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OEnsaio sobre as Palavras 'Dogma' e 'Dogmática'

 

O Espiritismo não tem a pretensão de apreender a Verdade Absoluta Sutil e perigosa dissertação de uma leitora

Dr. Iso Jorge Teixeira

isojorge@globo.com

  

Novo Testamento

Em o Novo testamento a palavra grega 'dogma' foi utilizada algumas vezes

Karl Barth
(1886 - 1968)

Teólogo Suiço

Prezados Srs. leitores e Sras. leitoras, em matéria anterior agradecemos as palavras elogiosas de vários confrades aos nossos artigos, em especial do confrade WLADEMIR LISSO – Diretor da Área Espiritual da Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP), ressaltando o seu trabalho de orador e divulgador da Doutrina dos Espíritos... Não tardou muito e uma das nossas leitoras escreveu-nos o seguinte, no dia 07 de setembro/2005:

“Caríssimo amigo Iso !
Mais uma vez, estou escrevendo para colocar meus pensamentos em ordem.
Lendo seu artigo : ”Glândula Pineal e os pseudocientistas de ficção científica "espírita”.
Gostaria de fazer um comentário sobre o assunto Dogma, onde o confrade Wladimir Lisso diz :

“Embora a doutrina não tenha dogmas o espírita cria vários deles de que se fala no meio espírita por alguém ter afirmado. Sem base na codificação e sem comprovação científica.” (WLADEMIR LISSO)

Tenho ouvido diversos espíritas, expositores e oradores da tribuna, dizer que o Espiritismo não tem dogmas. Fico questionando, onde foi que eles leram isso ? Pois no ESE capitulo XX - Missão dos Espíritas - Erasto - Paris 1863, nos fala do dogma da reencarnação; no LE pergunta 171- Em que se funda o Dogma da reencarnação ?

A codificação diz que tem dogmas e o orador diz que não tem, e aí as pessoas dizem que Kardec é que errou, pois a nossa tendência é dizer que Kardec é que está ultrapassado.

É que muita gente fala do que não sabe, o nosso meio espírita está cheio de pseudo-sábios, e eles inventam coisas, e como não estudam a Doutrina, põe na boca da Doutrina o que lhes vem à cabeça.

Tem Dogma sim. Pois o povo não sabe a diferença entre um dogma filosófico e os dogmas teológicos.

DOGMA = É qualquer ponto fundamental de uma doutrina, seja essa doutrina cientifica, filosófica, religiosa, artística; dogmas são os fundamentos de qualquer campo de conhecimento.

A ciência tem seus dogmas, e nenhum cientista diz que não tem, pois ele não está pensando em dogma teológico.

Quando nós dizemos que o espiritismo tem vários princípios ou fundamentos como:

- A existência de Deus
- A existência da imortalidade da alma
- A pluralidade das existências
- A existência da alma
- A comunicabilidade dos espíritos
- A pluralidade dos mundos habitados

Tudo isto são os dogmas da Doutrina Espírita, e eles existem para que possamos discutir e analisar para que a fé Espírita seja inabalável, ela tem que ser capaz de encarar face a face a razão em qualquer época da humanidade, não podemos ser pessoas de crença, de acreditar em qualquer coisa, NÓS TEMOS QUE SER PESSOAS DE SABER. Se começamos a acreditar em coisas que não entendemos, nos tornamos fundamentalistas, nos fanatizamos.

O dogma teológico = foi criado pelos teólogos da Igreja Católica, onde não se permite discussão, nem perguntas, nem nada, são todos robotizados, e se por acaso alguém quiser discutir os dogmas teológicos estará cometendo pecado mortal e vai para o inferno.

Como exemplo cito Lutero que não aceitando as indulgências da Igreja e outras coisas mais , foi excomungado.

Quando a igreja diz que Deus é trinitário, isso é um dogma teológico, pois foi imposto para os seus seguidores, onde não se pode discutir
O Espírito Santo é uma criação (invenção) do Papa Damaso, que pediu para (São) Jerônimo fazer a tradução, tudo que lemos na Bíblia dizendo Espírito Santo era só Espírito, essa adulteração foi feita para os interesses da Igreja.

Sendo assim o dogma filosófico é bem diferente do dogma teológico.

Allan Kardec diz que não devemos aceitar aquilo que não tenhamos entendido.

Receba minhas vibrações de paz.
MARTA BELUCO – São Paulo – SP

Bem, como já o dissemos, em resposta preliminar à Sra. MARTA BELUCO: os pensamentos dela não revelam, que estejam em “desordem”, até porque a sutileza crítica aos oradores espíritas estaria aparentemente bem fundamentada, especialmente, ao Dr. WLADEMIR LISSO, e, por extensão a vários outros espíritas renomados, que afirmam ser a Doutrina dos Espíritos ANTIDOGMÁTICA. Bem, a Sra. BELUCO diz que “a nossa tendência é dizer que KARDEC está ultrapassado”!! A “nossa tendência”, não, Sra. BELUCO, não nos comprometa com SUAS palavras!

Inicialmente, a confreira pinçou dois trechos, pequeninos, em que a palavra dogma é citada (em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, cap. XX e na PERGUNTA 171 de “O Livro dos Espíritos”) e, com estas citações, acredita ela que a “Codificação” diz que “tem dogmas”. A partir disto, critica aqueles que afirmam que “a Doutrina (Espírita) não tem dogmas”, chegando a categorizá-los de “pseudo-sábios”!!!

Curiosamente, a própria Sra. MARTA BELUCO afirma categoricamente:

“Tem dogma, sim. Pois o povo não sabe a diferença entre um dogma filosófico e os dogmas teológicos”.

Ela tem toda a razão neste particular... Perguntaríamos, então: o orador espírita deve dizer para o povo que a Doutrina Espírita é dogmática? O povo entenderia isto no sentido “filosófico” do termo? Obviamente, não! Entendê-lo-ia no sentido teológico, pois é este o sentido GENERALIZADO do termo, especialmente num País católico e “evangélico” como o nosso; e quem faz a LÍNGUA é o povo e não os filósofos, e muito menos a Sra. MARTA BELUCO, mesmo possuindo um cabedal intelectual interessante, pois, como ela mesma disse: “o povo não sabe a diferença entre um dogma filosófico e os dogmas teológicos”...

Mas, aqui caberia outra questão: se KARDEC pergunta em que se funda o “dogma” da reencarnação e o Espírito ERASTO cita, “em passant”, a palavra dogma e a Doutrina Espírita é toda ela, eminentemente ANTIDOGMÁTICA, estaria aí uma contradição do Espiritismo?

Obviamente, não há contradição na Doutrina dos Espíritos (pois os Espíritos Superiores nunca se contradizem), mas, da maneira como foi colocado o problema pela Sra. MARTA BELUCO, ficaria no inconsciente das pessoas essa aparente contradição e, o que é pior, levaria o leitor a acreditar em que os oradores ANTIDOGMÁTICOS seriam “pseudo-sábios”, que seria uma insensatez!!!

A propósito, vejamos o que nos esclarece a respeito o grande J. HERCULANO PIRES, no livro “Agonia das Religiões” (Ed. Paidéia Ltda., São Paulo, 2 ed., abril/1984, p. 27-28), respondendo àqueles, que vêem contradição no uso do termo “dogma” citado em textos da Doutrina:

“(...) Muitos adeptos estranham a presença dessa palavra nos textos de uma Doutrina que se afirma ANTIDOGMÁTICA, aberta ao livre exame de todos os seus princípios. São pessoas ainda apegadas ao sentido religioso da palavra. Não há nenhuma razão para essa estranheza, como já vimos do ponto de vista cultural.” – o destaque é nosso.

Agora, perguntamos: estará o povo ainda apegado ao sentido “religioso” da palavra “dogma”? Certamente, que sim, como o próprio HERCULANO o admite em parágrafos anteriores do referido livro, chegando a dizer sobre o substantivo dogmatismo: “designa um sistema de opiniões intransigentes” (op. cit., p. 28).

Portanto, caríssima MARTA BELUCO, a Sra. teria razão no seu arrazoado se o objetivo fosse demonstrar que não há contradição na Codificação quanto ao emprego do termo dogma, mas parece que não teria sido este o seu objetivo, pois demonstrou pretender encarcerar o Espiritismo em dogmas filosóficos e científicos na mesma rigidez dos dogmas eclesiásticos e isso não seria verdadeiro, nem em KARDEC, nem na Codificação, nem em HERCULANO PIRES. Consulte, por favor, o verbete DOGMA no índice remissivo da “Revue Spirite” e lhe darei um doce se encontrar a palavra “dogma” sem ser no sentido eclesiástico, que aliás, em todos estes casos é combatido por KARDEC nos 4espectivos artigos da “Revue”...

Observe a PERGUNTA 1010.a de “O Livro dos Espíritos”: “Então, a Igreja, pelo dogma da ressurreição da carne, ensina a doutrina da reencarnação?”. Por que KARDEC não formulou a pergunta desta outra maneira: “Então, a Igreja pelo dogma da ressurreição da carne, ensina o DOGMA da reencarnação?”. A nosso ver, porque a reencarnação não era, e não é hoje, um dogma no sentido generalizado do termo! Disso trataremos no final deste artigo...

As definições de DOGMA E DOGMATIZAR
A definição de “dogma” apresentada pela confreira MARTA BELUCO não é a única acepção do termo, nem é o mais difundido em nossa Sociedade e no mundo... Existe outra acepção, também citada por ela, muito mais divulgada para o povo, relacionada à FÉ, imposta , especialmente, pelo catolicismo, por exemplo, a que diz:

“Dogma s. m. (Do gr. Dogma, decreto). 2. É a opinião dada como certa, inatingível e imposta como verdade indiscutível”. [“Grande Enciclopédia Larousse Cultural”. Nova Cultural Ltda., vol. 8 (CUX-DUR), São Paulo, 1998, p. 1954-1955].

E estas outras do “Novo Dicionário Aurélio”, que dizem:

“Dogma (Do gr. dogma pelo lat. dogma). S.m. 1. Ponto fundamental e indiscutível duma doutrina religiosa,e, por extensão, de qualquer doutrina ou sistema: “segundo o dogma calvinista, o homem perdeu, pelo pecado original, todas as forças do bem.” (Oto Maria Carpeaux. A cinza do purgatório, p. 302). 2. Rel. Na Igreja Católica Apostólica romana, ponto de doutrina já por ela definido como expressão legítima e necessária de sua fé.”.

E no mesmo Dicionário AURÉLIO, no verbo DOGMATIZAR fica mais claro, ainda, o caráter IMPOSITIVO, INTOLERANTE, implícito no termo, que a Codificação não possui e até rejeita:

“Dogmatizar (Do gr. Dogmatizo, pelo lat. dogmatizare). V.t.d. 1. Proclamar como dogma; ensinar com autoritarismo: “Intolerante, dogmatiza sua concepção de mundo. Int. 2. Estabelecer dogma(s). 3. Falar ou escrever em tom dogmático; atribuir às suas afirmações o valor de indiscutíveis: “Meu professor antes dogmatiza do que dialoga.” (grifo nosso).

Agora, finalmente, perguntaríamos à Sra. MARTA BELUCO: uma pessoa do povo, que conhecesse esta última acepção da palavra “dogmatizar”, não iria estranhar que um orador espírita dissesse que o Espiritismo tem dogmas? Os diálogos de KARDEC com a Espiritualidade Superior, contidos, por exemplo, em “O Livro dos Espíritos” seriam uma “dogmatização” para os seus leitores?!...

Dogmas religiosos
O Dogma da Imaculada Concepção, da ocultação de MOISÉS pelos seus pais e do Pecado Original, pela própria definição de “dogma” é um decreto, um mandamento, que não cabe discussão, é uma questão de fé, cega...

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Dogma e Dogmática na Bíblia e nos Teólogos

A palavra grega dogma foi usada em o Novo Testamento (NT) com o sentido de ordenança, decisão, decreto, mandamento, segundo o Ph.D. em Teologia DONALD K. McKIM. Vejamos os textos, assinalados por nós:

Lucas 2,1 – Naqueles dias apareceu um edito de César Augusto, ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado.
Atos 16,4 – Ao passarem pelas cidades, transmitiam-lhes, para que as observassem, as decisões [ou decretos] sancionadas pelos apóstolos e anciãos de Jerusalém.
Atos 17,7 – (...) e Jasão os recebe em sua casa. Ora, todos eles agem contra os decretos de César, afirmando que há um outro rei, Jesus.
Efésios 2,15 – (...) a Lei dos mandamentos expressa em preceitos ¾ , a fim de criar em si mesmo um só Homem novo, estabelecendo a paz, (...).
Colossenses 2,14 – (...) apagou, em detrimento das ordens legais, o título de dívida que existia contra nós; e o suprimiu, pregando-o na cruz.
Hebreus 11,23 – foi pela fé que Moisés, depois do seu nascimento, foi escondido durante três meses pelos seus pais, que viram a sua beleza e não tiveram medo do decreto do rei.

Na Filosofia grega posterior ao NT o uso da palavra dogma abrangia PROPOSIÇÕES DOUTRINÁRIAS QUE EXPRESSAVAM O PONTO DE VISTA OFICIAL DE UM MESTRE OU ESCOLA FILOSÓFICA PARTICULAR. Foi neste sentido que a Teologia cristã primitiva usou-o, especialmente nos dogmas cristãos, no sentido de “proposições de fé”, como foi o caso, por exemplo, de BASÍLIO MAGNO, em meados do século IV... A primeira aprovação dada pela Igreja a declarações “dogmáticas” ocorreu em 325, no Concílio de Nicéia, onde a consubstancialidade do Filho com o Pai foi declarada uma confissão de fé.

Contudo, desde a Reforma, o protestantismo tem rejeitado a associação entre o dogma e os pronunciamentos eclesiásticos infalíveis. Segundo o pensamento da Reforma, todos os dogmas devem ser testados em comparação com a revelação de Deus nas Sagradas Escrituras.

Segundo a “Grande Enciclopédia Larousse Cultural”, na linguagem teológica católica, a palavra “dogma” designa uma verdade de fé contida na Revelação e proposta como tal pela Igreja. O dogma expressa a riqueza da palavra de Deus e apenas sua formulação – não o seu conteúdo – está ligada a um tempo determinado. Entre os protestantes, a teologia tradicional entende por “dogma” um elemento de doutrina elaborado pelos teólogos e os sínodos a partir de um testemunho escritural.

Já o termo dogmática surgiu depois da metade do século XVII, usado pela primeira vez provavelmente no título de um livro de L. REINHART. Assim, KARL BARTH (1886-1968), o teólogo mais influente de língua alemã, com sua Teologia reformada e Dialética, reinterpretou o antigo uso católico-romano no protestantismo moderno ao definir dogma como “a concordância entre a proclamação feita pela Igreja e a revelação atestada nas sagradas escrituras” (cf. Dogmática Eclesiástica,I,1, 304). Segundo dizia KARL BARTH, o dogma torna-se em última análise, “um conceito escatológico” , visto que nenhuma formulação humana chegaria a concordar completamente com a Palavra de DEUS, antes do reino final de DEUS. Para ele, a pesquisa dogmática, no entanto, pode estar livre para trabalhar com dogmas individuais e apreciá-los como tentativas de se expressar a verdade da revelação (cf. “Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã”, Vol. I, Ed. Vida Nova, 1988, São Paulo, p. 491).

Portanto, a palavra DOGMÁTICA está intimamente ligada às verdades da fé e assim é que no verbete dogmática da “Grande Enciclopédia Larousse Cultural”, lemos: s.f. 1. Parte da teologia que estuda os dogmas, constituindo uma exposição sistemática nas verdades da fé. ¾ 2. Coleção ou manual que contém essa exposição: a dogmática de Karl Barth.

Ambigüidade semântica e unidade conceitual da palavra DOGMA

Não será por aquela citação do confrade, Dr. WLADEMIR LISSO, que a Sra. MARTA BELUCO irá nos afastar dele, nem de outros ilustres oradores e escritores espíritas. Citaremos só mais três, além de HERCULANO PIRES...

Leiamos um pequeno trecho de um texto da respeitável confreira DORA INCONTRI, Pós-doutoranda na FEUSP, intitulado “Espiritismo e Educação”:

“O Espiritismo, segundo Allan Kardec, pretende ser ao mesmo tempo uma ciência, que demonstra através do estudo empírico dos fenômenos mediúnicos a existência dos espíritos e sua atuação sobre o mundo; uma filosofia, que propõe uma cosmovisão evolucionista e reencarnacionista; e uma religião, SEM DOGMAS, rituais e sacerdócio organizado, que faz uma releitura do cristianismo e prega uma prática religiosa centrada na moral e na ligação direta do homem com Deus.” [destaque nosso].- Fonte: Revista Mirandum 15, USP/Universidade do Porto/Mandruvá/Comenius, setembro/outubro de 2003.

Aqui, em DORA INCONTRI, a “Religião” espírita é afirmada como “sem dogmas”, corretamente.

Agora, leiamos as conclusões do confrade LUCIANO DOS ANJOS, no inteligente artigo “O Dogma Espírita” (Revista REFORMADOR, fevereiro/1964), que embora roustainguista, possui um sólido conhecimento da Doutrina dos Espíritos:

“1 — O Espiritismo se enquadra no DOGMATISMO FILOSÓFICO MODERADO, por entender que a criatura, em determinadas circunstâncias, pode alcançar a Verdade absoluta. (Leia-se, a propósito, nosso artigo intitulado “Ao Encontro de Deus”, publicado em “Reformador” de Novembro de 1962.)
2 — O Espiritismo REPELE A TEOLOGIA DOGMÁTICA dos católicos por lhe negar os critérios de verdade que adota e o sistema aplicado na proclamação dos seus dogmas.
3 — O Espiritismo possui alguns POUCOS DOGMAS extraídos das Revelações Divinas, aceito porém pela Razão, quando esta não minimiza Deus nos Seus juízos e quando são confirmados experimentalmente pelos Fatos.
4 — O Espiritismo admite o criticismo transcendental kantiano, por conceber que há verdades impossíveis de, no estado atual dos encarnados (e às vezes, também dos desencarnados), serem assimiladas tais quais são, pela Razão limitada e relativa das criaturas”. (destaques nossos).

Finalmente, leiamos um trecho do artigo “A Grande alavanca”, da confreira DORIS MADEIRA GANDRES, publicado no Boletim de novembro/2001, do Grupo Espírita Redenção, diz ela:

“Entender o Espiritismo como mais uma religião mística, DOGMÁTICA e autoritária, onde não há lugar para o estudo, a pesquisa, o questionamento, a discussão lúcida e fraterna de seus princípios, é apequená-lo, limitá-lo no tempo e conformá-lo ao nível evolutivo ainda primário de grande parte da humanidade.”

Assim, Sra. BELUCO, tanto DORA INCONTRI, quanto LUCIANO DOS ANJOS (que escreveu especificamente sobre o assunto), quanto DORIS GANDRES, são claros em separar o Espiritismo do misticismo e da religião dogmática. Mesmo LUCIANO DOS ANJOS, roustainguista roxo, afirma que o Espiritismo enquadra-se no “DOGMATISMO FILOSÓFICO MODERADO”. Em contrapartida, a Sra., ressalta o aspecto filosófico do termo, que é importante, mas não é fundamental e será que o povo entenderia essa acepção?! Há uma ambigüidade semântica no termo DOGMA, mas há uma unidade conceitual entre os oradores e divulgadores do Espiritismo.

Epílogo

Enfim, estamos de acordo com os oradores e escritores espíritas que afirmam que a Codificação NÃO POSSUI DOGMAS, religiosamente falando, não obstante, também concordo com a confreira quando diz que o Espiritismo “possui dogmas”. Seria contradição nossa? Não, são duas acepções e a mais corriqueira é a primeira, aquela difundida pela Igreja Católica Apostólica Romana. Aquela nascida no Novo Testamento com um sentido autoritário e, que até hoje pouco se desvinculou desse autoritarismo.
Para concluirmos, vamos transcrever um texto que KARDEC escreveu sobre a REENCARNAÇÃO e, em nenhum momento usou a expressão “dogma da reencarnação”, quando teve inúmeras oportunidades para isso, vamos ao texto kardequiano, respondendo a uma pergunta da carta de um amigo, na Revue Spirite, de dezembro/1862... Foi perguntado a KARDEC: “Algumas pessoas impugnam a doutrina da reencarnação, como contrária aos dogmas da Igreja e daí concluem que a mesma não existe. Que é o que se pode responder?”. Disse KARDEC:

“A resposta é muito simples. A reencarnação não é um sistema que dependa dos homens adotar ou não, como se faz com um sistema político, econômico ou social. Se existe, é que está na natureza; é uma lei inerente à humanidade, como comer, beber e dormir; uma alternativa da vida da alma, como a vigília e o sono são alternativas da vida do corpo. Se é uma lei da natureza, não é uma opinião que a possa fazer prevalecer, nem uma opinião contrária que se a possa impedir de ser. A Terra não gira em redor do sol porque se o acredite, mas porque obedece a uma lei; e os anátemas que foram lançados contra esta lei não impediram que a terra girasse. Assim com a reencarnação: não será a opinião de alguns homens que os impedirá de renascerem, que tiverem que renascer.

Admitido que a reencarnação é uma lei da natureza, suponhamos que ela não possa acomodar-se com um dogma: trata-se de saber se a razão está com o dogma ou com a lei. Ora, quem é o autor de uma lei da natureza, senão Deus? No caso, direi que não é a lei que contraria o dogma, mas o dogma que contraria a lei, desde que qualquer lei da natureza é anterior ao dogma e os homens renasciam antes que o dogma fosse estabelecido.(...)” – grifos nossos (op. cit., cf. trad. de JÚLIO ABREU FILHO, EDICEL, p. 377-378).

Como o Espiritismo contém verdades reveladas e de fé raciocinadas, não podemos erigir dogmas baseados nelas, com o risco de cairmos no autoritarismo e infalibilidade doutrinários e com o risco de abrirmos mão do livre-exame de todas as suas proposições, eis um dos perigos da dissertação da nossa leitora....

A nosso ver, o Espiritismo possui inúmeros PRINCÍPIOS, que são em sua maioria REVELADOS e confirmados pela razão, cientificamente, seriam os “dogmas da razão”, segundo HERCULANO PIRES, não obstante, a palavra dogma e dogmatismo foram desgastadas pelo seu sentido impositivo e autoritário que lhes emprestou a Igreja Romana e mesmo os reformistas protestantes... Por que este preciosismo da Sra. BELUCO? Para criticar, subliminarmente, sutil e perigosamente o nosso confrade WLADEMIR? Ora, estou com ele e não abro, caríssima Sra. MARTA! Pode me incluir no seu rol de “pseudo-sábios”! He he he.

O Espiritismo não possui dogmas, porque não tem a pretensão de apreender a Verdade Absoluta...


* Médico. Psiquiatra. Prof. Livre - Docente de Psicopatologia e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Coordenador do Curso de Especialização em Psiquiatria (FCM - UERJ).

 

 

 

 

Pensamentos

 

 O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

 

 

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