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Allan Kardec e o Desagravo a Mesmer

 

Raimundo Wilson S. D. Morais [1]

  

A discussão de um antigo tema, qual seja, religião versus ciência, vem tomando forma estranha e assustadora nos veículos de comunicação que se dizem espíritas. Assustadora, não porque se deva evitar a discussão do tema. Muito pelo contrário: a crítica (do ponto de vista filosófico, e não no sentido de crítica pessoal) enriquece a nossa visão a respeito de qualquer assunto. Em se tratando de ciência, indispensável se torna.

            O que assusta é a proliferação de “revestimentos” ditos científicos para explicar determinados pontos da Doutrina Espírita, mesmo que isso custe uma incoerência doutrinária. Alguns autores dessas novas teorias chegam mesmo a recusar o espiritismo em seu aspecto religioso, para facilitar suas construções argumentativas. E completam: “Espiritismo é ciência.” Seria prudente acrescentar: “Não só.”

            O mais grave de tudo isso, porém, é que existe um profundo desconhecimento das bases da Doutrina. Muitas falhas de argumentação seriam sanadas com a leitura da “Revista Espírita”, a maior fonte de consulta que Allan Kardec nos deixou, e à qual ele se referiu assim: “A Revista foi, até hoje, e não podia ser senão uma obra pessoal, visto faz parte de nossas obras doutrinárias, servindo aos anais do Espiritismo. É aí que todos os princípios novos são elaborados e postos em estudo.[1]

As palavras às quais demos destaque em negrito, no parágrafo anterior, mostram que Allan Kardec tinha a Revista na conta de obra doutrinária. Mais que isso, anais do Espiritismo, ou seja, a História do Espiritismo contada ano por ano, a publicação periódica, anual, referente aos atos e estudos que serviram de base para suas conclusões. Uma espécie de laboratório, se assim podemos dizer: ali estavam guardados os registros, cujo estudo levou à elaboração de princípios novos.

Voltemos ao tema ciência versus religião. Ciência implica sistematização, estudo ou observação e classificação, formulação de leis gerais. Dizemos, vulgarmente, que o Direito é uma ciência que cuida de normas e que um dos ramos dessa ciência, o direito constitucional, cuida do Estado. Dizemos também que a Constituição é a lei soberana e que um código é uma coleção metódica de regras, dispostas de modo ordenado. Codificação, portanto, é reunião de leis dispersas, num código.

Analogamente, ao dizermos que Allan Kardec foi o “Codificador”, queremos mostrar que a ele se deve a ordenação das leis dispersas que deram origem ao Espiritismo. A Constituição, a lei soberana, chama-se “O Livro dos Espíritos”. Como sabemos, a Constituição trata dos temas gerais. Para complementar o que está em “O Livro dos Espíritos”, Kardec escreveu os outros livros. A “Revista Espírita”, desde 1858, documentou as experiências necessárias para fazer uma aproximação com o que, em linguagem científica, chamamos de teste de hipóteses.

Não temos o direito de abordar o aspecto científico da Doutrina Espírita sem tomar conhecimento das observações feitas por Kardec dentro do laboratório que foi a Revista. Para melhor esclarecer, se uma lei da Química nos diz que, em determinadas condições, da mistura de X com Y resulta Z, não podemos contestar essa lei enquanto não obtivermos um resultado diferente de Z, ao refazer o experimento, nas mesmas condições. É uma questão de método, fundamental para a discussão em termos científicos.

É perfeitamente justificável a grande admiração pela “Revista Espírita”, especialmente pelos últimos volumes que Kardec redigiu. O Ano XI da Revista (1868, ano anterior ao desencarne de Kardec) iniciou com o anúncio, em janeiro, do lançamento de “A Gênese”, que muitos espíritas consideram a mais “científica” das obras do Codificador. Não por acaso, foi a última que ele escreveu, e sua primeira edição se esgotou em janeiro mesmo. Em fevereiro, a Revista anunciava a segunda edição de “A Gênese”.

Em dezembro de 1868 Kardec publicou, na Revista, o artigo “O espiritismo é uma religião?”[2] É uma obra-prima cuja leitura tira qualquer dúvida a respeito de pelo menos dois temas, sobre os quais muita polêmica foi levantada: a) o poder que deriva da comunhão de pensamentos; b) o aspecto religioso do espiritismo.

Percebendo aproximar-se o fim de sua tarefa e a urgência de um esclarecimento, naquela edição da Revista,[3] Kardec escreveu: “Para assegurar a unidade no futuro, uma condição é indispensável: é que todas as partes do conjunto da doutrina estejam determinadas com precisão e clareza, sem nada deixar no vago; para isto procedemos de maneira que os nossos escritos não possam dar lugar a nenhuma interpretação contraditória...” E, para completar, tratou também do aspecto material da organização espírita, inclusive defendendo-se de afirmações caluniosas sobre seu patrimônio pessoal.

A difamação é artigo que nunca faltou na construção do conhecimento científico, e a História registra inúmeros casos em que sua utilização se deu, sobretudo na ausência de argumentos. Com Kardec não seria diferente. Lembremos que o Codificador era um pesquisador culto, compromissado com a verdade e, por isso mesmo, contrariava interesses. Um homem atualizado com a ciência, mas consciente de que as doutrinas verdadeiramente revolucionárias não precisam de armas. Impõem-se por si mesmas, no tempo.

Jesus, o grande orientador de Kardec, não fez enfrentamento com as regras sociais dos judeus, nem com o poder romano. Simplesmente lembrou que havia uma regra maior, eterna. O tempo levou Jerusalém e seu Templo; o tempo também se encarregou de transformar em pó o Império de César. A mensagem tão simples do Cristo ficou. De nada adiantaram as tentativas, por parte da Igreja, de modificar a mensagem cristã para acomodá-la a seus interesses. Submetendo a ciência à religião, durante séculos, o que a Igreja conseguiu foi criar as condições para um clima de revolta, de onde nasceram a Reforma Protestante e o novo deus da ciência, o Materialismo.

O horror à religião, herança que perpassou pelo Século das Luzes e pela Revolução Francesa, ainda marcava a época em que Kardec viveu. Houve uma intervenção muito maior que o acaso para fazer com que “O Livro dos Espíritos” e “Da Origem das Espécies” surgissem na mesma época. Idem, para “A Gênese” e “O Capital”. É possível que alguns espíritas acreditem que foi apenas uma coincidência o fato de aparecerem, no mesmo século, Darwin e Wallace, Marx e Kardec. Bendita seja essa coincidência, então, que permitiu contrapor ao material o espiritual.

O século XIX – no qual Kardec cumpriu sua missão entre nós – viu surgir uma plêiade de gênios da ciência, em todos os ramos do conhecimento. A partir daí, delimitava-se o terreno da Ciência com as cercas do materialismo e no terreno da Religião se confinavam os assuntos espirituais. Kardec teve o bom senso, ou seja, aplicou a razão, ao não aceitar o espiritismo com o rótulo mal-afamado de religião.

Até o fim da sua missão Kardec afirmaria, no entanto, os indissociáveis aspectos filosófico, científico e religioso da Doutrina Espírita. Além do discurso publicado na Revista Espírita de dezembro de 1868, ao qual nos referimos acima, o Codificador deixou bem claro, em “A Gênese”,[4] que o elemento material não pode ser isolado do elemento espiritual, se quisermos entender os “fatos sem explicação”.

Fatos sem explicação... Existe expressão mais adequada que essa para justificar a ânsia do Homem pelo conhecimento científico? Explicar os fatos, mediante a observação sistemática, foi exatamente o que levou Kardec a descrever, nos últimos doze anos de sua encarnação, na “Revista Espírita”, os experimentos e o método que levavam a leis novas, de uma nova ciência, não-materialista.

O mesmo bom senso de Kardec, que o levou a não misturar o espiritismo com as religiões da época, também o levou a mostrar que o espiritismo ia muito além do magnetismo, sem negar o pioneirismo deste. E, da mesma forma que evitou a rejeição a uma “religião espírita”, evitou também a rejeição a uma “ciência espírita” cujas bases estivessem assentadas nas teorias de Franz Anton Mesmer, um gênio do século anterior ao de Kardec.

Mesmer foi estigmatizado pela comunidade científica. Para sermos mais corretos, ainda o é. É bem verdade que quem se aventurar a uma pesquisa sobre a obra de Mesmer, vai encontrar seu nome ligado aos pioneiros, ou seja, àqueles que abriram o caminho espinhoso para que outros pudessem ir à frente. Mas também é verdade que vai encontrar todo tipo de leviandade que a maldade humana é capaz de engendrar.

Enquanto encarnados, Mesmer e Kardec tiveram trajetórias bem parecidas: ridicularizados, perseguidos, difamados. Espíritos pioneiros, desprendidos, solidários, perseverantes, comprometidos com as verdades espirituais, contrariando as verdades materiais e os interesses mundanos. Nos dias de hoje, Mesmer e Kardec estão confinados no terreno do não-científico. A diferença é que Kardec está a salvo, exatamente pelo aspecto religioso do espiritismo. Afinal de contas, preconceito de ordem religiosa já não é bem visto. Mesmer ainda não tem o mesmo tratamento: o tempo se encarregará de resgatá-lo. Para a ciência, porque faz parte da História, queiram ou não os seus detratores. E para a religião, porque nas casas espíritas, o conhecimento a respeito dos passes ou tratamentos espirituais passam por suas teorias.

Allan Kardec, um espírito pioneiro, fez justiça a Franz Anton Mesmer, outro espírito pioneiro, na primeira página, do primeiro número, do primeiro volume, da primeira “Revista Espírita”. Lá está escrito, corajosamente: “O que não foi feito e dito contra o magnetismo! Entretanto, todos os raios lançados contra ele, todas as armas com que foi ferido, inclusive o ridículo, esbarraram ante a realidade e apenas serviram para colocá-lo em maior evidência. É que o magnetismo é uma força natural; e ante as forças naturais o homem é um pigmeu, semelhante a esses cachorrinhos que ladram inutilmente contra tudo que lhes mete medo.”

O que não foi feito e dito contra o espiritismo!

Bom seria que os meios de comunicação espíritas, ao divulgarem as novas teorias, que desejam enquadrar o espiritismo no terreno do científico, partissem sempre do início, para não fugir à Doutrina. O que é Deus?[5] Existem espíritos?[6] Kardec, um homem instruído, certamente não faria essas perguntas iniciais, se as respostas a elas não fossem doutrinariamente importantes. E as respostas, mais certamente ainda, não são explicáveis, se olharmos apenas para o aspecto científico. Pelo menos por enquanto. Muita paz!

 



[1] (Revista Espírita, dezembro de 1868 – Constituição Transitória do Espiritismo – Item VI: Obras Fundamentais da Doutrina). Editora Edicel, São Paulo – Obras Completas de Allan Kardec.

[2] Discurso de abertura da Sessão Anual Comemorativa dos Mortos, por ele proferido na Sociedade de Paris, em 01/11/1868.

[3] In “Constituição Transitória do Espiritismo”, item III-Dos Cismas.

[4] Kardec, A. – A Gênese – Capítulo I –  Item 18 – São Paulo, Ed. LAKE, 17a edição, outubro de 1 990, p.17.

[5] Primeira pergunta da primeira parte do primeiro capítulo de “O Livro dos Espíritos”.

[6] Primeiro capítulo da primeira parte de “O Livro dos Médiuns”.

[7] Primeiro capítulo da primeira parte de “O Livro dos Médiuns”.

 

 

 

 

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