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Allan Kardec e a Diferença entre Princípio e Fluido

 

Raimundo Wilson S. D. Morais

  

“No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.” (Gênesis I, 1-2)[1]

 

“No momento da origem (no começo, no início), o ser e princípio supremo (infinito, eterno, perfeito, criador do universo) deu existência (tirou do nada, gerou, deu origem, formou, produziu) os espaços ilimitados e indefinidos (o infinito, o firmamento, o ar, a atmosfera) e o planeta (a Terra, o solo, a parte sólida). O planeta estava sem forma determinada (sem feitio, era grosseiro, tosco) e não continha nada (ou só continha ar, estava desocupado); a escuridão absoluta tapava a abertura (o precipício, o despenhadeiro, o caos, a imensidão), e o Espírito de Deus voava (sustentava-se, dominava e movia-se no alto), sobre a parte líquida.” Com essas palavras – e com muitas outras – é que normalmente fazemos a leitura dos dois versículos com que se inicia o Velho Testamento, em seu primeiro livro, Gênesis (termo que, na língua portuguesa, aceita a substituição por geração, formação, constituição, origem, desenvolvimento gradual).[2]

Essa riqueza de expressões do nosso idioma deve servir de alerta a todos nós. Pensemos duas vezes antes de nos fixarmos na parte formal das palavras que utilizamos, esquecendo da essência delas. Quanto mais longe no tempo essas palavras estiverem, maior deve ser o cuidado. A linguagem é retrato de uma época. Logo, é difícil saber se as palavras que usamos hoje traduzem o real significado da época em que foram escritas. E é provável que quem as escreveu, há cem anos ou mais, já não possa vir até nós para confirmar ou desmentir, não é? Por isso existe a necessidade da releitura (aqui, no sentido de uma segunda leitura).

Da primeira vez que lemos um texto, é natural que nossa compreensão se dê através da absorção dos significados mais próximos do nosso cotidiano. Daí a vantagem de uma leitura dinâmica para “devorar” a quantidade imensa de informações das quais temos necessidade imediata. O processo que utilizamos é, neste caso, o de evitar mais de uma leitura: ganha-se em rapidez, perde-se em conteúdo. Um processo válido... para material descartável, ou seja, que não implica reflexão.

            Esqueçamos a leitura dos versículos iniciais da Bíblia: eles serviram apenas para ilustrar que são infinitas as maneiras de interpretar duas ou três afirmações simples. Viajemos para o século XXI: são muitos os que se queixam da dificuldade que enfrentam para entender Kardec, e, mais especificamente, para compreender o que é princípio vital, princípio material, fluido cósmico, fluido universal, etc. A dificuldade encontrada na primeira leitura de Kardec talvez se dissipasse nas leituras seguintes.

A obra de Kardec não admite leitura dinâmica, pela simples razão de não ser material descartável... pelo menos para nós, que nos dizemos espíritas. A melhor compreensão de Kardec passa por sucessivas leituras que fizermos de “O Livro dos Espíritos”, e nenhuma delas será igual à anterior... nem será inútil...

            A justificativa de autor “difícil”, usada para classificar Kardec, seguramente não procede: na “Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita”[3], o trabalho do codificador do espiritismo em nada se diferencia dos trabalhos acadêmicos de hoje, em nossas universidades. Ali (na “Introdução...”) e em “O Livro dos Médiuns” estão uma apresentação do tema e dos conceitos que serão utilizados, a justificativa, a definição precisa do objetivo e do método utilizado para a apuração de resultados, junto com alguns testes de hipóteses.

Num trabalho acadêmico, é fundamental a leitura da apresentação, introdução, preliminares, justificativas, conceituações, etc., etc., pois não se começa uma tese pela conclusão; o mesmo se deve exigir para compreender Kardec. Logo, leiamos “O Livro dos Espíritos” a partir da “Introdução...” Digamos que é uma questão de método...

            Quanto às dificuldades mais apontadas a respeito do conhecimento sobre princípios e fluidos, lembremos que, na língua portuguesa, o termo princípio nos remete a vários significados[4] que vão além de começo, início, ponto de partida, ato de principiar, do momento ou local ou trecho em que algo (ou uma coisa) tem origem.

Da palavra princípio, alguns significados nos interessam mais de perto: causa primária ou fonte primária ou básica de matéria ou energia; preceito, regra, lei; base; em Filosofia, origem de algo, de uma ação ou de um conhecimento, aquilo do qual alguma coisa procede na ordem do conhecimento ou da existência; característica determinante; em Lógica, na dedução, a proposição que lhe serve de base, ainda que de modo provisório, e cuja verdade não é questionada. Enfim, princípio pode significar lei, doutrina ou acepção fundamental.

            E com relação a fluido, as dificuldades começam pela pronúncia. Nove entre dez iniciantes na Doutrina trocarão o substantivo/adjetivo pelo particípio: afinal, perguntarão, trata-se de substantivo, adjetivo ou particípio? Hiato ou ditongo?

Vários significados de fluido, enquanto substantivo masculino, no singular, estão relacionados aos conhecimentos obtidos nas áreas da Física, Química, Biologia, Citologia[5]. No plural, fluidos, abre um espaço para o ocultismo: suposta influência ou força misteriosa que emanaria dos astros, dos seres e das coisas, e que explicaria formas de energia aparentemente inexplicáveis.

Enquanto adjetivo, para simplificar, fluido implica noções de: fluente, que corre como um líquido; moléculas com pouca adesão entre si; substâncias líquidas ou gasosas. E ainda como adjetivo, fluídico, os dicionários fazem uma tentativa de abordagem “espírita”: “Diz-se de certos corpos ou sombras, impalpáveis, mas reproduzíveis em fotografia.”; “Diz-se, em espiritismo, de certos corpos ou sombras, impalpáveis, mas que a fotografia reproduz.” Fig.  Impalpável, intangível.[6]

Convém refletir sobre a simplória “abordagem espírita” que os dicionários fazem. Allan Kardec era um homem letrado, atualizado com o pensamento científico do século XIX. É lícito pensarmos que não lhe eram estranhos alguns conceitos do substantivo fluido que ainda hoje são aceitos: nome genérico de qualquer líquido ou gás; qualquer das substâncias hipotéticas às quais outrora eram atribuídos o calor, a eletricidade e o magnetismo. Fluido magnético: a) fluido hipotético a cuja presença era outrora atribuída a causa dos fenômenos magnéticos; b) mistura de ferro finamente dividido com óleo ou outro líquido apropriado.

Kardec escreveu sua obra bem depois da teoria de Franz Anton Mesmer e das pesquisas do Marquês de Puységur. Se se preocupou tanto em conceituar espiritismo, espírita, espiritista, alma, princípio vital, etc., certamente que o termo fluido não foi escolhido senão porque refletia exatamente o conceito que queria passar, dentro do conhecimento já acumulado àquela época. Não é de se estranhar que a profusão de significados aplicados hoje ao termo fluido dê origem a muitas dúvidas.

Se, mesmo com sucessivas leituras de Kardec, persistirem as dificuldades de entendimento a respeito de princípios e fluidos, uma boa fonte de consulta está no estudo feito pelo confrade Jacob Luiz de Melo, de Natal – RN,[7]  relacionando os dois termos e respectivas utilizações em “O Livro dos Espíritos” (LE) e em “A Gênese” (G).

Do processo de criação divina que Kardec descreve (LE:79, LE:536-b) surgem matéria e espírito (LE:27), ou seja, o Princípio Material ou Fluido Universal (LE:22-a, LE:27-a, G-XIV:5) e o Princípio Inteligente Universal ou Princípio Espiritual (LE:23, G-XI:1/2/6/7). Esses dois princípios são independentes, mas reagem incessantemente um sobre o outro (LE:71, LE:86). O primeiro engendra o Fluido Cósmico (LE:33, LE:94, G-VI:17, G-XIV:2/3) e do segundo sai o Princípio Inteligente que constitui a espécie particular de alma dos animais (LE:606-Ver também:589/597/597-a).

A alma não tem, no corpo, uma sede determinada e circunscrita (LE:146) e os que a situam naquilo que consideram como centro de vitalidade, na verdade a confundem com o fluido ou princípio vital (LE:146-a). O espírito e a matéria são dois elementos constitutivos do universo, e o princípio vital é um dos elementos necessários, mas tem sua fonte nas modificações da matéria universal (LE:64).

O princípio vital tem como fonte o fluido universal; é o que chamamos fluido magnético ou fluido elétrico animalizado. É o intermediário, o liame entre o espírito e a matéria (LE:65). O princípio vital é o mesmo para todos os seres orgânicos, modificado segundo as espécies (LE:66). A inteligência não é um atributo do princípio vital (LE:71). Com todas essas citações, já dá para fazer a diferença entre princípios e fluidos? Se não, boa releitura ! E muita paz !



[1] V. Bíblia Sagrada – Tradução dos originais mediante a versão dos Monges de Maredsous (Bélgica) pelo Centro Bíblico Católico – 26a edição – Editora “Ave Maria” Ltda., São Paulo, Edição Claretiana, 1979, p. 49.

[2] V. Dicionários Aurélio e Michaelis - Português.

[3] V. O Livro dos Espíritos – LAKE, São Paulo, 60a edição, junho/1 999, pp. XXV-LI.

[4] V. Dicionários – nota de rodapé 2.

[5] Idem, ibidem.

[6] Op. cit.

[7] V. “O passe – seu estudo, suas técnicas, sua prática.” Rio de Janeiro, FEB, 7a edição, 8/1 995, pp. 53 e seguintes.

 

(*)O autor, Raimundo Wilson Santos Duarte Morais, é dirigente de Curso de Médiuns e do Centro Espírita Discípulos de Jesus, da Aliança Espírita Evangélica. Cursou a Universidade de São Paulo (graduação e licenciatura plena).

 

 

 

 

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