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Raimundo
Wilson S. D. Morais
“No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra
estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava
sobre as águas.” (Gênesis I, 1-2)
“No momento da origem (no começo,
no início), o ser e princípio supremo (infinito, eterno, perfeito, criador do
universo) deu existência (tirou do nada, gerou, deu origem, formou, produziu)
os espaços ilimitados e indefinidos (o infinito, o firmamento, o ar, a
atmosfera) e o planeta (a Terra, o solo, a parte sólida). O planeta estava sem
forma determinada (sem feitio, era grosseiro, tosco) e não continha nada (ou só
continha ar, estava desocupado); a escuridão absoluta tapava a abertura (o
precipício, o despenhadeiro, o caos, a imensidão), e o Espírito de Deus voava
(sustentava-se, dominava e movia-se no alto), sobre a parte líquida.” Com essas
palavras – e com muitas outras – é que normalmente fazemos a leitura dos dois
versículos com que se inicia o Velho Testamento, em seu primeiro livro, Gênesis
(termo que, na língua portuguesa, aceita a substituição por geração, formação,
constituição, origem, desenvolvimento gradual).
Essa riqueza de expressões do
nosso idioma deve servir de alerta a todos nós. Pensemos duas vezes antes de
nos fixarmos na parte formal das palavras que utilizamos, esquecendo da
essência delas. Quanto mais longe no tempo essas palavras estiverem, maior deve
ser o cuidado. A linguagem é retrato de uma época. Logo, é difícil saber se as
palavras que usamos hoje traduzem o real significado da época em que foram
escritas. E é provável que quem as escreveu, há cem anos ou mais, já não possa
vir até nós para confirmar ou desmentir, não é? Por isso existe a necessidade
da releitura (aqui, no sentido de uma segunda leitura).
Da primeira vez que lemos um
texto, é natural que nossa compreensão se dê através da absorção dos
significados mais próximos do nosso cotidiano. Daí a vantagem de uma leitura
dinâmica para “devorar” a quantidade imensa de informações das quais temos
necessidade imediata. O processo que utilizamos é, neste caso, o de evitar mais
de uma leitura: ganha-se em rapidez, perde-se em conteúdo. Um processo
válido... para material descartável, ou seja, que não implica reflexão.
Esqueçamos
a leitura dos versículos iniciais da Bíblia: eles serviram apenas para ilustrar
que são infinitas as maneiras de interpretar duas ou três afirmações simples.
Viajemos para o século XXI: são muitos os que se queixam da dificuldade que
enfrentam para entender Kardec, e, mais especificamente, para compreender o que
é princípio vital, princípio material, fluido cósmico, fluido universal, etc. A
dificuldade encontrada na primeira leitura de Kardec talvez se dissipasse nas
leituras seguintes.
A obra de Kardec não admite
leitura dinâmica, pela simples razão de não ser material descartável... pelo
menos para nós, que nos dizemos espíritas. A melhor compreensão de Kardec passa
por sucessivas leituras que fizermos de “O Livro dos Espíritos”, e nenhuma
delas será igual à anterior... nem será inútil...
A
justificativa de autor “difícil”, usada para classificar Kardec, seguramente
não procede: na “Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita”, o
trabalho do codificador do espiritismo em nada se diferencia dos trabalhos
acadêmicos de hoje, em nossas universidades. Ali (na “Introdução...”) e em “O
Livro dos Médiuns” estão uma apresentação do tema e dos conceitos que serão
utilizados, a justificativa, a definição precisa do objetivo e do método
utilizado para a apuração de resultados, junto com alguns testes de hipóteses.
Num trabalho acadêmico, é
fundamental a leitura da apresentação, introdução, preliminares,
justificativas, conceituações, etc., etc., pois não se começa uma tese pela
conclusão; o mesmo se deve exigir para compreender Kardec. Logo, leiamos “O
Livro dos Espíritos” a partir da “Introdução...” Digamos que é uma questão de
método...
Quanto
às dificuldades mais apontadas a respeito do conhecimento sobre princípios e
fluidos, lembremos que, na língua portuguesa, o termo princípio nos remete a vários significados
que vão além de começo, início, ponto de partida, ato de principiar, do momento
ou local ou trecho em que algo (ou uma coisa) tem origem.
Da palavra princípio, alguns significados nos interessam mais de perto: causa
primária ou fonte primária ou básica de matéria ou energia; preceito, regra,
lei; base; em Filosofia, origem de algo, de uma ação ou de um conhecimento,
aquilo do qual alguma coisa procede na ordem do conhecimento ou da existência;
característica determinante; em Lógica, na dedução, a proposição que lhe serve
de base, ainda que de modo provisório, e cuja verdade não é questionada. Enfim,
princípio pode significar lei, doutrina ou acepção fundamental.
E
com relação a fluido, as dificuldades começam pela
pronúncia. Nove entre dez iniciantes na Doutrina trocarão o
substantivo/adjetivo pelo particípio: afinal, perguntarão, trata-se de
substantivo, adjetivo ou particípio? Hiato ou ditongo?
Vários significados de fluido, enquanto substantivo masculino, no singular, estão
relacionados aos conhecimentos obtidos nas áreas da Física, Química, Biologia,
Citologia.
No plural, fluidos, abre um espaço para o ocultismo:
suposta influência ou força misteriosa que emanaria dos astros, dos seres e das
coisas, e que explicaria formas de energia aparentemente inexplicáveis.
Enquanto adjetivo, para
simplificar, fluido implica noções de: fluente, que
corre como um líquido; moléculas com pouca adesão entre si; substâncias
líquidas ou gasosas. E ainda como adjetivo, fluídico, os
dicionários fazem uma tentativa de abordagem “espírita”: “Diz-se de certos
corpos ou sombras, impalpáveis, mas reproduzíveis em fotografia.”; “Diz-se, em
espiritismo, de certos corpos ou sombras, impalpáveis, mas que a fotografia reproduz.”
Fig. Impalpável, intangível.
Convém refletir sobre a simplória
“abordagem espírita” que os dicionários fazem. Allan Kardec era um homem
letrado, atualizado com o pensamento científico do século XIX. É lícito
pensarmos que não lhe eram estranhos alguns conceitos do substantivo fluido que ainda hoje são aceitos: nome genérico de qualquer
líquido ou gás; qualquer das substâncias hipotéticas às quais outrora eram
atribuídos o calor, a eletricidade e o magnetismo. Fluido magnético: a) fluido
hipotético a cuja presença era outrora atribuída a causa dos fenômenos
magnéticos; b) mistura de ferro finamente dividido com óleo ou outro líquido
apropriado.
Kardec escreveu sua obra bem
depois da teoria de Franz Anton Mesmer e das pesquisas do Marquês de Puységur.
Se se preocupou tanto em conceituar espiritismo, espírita, espiritista, alma,
princípio vital, etc., certamente que o termo fluido não foi
escolhido senão porque refletia exatamente o conceito que queria passar, dentro
do conhecimento já acumulado àquela época. Não é de se estranhar que a profusão
de significados aplicados hoje ao termo fluido dê origem a muitas dúvidas.
Se, mesmo com sucessivas leituras
de Kardec, persistirem as dificuldades de entendimento a respeito de princípios e fluidos, uma boa fonte de consulta está
no estudo feito pelo confrade Jacob Luiz de Melo, de Natal – RN, relacionando os dois termos e respectivas
utilizações em “O Livro dos Espíritos” (LE) e em “A Gênese” (G).
Do processo de criação divina que
Kardec descreve (LE:79, LE:536-b) surgem matéria e espírito (LE:27), ou seja, o
Princípio Material ou Fluido Universal (LE:22-a, LE:27-a, G-XIV:5) e o
Princípio Inteligente Universal ou Princípio Espiritual (LE:23, G-XI:1/2/6/7).
Esses dois princípios são independentes, mas reagem incessantemente um sobre o
outro (LE:71, LE:86). O primeiro engendra o Fluido Cósmico (LE:33, LE:94,
G-VI:17, G-XIV:2/3) e do segundo sai o Princípio Inteligente que constitui a
espécie particular de alma dos animais (LE:606-Ver também:589/597/597-a).
A alma não tem, no corpo, uma sede
determinada e circunscrita (LE:146) e os que a situam naquilo que consideram
como centro de vitalidade, na verdade a confundem com o fluido ou princípio
vital (LE:146-a). O espírito e a matéria são dois elementos constitutivos do
universo, e o princípio vital é um dos elementos necessários, mas tem sua fonte
nas modificações da matéria universal (LE:64).
O princípio vital tem como fonte o
fluido universal; é o que chamamos fluido magnético ou fluido elétrico
animalizado. É o intermediário, o liame entre o espírito e a matéria (LE:65). O
princípio vital é o mesmo para todos os seres orgânicos, modificado segundo as
espécies (LE:66). A inteligência não é um atributo do princípio vital (LE:71).
Com todas essas citações, já dá para fazer a diferença entre princípios e fluidos? Se não, boa releitura ! E muita
paz !
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