lícitos ou não, julgam-se indestrutíveis e dignos
de serem obedecidos cegamente, obstando a liberdade de pensar do próximo,
fazendo-se ditadores tanto no âmbito doméstico, como também, na dominação que
infligem certas nações sobre outras, tendo como sustentáculo seu poderio
econômico e bélico. Porém, ignoram que no país
da imortalidade todos estaremos destituídos dessa autoridade
transitória, enfrentando o tribunal da própria consciência, em processo de
reeducação promovido pela Lei Natural.
Grande soma de Espíritos, manifestando cinzenta alegria,
consomem as energias psicofísicas na sensualidade, promovendo a desumanização
de si mesmos ao se entregarem às formas mais perturbadoras da sexualidade mal
conduzida, conectando-se às entidades sombrias que se locupletam com as
atitudes lascivas desses incautos.
A drogadição, permitida ou proibida por lei, mas consentida
socialmente, conduz à euforia muita gente para logo mais estender largo rio de
lágrimas dos que por ela são dominados e enfermados na dependência química que
promove, levando-os aos quadros de triste alienação mental e obsessão voraz.
Até mesmo no meio religioso há confusão quanto o que seja
realmente alegria. Relaciona-se pureza de sentimento a um aspecto
comportamental fúnebre, como se seriedade fosse sinônimo de sisudez ou mutismo.
Por outro lado, às vezes se promove um verdadeiro carnaval nas atividades religiosas, descaracterizando-as, trazendo
a agitação do mundo para seu âmbito, promovendo afetação dos sentidos e
transformando-a em manifestação exterior; quando a experiência religiosa
deveria ser atividade de foro íntimo, materializada no exercício diário da
caridade.
Não é pecado ser alegre, ninguém se vincula aos Espíritos
inferiores porque sorri ou procura fazer a alegria dos que o rodeiam, muito
pelo contrário. Mas precisamos re-significar a alegria, pautando-nos nos
ensinos luminosos do Espiritismo.
Cada um de nós necessita desenvolver, compenetrados da lógica reencarnacionista, a alegria real dentro de nossas características
individuais ou gostos pessoais.
Contudo, é preciso lembrar que o estado de alegria duradoura
que podemos almejar, se apostamos em nossa evolução espiritual, resultará da
efetivação do amor sem escravização em nossas relações familiares; será fruto
do cultivo dos laços de amizade sem interesses mesquinhos, do conhecimento
utilizado para o progresso individual ou coletivo e, por fim, quando nossos
sentimentos estiverem sublimados.
A alegria também
poderá ser gerada pelo trabalho com o qual conquistamos honestamente nossa
subsistência, pela nossa vivência cristã no mundo e, da mesma forma, mediante
nossos lazeres, sem que nos contaminemos pelos equívocos consagrados na sociedade materialista.
Espíritas, temos todos os motivos do mundo para sermos
felizes! Façamos o melhor possível em nossa estada terrena e, inspirados no
Mestre Jesus valorizemos o bem espalhando as boas novas de alegria por onde passarmos.
O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. XVII,
item 10.
Santos, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre
as ciências. 8. Ed. Edições Afrontamento. Portugal: Porto, 1996; p.15.
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