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Moab José*
moab@elo.com.br
Quando menino, durante o “Sábado da Alelúia”, ficava olhando da janelna
a farra da “malhação do judas”. Eu e meus irmãos tínhamos vontade de participar,
meu pai, entretanto, não permitia. “Jesus, meus filhos – dizia -, foi a
encarnação do Amor... Se ele mandou que perdoássemos aos que nos fizessem mal, com
cereteza perdoou a Judas, também. E nós, mesmo contrariados, obedecíamos. O
tempo passou... mas a personalidade de
Judas continuou a me chamar atenção.
À época de Jesus, Judas era um nome bastante comum, tanto que um outro
discípulo do Mestre, chamava-se Judas Tadeu. Judas Scariotes – o traidor –
pertencia à classe dos “zelotas”, grupo que lutava para libertar a palestina do
julgo romano. Homem rude e de caráter arredio, passou a seguir Jesus – não se
sabe se por iniciativa própria ou se foi chamado como os outros -, assumindo a
função de tesoureiro do grupo. Uma coisa é certa: ele via em Jesus um líder, o possível
libertador do povo judeu da tirania de Roma e, sobre isso, criou expectativas
que mais tarde o frustrariam. Jesus não era o “messias” que ele esperava,
decepcionado, sentiu-se traído em seus anseios.
Ao que parece, como todo bom tesoureiro, Judas, preocupava-se em controlar ao máximo as
despesas, conforme narra a passagem em que uma mulher unge Jesus com perfume de
puro nardo, caríssimo, arracando dele o seguinte comentário: “Por que não se
vendeu este perfume por trezentos denários para dá-los aos pobres?”
Como os evangelhos foram escritos a partir dos anos 60 e 70 da era
cristã, é natural que pesasse sobre Judas – agora o traidor -, um certo
preconceito. Tanto foi assim que João, na mesma passagem, faz o seguinte
comentário: “Ele disse isso, não porque se preocupasse com os pobres, mas
porque era ladrão e , tendo a bolsa comum, roubava o que aí era colocado.”
Pedro, muito embora tenha traído o Mestre três vezes seguidas, é visto
por seus colegas de discipulado com um olhar mais generoso. Mesmo porque,
segundo Jean Yves Leloup em “Caminhos da Realização”- editora Vozes -, entre
Pedro e Judas há uma grande diferença. Enquanto Judas, embora tenha se
arrependido “se fechou nas conseqüências negativas do seu ato”, desesperou-se recorrrendo ao suicídio, “Pedro
não se fechou em seu carma” - após ter traído o Mestre, acreditou no perdão,
deu a volta por cima e seguiu adiante. Aconteceu com Judas o mesmo que nos
acontece, quando nos fixamos nos erros do passado e permanecemos apenas no
arrependimento, deixando de viver as oportunidades de renovação que o dia de hoje nos oferece.
A Páscoa já fazia parte do
calendário das festas judaicas, em comemoração à libertação da escravidão a
qual o povo israelita esteve condenado no Egito de Ramsés II. Mais tarde, em
325 d.C., no Concílio de Nicéia, a Igreja instituiu a data no calendário
cristão e que, segundo a tradição católica – que respeitamos -, celebra a ressurreição de Jesus, três dias
após a sua crucificação. Simbolicamente,
o período que conhecemos como “Quaresma”, representam os quarenta dias em que
Jesus se retirou para orar no deserto. Páscoa, vem do hebreu “pessach”, e quer
dizer passagem. Assim, para os judeus, significa a passagem pelo mar, saindo da
escravidão para a liberdade. Para a igreja católica, a ressurreiçao do Cristo é a passagem desta
para a outra vida, a vitória da vida sobre a morte.
Para o espiritismo, a ressurreição é a maior prova da imortalidade da
alma, quando Jesus, em espírito, volta e aparece aos discípulos, numa
demonstração irrecusável de que ninguém morre. É a passagem desta dimensão ilusória
da matéria, para a dimensão real do espírito. Mas também, pode ser a passagem que
nós, seres humanos, fazemos todas dias de nossas existências, superando nossos
defeitos e erros, nossas dificuldades e dores, para “ressurgirmos” mais a
frente, enriquecidos pela experiência abençoda da Vida. É Jesus que ressurge em
nós, todas as vezes que somos compassivos, generosos, indulgentes...
Incoerentemente, num dia festejamos a ressureição do Cristo, que pregou
o amor ao próximo, o esquecimento das ofensas, o perdão aos inimigos, para
depois, ainda no mesmo dia, utilizando-nos da lei do olho por olho, dente por
dente, descarregarmos toda a nossa raiva
e frustrações sobre Judas, mesmo que representado por um boneco de pano.
Dois mil anos de cristianismo e ainda não aprendemos a perdoar... Assim como Judas, muitos ainda traem o Cristo
até os dias atuais. Nos referimos àqueles que se dizem cristãos, mas estagnaram
na teoria e não praticam seus ensinamentos; aqueles que desvirtuaram o conteúdo
de sua mensagem sublime, substituindo-a pela frieza dos cultos exteriores ; aqueles que, transformados em verdadeiros
mercenários da religião, vendem terrenos no céu ou prometem a salvação em troca
de contribuições e ofertas; os que usam a religião como tranpolim para
alcançarem representação política; os que utilizam a figura do diabo para
amendrontar e extorquir dinheiro dos fiéis, construindo verdadeiros impérios, fazendo
das igrejas empresas milionárias, verdadeiros negociadores da fé, amontoando
riquezas que “as traças corroem e os ladrões roubam”.
Diante disso, as trinta moedas ganhas por Judas, pouco ou quase nada
representam...
*Publicitário, consultor de empresas e diretor do Lar “Pouso
da Esperança”
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